Só por hoje

Capítulo 8

O padre Nestor bebia nervoso o seu cafezinho e recebia o olhar inquisitório de Adamantina que não entendia seu nervosismo.

- A que veio, padre? – indagou a mulher – Por seu nervosismo acredito que tem algo importante a me dizer.

O sacerdote deitou a xícara na mesa.

- Tenho de fato. – disse – Estamos perdendo o Saga.

- Perdendo Saga? O que quer dizer com isso?

- O seu filho começa a duvidar de sua vocação sacerdotal, e nesse caso, eu aconselho que não se ordene. – sentenciou Nestor.

- Não diga uma coisa dessas! – irritou-se Adamantina – O Saga tem que se tornar padre, esse é o nosso sonho há muito tempo!

- Nosso sonho? – o sacerdote ergueu uma sobrancelha – Deveria ser somente o sonho dele, Adamantina. Somente dele.

- O senhor entendeu muito bem o que quis dizer! – irritou-se a mulher se erguendo – Isso é coisa do Kanon, eu sei que é!

- Antes de culpar seu outro filho, deveria falar com o próprio Saga. – disse o padre com desgosto – Eu já não entendo essa geração, Adamantina, há tanta abominação hoje que... que fico confuso. Mas não quero me colocar no lugar de Deus e julgar meu próximo...

A mulher ergueu uma sobrancelha.

- O Saga foi se confessar ontem, não foi? – indagou – Ele deve ter lhe dito alguma coisa!

- Sim, ele me disse muitas coisas, e como bem sabes, não posso revelá-las. Mas garanto que não é o momento de Saga ir ao Vaticano. Ele precisa pensar melhor, está confuso, não tem certeza que quer seguir o caminho do sacerdócio.

- Nunca aceitarei isso! – irritou-se Adamantina – E se Kanon for o culpado por isso, eu darei um jeito de tirá-lo do caminho do Saga!

O padre suspirou.

- Ada, pondere suas palavras, lembre-se que ele também é seu filho.

- Não. O Kanon deixou de ser meu filho há 11 anos, e tenha certeza, padre, eu farei de tudo para que Saga não se perca por causa dele. Não pude salvar Kanon, mas Saga não perderei.

- O que pretende fazer? – indagou o padre. Ele conhecia a amiga há muito tempo e sabia o quanto a mulher poderia ser cruel e determinada. Kanon herdara-lhe o gênio, ao passo que Saga era muito parecido com o pai.

- Pretendo ir a Atenas e encontrar uma pessoa. – disse ela – Pretendo desmascarar Kanon. Saga saberá que o irmão não é o anjo que diz ser.

- Ada, por Deus, esse menino já sofreu tanto, deixe-o em paz. – indignou-se o padre – Cedo ou tarde, essa paixonite que eles estão sentindo passará, eles são irmãos e se convencerão disso!

Adamantina empalideceu e mirou o padre que corou, dando-se conta das próprias palavras.

- Você está me dizendo que o Saga... – a mulher se interrompeu – Não pode ser, não o meu Saga!

- Eu não disse nada, Ada, por Deus! Deixe-os em paz! – pediu Nestor desesperado.

- Meu santo filho está... apaixonado pelo irmão, é isso que disse?

- Não, não foi isso que disse. – engoliu em seco Nestor – Quando falei paixonite, quis dizer da fascinação que sentem na presença do outro, não disse que fosse nada carnal ou consciente...

- Deus meus! O que o Saga lhe disse, Nestor? Tem que me dizer! – revoltou-se a mulher.

- Ele não me disse nada, e mesmo que dissesse, não revelaria um segredo de confissão, tu bem sabes disso! – o padre se ergueu – Vou embora. Espero que pense no que fará. Kanon já sofreu demais, ao menos seja humana com ele!

O padre pegou o chapéu e saiu da casa. Adamantina ficou parada no mesmo lugar, perturbada por aquela conversa. Saberia a verdade, se padre Nestor achara que conseguiu convencê-la, estava bem enganado. Ela descobriria se... se aquela abominação era verdade, e se fosse, daria um jeito para que Saga nunca mais desejasse ver o irmão.

-OOO-

- Que troço mais chato! – reclamou Kanon retirando as frutinhas da árvore – Isso não é trabalho pra homem!

- Cala a boca e colhe! – riu Saga – Depois dona Ada faz pratos deliciosos com isso!

O mais jovem riu e olhou o céu.

- Que merda, ainda vai chover! – reclamou.

- Para de praguejar! – riu Saga.

- Merda, merda, merda! – provocou Kanon. Apesar do serviço ingrato, o dia estava sendo muito divertido. Adorava a companhia de Saga, adorava conversar com ele, provocá-lo, ouvir seus sábios conselhos.

Persegui-lo e derrubá-lo na grama para beijá-lo e arrancar-lhe gemidos aflitos.

- Você faz isso sempre? – perguntou Kanon enchendo seu pequeno cesto.

- Sim, desde que nosso pai fez a plantação.

- Você vinha com ele?

Saga percebeu leve incomodo na voz do irmão.

- Vinha sim. Por quê?

- Nada. – respondeu Kanon rapidamente – Naquela ali tem mais!

O mais jovem disse e correu em direção à outra oliveira. Saga interrompeu o que fazia, largou o cesto embaixo da árvore e foi até o irmão.

- Kanon, pára! – pediu puxando o braço do futuro arqueólogo o que fez com que o conteúdo do seu cesto fosse ao chão.

- Porra, Saga! Olha o que você fez! – Kanon tentou se inclinar para recolher os frutos, mas o irmão não deixou o puxando pelos cotovelos, o que o obrigou a encará-lo.

- Estou farto de mistérios! O que mais você esconde, Kanon?

- Nada, me solta, que merda! – tentou se libertar, mas as mãos de Saga continuaram presas a ele.

- Chega digo eu! Estou cansado de vê-lo fugir todos esses dias! Preciso saber, preciso entender! Sei que sente mágoa do papai por tudo que aconteceu, na verdade também estou magoado com tudo que me contou. Mas...

- Mas?

- Se o perdoar conseguirá viver melhor. – declarou Saga – Carregar o fardo da mágoa é tornar tudo ainda mais doloroso.

Kanon soltou um risinho irônico.

- Falou o padreco!

- Estou falando sério, Kanon.

- E eu também! – irritou-se o mais novo – Talvez essa seja sua vocação mesmo. Talvez o que sentimos seja mesmo algo demoníaco do qual deve fugir!

- Não seja idiota!

- Não, Saga, idiota está sendo você! – vociferou o futuro arqueólogo – Acha que simples palavras irão apagar a dor que sinto desde os nove anos? Acha que já não me foi dito que preciso perdoar? Porra! Você e suas frases de sacristia! Esquece essa história que é bem melhor pra você!

- Não! Eu não vou esquecer! – gritou Saga de volta – Eu te amo e quero ajudá-lo. E mesmo que me diga mil vezes que não quer minha ajuda, ainda assim insistirei, porque te amo!

Kanon baixou a cabeça com um suspiro vencido, então libertou um dos braços para afundar a mão na nuca do irmão e o puxar pra si, para um beijo voraz, Saga no início tentou recusar, mas logo seu corpo cedeu ao desejo e a língua do mais novo.

A chuva começou a cair e o beijo não parava; já estavam ensopados, era mais forte do que eles, assim como foi mais forte do que Saga poderia resistir, quando o irmão o livrou da camisa xadrez e desceu os dedos para livrá-lo da calça jeans; e o futuro padre se viu livrando-o da camiseta que ele usava e se deixando guiar para apóia-se no tronco de uma árvore, enquanto a língua e os dedos de Kanon o invadiam. Sem parar o beijo, o gêmeo mais novo se afastou o suficiente apenas para desabotoar a própria calça e puxar seu membro já túrgido para fora. Saga gemeu alto ao ser aguilhoado pelo pênis do irmão, que começou a estocar de imediato, no começo devagar, vencendo a resistência do canal estreito aos pouco, depois mais forte. Saga se apoiava entre a árvore e os ombros de Kanon; mantinha os olhos fechados em êxtase. Seu corpo foi suspenso por ele, enquanto estocadas cada vez mais rápidas e profundas o transiam. Agora ambos gritavam. Saga gozou primeiro derramando seu sêmen sobre o abdômen de ambos, Kanon com mais algumas estocadas se derreteu dentro do irmão e o puxou pra si, caindo sobre a grama molhada, Saga ainda sobre seu corpo, trocando um ardente beijo.

- Eu também te amo, Saga, muito. Mais do que pensei que esse meu coração de merda fosse capaz... – sussurrou afagando os cabelos do irmão, sentindo a chuva tépida escorregar por seu rosto.

- Então, deixe-me ajudá-lo...

- Você não pode. Ninguém pode. – sussurrou Kanon – Mas obrigado...

Saga o envolveu nos braços o abraçando forte, sentindo as batidas descontroladas do seu coração. Amava Kanon e lutaria por ele, sim, lutaria por aquele amor proibido.

Quando a chuva cessou, eles se ergueram e se vestiram para voltar a casa. Cataram as azeitonas espalhadas pelo chão, rindo da bagunça e se perguntando se elas ainda serviriam. Quando chegaram, não encontraram a mãe, mas havia um recado na geladeira que dizia que ela fora a Atenas e retornaria à noite. Não deram atenção. Foram para o quarto, tomaram banhos juntos e depois voltaram para a sala para ver televisão, já que com a chuva não daria para fazer muita coisa mesmo.

Ficaram um bom tempo trocando carinho e comendo pipoca vendo um filme qualquer até que o telefone tocou e Saga se ergueu para atender.

- Alô?

- Saga?

- Camus, por Deus! Onde você andou? O Milo estava desesperado atrás de você! – reclamou o grego.

- Ah, fique tranqüilo, eu já fiz as pazes com ele. – declarou o ruivo de forma fria – Onde você está? Estamos na casa do Aioros, gostaria que viesse aqui, preciso falar com você.

- Está chovendo, Kanon e eu resolvemos ficar em casa... – declarou sem convicção olhando para o irmão e cobrindo o telefone com as duas mãos para falar com o gêmeo mais novo – A turma está reunida na casa do Aioros, quer ir lá?

Kanon fez que não com a cabeça.

- Juro que será rápido. – insistiu Saga que já estava com saudades dos amigos.

- Tá bom, se você quer! – concordou a contra gosto o mais novo.

- Chegamos em vinte minutos, Camus.

- Ok, vou avisar aos outros e... Saga...

- Hum?

- Nada, quando você chegar aqui conversamos.

- Certo! – o geminiano desligou o telefone e se jogou no sofá, se aconchegando nos braços do irmão.

- Precisamos nos trocar. – volveu o mais jovem de modo preguiçoso – Tem certeza que quer ir?

- O Camus quer conversar comigo. – falou Saga.

Kanon bufou.

- Você ainda quer comer esse francês!

- Kanon, para com isso! – corou o mais velho – Ele é só meu amigo, sempre foi, sabe disso!

O futuro arqueólogo riu.

- Tá bom, então eu também não vou tentar comer ninguém tá bom? – provocou – Nem aquele namoradinho gostoso dele...

Levantou-se rápido do sofá, mas isso não o salvou de receber uma almofadas nas costas.

- Seu tarado, idiota! – resmungava Saga enquanto subia as escadas correndo atrás do irmão.

-OOO-

Uma música suave dominava o ambiente quando Saga e Kanon chegaram à casa de Aioros e Aiolia. O gêmeo mais velho sabia que os pais dos amigos estavam viajando e que o sagitariano não perderia a oportunidade de aproveitar a ausência do casal.

Quando os dois chegaram, todos os olhos se voltaram para eles. Naturalmente gêmeos sempre chamam a atenção, mas de fato, Kanon e Saga eram lindos! O mais velho vestia uma calça jeans e uma camisa verde escuro; o mais novo vestia calça jeans preta e camisa também preta. Os cabelos de Saga estavam soltos, os de Kanon preso num rabo-de-cavalo frouxo e levemente desalinhado, deixando-o incrivelmente sexy. Eram a visão de dois deuses e literalmente pararam a festa quando chegaram.

- Sejam bem vindos! – cumprimentou Aioros que de longe já estava meio bêbado. O rosto afogueado e o jeito amável demais de falar denunciavam isso.

- Oi, Oros, cadê a turma? – indagou Saga, procurando Camus com os olhos.

- Estão espalhados por aí. – disse o anfitrião – Entrem e divirtam-se!

Aioros se afastou e Saga localizou Camus e Milo numa das sacadas da imensa casa. os gêmeos se aproximaram deles.

- Camus? – Saga chamou o francês que miravam a bela vista, com os cotovelos apoiado na sacada. O ruivo se voltou e sorriu aquele sorriso raro que sempre deixava o futuro padre meio embasbacado.

- Olá, Saga, que bom que veio. – disse de forma neutra, voltando o olhar para Kanon em seguida – Oi, Kanon.

- Olá, Camus. – respondeu sem nenhum carisma. Milo se aproximou e abraçou Saga, falando-lhe ao ouvido:

- Obrigado por me ouvir. – disse. O geminiano sorriu quando ele se afastou e segurou o braço do ruivo possessivamente.

Os olhos de Kanon passaram por Milo e se desviaram para o rapaz parado mais adiante, mirando o mar. Seus cabelos cacheados bailavam a brisa marinha enquanto ele fumava um cigarro. Os olhos maliciosos de Milo seguiram os do irmão de Saga, parando no loiro.

- Esse é Afrodite, um amigo meu. – disse o loiro grego – Gostou dele?

Saga encarou o irmão que empalideceu. Esses eventos conseguiram chamar a atenção de Afrodite que se voltou para o grupo e deixou escapar um olhar estarrecido enquanto apagava o cigarro no batente.

O sueco se aproximou ajeitando a camisa azul claro que vestia e sorrindo confuso.

- Estou vendo dobrado? Zeus! Não me lembro de ter bebido tanto! – riu com charme – Kanon, então esse...?

- Esse é o Saga, Afrodite, meu irmão. – interrompeu o futuro arqueólogo muito sério. Seu olhar não deixando dúvida de que fazia uma advertência muda ao sueco.

Afrodite riu com malícia e estendeu a mão para Saga.

- Isso é o que eu chamo de capricho narcisista. – disse divertido – Prazer, Afrodite Laursen, eu e seu irmão somos bons amigos.

- Saga Vaskália. – disse o futuro sacerdote sério, não gostando nada dos olhares maliciosos que o jovem loiro trocava com seu irmão.

- Bem, vamos beber alguma coisa? – sugeriu Camus, percebendo o clima ruim entre eles e querendo acabar com aquilo – Saga, venha comigo, por favor...

O ruivo pegou o braço do amigo e saiu o arrastando, coisa que desagradou Kanon, mas Milo seguiu os dois. O ciumento escorpiano não deixaria seu francês sozinho.

Kanon voltou-se para Afrodite o encarando de forma irritada, o pisciano fez um sinal de paz com os dedos e o convidou para um canto enquanto acendia um cigarro.

- Eu sabia que tinha alguma coisa errada com você. – falou depois de soltar à fumaça no ar – Afinal, somente alguém louco, não se apaixonaria por mim.

Kanon acabou rindo.

- Você não tem mesmo jeito, sueco, e depois sou eu o narcisista! – disse – Bem, agora sabe o tamanho da minha encrenca.

- Sim, sei, e o rapaz parece bem possessivo, não cansa de olhar pra cá.

Kanon olhou por cima do ombro, realmente Saga não deixava de olhar para eles, mesmo que disfarçadamente por cima do ombro de Camus.

- Assumimos que nos amamos. – disse o gêmeo mais novo – Mas não faço ideia do que isso vai dar, Dite, estou confuso, mas feliz sabe? Uma felicidade angustiante...

- A pior das felicidades. – suspirou o loiro – Devo acreditar que já contou a ele das nossas escapadinha? – Os olhos azul piscina do sueco encararam os verdes do grego e ele fez um gesto de reprovação – Acho melhor fazer isso logo, segredos nunca são bons.

- Como quer que fale isso a ele, Dite? – riu Kanon – Oi, amor, tá vendo aquele cara ali? Nós já transamos até as pernas tremerem!

Afrodite riu com vontade.

- Não seria uma forma muito legal... – observou – Mas se fosse você iria até ele, porque o gostosão do seu irmão está se mordendo de ciúmes.

- Eu também não gosto que ele fique com o ruivo, e olha a intimidade que eles têm? – deu de ombro o grego.

- Pelo que vejo, o ruivo é bastante apaixonado pelo meu amigo Milo, se sente algo por seu clone, é meramente platônico! – o loiro ajeitou os cabelos e apagou o cigarro – Bem, vou caminhar um pouco, nesse meio tempo, diga a verdade ao seu amante, sei que ele vai querer saber.

Afrodite saiu deixando Kanon sozinho e confuso. Tinha medo de qualquer ameaça que pudesse afastar Saga de si, não suportava a ideia de perdê-lo e tudo entre eles era tão impossível. Zeus! O que ele fez para merecer tantas dificuldades em sua vida? Não bastava tudo que já havia passado, por que tinha que se apaixonar por seu irmão gêmeo?

Pegou um copo e virou de vez nos lábios, fazendo uma careta ao perceber que era vodka pura, mas estava acostumado a beber, não seria aquilo que o derrubaria, resolveu andar um pouco também para espairecer. Ainda era cedo e a festa parecia que duraria toda a tarde e adentraria a noite.

- Milo, você poderia me deixar falar com o Saga a sós alguns minutos? – pediu Camus.

Milo demonstrou claramente que não gostou daquilo, mas resignou-se e se afastou. Saga mirou o amigo de modo preocupado, Camus estava muito sério e parecia ter algo muito importante a lhe dizer.

O francês pediu para que o geminiano o acompanhasse até a ampla varanda da casa. Saga o seguiu, os dois acabaram sentados na escada de madeira enquanto olhavam o mar.

- O que você queria tanto me falar, Camus? – indagou Saga afastando os cabelos que eram levados para o rosto pelo vento.

- Eu não sei bem. – confessou Camus – Só senti saudades de você. Acho que é o único da turma com quem consigo conversar.

Saga sorriu de canto de lábios.

- Sempre foi assim desde o colégio. Isso sempre deixou o Milo louco. – volveu divertido – Mas sei que algo aconteceu, embora talvez não seja algo concreto, o que foi?

- Vou embora de Corinto. – confidenciou – Isso aqui é pequeno demais pra mim e...

- E?

- Fui aceito no curso de sociologia da Sorbonne. – suspirou.

- Isso é ótimo, Camus! Meus parabéns! – sorriu Saga batendo no ombro do amigo.

- No dia que briguei com o Milo, foi quando recebi a correspondência da faculdade. Por isso ele não conseguia me achar, fui para Atenas, resolver as coisas...

- Mas qual o problema nisso? Isso será ótimo pra você. Sempre dissemos que não ficaríamos aqui a vida toda. – insistiu Saga.

- Milo ainda não sabe. – volveu Camus – Não tive coragem de contar a ele... Saga, ele não vai entender, não vai me perdoar...

Camus afundou as mãos nos cabelos vermelhos, baixando a cabeça. Saga sorriu e o puxou pelo queixo para que o encarasse.

- Você o ama muito não é? – indagou sorrindo.

Camus ruborizou e baixou o olhar.

- Sim, muito. Nunca pensei que um dia diria isso, mas... não me imagino vivendo sem ele.

- Por que não o chama para acompanhá-lo? Ele pode tentar uma vaga em alguma faculdade francesa também...

- Você sabe que o Milo tem uma vida super complicada com os pais. – explicou o ruivo – Eles nunca permitiriam que ele fosse embora assim, comigo então! Seria um inferno...

Saga umedeceu os lábios, confuso.

- Camus, posso garantir que há situações bem piores, mas para tudo tem uma saída e se vocês se amam é isso que importa.

Os olhos azuis do francês encararam os olhos de Saga meios desconfiados.

- É o que estou pensando? – indagou Camus muito sério.

Saga ruborizou até a raiz dos cabelos.

- O... o que você está pensando? – gaguejou sem jeito, desviando o olhar para o mar.

- Você e Kanon...

Saga emudeceu sem conseguir mirar o amigo.

- Desculpe-me a indiscrição, Saga, mas percebi que havia algo mais entre vocês que a simples relação de irmãos. Sei que isso não é da minha conta, mas o Milo achou o mesmo.

Os olhos verdes se voltaram para ele, e Camus engoliu em seco.

- Isso é tão evidente? – perguntou Saga corado – Eu... Deus, Camus! Você pode imaginar como me sinto? Por que isso tinha que acontecer comigo logo agora quando minha ida ao Vaticano está tão próxima! O que faço, Camus?

O ruivo colocou a mão no ombro do amigo, era o máximo de carinho que sua natureza fria e reservada lhe permitia fazer.

- Eu nem sei o que dizer, Saga. Nunca imaginei que você pudesse se envolver numa relação como essa...incesto...

Aquela palavra fez o geminiano estremecer, e Camus se sentiu mal com o que disse.

- Saga, me desculpe, eu não queria falar assim...

- É a verdade, Camus, por mais que doa. – uma lágrima desceu pelo rosto de Saga – Eu um futuro padre tenho uma relação incestuosa com meu irmão...

Camus não sabia o que dizer para consolar o amigo. Chamara Saga, pois achara que em sua calma e sabedoria o amigo poderia ajudá-lo com Milo, e agora o via numa situação que nunca imaginou.

- Desculpe, Saga. – puxou o amigo pra si, o abraçando, meio sem jeito. Saga descansou o rosto no ombro cheiroso de Camus e chorou mais forte, entregando-se a angústia que sentia.

O que Camus não sabia era que aquela angústia não era apenas por sua situação com o irmão, mas também pelo medo que sentiu de perdê-lo com a forma que o mais novo olhou para o tal Afrodite. O gêmeo mais velho soube imediatamente que havia algo entre eles, algo forte. Os olhares que eles trocavam diziam isso.

Camus afagou os cabelos sedosos do amigo com carinho. Deixaria que Saga chorasse, mesmo porque não era muito bom com palavras. Naquele quesito, Milo sempre fora bem melhor que ele, o grego sempre tinha a palavra certa para tirar os amigos das situações difíceis.

- Acho que você deveria conversar com o Milo. – o ruivo deu voz aos pensamentos.

Saga balançou a cabeça.

- Não, eu não quero que ninguém saiba, Camus, somente você, por favor.

- Mas sou um péssimo conselheiro, Saga. – sorriu o francês.

O grego se afastou dele, enxugou o rosto com as mãos, o encarando.

- Em meu lugar o que você faria? – perguntou direto.

Camus engoliu em seco. Se havia algo que não sabia fazer também era mentir.

- Sou um péssimo conselheiro, Saga. – repetiu desviando o olhar.

- Mas eu quero seu conselho mesmo assim. – insistiu o moreno – Você é meu melhor amigo, eu preciso saber da sua opinião.

- Saga...

- Por favor, Camus, eu suporto, pode dizer o que pensa.

O ruivo respirou fundo e mirou os olhos molhados do amigo.

- Eu acho que você não deveria mudar sua vida e tudo que quis por causa do Kanon, e não é porque ele é seu irmão, mas porque ele me parece uma pessoa instável. Eu não queria dizer isso porque eu não o conheço suficientemente bem para julgá-lo assim, é só minha impressão. Além do mais, eu estou sendo hipócrita, porque amo alguém que também é emocionalmente instável, e continuo com ele, mesmo sabendo que não deveria.

- Eu o amo... – murmurou Saga.

- Eu sei. Desculpe-me...

O geminiano passou as mãos nos cabelos nervoso.

- Tudo bem, você foi sincero, mas... Camus, assim como você sabe que o Milo é a pessoa totalmente errada pra você, também não há momentos que ele parece tudo de mais certo que lhe aconteceu?

Camus deixou escapar um sorriso.

- É exatamente isso, mon ami, as pessoas certas muitas vezes são as que achamos mais erradas. Por isso não queria opinar, porque meu cérebro diria algo a você que meu coração não aceita.

Saga sorriu e segurou o rosto de Camus entre as mãos.

- Eu vou embora com ele. – confidenciou – Vou arrumar minhas coisas e sumir sem dizer nada a ninguém. Se me despedir de minha mãe não terei coragem.

- Entendo. Eu aviso a ela depois que já estiver bem longe. – falou o francês – Eu só desejo que você seja muito feliz, Saga.

O moreno balançou a cabeça e puxou o amigo pra si num abraço apertado.

- Obrigado, Camus...

Ficaram um bom tempo abraçados, e não perceberam que da porta de vidro da casa, um enciumado Milo os observava. O loiro saiu dali minutos depois e pegou uma bebida, grunhindo de raiva.

- Qual foi, Milo? – indagou Aiolia que percebeu que o amigo estava nervoso.

- O Camus está lá fora pendurado no pescoço do Saga. – respondeu áspero – Às vezes acho que é com ele quem o Camus gostaria de ficar.

- Deixa de ser idiota! – reclamou Aiolia – Que motivo ele teria pra estar com você se quisesse ficar com o Saga?

- Minha insistência doentia por exemplo? – indagou virando outro copo de tequila.

- Ei, pára! – pediu Aiolia tirando o copo das mãos do loiro – Já me basta o Oros bêbado!

- E quem o elegeu babá oficial da turma? – resmungou Milo tentando tomar o copo das mãos de Aiolia.

- Eu, porra! Vocês parecem um bando de bebês, mesmo sendo mais velhos que eu! – reclamou – Agora se você não parar com esse copo, eu vou chamar o Camus!

Milo se convenceu; se tinha algo que não queria era falar com Camus naquele momento. Percebeu que muitas pessoas dançavam no centro da sala, entre elas, Kanon e Afrodite, resolveu se juntas a eles.

O som envolvente da música dominava o ambiente e se mesclava com perfumes e bebidas deixando um cheiro de luxúria pelo ar. Mesmo porque muitos estavam ali pelo prazer da caçada mesmo. Eram muito jovens e queriam sexo. No embalo da dança e da bebida, Afrodite ficou entre Kanon e Milo, sendo deliciosamente prensado por eles. O sueco era belo como poucos e sabia seduzir como ninguém. Ora segurava as mãos de Milo sobre si, hora deslizava as unhas pelo peito de Kanon que ria e continuava a dançar. O gêmeo mais novo sabia que Saga poderia entrar a qualquer momento e não queria magoar o irmão e ganhar uma briga sem propósito. Já bastava estar se roendo de ciúmes da "conversa eterna" entre ele e Camus na varanda. Não, era melhor parar com aquela dança licenciosa com o belo sueco. Queria dançar com Saga, todavia, achava melhor não incomodá-lo. Ele e o francês eram amigos, e Kanon tinha total confiança no irmão.

- Kanon! Estou falando! – disse Afrodite mais alto enquanto enlaçava o pescoço de Milo, ainda de costa para ele e tendo o seu beijado pelo escorpiano que já estava meio ébrio e perdia a noção.

- Você falou o quê? – indagou Kanon chegando mais perto.

- Em como seria delicioso nós três na cama? – sussurrou o loiro.

Milo corou e sorriu um tanto encabulado, mas seus olhos verdes encararam os de Kanon. Claro que nunca aceitaria aquilo! Mas não poderia dizer que a ideia não fosse excitante.

- Sim, seria uma delícia! – sorriu Kanon com malícia passando a língua nos lábios de forma devassa – Mas o Milo já tem dono, então deixe suas ideias pervertidas para outro! – riu descontraído e querendo mudar de assunto. Fugindo da tentação.

- É uma pena! – piscou Afrodite provocando – Mas pelo menos dançar com vocês eu posso não é?

- Claro! – disse Milo e empurrou o sueco pra Kanon que o segurou pela cintura.

Milo soprou o ar e deu um sugestivo olhar para a própria ereção desperta pelo rebolado de Afrodite contra seu corpo. Kanon percebeu e riu com vontade.

- Esse sueco é um cretino! – observou, e os três acabaram rindo e voltando a dançar de forma um pouco mais comportada.

Saga e Camus finalmente voltaram para dentro da casa, sendo logo "agarrados" por Aioros bêbado, que queria dançar com eles, mas os dois, levando com bom humor, conseguiram se desvencilhar do sagitariano que foi atrás do seu novo namorado, um espanhol.

Camus olhou para Milo e fez um sinal com o dedo o chamando. O loiro puxou Afrodite pra si e sussurrou algo em seu ouvido numa provocação ao ruivo, antes de deixar a pista de dança.

Ao ver Kanon sozinho com Afrodite, Saga sentiu um mal estar que não compreendeu. Resolveu que já era hora de ir embora, antes que tudo aquilo piorasse.

Aproximou-se do irmão o segurando delicadamente pelo braço.

- Kanon, eu quero ir embora. – sentenciou.

O mais novo não apresentou resistência.

- Eu já vou, Dite. – disse e deu um beijo carinhoso no rosto angelical do loiro. Saga não gostou nada de tanta intimidade.

- Me liga. – pediu Afrodite, mas sem provocação. Virou-se para Saga – Foi um prazer conhecê-lo. Cuide bem desse rapaz. – piscou.

O mais velho não respondeu, corou e saiu arrastando o irmão. Não queria se despedir de ninguém, depois ligaria para os amigos. Agora, assim como Camus, precisava resolver seus passos para o futuro.

Chegaram próximo a Harley Davidson, mas Saga impediu Kanon de ligar a moto.

- Precisamos conversar, Kanon, e não pode ser lá em casa.

- Quer ir a algum lugar? – indagou o mais novo engolindo em seco. Sabia que era sobre Afrodite.

- A praia. Vamos. – tomou a mão do irmão e seguiu pela areia até chegarem a alguns rochedos. A noite já havia caído e a brisa fria arrepiava suas peles levemente. Saga se sentou numa rocha mirando as ondas que se quebravam mais a frente.

- Kanon...Eu resolvi algo. Mas antes de lhe dizer o quê. Preciso saber se ainda guarda algum segredo.

- Do que está falando? – indagou fechando os olhos e suspirando.

- Do tal Afrodite... vocês... vocês...

- Transamos. – completou Kanon sentindo Saga estremecer – Tudo começou naquela noite que... Bem, Saga, o que importa é que não temos nada um com o outro, foi só sexo. Eu nem sabia que ele conhecia o Milo.

Saga engoliu em seco. Aquilo o magoava, mas sabia que não tinha o direito de se sentir ofendido.

- Saga, ele hoje é só um amigo... – insistiu Kanon incomodado com o silêncio do irmão – Eu amo você...

O mais jovem segurou a mão do mais velho com força. Saga encarou Kanon e uma lágrima escorreu por seu rosto.

- Tem certeza? – indagou – Eu senti algo muito forte entre vocês.

Kanon inspirou e expirou fundo.

- Há algo mesmo forte entre a gente. – confessou – Somos parecidos, sabemos nos divertir como ninguém e temos uma química foda na cama além de muito carinho um pelo outro, mas é só isso. Eu amo você.

Saga baixou o olhar, aquelas palavras doíam. Ele tinha vontade de bater em Kanon por ter deixado aquele loiro tocá-lo. Todavia, era racional para saber que não tinha esse direito.

- Com ele ao menos você não precisaria ficar se escondendo... – murmurou aflito.

- E o que isso importa, porra! Se é você que eu quero? – interrogou puxando o queixo do irmão sem delicadeza para que Saga o encarasse. O que viu em seus olhos foi muito medo e angústia.

- Você promete que nunca mentirá pra mim? – pediu o primogênito – Promete que nunca vai me trair e nem magoar, Kanon?

- Prometo. – Kanon soltou o queixo do irmão e cruzou os dedos os beijando de forma divertida, depois puxou Saga pra si o abraçando – Eu te amo tanto, Saga, de uma forma que você nunca seria capaz de compreender...

- Eu te amo também, Kanon... – sussurrou o mais velho fechando os olhos fortemente – Eu nunca vou deixá-lo, vou cuidar de você...

O mais jovem se afastou para mirar os olhos amorosos do mais velho.

- Promete, Saga? Promete que não me deixará sozinho de novo?

Saga engoliu em seco sentindo a dor e o medo que o irmão possuía. Como poderia dizer não? Como poderia dizer que também ele estava cheio de medos e dúvidas?

- Eu prometo, Kanon. Sempre estarei com você. – disse o apertando com mais força.

Kanon suspirou e eles ficaram em silêncio, sentindo a fria brisa do mar por um tempo, até que o mais novo se afastou, sorrindo.

- Que tal não voltarmos pra casa? – sugeriu – Podemos ir pra Atenas, nos hospedar num hotel...

- Não, Kanon, a mãe ficará preocupada. – negou Saga.

- Então liga pra ela e avisa, gênio! – provocou o outro – Vamos, Saga, só hoje! Juro que o trago de volta amanhã bem cedo. Vamos ser feliz só por hoje!

Saga sorriu.

- Está bem, mesmo porque, tenho algo importante para lhe dizer.

- Estou louco pra ouvir! – volveu Kanon correndo em direção a moto. Saga balançou a cabeça, adorava a energia que ele tinha. Montou na moto e eles saíram em direção a Atenas.

Continua...

Notas finais: Desculpem-me a demora, travei na fic na reta final, mas juro que o próximo dessa vez já está a caminho, pois é uma extensão desse. Acho que mais dois capítulos e finalizo essa história dolorida XD!

Beijos especiais as pessoas pacientes que estão acompanhando em especial aquelas que deixam uma review de incentivo.

Kao-san, ShakaAmamiya, Maya Amamiya, Keronekoi, Kayura_Yanagi, Vagabond, Mefram_Maru, milaangelica, saorikido, Kamy_Jaganshi, Arcueid.

Beijos de coração a todos vocês!

Sion Neblina

Postado em 24/11/2010