Ilusões perdidas

Capítulo 7

Quando Saga despertou estava totalmente escuro do lado de fora da garagem, mas uma lâmpada fraca iluminava as feições sombrias de Kanon que fumava um cigarro, sentado ao seu lado, completamente nu. Sua expressão era melancólica e distante.

- Calor? – perguntou o mais novo dos gêmeos ao perceber que o irmão acordara.

Saga suspirou, observando o corpo bronzeado do irmão, coberto por gotículas de suor.

- Um pouco, a noite está quente. – respondeu baixando o olhar.

Kanon entendeu aquilo como arrependimento. Suspirou também, pegando sua cueca e começando a vesti-la, erguendo os quadris um pouco para isso.

- Não precisa ficar com essa cara, Saga. Estou indo embora hoje mesmo. – declarou, apagando o cigarro.

O gêmeo mais velho se voltou para encará-lo.

- Eu não quero que vá, Kanon. – disse ele – Por Deus, eu... eu estou confuso com tudo isso! Mas tenho certeza que não quero que vá!

Foi a vez de Kanon baixar o olhar.

- E como será nossa vida depois daqui, mano? Continuaremos fingindo que somos só irmãos?

Saga segurou-lhe o rosto, afundando as mãos nos cabelos sedosos que caíam na face do seu gêmeo. Os olhos de Kanon se voltaram para ele, Saga viu tanto medo em seus olhos geralmente tão seguros que seu coração se compadeceu.

- Não, não é isso que quero. – esclareceu o mais velho - Eu sei que o amo, Kanon, sei que... que o que tivemos foi profundo. Estou confuso, perdido, por favor, me entenda.

Kanon sorriu com a declaração.

- Então venha comigo, Saga. – pediu – Corinto é uma província, venha comigo para uma cidade onde sejamos anônimos e onde estejamos longe de nossa mãe. Um lugar só nosso.

Os olhos de Saga titubearam.

- Ela... ela não tem ninguém, Kanon... – sussurrou – Não posso deixá-la assim, desiludida e sem uma explicação...

- Que se foda as explicações, Saga! – irritou-se o mais novo – O que sentimos é muito mais importante que qualquer explicação, você não acha?

- Sim, acho. – tornou o outro com convicção – Mas preciso dar uma explicação a ela. Ela precisa saber de um motivo justo para que desista de tudo que... tudo que quis ser na vida. Kanon, olhe pra mim! Eu não sei quem sou! Até hoje meu único ideal era ser padre, eu acreditava na igreja de forma tão profunda...

Kanon se ergueu, começando a pegar suas roupas.

- Não quero que desista dos seus sonhos por mim! – falou enquanto vestia a calça – Se ser padre é o que lhe fará feliz...

- Você é o que me faz feliz! – Saga o interrompeu se erguendo e o encarando dentro dos olhos – Você é o que me faz feliz. – repetiu – Não duvide do que estou dizendo, não duvide do que sinto!

Kanon se aproximou do irmão, o puxou pela nuca, o beijando. Saga fechou os olhos, aceitando o beijo cálido e ardoroso dele. Era incrível como sentia o corpo vibrar ao mínimo contato com o dele. Almas gêmeas? Será que Deus seria tão irônico para mandar o amor de sua vida, aquele que o completava, numa forma idêntica a sua, sendo seu irmão gêmeo?

Os questionamentos e dúvidas invadiam o futuro-padre, enquanto os lábios de Kanon destruíam, espezinhavam, sua razão.

- Eu não duvido. – falou o futuro arqueólogo quando se afastou da boca ofegante do mais velho – Mas há tantas coisas em nosso caminho. Eu sou forte, Saga, a vida me fez forte, mas, e você? E você que sempre viveu no quadrado imaginário de Dona Adamantina? Seria capaz de brigar com o mundo?

- Não me subestime, Kanon. – volveu o mais velho irritado – Não sou tão ingênuo e ridículo quanto você pensa.

- Não estou o subestimando, ao contrário, estou o superestimando. – sorriu com melancolia – Eu sou um filho da puta, Saga. Alguém sem coração; alguém que não está nem aí para ninguém, claro! Além de você. Você não é assim; você se preocupa com todos a sua volta. Você quis ser padre por um ideal não só religioso como pessoal. Será que está preparado para uma vida diferente? Para ser olhado de lado, julgado, condenado? Para se excomungado, tido como herege por aqueles que o "louvavam"?

Saga engoliu em seco, baixou a cabeça e não respondeu.

- Pense nisso, irmão. Antes de aceitar viver esse amor impossível e errado. – declarou o mais jovem.

Saga sentiu aquela declaração como os trovões que explodiam no céu, anunciando uma noite de tempestade. Como um autômato mudo, começou a se vestir também; sem conseguir encarar Kanon. O gêmeo mais novo estava se preparando para sair, quando o mais velho o puxou pelo braço.

- Espera.

Os olhos de Kanon se voltaram para Saga.

- Não queria pressioná-lo, me desculpe. – pediu ele. Saga afagou-lhe o rosto e o puxou para seus braços.

- O que eu quero é ser feliz, Kanon, e só ao seu lado poderei ter essa felicidade.

- Não coloque sua vida na mão de outra pessoa dessa forma, Saga. – sorriu o futuro arqueólogo com melancolia – Eu não mereço isso.

- Merece sim. – respondeu o irmão – Você é a pessoa que mais amo nessa vida,Kanon.

O gêmeo mais novo apoiou a testa na do irmão.

- Eu não mereço isso. Você é tão puro, tão sincero...

Saga sentiu a comoção que se apossava do mais novo; sua respiração tornou-se mais acelerada como a de alguém que se esforça para não chorar.

- Kanon, por que não confia em mim? O que aconteceu a você? Por que foi embora? Por favor, eu preciso saber.

O irmão se afastou dele, e voltou a se sentar na mesa velha.

Soltou um suspirou pesado e pegou o maço de cigarro, acendendo outro.

- Eu vou falar toda a verdade a você, Saga... – declarou.

O mais velho se aproximou dele, se sentando ao seu lado, calado. Kanon esboçou um sorriso melancólico.

- Segura minha mão. – pediu baixando o olhar – Não é fácil recordar isso...

Saga sentiu um aperto no peito e fez o que o irmão pediu. Apertou sua mão com força, enquanto a outra afagava o rosto triste dele.

- Eu estou aqui, nunca mais o deixarei sozinho.

- Ok, então vamos falar de um pesadelo que tive há 11 anos...

*****Flash Back*******

Saga correu como louco para casa, não era muito longe, chegou esbaforido e machucado pelos galhos de árvores que não se preocupava em afastar na corrida desenfreada até a casa.

- Pai! Pai! – gritava desesperado.

Encontrou na sala, sua mãe e o padre Nestor que tomavam chá, eles o olharam assustado.

- O que aconteceu, Saga? Por que você está desse jeito? – indagou o padre.

Adamantina empalideceu, tendo um presságio e uma vertigem. Segurou o filho pelos ombros.

- Cadê o Kanon, onde está o Kanon, Saga? – gritava a mulher em pânico, algo lhe dizia que algo terrível acontecera ao filho.

- Um homem o pegou na mata! – berrava Saga aos prantos – Salva ele, mãe, salva!

Seu pai chegou a sala, saindo da garagem, atraído pela gritaria.

- O que aconteceu? – indagou Tales, seu coração instantaneamente falhou – Onde está o Kanon?

- Na mata, pai, vem comigo, por favor! – chorava o menino – Ele precisa de ajuda!

O jovem pai não pensou muito, segurou o braço do filho e arrastou Saga para que mostrasse o local onde deixara o irmão. No caminho, nervoso, enchia a criança de perguntas que ele não conseguia responder.

Adentraram a mata, o sol estava se pondo deixando tudo mais confuso e sombrio na mente de Saga. Demorou até que encontrassem Kanon, mas quando isso aconteceu, o encontrou sozinho.

O gêmeo mais novo cambaleava e mancava chorando, voltando pra casa. Ele soluçava, seu rosto estava marcado por escoriações e hematomas, sua boca sangrava.

Tales parou, seu coração falhou mais uma vez e seus olhos marejaram, correu até o filho e o abraçou chorando quase tanto quanto ele.

- Maldito, maldito seja! – grunhia o homem.

- Pai... tá doendo... – murmurou o menino. Saga só chorava.

Tales pegou Kanon nos braços e deu a mão a Saga; saíram correndo do bosque.

Adamantina e o padre esperavam aflitos de frente a casa. O pai entregou Saga nos braços da mãe.

- Fique com ele, eu vou levar o Kanon ao hospital. – declarou nervoso.

- O que aconteceu? O que fizeram com meu filho? – gritava a mulher histérica.

- Fique calma, Adamantina. – pediu o padre – Eu acompanho o Tales.

O padre, Tales e Kanon entraram na caminhonete e seguiram para o hospital. Saga e a mãe ficaram chorando enquanto viam a caminhonete partir.

Kanon foi atendido e medicado, passando a noite no hospital em observação. Fez vários exames que confirmaram violência sexual e agressões de vários tipos.

O menino acordou no dia seguinte percebendo que estava em um lugar estranho, seu pai e sua mãe estavam sentados ao lado de sua cama.

- Oi, filho, como você se sente? – indagou Adamantina segurando a mão do garotinho.

- Bem, onde está o Saga? – indagou.

- Em breve você o verá. – disse ela – Estávamos esperando que acordasse para levá-lo pra casa.

- Eu quero ver o Saga.

- Breve, filho. – a mãe acariciou os cabelos do menino.

- Ada, você poderia me trazer um copo d'água, por favor? – pediu Tales.

A mulher estranhou o pedido, mas resolveu obedecer, saiu do quarto.

Tales segurou a pequenina mão de Kanon e sorriu para ele com carinho.

- Filho, eu preciso que me diga quem fez isso com você.

- Eu não sei o nome dele, pai, que o conhece é o Saga, ele disse que é alguém da igreja...

O jovem pai empalideceu.

- Da igreja?

- Sim, foi isso que ele disse. – afirmou Kanon – Eu quero ir pra casa.

- Sim, fique calmo, vamos pra casa. – volveu Tales lançando um olhar raivoso para o nada.

A tarde, Kanon recebeu alta e eles voltaram para casa. Adamantina ficou cuidando do filho mais novo; enquanto Tales chamou Saga para uma demorada conversa na garagem.

Saga estava nervoso, porque queria ver o irmão e o pai não deixava enchendo-o de perguntas.

- Eu não sei o nome dele, pai! – berrou o menino – Só sei que ele sempre se senta no fundo, durante a missa!

- Fale-me a descrição dele, Saga, como ele é?

- É alto, tem cabelos claros...Ele sempre usa uma camisa laranja como se fosse algum uniforme... – declarou o menino – Agora me deixa ver o Kanon, por favor!

- Certo, Saga, pode ir.

O menino saiu correndo, subiu as escadas, afoito para o quarto que dividia com o irmão. Quando chegou, parou a porta. Kanon estava deitado na cama, tão machucado, meu Deus!

Saga sentiu lágrimas em seus olhos; correu para o irmão e o abraçou com força.

- Ai, Saga! Você vai me esmagar! – riu Kanon – Para com isso! Você é mesmo um bebê chorão!

- Para de implicar comigo, eu estava preocupado com você! – reclamou Saga – O que aquele homem fez com você?

- Nada, esqueça isso, eu já to bem, seu frouxo! – riu o mais novo.

- Para de rir de mim! – choramingou Saga – Eu pensei que nunca mais o veria!

Kanon parou de rir e olhou dentro dos olhos do irmão.

- Por isso estou rindo, não estou rindo de você, seu estúpido! Estou feliz porque pensei que nunca mais o veria!

- Ah, mano! – Saga o abraçou novamente, e Kanon voltou a rir e caçoar do irmão.

****Fim do flashback****

- Mesmo depois de tudo, daquele filho da puta ter me estuprado, me batido, mesmo assim, estava feliz por estar em casa... – continuou Kanon nervoso, tragando compulsivamente o cigarro – Estava tão feliz que nem parecia ter passado por um trauma tão grande. Então, na noite seguinte, lembro-me que como hoje chovia muito, e o velho estava todo molhado, não sei porque... Bem, naquela noite, seus pais me chamaram na sala. Você estava dormindo, era muito tarde...

- Eu não estava dormindo, eu vi quando eles o chamaram e não a mim. – disse Saga chocado e comovido com aquela história, da qual se lembrava parcamente.

- Meu pai olhou em meus olhos e pediu para que esquecesse tudo. – lágrimas pesadas caíram dos olhos de Kanon – Disse que foi um pesadelo, que nada daquilo aconteceu, e que eu devia esquecer...Aquele homem me machucou, e ele me pediu pra esquecer?

Kanon soluçou no presente, tanto quanto soluçara no passado. Não estava preparado para voltar aquele pesadelo, a agressão que sofrera não foi nada comparada a decepção que sentiu quando seu pai, o homem que amava e idolatrava mais que tudo, pediu para que esquecesse e disse simplesmente que não faria nada contra quem o machucou.

Saga apertou mais forte a mão do irmão e pela primeira vez sentiu ódio e revolta contra seus progenitores.

- Na época eu não entendi – continuou Kanon -, pensei que ele me culpava pelo que aconteceu, me senti a pior das criaturas sobre a terra. No dia seguinte, os dois e o padre Nestor, que estava muito nervoso, me disseram que eu iria embora, que iria morar em Atenas com um tio. Lembro-me que chorei muito, mas dessa vez não mais pelo papai, já sentia ódio dele. Chorei porque pensei que nunca mais voltaria a vê-lo, Saga...

- Eu não entendo! Por que eles fizeram isso? – indagava Saga enxugando as lágrimas do próprio rosto – Você... você se sacrificou por mim. Deus! Que pesadelo!

- Não! – Kanon apagou o cigarro, e segurou o rosto do irmão entre as mãos – Não quero que se culpe, eu sei que faria o mesmo por mim. Eu achei que conseguiria fugir, sempre fui mais ágil e esperto que você, eu sobrevivi, não quero que se culpe...

Saga baixou o olhar, sentindo as lágrimas pingarem no chão. Kanon se afastou e acendeu um novo cigarro, olhando a tempestade que caía, pela janela.

- Lembro-me de você acenando pra mim quando o padre Nestor o levou embora. Lembro-me do rosto desolado do papai, mas então, por que? – para Saga as atitudes dos pais ainda eram inexplicáveis.

- Seria uma vergonha se a cidade soubesse o que aconteceu. – volveu Kanon – Eu penso assim; eles ficaram com vergonha e se calaram, muitos fazem isso até hoje, Saga; a lei do silêncio impera quando a questão são crimes sexuais, principalmente em províncias como essa. Eu só não entendo porque eles me tiraram tudo; porque me tiraram você...

- Lembro-me que o papai e a mamãe iam visitá-lo, mas sempre voltavam tristes...

- Eu não queria vê-los, o meu tio me forçava, e você me conhece... – sorriu amargo – Naquela época já tinha me tornado uma boa parte do que sou hoje, e eu sabia ferir como ninguém. Eu tinha tanto ódio deles... – engoliu em seco – Nem sei quando esse ódio morreu, mas hoje já não sinto tanto, apenas mágoa.

- Eles nunca me levaram para vê-lo...

- Acho que temiam que eu fizesse o mesmo a você e, pra falar a verdade, durante muito tempo tive raiva de você também. Foi melhor assim. – suspirou o mais novo.

- Ao menos você foi feliz o resto da infância? – indagou Saga, mas em seu íntimo já sabia a resposta, e uma dor lacerante se apossava do seu peito.

Kanon riu e soltou a fumaça no ar.

- Meu velho tio era legal, tanto que deixou toda sua herança pra mim. – disse – Mas ele tinha um amante mais jovem que era um demônio...

Saga mirou o irmão nos olhos, Kanon sorriu e ruborizou, como que envergonhado.

- Não, Kanon...

- No começo era a força – confessou o gêmeo mais novo - , ele me fodia com tanta violência que às vezes eu sangrava por dias; depois de um tempo, acho que passei a gostar, nessa época eu já era um pouco mais velho. Todas minhas ilusões já tinham sido perdidas...

Saga ficou em silêncio, perdido em seu próprio abismo.

- Não faz essa cara, Saga, foi você que quis saber dessa história nojenta.

- Se seu tio era tão legal, por que permitiu isso? – perguntou o futuro padre, mas, na verdade, já nem lhe interessava saber.

- Ele não sabia, eu nunca contei. Porra, ele amava o cara, eu não faria isso com ele. – Kanon terminou o cigarro e encarou o irmão – Olha, esquece essa história, não tem mais importância, é passado.

Saga assentiu com a cabeça, vendo o irmão enxugar o rosto de forma nervosa; sabia que por mais seguro e controlado que Kanon parecesse, aqueles fatos ainda o machucavam.

- Vamos entrar e tentar dormir um pouco? – sugeriu Saga, não queria demonstrar o quanto tudo aquilo o abalara.

Kanon o enlaçou pela cintura e beijou-lhe o rosto com carinho.

- Me desculpa?

- Por que?

- Por pensar em deixá-lo novamente.

Saga sorriu e o abraçou com força.

- Ah, Kanon, eu nunca vou deixá-lo, nunca...

Kanon fechou os olhos com força, enquanto sentia o calor dos braços de Saga e a maravilhosa sensação de que havia finalmente se encontrado. Não queria mais nada além daquilo.

Saga por sua vez, pensava que por mais confusa que estivesse sua vida e o coração, uma certeza ele possuía, nunca mais deixaria o irmão sozinho, Kanon precisava dele para recuperar seus sonhos, vencer a amargura e acreditar novamente na humanidade.

Deixaram a garagem e entraram em casa pela porta dos fundos. Não encontraram a mãe, com certeza ela já havia se recolhido. Subiram para o quarto para novamente se amarem, e dormirem abraçados.

-OOO-

Enquanto Kanon dormira deliciosamente bem, Saga apresentava terríveis olheiras à mesa do café. Não conseguiu dormir a noite toda, a história do irmão o assombrara, e ele passou grande parte do tempo observando o sono tranqüilo do gêmeo mais novo. Naquela noite ele não tivera pesadelos, ressonava como uma criança. Saga soube, de forma estranha, que aquela seria sua obrigação a partir dali, velar o sono de Kanon e fazê-lo feliz. Nada mais importava além disso.

A mãe de ambos lançava de um para o outros um olhar interrogativo. Os gêmeos estavam quietos demais, Kanon, principalmente. Sim, o filho não era cordial com ela, mas conversava bastante com o irmão, qual seria o motivo de todo aquele silêncio?

- Saga, preciso que colha as azeitonas hoje, não sei o que farei quando você for para o Vaticano, terei que contratar alguém para fazer isso.

O futuro padre estremeceu, e engoliu em seco.

- Estou com dor de cabeça... – reclamou – Não poderia deixar isso pra amanhã?

- Preciso das azeitonas hoje. – reclamou a mulher - O que há com você afinal?

- Vamos, Saga, eu te ajudo aí você termina mais rápido. – volveu Kanon, e o irmão percebeu que sua voz estava séria e melancólica.

- Então tudo bem. – concordou. Era uma forma de ficar sozinho com o irmão e conversarem mais sobre aquilo que, sabia, preocupavam os dois.

"Deus me ajude, sei que o senhor me acha abominável, mas não posso mais lutar contra o que sinto por ele." Pensou consternado.

- Se vão fazer, façam logo! – a voz de Adamantina interrompeu os pensamentos do mais velho.

- Fazer o quê, mãe? – Saga perguntou distraído, preso aos próprios problemas.

- Colher as azeitonas, do que mais poderia estar falando, Saga?

Kanon começou a rir, livrando-se da expressão melancólica que mantinha até então. Isso fez com que Saga sorrisse também.

- Tá bom, vamos, Kanon... – completou o futuro padre se levantando da cadeira e caminhando para a sala.

Kanon se levantou lentamente e seguiria o irmão, se a mãe não o interrompesse.

- Kanon, espere. – pediu a mulher, e ele se voltou com seu olhar mais sério e desdenhoso para ela – Por tudo que é mais sagrado nesse mundo, não desvirtue Saga, ele nada sabe, é completamente inocente, não tente se vingar nele...

- Vingar-me nele? – Kanon riu – Ele é... ele é o único motivo que faz com que suporte estar no mesmo teto que você, mulher! – explodiu – Você não tem o direito de... de duvidar do que sinto por ele! E se "desvirtuar", pra você, consiste em remover essa ideia ridícula de se tornar padre da cabeça dele, tenha certeza que tentarei!

Adamantina respirou fundo e cruzou os braços, irritada.

- Você sempre foi diferente do Saga! – esbravejou a mãe – Duas bandas da mesma fruta, mas uma delas apodreceu! Não deixarei que o mesmo aconteça a outra!

O rosto do geminiano tremeu de ódio, mágoa e indignação.

- Então é isso que sempre fui pra você? Somente a parte podre que, graças aos deuses, foi arrancada de seu imaculado filho?

- Não se faça de vítima! – disse a mulher – Sempre lhe ensinei que não há deuses, Kanon, há somente um Deus, você nunca aprendeu, nunca concordou!

- Só gostaria de entender por que sempre me odiou? – perguntou o rapaz – Por que mãe?

A mulher respirou fundo antes de responder.

- Eu nunca o odiei, Kanon, eu te amo, mas suas escolhas o afastaram do caminho correto. Pensa que não sei da vida degenerada que levou ao lado daquele tio também degenerado? Pensa que não sei das abominações que praticava?

Kanon piscou, sendo atingido por aquelas palavras duras.

- Mesmo assim, eu te amo, filho. – continuou a mulher – E se você ama o Saga, o deixará fora disso. A ele está reservado um futuro muito melhor.

- Um futuro escolhido por você! – irritou-se Kanon – Ele tem direito a escolher o que quer pra ele...

- Não tente comparar-se a ele, Kanon! Saga cresceu aqui, ele não tem a malícia para viver em qualquer outro lugar que não seja a Igreja!

Kanon riu alto.

- Isso é o que você pensa! – disse – Engraçado, você me jogou aos nove anos, na rua, como se joga algo podre no lixo, em nenhum momento, pensou que eu não tinha malícia suficiente para sobreviver!

- O que aconteceu desde aquele momento foi fruto do que escolheu pra si, Kanon, não queira fazer com que me sinta culpada! – volveu Adamantina – Só quero que deixe o Saga escolher o que é melhor pra ele.

- Escolha? Que escolha eu tive? – bradou indignado – Vocês não me deram escolha!

- Vocês estão brigando? – Saga voltou a cozinha e mirava o irmão e a mãe, confuso.

Kanon passou a mão no rosto enxugando uma lágrima fugitiva, enquanto andava em direção a porta, e encarava o rosto do mais velho.

- Não estávamos brigando, Saga, – disse o mais jovem, enlaçando os ombros dele – Vamos!

Saga ainda lançou um olhar a mãe, que também desviou seus olhos dos dele.

- Vá, Saga, mas por Deus! Não deixe que seu irmão ponha ideias absurdas em sua cabeça. – pediu adamantina.

O futuro padre corou, imaginando o que a mãe não faria se descobrisse toda a verdade do que acontecia entre eles. Estava surpreso pelo seu nível de dissimulação, mas naquele primeiro momento precisava mentir, depois pensaria num jeito de sair daquela situação.

Não respondeu, seguiu com Kanon para fora da casa. Quando chegaram à varanda, ele parou o mais novo e afagou seu rosto bronzeado.

- Seja lá o que ela tenha lhe dito, não dê atenção. Eu te amo.

Kanon sorriu e se inclinou, beijando levemente os lábios de Saga, os dois seguiram abraçados pelo campanário, em direção as oliveiras.

Do portão da casa, o padre Nestor os observavam, sem que nenhum dos dois se dessem conta disso.

Continua...

Notas finais: Demorou mais saiu. E saiu bem triste. Tadinho do Kanon gente! Que história horrorosa, acho que me superei dessa vez!

Relevem erros, mensagens subliminares, projeções atrais, etc. Tempo escasso, mas agora parece que vou conseguir uma beta pra poupá-los da tortura, hehehehe, só estou aguardando que ela responda meu e-mail.

Obrigada a todos que leram, em especial aos que deixaram um review de incentivo.

spencer_3939,liliuapolonio,ShakaAmamiya,Mefram_Maru,Maya Amamiya,Vagabond,Arcueid, Keronekoi,milaangelica,saorikido,Kamy_Jaganshi,anjodastrevas,Human Being, Meninas, muito obrigadas pelo apoio.

Iamini: Eu já tinha reparado do pequeno equívoco e havia consertado no Nyah, acabei esquecendo de consertar no FF, fazer o quê? Quanto a ser chata, não se preocupe, isso não me incomoda, sei que para algumas pessoas, como você mesmo falou, é inevitável. Obrigada de qualquer forma pelo comentário!

Obrigada a todos que estão acompanhando e que se interessam pela história.

Beijos, e até a próxima!

Sion Neblina