Amado meu

Capítulo 6

"Ah! quem me dera que foras como meu irmão, que mamou aos seios de minha mãe! Quando te encontrasse lá fora, beijar-te-ia, e não me desprezariam!"

Cantares de Salomão cap. 8 vers.1

O menino andava rápido entre os arbustos, seguindo o irmão e tentando não perdê-lo de vista, já que ele era muito mais ágil. O mais velho sabia que viver "na barra da saia da mãe" como o mano não cansava de dizer, o deixava sem a vitalidade característica a um menino de nove anos.

- Kanon, espera! Eu não quero andar mais! A mamãe vai brigar com a gente!

- Ah, deixe de ser bebê chorão, Saga, estamos quase chegando! – disse Kanon – É logo ali! Tem uma cachoeira e um riacho cheio de sapos!

O gêmeo mais velho sorriu, se animando mais a seguir o mais novo. Kanon levava uma mochila onde tinha um enorme pote de plástico onde colocaria os famosos sapos.

Um movimento na mata, e Saga parou o passo. Kanon, percebendo que o irmão parou. Virou-se em sua direção. Um homem alto, vestido de guarda florestal, se postou próximo a Saga.

- O que vocês estão fazendo aqui? – perguntou ele, olhando os dois garotos de cima abaixo.

Saga ergueu os olhos para o rapaz que deveria ter uns vinte e poucos anos, e sorriu.

- Eu conheço você lá da igreja. – disse o menino com inocência. Kanon se aproximou do irmão o puxando pelo braço.

- Vamos embora, Saga!

- Mas...

- Esperem garotos! – a mão do homem se fechou no braço franzino do gêmeo mais velho – Espere um pouquinho, o tio quer lhe mostrar uma coisa!

Kanon correu até ele e chutou a canela do homem que urrou de dor e libertou o braço do outro garoto.

- Corre, Saga! – gritou Kanon. Saga ficou aturdido, viu quando o irmão tentou correr, mas foi agarrado pelo calcanhar, desabando no chão.

- Kanon! – o mais velho começou a chorar sem saber muito bem o que fazer e segurando as mãos do irmão, tentando puxá-lo pra si. Mas o homem era bem mais forte que eles.

Os olhos de Kanon encontraram os do irmão e imploraram.

- Sai daqui, Saga! Chama o papai!

O gêmeo mais velhos saiu correndo, desesperado, tropeçando e se ferindo nos arbustos pelo caminho, seu estômago estava embrulhado e doía, seus pulmões ardiam não mais suportando a corrida desenfreada até que tudo escureceu...

- Kaaaaaaanon! – Saga gritou, acordando do pesadelo. Seu corpo estava empastado de suor, os longos cabelos negros grudavam-se em sua testa e pescoço.

O mais jovem se sentou na cama também com o grito do irmão. Mirou-o ainda sonolento.

- O que foi, Saga? Pesadelos também?

Demorou um pouco até o futuro padre responder.

- Não sei se foi um pesadelo ou se foram lembranças. – disse aflito.

Kanon, percebendo que o irmão tremia, preocupou-se e segurou-lhe o ombro; embora, mais que o normal, quisesse ficar longe dele naquela noite.

- O que sonhou? – perguntou preocupado.

- Nós dois num bosque quando crianças e...

A palidez que se apresentou no rosto bronzeado do irmão deu a certeza a Saga de que não foi só um sonho.

- O que aconteceu, Kanon? As imagens são confusas e... eu nunca consigo me lembrar direito desse sonho, embora ele já me acompanhe há algum tempo, e nunca foi tão nítido quanto hoje...

- Eu não sei do que você está falando. – desconversou Kanon, visivelmente nervoso – Vamos dormir, Saga, por favor...

O mais velho também se achava perturbado demais para tentar conversar; voltou a se deitar ao lado do irmão, mas nenhum dos dois dormiu direito.

Saga acordou horas depois com sua mãe, dando-lhe suaves tapas no rosto.

- Saga, telefone pra você, parece importante, é o Milo. – disse Adamantina entregando o a aparelho ao filho que se sentou na cama.

- Alô...

- Saga, você viu o Camus?

O geminiano piscou e bocejou ainda sem compreender o que Milo queria dizer.

- Que horas são Milo? – indagou num bocejo.

- Eu lá sei que horas são, Saga! Eu quero saber se você se encontrou com o Camus ontem à noite?

O escorpiano estava visivelmente nervoso.

- Não, eu não vi o Camus, mas me diz o que aconteceu?

- Eu não sei; nós brigamos e ele sumiu!

Saga riu disfarçadamente.

- Milo, não seja dramático, o Camus daqui a pouco aparece.

- Não, Saga, a briga foi séria, e tudo porque ele encontrou com seu irmão naquele bar...

Saga olhou para Kanon que continuava deitado na cama.

- Onde?

- No bar, você não sabia? Naquele bar de pegação fora da cidade, eu fui com ele, mas tive que sair, e ele resolveu ficar com o Kanon, sei que foi estúpido, mas você sabe que sou ciumento...

- Sei. Acalme-se, Milo, vou tentar falar com ele. – disse Saga, mirando mais uma vez o irmão.

- Certo, Saga, desculpe o desabafo. – pediu Milo sem jeito.

- Tudo bem, Milo.

O gêmeo mais velho desligou o telefone e mirou o mais novo que aparentava ainda dormir. Resolveu não perguntar nada, não era da sua conta, mas... O que teria acontecido de tão sério entre Kanon e Camus para fazer o escorpiano brigar com o namorado?

O futuro padre foi tomar banho, logo depois se vestindo com uma calça jeans e uma camiseta branca.

- Kanon, acorda, já é tarde! – balançou o irmão, vendo-o resmungar alguma coisa que não entendeu – Kanon?

- Deixe-me em paz! Não! Não!

- Kanon! – Saga balançou o irmão. Era a vez de livrá-lo de um pesadelo. Kanon abriu os olhos assustados.

- Saga... – balbuciou, seus olhos marejaram, e o mais velho achou já ter visto aquela imagem antes – Você está salvo, Saga...

O futuro padre segurou o rosto do irmão entre as mãos.

- Kanon, acorde, isso já passou. Olhe pra mim... – pediu. Lentamente o gêmeo mais novo foi tomando consciência da realidade. Piscou os longos cílios, meio aturdido, e se afastou um pouco enxugando os olhos.

- Você não quer mesmo me dizer o que aconteceu? – insistiu Saga – Por favor, Kanon, eu quero ajudá-lo...

- Está tudo bem, Saga. – disse o mais jovem devagar – Vou tomar um banho e desceremos para tomar café com a velha, certo?

Saga soltou um longo suspiro.

- Tudo bem. – conformou-se, deixando que o irmão fizesse o que informara. Sentia-se perturbado, mas Kanon era como um sepulcro. Começava a se conformar que dos lábios dele nunca saberia o que realmente aconteceu em seu passado.

Kanon depois do banho se vestiu com uma camisa pólo, que ficava bem justa em seu peito largo, e calças jeans, prendendo os cabelos num rabo-de-cavalo baixo. Com olhos nervosos, procurou a carteira de cigarro, mas antes que pudesse acender o primeiro, Saga tirou-o de suas mãos.

- Por Deus, Kanon! Você ainda não comeu nada, desse jeito terá um câncer de pulmão antes dos trintas!

Kanon riu.

- Dramático como sua mãe! – falou, mas deixou que Saga guardasse a carteira de cigarro.

Desceram as escadas conversando sobre alguma bobagem, chegando à cozinha, onde dona Adamantina colocava a mesa do café.

- Bom dia, mãe! – Saga a cumprimentou com um beijo, e Kanon deu apenas um frio bom dia, se sentando.

- Saga, padre Nestor me contou que esteve na paróquia recentemente. – indagou a mulher servindo o café ao filho – Nos últimos tempos isso é uma novidade. Por que foi lá?

- Nada demais, foi apenas visitar o padre e o bispo que está por aqui. – respondeu sem conseguir disfarçar o mal estar ao falar do bispo.

Dona Adamantina, nada boba, notou, encarou o mais velho, depois lançou um olhar para o mais novo que bebia seu café, parecendo bem alheio a toda conversa.

- Gostaria que fosse comigo a Atenas hoje, Saga...

- O que fará em Atenas, mãe? – indagou o futuro padre.

- Visitarei sua tia Cléo, ela anda adoentada. – disse a mulher.

- Hoje eu não posso. – negou Saga – Preciso encontrar o Camus mais tarde...

- O Camus? Algum problema?

Os olhos de Saga encararam os do irmão.

- Há algum problema, Kanon?

Kanon deu de ombro sem entender.

- Como saberei? O amigo é seu! – desconversou.

- Mas vocês se encontraram há pouco tempo, não foi? Mais especificamente na noite que saiu e voltou bêbado, por que não me contou? – cobrou Saga irritado.

- Porque não é da sua conta! – Kanon respondeu, colocando a caneca sobre a mesa e saindo da cozinha. Saga, contudo, não se deu por vencido o seguiu.

- O que estava fazendo naquele bar? – perguntou, alcançando o irmão na frente da casa.

- Transando! – berrou Kanon se desvencilhando dos braços de Saga – Pelo que me consta, você não tem nada a ver com isso!

- Como não tenho nada? – esbravejou Saga colérico – Você... você não pode fazer isso?

Kanon parou e cruzou os braços, encarando o irmão numa mistura de dor e ironia.

- Posso saber por quê? Somos só irmãos, você esqueceu? – indagou.

- Sim, somos só irmãos... – balbuciou Saga, baixando o olhar.

- Então não enche meu saco! – rosnou o mais novo, colocando os óculos escuros, montando na moto e saindo em disparada.

Saga ficou parado, observando-o partir, seu coração estava cheio de angústia e incertezas; mas não podia negar a única certeza que possuía: queria Kanon perto de si; queria seu cheiro, seus beijos, seu toque, seu corpo...

Corou com os pensamentos nada puros para um futuro sacerdote, mas como negaria o desejo que pulsava em suas veias e a paixão que inflamava seu coração?

- Saga...

Ouviu a voz de sua mãe, e se voltou para ela, tentando disfarçar a comoção que sentia.

- Sim, mãe.

- Vou a Atenas sozinha. Você aproveita e vai à igreja se confessar. – Adamantina declarou, e o filho voltou os olhos para ela, confuso.

- Confessar o quê, mãe?

- Você deve saber melhor que eu. – disse a progenitora – O Kanon nunca foi boa influência pra você.

- Ele também é seu filho, sabia?

- Claro que sei, e sempre foi teimoso e intempestivo. – Adamantina suspirou – Saga, não ficarei aqui discutindo, é melhor que faça o que mandei.

- Sim, eu vou à igreja, pode deixar. – falou friamente.

Adamantina desistiu de qualquer outra argumentação, entrou em casa. Saga ainda ficou um tempo mirando a estrada, como se seu olhar pudesse trazer Kanon de volta.

-OOO-

Kanon virava uma garrafa de conhaque na boca, enquanto observava o mar, naquela praia isolada. Consultou o relógio, e viu a Halley Davidson serpentear a estrada e estacionar ao lado da sua.

- Atrasado! – disse, mas sorriu.

Afrodite tirou o capacete e ajeitou os cabelos.

- Não estou a sua disposição, bonitão... – respondeu charmoso – Tenho outras coisas pra fazer pelas ruas de Corinto...

- Hum... Coisas mais interessantes do que virar esse traseiro lindo em minha direção? – provocou, puxando o menor pra si como o pior dos cafajestes. Mas era disso que o sueco gostava. Afrodite roçou as nádegas contra o volume preso na calça jeans que o grego vestia, e suspirou.

- Você é o pior tipo de homem, Kanon Vaskália, belo, sensual, cafajeste e perigoso... – murmurou, envolvendo o pescoço do moreno, que mordiscou o seu – Quem você está tentando esquecer?

- Você me fez essa mesma pergunta da primeira vez, e eu disse que não era ninguém. – respondeu Kanon irritado – Lembre-se que não somos amiguinhos, o que temos é sexo, um bom sexo...

Afrodite se virou pra ele, umedecendo os lábios rosados; deslizou as unhas pelo peito forte do moreno grego.

- Eu sei, desculpe por parecer humano demais. Tenha certeza, eu não sou.

Kanon sorriu com malícia.

- E foi disso que gostei em você. Você é tão mau quanto eu, Dite, sem nenhum sentimentalismo barato; isso é o que o torna tão atraente pra mim...

O sueco sorriu e bem devagar e sensualmente tomou os lábios do moreno. Kanon o puxou pela cintura, mergulhando a língua em sua boca de forma intensa, sugando e lambendo cada canta, fazendo o loiro arfar e se esfregar mais nele.

- Kanon... – Afrodite disse ofegante – Desse jeito seremos presos... Eu tenho um lugar bem melhor que aquele depósito sujo da última vez...

- Onde?

- Vem...

Afrodite pegou Kanon pela mão; eles montaram cada qual em sua moto e seguiram por uma estrada serpenteada até uma casa de dois andares em estilo rústico muito agradável.

- É sua? – perguntou Kanon mirando a bela construção.

- Não, de um amigo, entra...

Kanon acompanhou o sueco para dentro da casa, e logo eles entravam num amplo quarto trocando sôfregos beijos e carícias.

-OOO-

Saga chegou à igreja. Fez o sinal da cruz antes de entrar com passos pesados, como alguém que vai para a própria via crucis.

Antes de prosseguir ao confessionário, ajoelhou-se diante do altar e mirou a estátua de Cristo...

"Pai nosso que estás no céu..."

"Santificado seja vosso nome...

-OOO-

- Ah... Afrodite, assim... Ahhhhhhh... – Kanon puxava os cabelos cacheados do sueco, enquanto estocava com força, ouvindo a batida seca dos seus corpos, e os gritos de êxtase do rapaz mais jovem.

Afrodite rebolava enlouquecido, cuspindo obscenidades e repetindo seu nome.

Kanon fechou os olhos, deliciado com o prazer do coito, mas com a alma amargurada por não ter quem queria de fato.

- Saga... – deixou escapar um sussurro quase inaudível enquanto estocava o loiro cada vez mais forte.

-OOO-

Os olhos lacrimosos do gêmeo mais velho se voltaram para o Cristo crucificado na parede. O olhar mortiço, o sangue que escorria do seu corpo.

Dor, dúvida, medo...

"Venha a nós o teu reino..."

"Seja feita a tua vontade..."

"Assim na terra como nos céus..."

- Deus... eu o amo... – murmurou pra si, enquanto lágrimas desciam por seu rosto – Deus, não tire de mim a única coisa que me faz feliz...

Saga baixou a cabeça e suas lágrimas se derramaram sobre o altar de pedra.

-OOO-

- Saga... Ah... – Kanon gozou chamando o nome do amado, do único ser que lhe importava na vida, inundando o interior do sueco com seu sêmen. Caíram ambos ofegantes na cama. Ainda vibrantes pelo gozo e meio inconscientes.

O grego continuava de olhos fechados com o rosto de Saga em seus pensamentos. Rolou para o lado, saindo de Afrodite e tentando puxar o sueco para mais perto; mas se surpreendeu ao levar um safanão.

- Que merda, Kanon! – reclamou o loiro. O moreno abriu os olhos sem entender.

Afrodite se sentou, estava completamente nu, e sua imagem era mesmo bela e erótica, o corpo alvo coberto pelos cachos loiros despenteados. Ele parecia uma estátua grega – pensou o moreno sorrindo pra ele – Embora não fosse o rosto de quem queria ver.

- O que foi que eu fiz? – perguntou Kanon se recostando na cabeceira da cama.

- Você me chamou de Saga, acha que sou surdo? – irritou-se o sueco puxando um cigarro de dentro da jaqueta na beira da cama, o acendendo e tragando – Tá aí uma coisa que não tolero. Isso é falta de respeito!

- Desculpe, não foi por que quis... – Kanon se empertigou, seus cabelos negros caíram por seus ombros, e seu rosto fez-se triste como o loiro nunca tinha visto. Aliás, na verdade, aquele era o segundo encontro deles.

Afrodite tragou mais uma vez e soltou à fumaça.

- Ei, também não precisa ficar assim. – disse – Aliás, desde aquela primeira vez, eu já desconfiava que você sofresses por alguém. Quem é ele?

A comoção dentro do moreno acelerou sua a respiração e levou lágrimas aos seus olhos verdes. Estava tentando ser forte, mas era tudo mentira; estava totalmente quebrado por dentro.

- Quem é ele, Kanon? – insistiu Afrodite, recebendo o olhar amargo do rapaz...

-OOO-

- Padre, estou aqui porque pequei. Pequei contra a lei de Deus e a lei dos homens...

Ajoelhado de frente ao confessionário, Saga não podia enxergar o rosto condoído do padre Nestor atrás da grade de madeira e da cortina de renda branca.

- Confesse-se e rogue a Deus para ser perdoado, meu filho... – disse a voz gentil do sacerdote.

- Tive pensamentos impuros, questionei minha fé, toquei e fui tocado de maneira impura por quem não deveria... – confessou quase num soluço.

- Por que diz isso? O que deseja confessar? – insistiu o padre.

- Eu... eu estou apaixonado por quem não deveria... – as lágrimas mais uma vez se fizeram presentes no rosto do jovem grego, e ele cerrou os olhos, tentando evitar a dor que se abatia sobre sua alma.

- Por quem, meu filho?

-OOO-

- Meu irmão... – murmurou Kanon, deixando as lágrimas quentes descerem por seu rosto, liberando a angústia que ele tentava conter com o sexo selvagem que tivera com Afrodite.

O sueco apagou o cigarro no batente da janela próxima a cama e escorregou até alcançar as costas do moreno, o abraçando.

- Ufa! Eu sabia que você deveria ter algum defeito! – tentou fazer graça o mais jovem, mas não conseguiu. Kanon apenas suspirou, tentando conter a dor que o devorava.

- Você acha que sou doente?

Afrodite balançou a cabeça, negando.

- Não. Acho que está numa enrascada, só isso.

- Você não sabe da missa metade! – Kanon riu com amargura suspirando com o próprio trocadilho infame que fizera.

- Ele o ama? – perguntou o sueco.

Kanon inspirou e expirou devagar.

- Eu não sei, eu só sei que...

-OOO-

- Isso é uma heresia, meu filho, vocês são homens, vocês são irmãos! Lute contra esse ardil do demônio que quer tragar sua alma antes da sua ordenação... – rogou o padre visivelmente nervoso.

Saga tentava conter os soluços.

- Estou tentando, mas... do fundo da minha alma, padre, me entregar é toda minha vontade... – confessou. Era para isso que estava ali, para se confessar. Confessar toda sua dor e todo seu medo.

- Por Deus, Saga, não deixe que o diabo o capture, meu filho!

- Sou fraco, padre, sou fraco... – balbuciou cansado, exaurido de angústia.

O padre Nestor se empertigou nervoso, sentindo-se terrivelmente incomodado com aquela confissão. Não queria saber daquilo, por que Saga tiver a ideia de se confessar?

- Saga, a única chance de salvar sua alma, é partindo o mais rápido possível para o Vaticano. Compre a passagem amanhã e vá, meu filho, fuja da armadilha do demônio...

- Eu não posso...

- Não pode? Por que não pode? – o padre já suava de aflição atrás da cortina do confessionário.

- Por que...

-OOO-

- Eu o amo. – respondeu Kanon – O amo mais que tudo...

Afrodite o envolveu nos braços com carinho, repousando o rosto de Kanon junto ao seu. O grego se sentiu confortado com aquela carícia. Escondeu o rosto nos cabelos dele e chorou como uma criança. Sentindo-se perdido, ferido e sozinho, como naquele bosque há onze longos anos. Sentindo-se vil e abandonado da mesma forma de quando foi expulso da vida dos pais como algo podre e sem valor.

-OOO-

- Penitência! – gritou o padre – Cem aves marias e cem pais nossos até se ver livre dessa tentação diabólica!

Nestor suava, tremia de aflição. Saga ergueu-se, fazendo o sinal da cruz.

Começou a sua via crucis de volta a casa. Olhou para o céu que começava a apresentar nuvens escuras. Sentia o vazio crescer dentro de si como uma chaga. Nem ao menos entendia porque foi se confessar. Tudo que o padre lhe dissera, ele já sabia. Era impossível continuar vivendo daquela forma, era impensável viver longe de Kanon.

Andou devagar com as mãos nos bolsos, totalmente entregue aos seus pensamentos e a sua dor, chegando ao portão de casa, no mesmo momento que escutava o ruído da moto do mais novo. Suspirou dolorosamente, parando de frente ao portão, o esperando se aproximar.

Kanon desceu da moto e mirou o rosto marcado pelas lágrimas, do irmão. Saga desviou os olhos inchados dele, contudo, o mais novo se aproximou e lhe ergueu o queixo. O futuro padre mais uma vez tentou fugir, entretanto, os dedos de Kanon se fecharam com mais rudeza em seu queixo.

- O que aconteceu? – perguntou o futuro arqueólogo, firme.

O mais velho inspirou e pode sentir aquele perfume diferente novamente no irmão.

- Não foi nada. – respondeu, sentindo um mal estar estranho, que nem mesmo ele soube o porquê – Eu... eu vou entrar... – tentou se desvencilhar dos braços do outro.

- Não. Você não vai! – Kanon o pegou pelo braço e o arrastou para dentro do pequeno celeiro onde Adamantina guardava várias coisas, desde ferramentas a eletrodomésticos velhos.

- Kanon, o que você...? – a pergunta morreu nos lábios quando o irmão segurou-lhe o rosto, mirando-o dentro dos olhos.

- Saga, Eu amo você. Não me importa o quanto esse amor seja impossível, você não pode me negar de vivê-lo pelo menos uma vez...

O mais velho engoliu em seco, mudo e aturdido.

- Por favor, diga que sente o mesmo... – pediu Kanon angustiado – Por favor, diga que não me enganei!

Saga continuava trêmulo e calado, então o mais jovem o segurou pela camisa, escondendo o rosto em seu peito.

- Por Deus, Saga, me rejeite, me bata; chame-me de anormal! Mas fale alguma coisa! – implorou no limiar da angústia.

Saga correu as mãos pelo queixo de Kanon, puxando seu rosto pra cima. Seus olhos verdes se encontraram. Angústia; paixão; dor...

"Beije-me com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho."

- Eu te amo, Kanon. – disse somente, simples assim. Puxou o rosto do irmão contra o seu e colou sua boca na dele, de forma suave. Kanon relaxou, entreabrindo os lábios e recebendo a língua do mais velho contra a sua, numa carícia leve, mas que levava labaredas de fogo à pele de ambos.

O gêmeo mais novo puxou o corpo forte de Saga contra o seu com sofreguidão, mas também carinho. A lentidão do beijo cedendo ao desejo que começava a brotar, rosnando como um leão faminto, dentro de ambos. Saga gemeu quando as mãos do irmão se insinuaram por sua camisa, tocando-lhe a pele rósea dos mamilos, fazendo-o se arrepiar.

"Suave é o aroma dos teus ungüentos; como o ungüento derramado é o teu nome..."

Kanon se apoiou na mesa velha de madeira, trazendo Saga para o meio de suas pernas, levemente abertas, e correndo a mão por cada músculo do seu corpo. O futuro padre mergulhou os dedos nos cabelos escuros do irmão, enquanto Kanon começava, lentamente, a abrir-lhe os botões da camisa, exibindo a pele clara, para o toque dos seus lábios.

- Kanon... – gemeu arfando – Eu... eu não sei...

- Eu sei, amor, você é virgem, não é? – murmurou o mais jovem, enroscando a língua num dos mamilos e vendo-os se intumescer, e Saga gemer mais alto.

- Sim, mas... não é isso...

- Saga, você ainda tem dúvidas do que quer? – murmurou Kanon enquanto trilhava o abdômen do irmão com sua língua ousada.

- Não, não tenho... – confessou o mais velho, e gemeu mais alto quando o irmão afagou seu membro, que já estava desperto, por cima da calça.

Kanon terminou de livrá-lo da camisa, fazendo o mesmo com a sua, jogando a peça no chão. Mirou Saga nos olhos, um olhar cheio de luxúria, mas também adoração.

"Como um ramalhete de hena nas vinhas de Engedi é para mim o meu amado."

- Eu o quero tanto, Saga... e isso é desesperador... – murmurou Kanon.

- Eu também o quero, Kanon... – volveu Saga e tomou-lhe os lábios de forma mais afoita, querendo se fundir aquele ser que tanto adorava.

"Qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os filhos; desejo muito a sua sombra, e debaixo dela me assento; e o seu fruto é doce ao meu paladar."

Kanon o empurrou levemente, fazendo o mais velho andar de costas para logo depois se deitar no chão, sobre as próprias roupas. Afastou-se apenas para despir Saga da calça e depois desabotoar a sua lentamente, sendo seguido pelo olhar febril do outro, embaçado de desejo.

"Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor."

"A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abrace."

O gêmeo mais novo se afastou apenas para se livrar da peça, ficando apenas com a boxer preta em contraste com a branca que o irmão vestia. Voltou a se ajoelhar entre as pernas de Saga, inclinando-se para beijar-lhe o pescoço, passeando a língua de forma calma por aquela área em que o mais velho era tão sensível que chegou a gemer mais alto.

Kanon sorriu com malícia, olhando-o dentro dos olhos.

"O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios."

- Você é igualzinho a mim... – sussurrou começando a mordiscar a orelha do futuro padre e provocá-la com a língua – Sei exatamente onde tocá-lo para enlouquecê-lo.

- Sim, você sabe... – murmurou Saga queimando de desejo; puxando o amado mais pra si.

- Sim, eu sei, eu quero... Saga... – murmurou lambendo o pescoço do irmão, enquanto as mãos afagavam sua cintura com carinho.

"Apartando-me eu um pouco deles, logo achei aquele a quem ama a minha alma; agarrei-me a ele, e não o larguei, até que o introduzi em casa de minha mãe, na câmara daquela que me gerou."

Saga gemeu mais alto; ondas de suor percorriam os corpos dos dois, levando-os a outro mundo. Era como se não houvesse mais tempo e espaço, tudo se desfazia enquanto suas peles se esfregavam e clamavam pela outra.

Kanon abraçou o homem sob si, baixando seu corpo, prensando-o contra o chão, enquanto devorava seus lábios, chupando e mordendo, lambendo, para logo descer a língua por seu pescoço, fazendo uma trilha de saliva quente, avermelhando a pele de Saga que se sentia febril e só gemia agarrado aos cabelos do irmão. Kanon descia os lábios macios e os dentes afiados pelo peito e tórax do mais velho, o lambendo inteiro, mordendo os mamilos ate fazer o irmão grunhir de dor e prazer. Sorriu, ao sentir os dedos longos de Saga em seus cabelos o obrigando a levantar a cabeça, ao passo que lhe puxava os fios até o levar para cima, para ser beijado, para ter os lábios devorados em um beijo faminto. Aquilo foi toda sua alegria; sentir o corpo forte do irmão contra si, se esfregando em seu corpo de forma tão condescendente, acelerou o coração do gêmeo mais novo ao nível do impossível. O ar quente pareceu ficar mais pesado, o som abafado que saía da boca de ambos sendo completado pelo cheiro de suor e sexo que já impregnava o local, deixava-os ainda com mais desejo, mais enlouquecidos...

O mais novo começou a descer os lábios pelo corpo de Saga, deslizando o nariz por entre suas coxas, suspirando, beijando-lhe e lambendo-lhe a virilha. Saga fechou os olhos soltando um gemido rouco, olhando o irmão, vendo-o e sentindo a mão dele brincar com seus testículos e segurar seu sexo, apertando com força, fazendo-o quase gritar. O mais novo desceu mais o rosto; os olhos verdes obscenos mirando o rosto em brasa do primogênito; deslizou a língua para fora da boca, lambendo bem devagar a ponta da glande, apertando a bunda dele com a mão, fincando os dedos na pele macia e sensível ouvindo Saga gritar. Seu corpo reagia a cada toque e lambida da língua de Kanon, a ereção pulsando, dolorida de tanto desejo. O mais jovem continuava, não dava trégua. Os lábios entrando mais fundo, envolvendo toda a carne com sua boca e língua, deixando a saliva molhar a pele, fazendo o membro de Saga deslizar mais fácil por sua boca; sentindo que pouco a pouco o irmão ia perdendo a resistência e se entregando, arranhando-lhe as costas, puxando-o pra si, querendo mais contato. As mãos se afundando em seus cabelos, forçando uma felação mais intensa, enquanto Saga gemia e gritava desesperado de prazer.

Kanon arfou de tesão, estremecendo ao sentir a entrega do amante. Saga movia os quadris rápido contra sua boca; descendo o sexo até o fundo da sua garganta e voltando, mal lhe dando tempo para respirar, estava enlouquecido, e nada mais lhe importava além da busca do prazer.

O mais novo, porém, o fez gemer e se contorcer quando aumentou a sucção, chupando forte, molhando tudo com sua saliva, tirando-a da boca, lambendo as bolas, mordendo a carne macia e a pele sensível, aspirando o cheiro que impregnava o corpo de Saga que já tremia convulso de desejo. Sentindo que o orgasmo do irmão já se aproximava, chupou com ainda mais força. Saga retesou os músculos e gritou, gozando na boca do amante, crispando os dedos e erguendo as costas um pouco.

Caiu sobre a camisa de Kanon, sentindo-lhe o perfume cítrico que junto ao cheiro de suor e sexo criava um aroma exótico e adocicado; a respiração descompassada, a mente turva ainda pela onda de prazer inexprimível que experimentara.

Kanon ergueu a cabeça para mirar o rosto adorável do irmão; os lábios rubros e molhados, o ardor das faces.

- Abra os olhos, Saga... – pediu rouco e baixo, de um jeito tão sensual que Saga sentiu-se estremecer e o corpo arder novamente. Abriu os olhos encarando as esmeraldas febris a sua frente.

- Deixe-me ter você... – pediu Kanon de forma séria, mas sem deixar de ser sensual.

Saga não respondeu, passou a língua nos lábios e abriu mais as pernas, erguendo os braços num convite. Kanon tremeu de emoção e felicidade, deitando-se sobre o mais velho, sendo acolhido por seus braços fortes. Voltaram a se beijar intensamente. Saga afundava as mãos nos cabelos, enquanto deslizava a língua pelo pescoço do mais novo, também queria senti-lo; sentir o gosto de sua pele levemente salgada de suor, sentir a tensão dos seus músculos perfeitos, tão semelhantes aos do seu próprio corpo, mas que possuíam diferenças sutis que só suas mãos poderiam conhecer. O futuro arqueólogo levou os dedos aos lábios do futuro padre que os sugou enlouquecido, gemendo quando o mais jovem enfiou o primeiro em seu corpo. Kanon mordicou-lhe a orelha e sussurrou algo ao seu ouvido que ele já não tinha condições de escutar. Só fez gemer mais alto quando ele colocou o segundo dedo, e rebolou um pouco para livrar-se da sensação incomoda. Quando o achou devidamente preparado; Kanon se afastou o mirando nos olhos, apertando-lhe a mão contra a sua, enquanto guiava o próprio sexo para dentro do corpo do amado.

- Ai...! – o gêmeo mais velho gemeu alto quando foi penetrado, mesmo que devagar. Mordeu os lábios evitando gemidos vexatórios. Kanon achou bobo seu orgulho, mas não comentou. Esperou que ele se acostumasse um pouco com a dor, e então arremeteu-se novamente. Dessa vez o grito foi impossível de ser contido.

O gêmeo mais novo se inclinou sobre ele, beijando seus lábios levemente.

- Já vai passar... – disse, começando a se mover lentamente; sentindo a resistência inicial de o canal estreito ceder aos poucos à investida do seu membro, até conseguir deslizar mais fácil, começando a estocar lentamente; ouvindo os gemidos doloridos do irmão.

Saga abriu mais as pernas e fechou os olhos, jogando a cabeça para trás. Sentindo o amante entrar mais fundo em si. Gemeu mais forte, começando a rebolar lentamente, o corpo querendo mais contato, mais prazer, a dor cedendo ao prazer selvagem que brotava em seu corpo. Apertou o corpo de Kanon segurando-o pelas nádegas, cravando as unhas nela de forma ardente e possessiva; ouvindo o irmão grunhir de prazer enquanto se arremetia cada vez mais forte contra si; Saga era completamente dominado por aquele inédito sentimento contraditório de desespero, dor e prazer enquanto seu corpo bailava ao ritmo de Kanon.

Sentiu uma vertigem, foi como se tudo a sua volta se desfizesse, antes de ele se derramar contra o abdômen do irmão se contraindo e o guiando, com um grito extasiado, também ao orgasmo.

Kanon caiu sobre Saga, sentindo o sêmen do amante escorregar em seus abdômen, não se importou. Abraçou-o mais forte, ouvindo sua respiração entrecortada e as batidas frenéticas do seu coração.

O mais jovem beijou todo o rosto do mais velho, enquanto esperava que ele serenasse. Saga continuava com a respiração forte e os olhos fechados.

- Amo-te, Saga... – sussurrou sorrindo. A emoção podia ser vista em seus olhos – Sempre amarei.

Saga abriu os olhos e lágrimas se derramaram deles. Embora sentisse uma felicidade profunda, havia um misto de dor e angústia que o fazia chorar.

- Também te amo, Kanon, muito... – abraçou o amado com força como se assim, pudessem se tornar siameses inseparáveis.

Exaustos e extasiados, logo adormeceram, um sentindo o coração do outro batendo.

"A sua boca é muitíssimo suave, sim, ele é totalmente desejável. Tal é o meu amado, e tal o meu amigo..."

"Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu; ele apascenta entre os lírios."

Continua...

Notas finais: Capítulo enorme! O maior da fic até agora. Desculpem-me, o lemon foi o culpado!

Os versos que acompanham o lemon são do livro Cântico dos cânticos ou cantares, atribuído ao Rei Salomão, que está no velho testamento da bíblia cristã (sempre me perguntei o que ele está fazendo lá). Por favor, não pretendo ofender a religião de ninguém com essa história, e se fiz isso em algum momento, por favor, me perdoem.

Olha, o lemon demorou muito a sair, e não sei se ficou bom, mas relevem, é muita história pra atualizar e às vezes falta "conteúdo pervo" em meu juízo XD! Relevem os erros também. Era para revisar melhor, mas fiquei ansiosa porque tinha muito tempo que não postava capítulo novo e resolvi postar logo.

Beijos a todos que estão acompanhando, em especial aos leitores carinhosos que deixam reviews incentivando a autora baka.

Mefram_Maru, Kayura_Yanagi, Mamba_Negra, Maya Amamiya, milaangelica, Vagabond, saorikido, Kamy_Jaganshi, Keronekoi, MarcelaMalfoy, Maia Sorovar, Amamiya fã (pelo apoio via MSN).

Beijos a todos e até o próximo que espero não demorar tanto quanto esse.

Sion Neblina