Promessas partidas
Capítulo 9
***Promete que nunca vai me trair e nem magoar, Kanon?
***Promete, Saga? Promete que não me deixará sozinho de novo?
A noite foi muito divertida para os dois. Foram ao teatro, programa escolhido por Saga, depois jantaram num restaurante aconchegante e passaram a noite num pequeno hotel de frente ao mar.
Quando Saga acordou não encontrou Kanon na cama. Virou-se de súbito o procurando e sentiu o corpo dolorido. Fizeram amor a noite toda de forma completa, entregues como não haviam feito até então. O gêmeo mais velho já estava conformado em abandonar todas as suas convicções, todos os seus planos por Kanon, porque somente com ele era feliz. O que vivera até a chegada do irmão não tivera importância, sua vida só teve luz quando ele apareceu.
- Bom dia, amor... – Kanon disse entrando no quarto com uma bandeja – Olha, eu não sou bom com essas coisas, na verdade sou péssimo, mas veja se você gosta...
Saga se sentou, cobrindo-se com o lençol branco. Olhou a bandeja muito bem decorada com um ramo de flores delicadas amarradas por uma fita a um ramo de trigo: havia duas xícaras e um bule de louça branca, uma cesta com vários tipos de pães doces e salgados e outra com frutas variadas.
O mais velho sorriu.
— Obrigado. Estou mesmo faminto. — observou. Kanon colocou a bandeja sobre a cama e se sentou atrás de Saga, de modo que o irmão ficasse entre suas pernas. Beijou-lhe os cabelos sempre tão perfumados e depois seu pescoço alvo, enquanto Saga saboreava um croissant.
— Queria ficar aqui, assim com você pra sempre... — sussurrou o gêmeo mais novo — Temos mesmo que voltar?
Saga assentiu com a cabeça, virando-se um pouco nos braços do irmão e lhe beijando os lábios antes de oferecer-lhe um pedaço do croissant que Kanon aceitou de bom grado.
— Infelizmente não podemos ficar aqui pra sempre. Adoraria, mas precisamos voltar. — disse Saga experimentando o café — Precisamos falar com nossa mãe...
— Eu não tenho nada pra falar com ela. — tornou Kanon — Vou lá, pego meus pertences, incluindo você, maninho, e vou embora sem nem dar adeus! — riu, voltando a beijar o pescoço de Saga lhe causando arrepios.
O mais velho suspirou se sentindo bem como nunca naqueles braços.
— Eu preciso conversar com ela. — explicou — Claro que não vou falar que nós dois... Bem, preciso explicar meus motivos para não querer me tornar padre...
Kanon sorriu sacana e mordicou a orelha do mais velho.
— Seu motivo... — sussurrou lambendo o lóbulo e sentindo os arrepios de tesão que causava em Saga — É que está completamente viciado no meu pau...
— Kanon seu indecente! — exclamou Saga vermelho como um tomate, se afastando do irmão. Kanon riu com vontade. Adorava provocar Saga e ver aquela carinha de santo coradinha como agora. Tinha esperança de um dia acabar com aquela adorável timidez do seu gêmeo. Será que queria mesmo acabar com ela? Saga era tão perfeito daquela forma. Não, não queria mudar nada nele, era daquele jeito que gostava.
— Vai negar? — piscou Kanon, e Saga lhe lançou um olhar atravessado e ficou comendo em silêncio.
Kanon se espreguiçou virilmente, olhando o irmão com malicia, fazendo Saga estremecer e perder completamente a atenção ao que fazia, derramando leite na bandeja. O mais novo riu mais e o puxou pra si.
— Quando irá se acostumar com minhas provocações?
— Quando vai deixar de ser safado? — indagou Saga, mas sorriu, não conseguia se irritar com Kanon, não depois de ele ter sido tão romântico e lhe levar café na cama.
O gêmeo mais novo afastou a franja da testa do mais velho com carinho.
— Hum... se fizer isso perco todo meu charme... — sussurrou antes de tomar os lábios carnudos de Saga em um beijo sensual, saboreando sem pressa cada parte de sua boca. Saga largou a torrada que segurava na bandeja para enlaçar o pescoço do amado. Caíram na cama para se amarem novamente.
"Eu preciso tanto de você, Saga. Minhas manhãs só podem ser felizes se você estiver comigo... Diz que sempre estará comigo?"
Sussurrava Kanon enquanto beijava cada centímetro da pele clara do irmão. Fizeram amor novamente, depois ficaram algumas horas na cama, sonolentos, abraçados.
- Temos que ir, Kanon...
- Eu sei... – murmurou o outro escondendo o rosto no travesseiro. – Não poderíamos ficar aqui e viver de amor pra sempre?
Saga riu e afagou os cabelos do mais jovem.
- É uma ideia tentadora, mas não pode ser...
- Hum... o que você tinha pra me dizer ontem de tão importante? – perguntou com o rosto ainda escondido no travesseiro – Pensou que eu iria esquecer?
- Não. – sussurrou Saga beijando o ombro forte do irmão – Eu queria dizer que aceito ir embora com você e que te amo, e que nada nem ninguém me afastará de você...
Kanon se apoiou no cotovelo para encarar o rosto do irmão.
- Eu sou o homem mais feliz do mundo sabia?
Saga sorriu e o beijou de leve.
- Vamos! – disse se erguendo da cama e correndo para o banheiro.
A viagem de volta a Corinto foi divertida. Fizeram duas aparadas para andar um pouco por alguns lugares bonitos, tirando algumas fotos e aproveitando para namorar. Sabiam que teriam um grande problema no momento em que o gêmeo mais velho dissesse à mãe que não pretendia mais se ligar a igreja e pior, no momento que dissesse que iria seguir o irmão pelo mundo. Por isso, aproveitava ao máximo todos os momentos como se fossem os últimos. No fundo de suas almas, sabiam mesmo que poderiam ser.
"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há..."
- Que música é essa? – Saga indagou enquanto Kanon cantarolava. Estavam sentados num precipício, olhando o mar que se quebrava nas rochas abaixo deles. O gêmeo mais novo sentando entre as pernas do mais velho.
- Não me lembro o nome, aprendi com meu tio, há muito anos atrás. Ele a cantarolava de vez em quando... – respondeu suspirando.
- Você gostava muito dele?
- Muito. Ele era um cara legal, culto, alegre, gostava de contar histórias sobre as viagens que fazia...
Saga ajeitou o irmão nos braços e beijou seus cabelos sedosos. Sentia-se em paz como há muito não se sentia.
- É uma música bonita... – sussurrou.
- Bonita e triste. Fala de suicídio. – falou Kanon melancólico.
O mais velho fechou os olhos aspirando profundamente e sentindo a brisa fria sobre o rosto.
- Dizem que todo amor é uma forma de suicídio... – proferiu suavemente – Não me lembro quem disse isso, mas falou algo como se amar fosse está à beira de um precipício como estamos agora...
Kanon sorriu e beijou a mão do irmão.
- E cair nele é o nosso maior êxtase, não é isso? Eu sou o precipício em que você caiu, mano...
- Você tem razão. – Saga esboçou um sorriso feliz – E é um precipício do qual não quero sair nunca mais...
Kanon virou-se nos braços do irmão e tomou-lhe os lábios. Trocaram um beijo apaixonado, mas cheio de ternura. Então resolveram voltar para casa. Era o momento de deixar o sonho e encarar a realidade.
-Meu irmão, Meu pecado-
A Harley Davidson buzinou e parou em frente à pequena cerca de madeira. Os gêmeos estranharam o carro importado parado ao lado da mesma. Já era de tarde quando finalmente chegaram a casa. Kanon desceu do veículo seguido por Saga, tirando a chave da moto.
- De quem é esse carro? – indagou ao mais velho que deu de ombro.
- Nunca vi por aqui.
Kanon sentiu uma sensação ruim no peito, mesmo não sabendo o porquê, era como se farejasse que alguma coisa estava errada.
- Vamos entrar. – disse se adiantando e abrindo o portão.
A porta da frente estava aberta e eles ouviram vozes nervosas, antes de ver as pessoas que estavam ali. Saga mirou o rosto do irmão que estava boquiaberto, mirando estarrecido o homem que acompanhava Adamantina.
Eles estavam sentados, provando café e discutiam em voz baixa até que se deram conta da presença dos gêmeos. Saga reparou que o homem era bonito, deveria ter algo em torno de 35 anos, vestia-se elegantemente e tinha um olhar mais que feroz.
- Qual dos dois é meu Kanon? – ele perguntou com suavidade enquanto olhava de um para o outro.
Os olhos do gêmeo mais velho se voltaram para o mais novo que engoliu em seco sem nada dizer.
- Kanon, apresente seu... amigo, ao seu irmão. – disse Adamantina seca – Seja educado ao menos uma vez em sua vida.
- Esse... esse homem não é meu amigo... – negou Kanon entre dentes, terrivelmente perturbado. Depois seus olhos magoados se voltaram para a mãe – O que significa isso?
Adamantina se ergueu calmamente e encarou o filho mais novo.
- Você pode até conseguir enganar o bobo do Saga se fazendo de bom moço, mas a mim que conheço toda sua história, Kanon, você não poderá fazer isso!
- O que quer dizer? – indagou o jovem desesperado. Saga, calado, percebia que o rosto do irmão tremia, nunca o vira tão perturbado.
A mulher se virou para Saga.
- Quando o seduziu, ele lhe contou que tinha um amante?
O futuro padre corou fortemente olhando entre a mãe, o irmão e o homem sentando tranquilamente no sofá.
- Mãe...
- Não negue, Saga! Sei exatamente que o Kanon com um ardil de satanás o seduziu e que vocês... Oh, Deus! Que pecado!
O gêmeo mais velho permaneceu calado, mas Kanon o olhou de forma desesperada.
- Não acredite neles, Saga... eu... eu...
- Você é um prostituto imundo! – gritou a mãe – Você se perdeu e agora veio aqui para destruir o seu irmão, por vingança!
- Não, não é isso! Nunca foi! – gritou Kanon desesperado – Eu... – olhou o irmão, procurou seus olhos, mas o olhar de Saga estava cravado no chão de tanta vergonha que sentia – Eu não sou amigo ou amante dele, Saga! Nunca fui!
O homem estranho finalmente se ergueu do sofá de forma afetada, passando as mãos nos cabelos loiros bem cortados.
- Por favor, Kanon meu bem, vamos parar com isso! – disse ele – Tivemos tórridos momentos juntos, isso você não pode negar.
Kanon não estava interessado no que ele dizia, queria apenas que Saga o olhasse, queria apenas ser mais importante que o chão naquele momento.
- Saga olha pra mim! – gritou. O mais velho finalmente ergueu os olhos para ele – Eu não tenho nada com ele há muito tempo...
- Então já teve... – murmurou o futuro padre.
Kanon se sentiu ainda mais aflito com as palavras do irmão. Era evidente que Saga começava a duvidar dele, e não queria isso.
- Era ele, Saga! Era ele o amante do meu tio que me forçava! – confessou escondendo o rosto com as mãos – Por Zeus! Acredita em mim!
- Não acredite nele, Saga! – volveu Adamantina se aproximando do mais velho e tomando-lhe o rosto entre as mãos – Meu filho, eu te amo mais que tudo nessa vida. Não estou fazendo isso para machucar você ou seu irmão, estou fazendo isso para livrá-lo de cometer o maior erro da sua vida!
Saga se afastou das mãos da progenitora dando um passo para trás.
- Por que fez isso? Por que trouxe esse homem que machucou o Kanon aqui? – indagou revoltado.
- Machuquei? – o homem indagou e olhou do gêmeo mais novo para o outro com ironia – Foi isso que você disse a ele, Kan?
O olhar raivoso de Kanon encarou o loiro.
- Não insista nessa mentira, Alex ou eu...
- Ou você o quê, Kan? – interrompeu Alex com uma risada debochada – Tá, admito que no começo até que você resistia, mas depois virou meu amante por conta própria, esqueceu?
- Eu era uma criança! – bradou Kanon sentindo as lágrimas quentes escorrerem por seu rosto. Sua vontade era apertar o pescoço de Alex até ele sufocar e morrer, mas precisa se controlar; precisava explicar as coisas a Saga.
Voltou-se para o irmão.
- Saga, foi aquela história que eu contei a você... – tentou explicar a um Saga estarrecido e confuso demais – Ele me obrigava, me machucava e...e... chegou um momento que...eu achava que gostava! Inclusive que gostava dele! Eu tinha 13 anos na época... eu... Por favor, Saga, acredita em mim...
Alex fez um barulho característico com a língua.
- Por que não fala tudo para ele, Kanon? – indagou – Fala a verdade. Fala que você era tão ou mais cretino que eu...
- Cala essa boca! – irritou-se o mais jovem – Você é um filho da puta, Alex! Por que não me esquece, hein? Por que essa obsessão por mim?
- Eu sempre disse que amo você, Kan. – disse o homem – E que não adiantaria fugir de mim, eu sempre o acharei, não importa aonde vá.
- Você é doente Alex! – voltou-se para a mãe – E você... por que me odeia tanto?
Adamantina o ignorou, voltou-se novamente para Saga.
- Vê? Ele é apenas um homem promiscuo e libertino. Você é apenas uma presa fácil para ele, meu filho.
- Ele me ama. – disse Saga com lágrimas nos olhos – Ele sim me ama e não você. Você só quer que eu satisfaça seus caprichos...
- Não, isso não é verdade. Alex, eu o trouxe aqui para que contasse toda a história ao Saga, por que não faz isso logo? – irritou-se a mulher.
O loiro deu dois passos na direção do futuro padre, mas foi interrompido por Kanon.
- Não se atreva a se aproximar dele. Não se atreva a dizer nada a ele... Nenhuma de suas mentiras!
- Mentiras? – Alex riu alto – Eu nunca minto, Kan, você sabe disso. Do que tem tanto medo? Tem medo que seu irmão saiba das coisas baixas que fez? Tem medo que ele saiba que planejou a morte do seu velho tio para ficar com sua fortuna quando soube que ele deixou tudo pra você?
- Não... – sussurrou Kanon e encarou Saga que arregalou os olhos lívido e atônito.
- Não minta. Quantas vezes ficamos deitados na cama, depois de nos amar, planejando como seria sua morte?
Os olhos de Kanon tremeram e novas lágrimas se derramaram, ele não conseguia tirar os olhos de Saga.
- Eu tinha 13 anos... – murmurou tentando se justificar, mas o irmão não parecia mais acreditar em suas palavras. Seus olhos também se derramaram e ele se voltou para a janela fugindo do olhar do irmão.
- Sim, você tinha 13 anos, mas já sabia muito bem o que queria. – volveu Alex – Tanto que na primeira oportunidade usou seus... dons! Para conseguir tudo que queria. Fala pra ele, Kan, diz como fez sexo com um velho moribundo para ter seu nome como único em seu testamento?
- Não foi por isso... – balbuciava Kanon desesperado.
- Foi por isso sim, não negue...
- Não, não foi... Saga, por...
- Chega! – gritou Saga mirando o irmão e depois todos naquela sala – Vocês são todos... podres! Todos vocês!
- Não filho...
- Não me toca! – Adamantina tentou se aproximar, mas o gêmeo mais velho gritou como um animal ferido, olhando a mãe com tanta mágoa que ela estremeceu – Por que, mãe? Por que me machucar assim?
- É para o seu bem, filho...
- Nunca foi! Nunca foi por mim, sempre foi por você mesma! – gritou Saga caminhando a passos largos para a porta e saindo.
- Saga! – Kanon o seguiria, mas Adamantina se postou na frente da mesma o impedindo.
- Sai da minha frente ou...
- Ou? De todas as coisas vis que fez, agora vai bater na própria mãe?
- O que você quer com tudo isso? Por que me odeia assim? – Kanon não conseguia mais deter as lágrimas. Pensar que estava perdendo Saga por causa dela era inadmissível. Era inadmissível que depois de tudo que passaram para ficar juntos, para finalmente aceitarem que se amavam, Alex aparecesse e estragasse as coisas com suas mentiras.
- Eu não o odeio. Você estragou a vida da minha família uma vez e não quero que faça novamente.
- Eu estraguei? O que eu fiz? – gritou desesperado colocando as mãos na cabeça – Eu era um menino, eu fui estuprado e abandonado por vocês, o que eu fiz de tão errado assim?
Kanon se sentou no chão e escondeu o rosto nos braços apoiados no joelho. Já não conseguia conter a comoção que o dominava. Só tinha vontade de morrer, de se enterrar na mais profunda catacumba e esquecer tudo aquilo. Doía... doía muito, muito mais do que ele pensou que fosse doer um encontro com o passado daquela forma.
- Você destruiu a minha vida! – gritou Adamantina com tanto ódio que o rapaz ergueu os olhos para encará-la.
A mulher arfava encarando o filho.
- Eu tenho que dizer isso, tenho que fazer ou vou explodir! – disse ela batendo no peito.
Kanon continuava a encarando sem nada dizer.
- Sabe o que aconteceu de verdade naquela noite, Kanon? Você quer mesmo saber?
- Quero! Se isso explicar porque você me odeia assim eu quero!
- Então direi. – a mulher respirou fundo – Naquela noite, a noite em que você chegou do hospital, enquanto você descansava tranqüilo em seu quarto, o Tales saiu de casa e demorou a chegar. Choveu muito naquela noite, eu estava aflita na sala, abraçada ao Saga, temendo o pior e o pior aconteceu...
- O-o... que quer dizer? – gaguejou o jovem sentando no chão.
- Seu pai, com as informações conseguidas do Saga, encontrou o homem que... que fez aquilo com você... – as lágrimas começaram a descer do rosto da mulher – Ele o amava tanto, Kanon, tanto...
- Não... – murmurou Kanon antevendo o que seria dito.
- Ele o matou! O matou depois de surrá-lo, de violentá-lo, de fazer tantas atrocidades! – disse Adamantina fechando os olhos com força – Por sua causa seu pai se tornou um animal como aquele homem!
- Não, não... – Kanon passava as mãos nos cabelos de forma frenética e atormentada.
Alex que não sabia daquela história se arrependeu de estar ali. Não pensara que a situação fosse tão séria, a mulher o enganara, dissera que o menino estava apenas de namorico com o irmão e que precisava tirá-lo de lá, e ele, como queria Kanon de volta, aceitou ajudá-la. Grande erro.
- Sim, Kanon, sim! – gritou a mãe – Ele fez isso para se vingar da dor que você sentiu! Ele o vingou e o que você deu a ele por isso? Raiva, desprezo? Você sabe por que você partiu? Partiu para que não fosse descoberto que seu pai era um assassino, e não foi ideia dele, foi do padre Nestor, pra quem ele confessou tudo. Ele... ele achou que se você não fosse afastado, a cidade acabaria descobrindo e ligando uma coisa a outra e havia o Saga que era uma criança e poderia contar tudo. O Tales nunca quis se afastar de você, ele o amava muito... – a mulher caiu num choro convulsivo – Ele só quis defender você, proteger a família e... você o odiou durante toda sua vida...Imagina a dor que ele sentiu? Imagina a depressão que o abateu tanto que o matou em menos de dez anos?
- Isso... isso é mentira... – murmurou Kanon sentindo um aperto tão grande no peito que acho que morreria ali, naquele momento.
- Você não tinha esse direito, Ada.
Ambos se voltaram para a cozinha ao ouvir a voz do padre Nestor.
- O Tales viveu para guardar esse segredo. Ele enfrentou a dor de manter o filho longe de si, para que sua família não ficasse desamparada. Por que odeia tanto o Kanon? Ele era um menino inocente. Se ele se tornou um pervertido, devasso ou qualquer coisa, a culpa não foi dele.
- Ele desprezou o pai e a mim durante toda sua vida! – rosnou a mulher – Ele nunca teve um pingo de gratidão pela renuncia do Tales.
- Eu não sabia! – gritou Kanon – Eu não sabia!
- Então, se agora sabe da verdade. Suma, desapareça da vida do Saga! Não destrua a vida dele como fez com a do seu pai!
Kanon se ergueu e saiu correndo, empurrando a mulher e abrindo a porta.
- Kanon, Kanon, volte! – Nestor tentou impedir, mas já era tarde. O rapaz montou na moto e saiu a toda velocidade que a Harley Davidson permitia. Mal via a estrada de tanto que seus olhos eram invadidos pelas lágrimas. A última vez que chorara tanto fora há 11 anos, mas naquele momento era a única coisa que tinha vontade. Chorar, chorar sem parar por sua crueldade, por sua ignorância e pelo ódio que cultivara durante tanto tempo.
Parou a moto em um lugar qualquer, uma enseada, e correu para o mar, entrando na água com roupa e tudo. Seu peito arfava violentamente causando espasmos e dor aos seus pulmões. Mergulhou molhando os cabelos e libertando o grito preso por horas na garganta:
PAI!
-Meu irmão, Meu pecado-
Saga correu para o campo das oliveiras e se sentou embaixo de uma árvore abraçado aos próprios joelhos.
Soltou um brado de dor e revolta, batendo o punho contra a testa. Doía demais! Imaginar que Kanon o enganara, que ele foi capaz de atitudes vis o destruía. A imagem daquele homem... O que sua mãe fizera o levando até ali...
Só tinha vontade de gritar de dor e raiva. Não sabia muito bem no que pensar e o que sentir... Só era muito dolorido...
Chorou. Chorou como nunca pensando em todas as coisas vis que o irmão fizera, na vida promiscua que ele teve...
"Você é apenas mais um para ele..." Foi isso que dissera Adamantina. Será que aquilo era verdade? Não! Não podia ser! Kanon o amava.
"Eu sempre disse que amo você, Kan. E que não adiantaria fugir de mim, eu sempre o acharei, não importa aonde vá."
A voz odiosa daquele homem ecoou em seus pensamentos e sua mente teve um estalo. Era mentira! Suas palavras, tudo que dissera de Kanon era mentira. Sua mãe trouxera aquele homem com o único intuito de separá-los.
- Kanon... – murmurou sentindo mais lágrimas nos olhos. Ele prometera que nunca deixaria o irmão sozinho e foi o que fez na primeira oportunidade. Deus! Abandonara-o sozinho! Ele deveria estar terrivelmente perdido!
Ergueu-se rápido e correu de volta a casa a toda velocidade que suas pernas permitiram, mas a encontrou vazia. Não havia sinal de ninguém nem de sua mãe, nem daquele homem e muito menos de Kanon. Precisava encontrá-lo, dizer que estava errado, pedir perdão, o problema era que não sabia por onde começar a procurar.
Tirou o celular do bolso e com mãos trêmulas ligou para o amigo.
- Alô, Camus? Por favor, eu preciso que me ajude...
- Ah, Saga... O que houve?
- Preciso achar o Kanon, aconteceu algo horrível e... eu preciso que me ajude, Camus, por favor.
- Calma, Saga, onde você está?
- Em casa... – murmurou.
- Encontre-me no bar de sempre, lá conversamos.
- Certo.
O geminiano desligou o telefone e resolveu fazer o que o amigo lhe propôs.
-Meu irmão, Meu pecado-
Kanon parou sua Harley Davidson na frente do "celeiro", o mesmo bar que ele conhecera Afrodite. Sentou-se ao balcão e pediu um dose de uísque puro e depois mais outra, virando o copo de vez. Não conseguia pensar muito, não conseguia prosseguir. Estava num abismo e não sabia como deixá-lo. Sua única saída era fugir, ir embora de vez. Não suportaria ver o desprezo nos olhos de Saga novamente, a dor e a decepção que vira.
Seu coração doía também com a descoberta da "inocência" do pai. Como fora injusto! Mas como poderia saber?
Passou as mãos nos cabelos ainda úmidos de água do mar, agoniado e pediu mais um copo de uísque. Por que sua vida tinha que ser daquela forma? Por que Alex tinha que voltar e ressuscitar tantas velhas mágoas? A mágoa que tinha por ter enganado o tio; a mágoa que tinha por ter sido manipulado por Alex que lhe dissera que o maior presente que poderia dar ao velho era seu corpo. A mágoa que tinha daquele gesto humilhante de sadismo extremo do ex-amante que se aproveitou de uma criança e de um homem doente e bêbado.
Sim, aquilo era algo que ele fazia de tudo para não se lembrar.
- Aquele tarado, filho de uma... – resmungou indignado se sentindo novamente sujo e vazio.
- Igual pra mim...
Ele ouviu a voz familiar e se virou para o rapaz que sentava ao seu lado. O loiro lhe lançou um sorriso fraco e pegou o copo que o barman lhe serviu.
- Oi, Kanon...
- Oi, Milo. – disse virando seu uísque mais uma vez – Aprendeu a distinguir entre Saga e eu?
- Não. Mas nunca vi o Saga tomando uísque puro. – respondeu o loiro – Qual o seu motivo para estar aqui enchendo a cara?
- Minha vida inteira... – murmurou Kanon com os olhos perdidos.
Milo passou a mão no cabelo nervoso, enquanto sorvia seu uísque.
- O Dite está vindo pra cá, ele é a melhor pessoa para você desabafar. Hoje não sou um bom ouvinte. – confessou com melancolia.
- E o seu motivo qual é?
- O meu motivo é ruivo, lindo e mede 1,84 m... – sorriu de canto de lábios – Ele me chutou...
Kanon deixou um risinho de escárnio escapar.
- Ele é um babaca mesmo. Quem em sã consciência dispensaria um presente do seu tamanho, Milo?
- Na verdade... ele vai estudar em Paris... – suspirou o loiro – Sei que é o melhor pra ele, aqui não tem nada de bom pra ninguém mesmo, então resolvi deixá-lo menos culpado e terminar tudo antes que ele precisasse fazer isso.
- Por que você não vai com ele? – indagou Kanon.
- Por que... ele não me quer... – murmurou Milo com tanta dor que o geminiano a sentiu. Kanon colocou a mão no ombro dele como apoio.
- Se isso for verdade, ele é mesmo um babaca.
Os olhos verdes de Milo marejaram, e ele segurou o ombro de Kanon da mesma forma.
- Obrigado. – disse – O que acha de tomar uma cerveja lá fora, na praia?
Kanon deu de ombros. Nesse momento Afrodite entrou no bar com seu charme natural, fumando um cigarro. Sorriu sacana e piscou para os dois gregos que bebiam uísque, se aproximando.
- Oi, rapazes, o que aconteceu? Vocês estão péssimos! – indagou olhando de um para o outro.
- Dores de amor. – respondeu Milo teatralmente.
Afrodite fez um becinho de peninha e abraçou ambos pelos ombros, beijando o rosto de um e depois de outro.
- Ah, meus meninos, titio Afrodite vai cuidar de vocês! – caçoou conseguindo arrancar riso dos dois mesmo em meio a latente melancolia.
- Vamos beber na praia? Lá ficamos mais livres para conversar. – insistiu Milo.
- Claro!
Os três pediram cervejas, pagaram e saíram do bar.
-Meu irmão, meu pecado-
Saga encontrou Camus que percebeu o quanto o amigo estava perturbado.
- Saga, o que aconteceu? – indagou o ruivo preocupado.
- Eu... Eu estraguei tudo, Camus, ele confiava em mim e eu o abandonei na primeira oportunidade como todos sempre fizeram! – dizia Saga nervoso – Preciso encontrá-lo, Camus, por favor, me ajude a encontrá-lo!
- Sim, calma, Saga, por que não me conta o que aconteceu no caminho?
O geminiano assentiu com a cabeça e os dois começaram a andar.
-Meu irmão, meu pecado-
Os três jovens estavam sentados de fronte ao mar, cada qual com uma garrafa de cerveja nas mãos.
- É impressão minha ou nós três estamos na pior merda da nossa vida? – perguntou Afrodite tragando e depois apagando o cigarro.
- Você também, Dite? – indagou Milo bebericando a cerveja.
- Ah, sim, você sabe de que estou fugindo, meu amigo! – respondeu Afrodite e encarou Kanon – E você, o que fará, gostosão?
- Vou embora. – respondeu o moreno – Não há mais porque ficar. Saga... ele... ele nunca acreditará em mim.
- Dê um tempo a ele. – pediu Milo que já estava a par da história – É difícil, mas se ele o ama...
Kanon riu e mirou o mar agitado.
- Sabem, loiros queridos – começou com ironia -, se existe um Deus, com certeza ele me odeia!
- E a mim também! – riu Afrodite.
- Deus não existe... – murmurou Milo sorvendo sua cerveja e deixando uma lágrima escorrer pelo seu rosto – Se ele existisse, não deixaria que me apaixonasse...
- O amor é bom. – sorriu Afrodite com melancolia – Pena que nunca amei. Talvez se amasse teria força para fugir de minha vida de pobre menino rico!
- Mas você fugiu, Dite! – volveu Milo – Seus pais queriam que você estivesse lá e você está aqui.
- Temporariamente. – sorriu o sueco com ironia – Assim que essas férias acabarem, volto a ser o filhinho exemplar do clã Laursen.
- Que merda! – riu Kanon terminando sua cerveja e jogando a garrafa longe – Deus não existe mesmo!
Deus não existe.
Mas se ele existisse,
ele viveria no céu acima de mim,
em uma nuvem grande e gorda lá em cima.
ele é mais branco que o branco e mais limpo que o limpo.
ele quer me alcançar.
Afrodite começou a cantarolar a música. Kanon e Milo sorriram com melancolia e suspiraram. O escorpiano apoiou a cabeça no ombro do geminiano enquanto mirava o sueco cantar.
Deus não existe,
Mas se ele existisse, eu sempre o notaria.
Se preparando em seu quarto aéreo.
Ele está escolhendo suas luvas tão brutalmente.
Ele quer me tocar.
Afrodite se ergueu e começou a dançar, continuando a cantar.
Estou andando humildemente por uma rua estreita.
Puxando meu colarinho que cresce.
Eu o conheci uma vez.
Realmente me surpreendeu.
Ele me colocou em uma banheira.
Me deixou melodicamente limpo. realmente limpo.
Kanon e Milo começaram a bater palmas enquanto Afrodite cantava cada vez mais alto e mais empolgado vez por outra bebericando a cerveja, fechando os olhos totalmente entregue a melodia.
Para criar um universo você precisa
Provar o fruto proibido.
Ele disse oi. eu disse oi. eu continuei limpo.
Deus não existe.
mas se ele existisse ele gostaria de descer daquela nuvem.
Primeiro dedos de marzipan do que mãos de mármore.
Mais silencioso do que o silêncio e mais lento que a lentidão.
Mergulhando em minha direção. Meu colarinho é sala imensa para duas mãos, elas começam no peito e se movem lentamente para baixo.
Kanon se ergueu e envolveu o sueco pela cintura, as mãos se mexendo na mesma direção dita pela música, cantando e dançando com ele, Afrodite riu com prazer, deixando os dedos do grego escorregarem por seu corpo. Não demorou muito para Milo se erguer também. Eram três loucos dançando na praia numa noite fria.
Ele disse oi. Eu disse oi. Eu continuei limpo. Eu estava melodicamente limpo. Eu estava surpreso.
Do mesmo jeito que você iria ficar.
Eles continuaram a dançar e cantar até que os três ergueram as mãos para os céus, vendo os relâmpagos que começavam a clarear a noite e gritaram a todo pulmão:
Deus, Deus. Ele não existe. Deus Deus!
Os três se abraçaram ainda repetindo: Deus não existe! Deus não existe!
Kanon e Afrodite se beijaram, lágrimas desciam dos três belos rostos naquela praia. O geminiano deixou os lábios do sueco para puxar Milo pra si e beijá-lo também. O escorpiano não opôs resistência. Logo os lábios dos três se reversavam em beijos cada vez mais sôfregos.
- Prometam-me que nenhum de nós ficará sozinho de novo? – pediu Kanon num sussurro para logo voltar a beijar Milo. Os outros dois assentiram com a cabeça. Abraçaram-se os três com força e carinho, fincando aquela promessa.
-Meu irmão, meu pecado-
Já era alta madrugada. Saga e Camus passaram toda a noite procurando por Kanon, mas não o encontraram. Estavam exaustos. Saga mais que tudo estava perdido e arrependido por ter sido manipulado daquela forma por Adamantina e o tal Alex. Imaginava o que o irmão estaria sentindo. Imaginava tantas coisas! Kanon sozinho, triste e abandonado como na infância, vítima de abusos de tantas pessoas. Deus! Como pode ser tão fraco? Como pode abandoná-lo naquele momento? Como pudera duvidar de tudo que viveram, de tudo que sentiam?
"O que acontecer será toda minha responsabilidade..." Murmurou pra si. Camus que seguia com ele o mirou de lado.
- Não pensei assim, Saga, o Kanon é adulto, ele está bem. – disse o ruivo.
- Eu sei, mas... será que ele irá me perdoar, Camus? Perdoar por ter duvidado dele? – indagou angustiado.
- Claro que sim. Quem ama de verdade sempre perdoa. – o francês foi firme e sorriu afagando rudemente os cabelos molhados de orvalho do amigo.
Caminharam durante mais um tempo calado, ambos estavam angustiados, embora Camus não demonstrasse isso em seu semblante.
- Milo terminou comigo. – disse da mesma forma fria.
Saga ergueu os olhos para encará-lo.
- Por causa da viagem?
- Sim. Ele... aquele idiota disse que não quer ser um peso em minha vida, como se... como se houvesse vida pra mim sem ele, Saga!
- Ah, Camus... eu... eu sinto muito...
- O Milo é teimoso. Ele queria que eu desistisse da Sorbonne, mas... – o ruivo encarou o amigo – Desistir de ir para a França seria desistir de todos meus sonhos, Saga, isso seria justo?
O geminiano engoliu em seco. Desistira de todos seus sonhos por Kanon, para depois abandoná-lo na primeira dificuldade.
- Não, Camus, não é justo. Mas se vocês se amam têm que chegar a uma solução...
- Saga, você conhece o Milo, com ele é oito ou oitenta! – suspirou o francês com angústia – Já me decidi...
- E o que decidiu?
- Desistirei da Sorbonne...
- Camus...
- Milo é mais importante, não tenho dúvidas disso.
-Meu irmão, meu pecado-
Estavam na casa de Milo, sozinhos. Seus pais não estavam mais uma vez. Os três estavam envoltos nos lençóis e viam o dia amanhecer pela janela.
- Vocês gostariam se sumir comigo pelo mundo? – perguntou Afrodite – Sei que parece loucura, mas é o que tenho vontade de fazer. Por enquanto tenho acesso total a minha conta onde há uma boa quantia, pretendo sacar tudo e desaparecer, mas... seria mais interessante se fizesse isso acompanhado...
Milo suspirou e se aninhou no peito do sueco que lhe afagou os cabelos.
- Não vejo muito sentindo em nada sem o Camus... – confessou – Mas... sei lá, também estou meio a fim de desaparecer...
- E você, Kanon?
- Ainda não sei o que pensar e nem quero pensar em nada agora, Dite... – beijou as costas nuas do pisciano.
Afrodite o puxou mais pra si pelo pescoço enquanto Milo se aninhava mais contra seu corpo formando um delicioso sanduíche cujo sueco era o recheio.
- Bem ou mal, temos que chegar a uma solução ou... morrer de vez...
-Meu irmão, meu pecado-
Camus tocou a campainha insistentemente até ouvir os praguejo do namorado ou ex-namorado. Ele resolvera passar na casa de Milo, pois, além de estar cansado e ser o lugar mais próximo onde poderia descansar um pouco, também queria conversar com o loiro.
Milo abriu a porta e parou estático ao encontrar o ruivo. Estava enrolado numa toalha pela cintura. Camus percebeu que ele ficou mais branco que vela ao encará-lo e ergueu uma sobrancelha.
- Camus... eu... – gaguejou e empalideceu mais ainda ao perceber que o francês não estava sozinho – Saga!
- Oi, Milo, desculpe a hora, mas o Camus precisa falar com você. – sorriu o geminiano percebendo o constrangimento dos dois e tentando ajudar, já que de certa forma, fora ele quem convenceu o amigo a procurar o ex. – Estamos exaustos, podemos entrar? Sei que seus pais não estão...
Milo não sabia o que fazer, era como se caísse num abismo sem nenhum lugar para se agarrar. Camus percebia isso claramente e notava o corpo marcado por unhas do amado.
- Quem está aí, Milo? – indagou entre dentes – Não precisa mentir, afinal terminamos esqueceu? Só não achei que fosse encontrar outro tão rápido.
- Não foi isso, Camus... – começou aflito – Eu... foi só... solidão, não teve importância...
- Cale-se por Deus! – volveu o francês com desprezo sentindo-se partido – Eu que nunca tive importância pra você!
- Não é verdade! – gritou Milo segurando o braço do amado e impedindo que ele prosseguisse – Eu o amo, Camus, é você que prefere Paris a mim!
- Milo, não seja egoísta! – irritou-se Saga – O Camus veio aqui exatamente para dizer que desistiria da Sorbonne por você e... e você está com outro?
- Merda! Foi só uma noite! – bradou Milo se sentindo minúsculo – Que importância tem isso se eu te amo, Camus?
Saga se intrometeria novamente a favor do ruivo se passos na escada não lhe chamassem a atenção. Seu rosto se tornou branco tal qual o de Camus quando ele viu as pessoas que desciam as escadas.
Seus olhos verdes se prenderam nos verdes de Kanon e ele teve vontade de gritar. Kanon parou no meio da escada chocado, impedindo a passagem de Afrodite que vinha abraçado a sua cintura. Ambos vestiam apenas as calças e miravam, pálidos, o gêmeo mais velho.
- Saga...
A voz de Kanon chamou a atenção do francês que ainda não tinha se dado conta da presença do irmão do amigo. O ruivo encarou o namorado com tanta mágoa que Milo estremeceu.
- Muito bem, Milo, assim você conseguiu atingir a mim e ao Saga com um único golpe! – disse e se afastou rápido para longe dali.
- Não, Camus! – Milo tentou prosseguir, mas rapidamente Kanon o deteve, segurando-lhe o braço.
- Não adianta falar com ele agora. – disse firme.
- Mas, Kanon, ele... ele entendeu tudo errado! – disse Milo desesperado – Preciso ir atrás dele!
O loiro saiu correndo atrás de Camus. Kanon encarou o irmão e engoliu em seco, o rosto de Saga estava branco e seus olhos cheios de lágrimas.
- Não é o que está pensando, Saga... Por favor, acredite em mim... – pediu o gêmeo mais novo desesperado – Por favor, me ouça...
- Não... – murmurou o mais velho, as lágrimas finalmente descendo por seu rosto – Nunca mais...
Saga afastou, mas ao contrário do amigo, seus passos eram muito devagar, seu coração estava pesado e doía como nunca. Não conseguia nem mesmo reagir, nem mesmo olhar para Kanon.
Sem querer te perdi tentando te encontrar
por te amar demais sofri, amor
me senti traído e traidor
Saiu da propriedade dos Seferis e quando chegou à estrada correu feito um louco, nem sabendo para onde estava indo. Fora estúpido! Estúpido por acreditar que Kanon o amava, por acreditar que ele não era o monstro dito por sua mãe e por aquele homem.
- Saga!
Ele se virou ao ouvir a voz do outro. Kanon se aproximou rápido com a moto e a jogou de qualquer forma no chão, correndo até o mais velho.
- Saga, me perdoe... – pediu atormentado.
Um soco o atingiu e ele caiu na rua de barro. Kanon se ergueu novamente, vendo Saga se afastar com os punhos crispados. Correu novamente até ele o puxando pelo braço e em resposta levou outro soco que partiu seu nariz. Ele caiu de joelho com a mão no rosto.
- Saga, por favor...
- Sai daqui, Kanon! Ou eu vou matá-lo! – grunhiu o mais velho irado.
- Então mata, mas por favor, me escuta! – Kanon chorava muito – Eu amo você, amo você, não me abandona!
Ele voltou a se aproximar e se agarrou as pernas do irmão. Saga o empurrou e o socou novamente com mais violência, totalmente fora de si. Sua vontade era mesmo matar Kanon.
- Eu o odeio, o odeio! – gritava enquanto batia e as lágrimas caíam sobre o irmão. Kanon não reagia, não tinha forças para isso. Percebendo isso Saga parou, caindo de joelhos também, chorando convulsivamente, enquanto o irmão cobria o rosto também soluçando.
Fui cruel sem saber que entre o bem e o mal
Deus criou um laço forte, um nó
e quem viverá um lado só?
Kanon limpou o sangue do rosto com as costas da mão ouvindo o irmão soluçar desolado, se ergueu com dificuldade, tentando tocá-lo novamente, mas Saga se desvencilhou de seus braços.
- Deus! – exclamou o futuro padre mirando o rosto do irmão, seus olhos demonstravam toda a dor de sua alma – O que eu me tornei?
As lágrimas desceram mais abundantes pelos olhos de Kanon. Ele cerrou-o com toda sua força.
- Não, Saga... – murmurou dolorosamente – Veja o que eu o tornei...
O mais velho se ergueu e voltou a caminhar, dessa vez o irmão não o seguiu, Kanon ficou no mesmo lugar só o observando partir. Era a única coisa que podia fazer. Sentia-se tão sujo e tão indigno que não se achava no direito de tocar o irmão. Não sabia ele que ficaria sem ver Saga por 15 longos anos.
Hoje vai pra nunca mais voltar
como faz o velho pescador quando sabe que é a vez do mar
Qual de nós
foi buscar o que já viu partir, quis gritar, mas segurou a voz,
quis chorar, mas conseguiu sorrir?
Saga chegou à casa algumas horas depois e foi para o quarto onde fez suas malas e tomou um banho rápido, não tinha tempo a perder. Aprontou-se rápido, pegando as malas e descendo as escadas com as passagens que já estavam há muito compradas.
Adamantina estava na sala e se ergueu do sofá quando viu o filho. Sorriu.
- Ah, meu amor, tomaste a decisão certa...
O olhar que Saga lhe lançou foi de tanta mágoa que ela estremeceu.
- Certa vez disseste que só tinha um filho. – proferiu Saga – A partir de hoje, considere-me morto também, porque pra mim você está morta.
Não deixou que a mulher lhe respondesse. Saiu da casa e andou alguns metros até chegar à igreja. O padre estava na sacristia quando ele entrou.
- Padre Nestor – cumprimentou -, eu já estou pronto para ir, poderia chamar um táxi para me levar?
O velho sacerdote o mirou boquiaberto, poderia ver claramente a comoção do mais jovem embora ele tentasse escondê-la.
- Saga, para certas decisões não há volta...
- Estou cônscio disso, padre. – disse com convicção. O sacerdote apenas assentiu com a cabeça e fez o que ele pediu. Em menos de uma hora, Saga tomou um avião para o Vaticano. A partir dali, resolveu deixar todas as suas dores e mágoas para trás, colocou uma pedra sobre todo o seu passado e escondeu seu amor por Kanon na parte mais abissal de sua alma.
A paixão veio assim afluente sem fim
Rio que não deságua
Aprendi com a dor nada mais é o amor
Que o encontro das águas
Quem eu sou
Pra querer
Entender
O amor
Continua...
Notas finais: Desculpem-me o capítulo gigante, mas precisava colocar todos os acontecimentos num capítulo só, ou não teriam o mesmo impacto, eu acho o/
Bem, creio que esse seja o penúltimo capítulo e foi doloroso escrevê-lo, mesmo porque a história já existia em minha mente, mas colocá-la no papel foi um parto.
Beijos afetuosos a todos que me acompanharam até aqui:
jessica_ramos, Arcueid, Keronekoi, spencer_3939, Mefram_Maru, Vagabond, Maah_Rossi, milaangelica, Maya Amamiya, Kamy_Jaganshi, Ryou-sama.
Obrigada as minhas mega migas Vagabond e Arcueid (minha pêra e minha maçã) pelas recomendações carinhosas.
Abraços aos silenciosos, mas espero que se manifestem pelo menos no final XD!
E caso não poste antes das datas festivas, Feliz natal e um ótimo ano novo para todos os leitores de "Meu irmão, meu pecado".
Sion Neblina
Postada em 15/12/2010
