Meu irmão... Tentação...

Capítulo 2

-ooo-

- Onze anos foram suficientes para esquecer que possui um irmão gêmeo, Saga?

O outro rapaz grego permanecia estático com olhos arregalados, então o homem nu se levantou, exibindo toda a beleza do seu corpo malhado e fazendo seus lisos e sedosos cabelos repicados caírem por suas costas. Aproximou-se mais do irmão com um olhar decepcionado.

- Saga, não se lembra de mim? Sou eu, Kanon!

Saga continuava pasmado no meio do quarto, sem nada dizer.

- Porra! Não é possível que tenha me esquecido assim!

- Kanon... – balbuciou o outro gêmeo, e o visitante incidental caiu numa gostosa gargalhada, abraçando o irmão.

- Até que fim! – exclamou – Voltei, irmão!

-ooo-

Saga continuava meio pasmado, mas correspondeu ao abraço daquele que não via há onze anos.

Depois de passada a primeira impressão, – e o barulho que o visitante fez foi tão intenso que acabou acordando dona Adamantina – agora, Saga tomava uma caneca de café amargo, oferecido pela progenitora enquanto Kanon continuava nu, sentando com as pernas cruzadas.

- Veste uma roupa ou vai se resfriar, menino. – reclamou a mulher – E você, Saga, que Deus o perdoe por essa blasfêmia antes de sua ordenação.

O gêmeo mais velho baixou a cabeça, envergonhado.

- Agora durmam, amanhã conversamos. – a mãe disse e saiu. Kanon se levantou e observou, do corredor, até que a velha entrou no próprio quarto, fechando a porta.

Ele, então, fechou a porta do quarto em que estava e acendeu um cigarro, tirado do bolso de uma camisa abandonada numa cadeira, soltando à fumaça no ar.

- Ela é sempre tão assustadora? – perguntou voltando a se sentar na cama.

- E você sempre deita pelado na cama dos outros? – indagou Saga de mau humor.

- Pelo que me lembre, a cama da esquerda é a minha. – observou o gêmeo mais novo.

- Não sei se reparou, mas agora só há a cama da esquerda e ela é um pouco maior que a sua antiga caminha de bebê.

- Verdade. – Kanon soltou à fumaça do cigarro no ar – Cama de casal num quarto de solteiro... Você deve aprontar muito aqui, não?

- Quê? – Saga corou e mirou o irmão estarrecido – Tá louco? Que tipo de pergunta é essa?

Kanon não respondeu, riu, apagou o cigarro e caiu na cama.

- Vem dormir, Saga, amanhã eu explico a pergunta.

- V...você vai dormir assim? – espantou-se o seminarista.

- Sim, qual o problema?

- O problema é que também vou dormir aí e não me agrada dividir a cama com um cara pelado!

- Verdade? Achei que gostasse... – provocou o hóspede incômodo e, mais uma vez, caiu na risada – Para de frescura, mano, eu não mordo, só se você quiser...

Saga corou novamente, e teve vontade de dizer umas boas ao irmão, mas desistiu e se resignou, deitando na cama o mais distante possível do rapaz.

- O que foi agora, padreco?

- Não me chame assim, não gosto! – reclamou o mais velho – E fique bem longe de mim, certo, seu pervertido?

Kanon ergueu a cabeça e encarou o irmão, sério. Saga se sentiu incomodado com aquele olhar, era intimidador. Kanon, por seu lado, examinava como o olhar do irmão era inocente.

- Escuta, Saga, nos conhecemos há exatas meia hora, o que te leva a pensar que sou um pervertido?

O seminarista engoliu em seco.

- Desculpe, eu só... é que...

Vendo o embaraço do irmão, Kanon não conseguiu permanecer sério por muito tempo, desabou numa gargalhada o que irritou Saga profundamente.

- Pra mim chega! Dormirei no quarto da mamãe! – falou se levantando e pegando o travesseiro. Kanon não parava de rir.

- Espera, Saga! – pediu com esforço, tentando conter o riso – Volta, eu prometo não incomodá-lo mais...

O gêmeo mais velho parou à porta e suspirou; estava tonto ainda e não gostaria dormir no quarto da mãe como um menino chorão. Não entendia como uma pessoa que conhecia há apenas alguns minutos podia tirá-lo do sério daquela forma. Era claro que o irmão deveria saber tudo ao seu respeito, desde quando havia chegado? Deveria ter horas. Isso, com certeza, deixou dona Adamantina a vontade para narrar toda sua vida para ele.

- Então, dorme somente, certo, Kanon? – pediu contrafeito.

- Certo, pode deitar... – pediu o mais jovem – Juro que não mordo e nem ficarei de pau duro perto de você, padre...

- Idiota! – Saga virou o rosto mais vermelho que um pimentão para o lado da janela. Não entendia porque seu coração estava tão acelerado e porque estava tão nervoso. Eles não se conheciam, mas eram irmãos, gêmeos idênticos. Talvez, por esse motivo, sentisse aquela familiaridade e irritação com a presença de Kanon. Sim, era comum acontecer tais coisas entre irmãos; a maioria se amavam e se odiavam ao mesmo tempo, embora, de uma forma ou de outra, fossem completos estranhos.

- Vamos parar de brigar, Saga, estou cansado, dirigi mais de quinhentos quilômetros até chegar nessa terra de merda, e estou com sono, você bêbado! Quer parar de frescura, deitar aqui e dormir?

O futuro padre resignou-se. Deitou-se ao lado do irmão e, bêbado como estava, não demorou a apagar.

No dia seguinte, Saga acordou com o barulho do telefone, puxou o aparelho para a orelha, ainda deitado na cama.

- Állos?

- Saga, sou eu, Camus! Fiquei preocupado ontem, você estava muito bêbado, chegou bem?

- Ah, Camus! Estou bem sim, obrigado, só com uma grande ressaca.

- E sua mãe?

- Ah, ela não encheu muito o saco, ainda...E você e o Milo? Se entenderam?

- Sim, já me entendi com aquele ciumento.

- Que bom.

- Ok, então até mais...

- Até mais, Camus... – desligou o telefone e deixou escapar um suspiro.

- Quem é o cara? – a voz grave interrompeu seus pensamentos. Saga ergueu a cabeça, ainda sob o cobertor, para mirar o homem que estava sentado numa poltrona, com uma garrafa de cerveja na mão que, de vez em quando, levava aos lábios. Ele vestia uma bermuda jeans surrada e uma regata branca; seus cabelos estavam presos por um elástico num rabo de cavalo baixo.

- Não seria muito cedo pra beber? – perguntou sério. Percebia que o irmão era um contraventor, e, quem sabe, não pudesse ajudá-lo?

- Ah, não seja hipócrita! Do jeito que estava bêbado há horas atrás, não deveria fazer essas observações...

- Certo, errei sim, mas saiba que aquele que você conheceu não sou eu. É muito raro que me exceda em qualquer coisa. – disse se sentando na cama.

- Imagino! – ironizou Kanon – Mas se quer saber, são onze da manhã!

- Onze? Como? A missa...

- Relaxa, sua mãe já foi pra missa e, vendo o estado em que estava, resolveu deixá-lo dormir.

Saga mirou o irmão nos olhos.

- Minha mãe? Não seria, nossa mãe?

- Eu nunca tive mãe. – declarou Kanon sério, se erguendo e saindo do quarto.

Saga nada entendeu. O que Kanon quis dizer com aquilo? Todavia, estava de ressaca e não forçaria sua cabeça, que doía muito, tentando desvendar os motivos da rebeldia do irmão. Levantou-se, a contra gosto, e foi para o banheiro fazer sua higiene matinal, voltando ao quarto minutos depois, enxugando os cabelos e tendo os quadris e pernas envoltos numa toalha.

Kanon já havia retornado ao quarto com outra cerveja. Mirou o irmão maliciosamente, de cima abaixo, o que fez Saga corar, mesmo sem entender muito bem o porquê. Geralmente, sentia aquele ardor na face quando Camus o mirava mais demoradamente; sentia aquele calor suave e uma leve excitação, contudo, a sensação dessa vez foi mais forte.

- Tá olhando o quê? – perguntou tentando se livrar dos próprios sentimentos, enquanto procurava por algo para vestir, dentro do armário.

- Estou olhando você, seu corpo. Faz algum esporte? – respondeu Kanon displicente.

- Natação e, quando posso, jogo um pouco de futebol...

- Eu também. – sorriu Kanon – Coincidência, não?

- Somos muito iguais... – volveu Saga incomodado com o olhar do irmão, vestindo a cueca por baixo da toalha mesmo.

- Só fisicamente...

- Como pode saber? Nos conhecemos há algumas horas.

- Sim, e juro que não esperava que fôssemos tão idênticos. – disse o gêmeo mais novo, jogando a garrafa de cerveja vazia pela janela.

- Tá louco? Isso poderia ter atingido alguém! – reclamou Saga.

- Tô nem aí! – Kanon deu de ombro, e Saga bufou.

- Vejo que deve ser um desses riquinhos egocêntricos! – acusou – Afinal por que voltou aqui?

- Por você. – Kanon respondeu e desviou o olhar – Queria saber como você estava, só isso.

Saga se calou por um tempo, depois cruzou os braços e se sentou ao lado do irmão.

- Onze anos e você nunca voltou. O papai morreu mês passado, o esperamos para o enterro, onde você estava?

- Por aí! – Kanon levantou-se incomodado e sairia do quarto se Saga não segurasse seu braço, erguendo-se,também, da cama.

- Por aí não é resposta! Por que não veio para o enterro do Patér? E por que veio agora?

- Não vim porque não quis e fiquei muito feliz com a morte daquele velho desgraçado se quer saber!

Kanon cuspiu com raiva e levou uma bofetada na cara. Saga crispou os punhos no extremo da raiva, e o gêmeo mais novo levou a mão ao rosto, massageando o maxilar.

Ficaram em silêncio por um tempo, ambos com a respiração ofegante. Depois, Kanon baixou a cabeça e puxou um cigarro do bolso com mãos trêmulas o acendendo e soltando a fumaça no ar.

- Desculpe-me por não ser um bom samaritano como você, Saga...

O futuro padre não sabia o que fazer e nem o que dizer. Estava muito irritado com a forma que o irmão se referia aos seus pais. Por que tanto ódio?

- A mamãe me disse que você não sentia raiva por ter sido afastado da família, enquanto eu fiquei aqui. Mas parece que raiva e revolta é tudo que tem. – disse com tristeza – Por que nos odeia tanto, Kanon? Nossos pais só fizeram o que acharam melhor para nós dois...

O gêmeo mais novo ergueu a cabeça e mirou o irmão com ironia.

- Eu não odeio você. – declarou – Não se iguale a eles, por favor.

Saga piscou ainda mais confuso.

- Desculpe pelo tapa... – pediu envergonhado. Seria um padre, aquele tipo de ato era reprovável.

- Não tem problema. – o outro gêmeo se ergueu – Vamos, vista-se logo, temos muito que fazer hoje.

Saga o seguiu com o olhar.

- O que temos que fazer, Kanon? Hoje é domingo, um dia para não se fazer nada!

- Nada disso, é um dia para se divertir. Vamos lá, vamos aproveitar que a bruxa não está em casa! Quero conhecer aqueles morros, deve ser um ótimo sitio!

- Sitio?

- Sim, sitio arqueológico, é pra isso que estou estudando.

- Eu faço filosofia...

- Sei. Sua mãe me contou que será padre. Que desperdício de beleza e juventude! – comentou olhando pela janela, enquanto Saga se vestia; não soube porque, mas não quis olhar o irmão fazendo aquilo. Tentava se lembrar que ele era seu irmão e, além disso, um cara igualzinho a si! Sentir-se atraído por Saga era o cúmulo do narcisismo! Além de tudo, era um padreco e nunca lhe daria uma chance, mesmo se quisesse, mesmo se pudessem. Zeus! Estava desejando seu irmão! Não que fosse cheio de moralidade, ao contrário, aprendera com seu finado tio, outro conceito de moral e não se preocupava com isso, mas Saga era tão... inocente, tão perfeitamente casto...

- Kanon? – a voz grave e tão parecida com a sua o tirou de seus devaneios. Virou-se e sorriu. O mais velho vestia uma camisa vinho de botão e uma calça jeans, os cabelos brilhantes corriam soltos por seus ombros.

- Sim, vamos! – disse saindo do quarto e tendo Saga atrás de si – Você tem carro?

- Não.

- Então vai na garupa de minha Harlley Davidson.

- Você veio de moto? – Surpreendeu-se o futuro padre.

- Claro, só mesmo uma moto pra agüentar essas estradas esburacadas! – falou o mais novo, e Saga olhou para a moto, depois para Kanon que montou na mesma e o chamou.

- Vamos, Saga, ainda temos que achar um local pra comprar cerveja!

O mais velho saiu de seu torpor e subiu na garupa do irmão. Saíram velozmente pela entrada da casa.

Kanon usava capacete e óculos escuros, mas Saga não, por isso, seu cabelo chicoteava-lhe o rosto enquanto ele seguia atrás do irmão. Equilibrando-se ao máximo para não cair a cada buraco, já que não queria se abraçar ao outro. Kanon percebia seu esforço e ria, o que irritava um pouco o seminarista.

- Pode se segurar em mim, mano, já disse que não mordo! – gritou contra o vento que cortava seus rostos.

- Não quero! – reclamou Saga, e eles chegaram, em fim, a subida dos morros que cercavam a cidade. O futuro padre olhou para cima e suspirou desanimado.

- Teremos mesmo que subir tudo isso?

- Teremos sim e acamparemos.

- Você quer dizer, passar a noite aí?

- Qual o problema? Não vai me dizer que tem medo de escuro?

- Claro que não! Mas não me agrada ficar nessa montanha fria à noite, além de tudo, aqui é povoado de lobos, podemos virar jantar deles.

- Ficaremos numa barraca, faremos uma fogueira e pronto. Que porra! Você é muito frouxo!

- Desculpe por ser coerente! – reclamou Saga.

- Vamos subir! – disse e pegou a mochila que estava dentro de uma bolsa na lateral da motocicleta, colocou nas costas e começou a escalada por uma rota lateral a montanha.

Não foi tão difícil assim; em menos de uma hora chegaram ao topo do morro. Kanon armou a barraca e depois ambos se sentaram para olhar a paisagem, o mar que se erguia adiante cercado pelas ruínas do período helênico.

- Você nunca veio aqui, Saga? – Kanon perguntou depois de um tempo enquanto eles olhavam o mar.

- Nunca, e você?

- Seu pai me trouxe algumas vezes. – disse Kanon ainda com os olhos vidrados no mar.

- Meu pai... – Saga riu – Por que se refere a eles dessa forma?

- Sempre me considerei órfão, sozinho, e isso me fez mais forte. – respondeu Kanon.

- Isso pode não ser força e sim autodefesa. – observou o mais velho – É fácil odiar as pessoas...

- Não odeio ninguém. – cortou Kanon – E então? O que fazemos aqui à noite?

- Hoje, tenho que estudar. – retorquiu Saga e mirou o irmão – Você poderia me contar o que fez da vida desde que nos separamos...

- Não há muito que contar. – suspirou o forasteiro – Cresci numa casa abastada, cercado de empregados, com muita mordomia. Estudei nos melhores colégios, freqüentei as melhores festas e os melhores grupos... – virou-se para o irmão e sorriu com melancolia – Tudo foi perfeito...

- Lembro-me pouco da noite em que partiu, quero dizer, lembro-me sempre, mas não consigo me recordar com clareza. – o futuro padre encarou os olhos verdes a sua frente – O que aconteceu naquela noite, Kanon?

- Você e sua mãe foram à igreja e quando voltaram, ela e o velho decidiram me mandar embora, só isso... – ele desviou o olhar e buscou com mãos nervosas o cigarro no bolso. Logo estava tragando.

Saga, que era muito observador, percebia cada gesto.

- Lembro-me que fui mandado para o quarto, mas você ficou na sala com eles.

- Sim! – respondeu irritado e se levantou – Sabe de uma, Saga, vamos parar de remoer o passado, que tal um banho de mar?

- Nem pensar, está frio. – disse o mais velho.

- Você é mesmo um frouxo! – riu Kanon começando a se livrar das roupas.

Saga o olhava, estarrecido. A altura do monte até o mar era grande; se o irmão insistisse naquela loucura...

- Kanon, não dá pra soltar daqui!

- Claro que dá! – retorquiu o mais jovem que nesse momento estava só com a cueca – Vamos, Saga, não tenha medo.

- Não tenho medo, só não quero acabar no hospital!

- Não há pedras nessa parte, fique tranqüilo, conheço isso aqui como ninguém!

- Nem insiste, Kanon, não vou pular.

- Tudo bem, estão até mais! – o gêmeo mais novo disse e se jogou. Saga correu para a ponta do penhasco e cravou os olhos no mar revolto, nem sinal do irmão.

Não soube como conseguiu descer o desfiladeiro tão rápido, só se deu conta da distância percorrida quando já estava na praia procurando o irmão. Todavia, Kanon havia desaparecido nas águas revoltas. O futuro padre já estava se desesperando. Livrou-se das próprias roupas e pulou na água revolta e fria. Nem sinal do irmão.

- Kanon! – gritou desesperado, emergindo e submergindo diversas vezes – Kanon!

- Estou aqui, padreco! – escutou a voz e ergueu a cabeça para encontrar o irmão rindo sentando numa pedra no meio de alguns rochedos – Achou que me afoguei? Ah, que piada, Saga, conheço isso aqui desde criança!

O mais velho nadou até ele, subiu no rochedo em que o mais jovem estava e o encarou com um olhar profundamente irritado, na verdade, furioso.

- Você é um idiota mesmo! – bradou se aproximando do outro grego – Pensei que tivesse batido a cabeça numa pedra! Pensei que estivesse morto, seu imbecil!

- E por que se importa tanto com um irmão que acaba de conhecer? – riu Kanon.

- Porque ainda assim, você é meu irmão! – gritou furioso, o peito subindo e descendo com a respiração ofegante.

Kanon olhou todo o corpo molhado do irmão, tão bem esculpido, um verdadeiro deus grego. Saga estava tão irritado que não se deu conta do olhar do irmão, imediatamente. Quando isso aconteceu, ficou sem jeito, finalmente se lembrando que estava só de cueca.

- Vamos sair daqui! Quero voltar pra casa! – pediu o mais velho, dando as costas ao mais novo para esconder o próprio rubor das faces.

- Está cedo para voltarmos, sente aqui e vamos conversar.

- Não, Kanon, pra mim já chega! – irritou-se – Procure outro idiota para brincar!

- Saga, o que é isso, Saga! – o futuro arqueólogo se levantou e puxou o irmão pelo braço – Puxa, desculpe, não sabia que ficaria tão nervoso.

- Você não leva nada a sério, não é, garoto? – tornou o mais velho – Deveria saber que com o tempo, as rochas mudam de forma, então não confie tanto na sua memória da próxima vez.

- Por que está dizendo isso? – perguntou Kanon ficando sério também – O que minha memória tem a ver com isso?

- Você não deveria confiar tanto que conhece o lugar que mergulhou, só isso! Além de tudo é burro!

- Ah, desculpe, senhor intelectual, conhecedor de rochas submarinas! – caçoou.

Saga o encarou irritado, mas achou melhor não brigar com o irmão. Mal acabaram de se conhecer e já sentia vontade de matá-lo. Suspirou. Também não podia negar que o sentia mais próximo de si que qualquer outra pessoa que conhecia.

- Vamos embora, Kanon...

- Tá bom, maninho!

Kanon aceitou seguir o irmão, mesmo porque ainda teria que subir e pegar suas coisas. Sim, não foi uma boa ideia soltar daquela altura.

-OOO-

Os gêmeos chegaram à noite a casa. Cansados, logo decidiram dormir. Kanon já dormia profundamente, esparramado na cama. Os raios pálidos do luar banhavam seu corpo bronzeado, perfeito. Saga, porém, permanecia acordado. Observava-o. Algo o inquietava. Em toda sua vida, sempre quis desvendar o mistério do sumiço do irmão. Sempre lhe incomodara alguma coisa naquela história, e a presença de Kanon depois de mais de dez anos reacendeu sua curiosidade.

O irmão se virou na cama e resmungou alguma coisa, o que fez o mais velho sair de onde estava sentado e se postar ao seu lado na cama.

- Kanon... – chamou baixinho, segurando o ombro do irmão.

- Não, eu não quero, você não pode! Me deixa em paz! – gritou o gêmeo mais novo em meio ao pesadelo, logo abrindo os olhos, sobressaltado.

- Saga! – mirou o mais velho, a respiração ofegante, o rosto desesperado.

- Kanon, o que... – não terminou a frase, porque o irmão se jogou em seus braços, o abraçando forte. Saga por um momento não soube o que fazer, até que se decidiu a afagar os cabelos dele e consolá-lo.

- Kanon, foi só um pesadelo, está tudo bem... – disse carinhosamente, ouvido o coração disparado do mais jovem.

- Sim, eu sei... – murmurou o outro – Sempre tenho pesadelos... – completou sem soltar o irmão, fazendo isso apenas para mirar os olhos de Saga, depois – Vem, Saga, deita aqui comigo, não me deixe sozinho...

- T...Tudo bem... – gaguejou o gêmeo mais velho e se deitou ao lado do irmão.

Enquanto Kanon vestia apenas um short, Saga trajava um pijama muito comportado, mas mesmo que, ao contrário do comum, o irmão não estivesse nu, ainda assim era embaraçoso dormir com ele apoiado em seu peito, embora, não pudesse negar que fosse prazeroso sentir aquela pele quente e sedosa contra a sua.

"Saga o que está pensando?" exclamou em pensamentos, se erguendo abruptamente da cama.

- Saga, aonde você vai? – perguntou Kanon sem entender.

- Rezar! – respondeu o mais velho se pondo de joelho, unindo as mãos e fechando os olhos.

"... E não me deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal, amém..."

Continua...

Notas finais: O Kanon abusa do coração do Saga, aff? Por que não usa uma roupinha maior, hein? KKK

Obrigada de coração a todos que leram e em especial aos que deixaram review!

Keronekoi, liliuapolonio,Gemini Yaoi, milaangelica, Maya Amamiya,Lune Kuruta, Amarthwen, Amaiya f, Silvana.

Beijos queridas, muito obrigada mesmo!