Almas gêmeas

Capítulo 10

Itália 15 anos depois.

- Depois que você me deixou sozinho naquela estrada, eu voltei para a casa e encontrei sua mãe chorando sozinha, mas isso não me incomodou. Peguei minhas coisas e sair sem saber para onde... Minha vontade era morrer...

Saga e Kanon estavam sentados em bancos de pedra nos fundo da igreja. O gêmeo mais jovem fumava tranquilamente sem olhar para o irmão que também não o mirava diretamente. Mas vez por outra, um podia sentir os olhos do outro sobre si.

- E por que não morreu? – infelizmente Saga não conseguiu deter a ironia que permeava cada frase depois de 15 anos, denunciando a mágoa que permaneceu.

- Afrodite. – disse tragando e soltando a fumaça não se incomodando com a pergunta desaforada, depois encarando o mais velho – Ele me salvou.

Saga engoliu em seco; anos e ainda não conseguia ser indiferente àquela história. Ainda magoava, ainda doía.

O sacerdote suspirou pesadamente e encarou o irmão; não era mais um garoto de 20 anos, aquela história teria que ser resolvida definitivamente. Durante anos escondera sua dor sob o tapete, na entranha mais abissal do seu ser, fugira; fugira de tudo que pudesse lembrar seu passado, mas ele finalmente lhe bateu a porta.

- Por que, Kanon? Por que me traiu? – não conseguiu evitar a pergunta por mais humilhante que fosse. A pergunta que não conseguira fazer no passado, que não tivera coragem. Deus! Precisara de 15 anos para ter coragem de olhar nos olhos do irmão novamente, olhar pra ele e fazer aquela pergunta.

Kanon tragou o cigarro pela última vez antes de jogar longe e suspirar pesadamente.

- Eu nunca o traí, Saga. – disse – Aquilo foi corpo, não foi alma. Meu envolvimento com Milo e Afrodite depois foi devido a sua rejeição.

- Envolvimento? – Saga riu – Então vocês ficaram juntos mesmo!

- Sim, por 8 longos e prazerosos anos. – Kanon disse e prestou atenção a reação do irmão, mas Saga não pareceu ter nenhuma. Sentiu-se mal com a possibilidade do gêmeo mais velho tê-lo esquecido totalmente, entretanto, sabia que aquilo era o mais provável, ambos tomaram rumos diferentes em suas vidas e ele teve que aceitar aquilo da pior forma. Durante muito tempo doeu demais, mas depois o arqueólogo foi se acostumando com a ausência do amado. Era como se Saga houvesse se tornado algo vital dentro de si, mas que não poderia nunca tocar, como um ícone. E ele o manteve assim por todo aquele tempo.

- Não pense que foi fácil. – resolveu explicar – Durante meses eu chorava todas as noites e acho que teria me matado se não fosse o Dite; ele me ajudou muito. Até fiz terapia sabia?

Saga não pode evitar o riso pensando em Kanon deitado num divã, e isso fez o outro rir também.

- Sério! Paguei algo em torno de $ 20.000,00 para hoje poder me considerar inocente de tudo que vivi. Um preço justo, não? – sorriu, aquele sorriso que sempre deixava o irmão bobo. Saga desviou o olhar extirpando esses pensamentos. Kanon não mudara muito, o rosto, os cabelos eram os mesmos. Estava um pouco mais velho, mais forte, seu rosto mostrava mais segurança e experiência, estava ainda mais bonito, a pele muito bronzeada, demonstrando claramente a vida intensa e ao ar livre que levava.

- Espero que tenha exorcizado todos seus demônios. – disse o monsenhor em fim – E o Afrodite, onde ele está?

Não era a pergunta que queria fazer, não era o que queria dizer ao irmão. Havia tantas coisas para falar a Kanon, dizer que o perdoava, que o amava fraternalmente, que queria que ele estivesse bem. Quantas vezes durante aqueles anos não sonhara em reencontrá-lo? Tantas que já nem sabia. Contudo, a coragem sempre lhe faltara, na verdade, sempre soubera que seria o outro a dar tal passo. Ele sempre fora o mais corajoso.

- Não sei, ele sempre gostou muito de viajar e não para em endereço fixo, mas sei que comprou há pouco tempo um apartamento em Paris.

- Por que vocês se separaram?

- Ele se apaixonou por outro. – sorriu Kanon – E eu nunca ficaria no caminho da felicidade dele... – mirou Saga mais profundamente – Nem de ninguém...

O padre baixou o olhar para as próprias mãos e sorriu com o canto dos lábios.

- Nunca fomos apaixonados, Saga. – explicou o arqueólogo – Sempre fomos grandes amigos que dividiam a cama.

O padre engoliu em seco e respirou fundo:

- Nossas vidas seguiram rumos totalmente distintos como deveria ser. – disse tentando não se entregar a emoção – Eu... eu sinto muito por tudo que teve que passar, Kanon...

- Do que está falando exatamente? – o mais jovem pareceu confuso.

Saga o encarou.

- Eu não me perdôo pelo que fiz da última vez que nos encontramos. Eu me descontrolei como nunca, eu deveria tê-lo ouvido...

- Deveria mesmo, Saga? – um sorriso cínico se estampou no rosto do arqueólogo – Se isso tivesse acontecido era provável que não estivesse aqui...

- Eu sei, mas sei também que não seria necessário você ter se abalado até aqui também. – explicou condoído.

Kanon puxou outro cigarro do maço.

- Molise é bonita. – disse - Não vim aqui para nenhum acerto de contas, mano, e nem para perturbá-lo. – observou enquanto acendia o cigarro com o isqueiro - Em falar nisso: Cástor? Não entendi...

- Durante muito tempo não quis ser encontrado. – confessou o sacerdote.

- Sim, mudar de nome foi uma boa tática. – tragou Kanon.

Um silêncio melancólico se estabeleceu entre eles por um tempo. A brisa cálida do verão italiano brincava com seus cabelos.

- Você me parece muito bem. – tornou Saga querendo quebrar aquele silêncio incomodo – Kanon, eu gostaria de saber uma coisa...

- O quê?

- Camus e Milo. Eu até tentei manter contato com o Camus, mas não consegui. Cheguei a ir a Sorbonne procurá-lo, isso uns dois anos depois que deixei Corinto, mas não o localizei. Sabe o que aconteceu a eles?

Kanon suspirou e sorriu.

- O Camus foi para Paris, e o Milo seguiu comigo e o Afrodite por alguns meses, mas estava muito deprimido. Ele brigou com toda a família para poder viajar conosco e não estava nada bem. Então, Afrodite e eu combinamos de ficar um tempo na cidade luz e localizamos o Camus. Providenciamos o reencontro dos dois, e eles se entenderam, isso depois de alguns meses. Hoje eles moram em Paris, onde sempre passamos o natal, e o ruivo e eu até nos tornamos bons amigos.

Saga sorriu verdadeiramente feliz por tudo ter dado certo para eles.

- Não imagino você e o Camus amigos. – riu.

- Ora, os opostos se atraem! – riu também Kanon e mais uma vez caíram no silêncio vazio.

- E você onde está morando? – indagou o padre puxando assunto.

- Em Nova York no momento, mas estou sempre em um lugar diferente, estou aproveitando a vida de solteiro! – riu sem jeito – Tudo bem, o Camus, o Milo e o próprio Dite dizem que já estou aproveitando há tempo demais, afinal são 7 anos! – suspirou – Deus, como o tempo passa rápido...

Saga deixou um sorriso amargo escapar dos seus lábios. Ao contrário do que o tempo significou para o irmão, o seu passou muito lentamente, numa repetição de dias intermináveis desde que se ordenou.

- Fico feliz que vocês tenham se tornado tão próximos, durante anos me torturei por não ter cumprido a promessa que lhe fiz...

Os olhos verdes do mais novo se fixaram nos iguais a sua frente.

- Que promessa?

- Eu disse que nunca o deixaria sozinho. – a resposta de Saga foi quase um murmúrio – O... o que aconteceu não deveria quebrar essa promessa. Antes de tudo, antes de qualquer coisa ou sentimento, você é meu irmão...

- Eu entendo sua mágoa. Eu sempre fui um filho da puta de um insensível mesmo, Saga. Pra mim sexo sempre foi sexo, nada tinha a ver com sentimentos.

Ambos baixaram o olhar depois daquelas palavras. Dor... Vazio... Culpa.

- Fico feliz por, de uma forma estranha, Camus, Milo e Afrodite terem cumprindo o que era minha obrigação. – dizer aquilo foi doloroso, mas o padre tentava se manter firme – Fico feliz por você ter conseguido uma família inusitada, mas que o ama...

- Foi você quem os trouxe pra mim, Saga. – o mais novo disse com certa emoção – Eu lhe disse certa vez que minha vida só teve significado depois que o conheci e isso não mudou.

O padre corou e baixou o olhar com um sorriso encabulado.

- Não seja bobo... – resmungou.

- Você continua igualzinho. – o sorriso de Kanon se alargou – Tão tímido... tão... perfeitamente puro...

Saga ergueu os olhos para os dele.

- Não, Kanon, há muito não sou aquele garoto que conheceu; inocente e disposto a deixar tudo por você; tudo, para seguir um amor proibido, para se entregar de corpo e alma a algo completamente transitório...

Uma lágrima se derramou pelo rosto do padre e ele a limpou com mãos nervosas.

- Por que está aqui, Kanon? Por que resolveu me procurar depois de tanto tempo? – interrogou perturbado. Pensou que seria difícil rever a única pessoa que amara na vida, não sabia, contudo, que seria tanto.

- Com certeza não foi para ressuscitar velhas mágoas, Saga. – suspirou o arqueólogo – Vim porque não quero que cometa o mesmo erro que eu e que me levou a dois anos de terapia...

O padre franziu as sobrancelhas.

- Do que está falando?

- Adamantina. – os lábios do arqueólogo se curvaram com amargura ao proferir o nome da progenitora – Há cerca de seis meses recebi uma ligação de um hospital de Corinto. Ela está doente, está muito mal e quer vê-lo.

Saga empalideceu e piscou aturdido.

- Há seis meses? – balbuciou – Você... como...?

- Não sei como eles conseguiram meu número, devem ter procurado na lista telefônica. Havia 10 anos que eu não ia a Atenas, mas por coincidência, estava lá para resolver alguns assuntos profissionais. Então o hospital me ligou...

Saga engoliu em seco.

- O que você fez? – indagou com medo da resposta.

- Fui até lá. – respondeu o arqueólogo soltando à fumaça do cigarro no ar – Não me pergunte o porquê, tenha certeza que se fosse há 15 anos mandaria que ela fosse enterrada viva, mas em fim, eu fui! Claro que quando me viu ela achou que fosse você...

O padre ainda estava meio pasmado.

- O...o que ela tem?

- Câncer. – Kanon respirou fundo e encarou o irmão – É terminal.

Saga fechou os olhos fortemente. Os anos não diminuíram a mágoa que sentia da mãe. Ele sabia que aquilo era um grave pecado, mas era muito mais forte que tudo, mas forte que sua fé, mas forte que todas suas convicções. No fundo de sua alma, ele sabia que a vida sacerdotal nunca lhe foi mais que uma fuga. Todavia, nunca foi capaz de superar o passado.

- Preciso que venha comigo, Saga. – continuou Kanon – Ela precisa vê-lo e ouvir que você a perdoa.

- Devo mentir? – a pergunta foi feita com grande rancor em sua voz – Devo dizer que esqueci que ela me tirou o único momento de felicidade que tive na vida?

Kanon emudeceu. Não esperava que o irmão fosse tão franco. Não esperava que depois de 15 anos, Saga conseguisse ser tão sincero consigo; tão intenso e sem reservas em relação a tudo que viveram. Esperava um padre austero e frio, lhe dizendo que deveria esquecer o passado, que tudo fora pecados da sua juventude e que ele estava muito consciente e seguro de sua fé. Todavia, a vida nem sempre é como gostaríamos que fosse; e ali estava Saga, derramando suas mágoas e dores sobre ele sem nenhuma reserva.

- Eu sinto muito... – foi a única coisa que conseguiu balbuciar antes de cair num pesado silêncio.

Saga se empertigou e inspirou profundamente olhando para o céu claro de domingo.

- Não sinto que tenha forças para isso, Kanon. Você sempre foi mais corajoso que eu...

- Eu fui injusto e rancoroso uma vez, Saga. Meu pai morreu achando que eu o odiava. Não deixe o mesmo acontecer a você ou se culpará por toda a vida.

- Nunca me culpei. – volveu o monsenhor – Ela... Aquela mulher tirou tudo de mim, tirou você de mim...

O arqueólogo encarou o irmão e sorriu com certa amargura.

- Não, Saga. Ninguém nunca conseguiria me tirar de você, a não ser você mesmo. Foi você que partiu sem me perdoar por uma bobagem de uma noite. – Kanon suspirou e virou-se para esconder que seus olhos se umedeceram. A história deles era tão dolorosa. – O Camus me disse uma vez que quem ama sempre perdoa, mas sei que com 20 anos isso não é tão fácil.

Saga não sabia o que dizer. Sentia-se tão pequeno, tão medíocre perto de Kanon. O irmão sofrera tanto, muito mais que ele e era uma pessoa tão melhor.

Sentiu as lágrimas descerem por seu rosto e não fez questão de escondê-las mais. Era doloroso entender em fim aquela verdade. Não fora Adamantina, não fora Milo e Afrodite, não fora Kanon. Ele! Ele, Saga Vaskália, ele sim havia roubado o irmão de si. Seu orgulho, seu medo, sua incapacidade de entender alguém que estava solitário e vazio e que apenas procurou um pouco de conforto. Um conforto que ele foi incapaz de oferecer.

Kanon fumava de costas para o irmão. Preso em sua própria comoção interna. Não conseguia mais se enganar. Por anos pensava que o que o amarrava a Saga era certa mágoa e amor de irmão que, sabia, seria imortal. Mas agora, olhando para ele, vendo-o sofrer tanto, vendo as dores tão intensas que ele cultivou durante todo aquele tempo, a certeza de que ainda o amava profundamente como homem o invadia de forma avassaladora.

Virou-se para o padre e piscou aturdido ao perceber que ele chorava.

- Saga...

- Perdoe-me, Kanon, eu fui um covarde... – soluçou o mais velho.

- Não, Saga...

- Sim! Eu fugi, fugi porque tive medo, fui fraco e egoísta, não pensei nem por um momento em seus sentimentos.

O arqueólogo não sabia o que dizer. Aproximou-se do irmão e segurou-lhe a mão. O toque lhe levou uma espécie de choque elétrico, mas preferiu ignorar, puxou o padre para que ficasse de pé. Saga baixou o olhar. Estava muito abalado e não sabia o que dizer e nem como reagir perante o irmão.

- O que foi feito está feito. – disse o mais novo – Não vim aqui para torturá-lo e nem acusá-lo de nada. Vim porque realmente não quero que Adamantina morra sem que tenha recebido seu perdão e não vim aqui por ela, Saga, mas por você.

O sacerdote assentiu com a cabeça, ainda sem olhar o irmão.

- Onde você está hospedado? – perguntou, tirando a mão das de Kanon e enxugando o próprio rosto.

- Em um hotelzinho na vila, um lugar muito aconchegante, mas estou voltando hoje ainda para a Grécia. – informou o gêmeo mais novo – Ficaria feliz se voltasse comigo.

- Sim, eu irei. – concordou Saga – Obrigado, Kanon.

- Ok. – respondeu o arqueólogo – Eu tenho que ir.

- Tem?

Os olhos dos gêmeos se encontraram. Saga corou com a própria vontade – necessidade – de ter o irmão mais um pouco próximo a si.

- O que acha de almoçarmos juntos? – sugeriu Kanon meio ressabiado.

O padre não conseguiu conter o sorriso. Queria ter certeza que Kanon não mantinha mágoas de si.

- Ótimo. Eu... bem, hoje eu não tenho muitos compromissos. – explicou o sacerdote – É só o tempo de enviar um e-mail a arquidiocese para falar da viagem a Corinto e podemos ir.

- É cedo para almoçar. – tornou Kanon sorrindo também – Podíamos ir a um bar restaurante, conversar um pouco como a Marin gosta de dizer: "botar a fofoca em dia". – riu gostosamente e Saga riu também.

- Quem é a Marin?

- Esposa de Aiolia. – explicou o mais novo – Esqueci de falar que mantenho contato com ele e o Aioros também.

Saga sentiu o peito apertar. De uma forma bem estranha o irmão roubara sua vida, mas não se sentia mal com isso, na verdade, sentia um pouco de alívio com aquilo.

- Espere-me aqui, eu já volto. – o sacerdote se afastou em direção a casa paroquial. Sentou-se a frente do computador e mandou rapidamente um e-mail à arquidiocese explicando os motivos de sua viagem. Tomou um banho rápido e saiu minutos depois. Kanon estava sentado distraído no banco; quando o viu, sorriu e engoliu em seco. Saga, vestido numa calça jeans e camisa simples branca, era a real imagem do que fora há vinte anos. Ali, agora, não estava o monsenhor Saga Cástor, estava seu Saga, seu irmão, seu amado, a pessoa que mudara e salvara sua vida, mesmo que não soubesse.

- Demorei? – indagou o gêmeo mais velho enquanto prendia os cabelos com um elástico, coisa que não fez no quarto achando que demoraria mais. Não podia negar sua própria ansiedade.

- Não. – sorriu o mais jovem sem jeito, aspirando o perfume cítrico e másculo que ele usava. – Eu esperaria o quanto fosse necessário.

Saga sorriu e ruborizou, mesmo sem entender as palavras do irmão. Kanon acompanhou o padre até o carro da paróquia, eles entraram, e Saga dirigiu para o centro de Campobasso onde havia vários bares e restaurantes aconchegantes. Escolheram um sobrado com uma bela vista e que servia frutos do mar.

Os olhares das pessoas os seguiam sem discrição. O padre já era meio que uma celebridade na pequena cidade, e por sua beleza e poste atlético era impossível não ser notado numa cidade que a maior parte da população era idosa. Contudo, vê-lo ao lado de uma espécie de clone seu era ainda mais perturbador.

Sentaram-se próximo a sacada onde tinham uma ampla visão do mediterrâneo e a brisa fresca e maresca chegava até eles. Kanon pediu frutos do mar, e Saga um peixe assado com legumes. Fizeram uma refeição agradável. Momentaneamente esqueceram o passado. Falaram de todo tipo de assunto: futebol, política, viagens e principalmente sobre os amigos. Saga queria notícias de Aioros. Kanon lhe informou que o sagitariano estava morando em Madri, casado e muito bem casado com um espanhol invocado, como ele gostava de dizer, chamado Shura. Informou ao mais velho também que era provável que todos passassem o natal juntos com ele em Nova York. Seria a primeira vez, geralmente as festas eram passadas na casa de Camus e Milo em Paris.

Saga sentia uma sensação estranha. Era como se aquilo o pertencesse, mas como se ele houvesse se perdido no meio do caminho...

Era um sentimento paradoxal; de um lado, sentia um alívio enorme por Kanon ter finalmente encontrado pessoas que o amavam e que cuidaram dele; por outro sentia um ciúme doentio de tudo aquilo, era meio como se o irmão houvesse roubado sua vida.

- Eles sempre estiveram lá, Saga, ao seu alcance, o esperando no momento que quisesse voltar.

A voz de Kanon interrompeu seus pensamentos, era como se ele o lesse como um livro impresso em letras garrafais.

- Eu sei. – suspirou Saga – Afinal fui eu a ir embora sem me despedir de ninguém.

O gêmeo mais novo levou sua taça de vinho aos lábios sorvendo devagar.

- Todos entenderam, tenha certeza. Eles têm saudade e não mágoa.

- E você, Kanon? – Saga fitou o irmão nos olhos – O que sente de verdade?

O mais novo sorriu cínico sem desviar o olhar enquanto saboreava o vinho.

- Muita vontade de beijá-lo, mano... – confessou – Todavia, sou esperto o suficiente para saber que nosso tempo passou.

Saga engoliu em seco e um leve rubor cobriu sua face com a declaração do outro, assim como uma negra amargura cobriu seu coração.

O tempo definitivamente havia passado para os dois.

Terminaram a refeição e ficaram conversando ainda algumas horas antes de abandonarem o restaurante. Saga viu-se obrigado a apresentar o irmão a alguns curiosos mais entusiasmados. Kanon fora simpático com todos, embora o irmão percebesse que os anos havia lhe dado um ar mais austero e reservado. Definitivamente ele não era o rapaz extrovertido e risonho do passado.

Fizeram ainda um passeio pela cidade. Mais uma vez, esqueceram o passado e tudo que se referia ao que foi vivido em Corinto. Campobasso era uma bela cidade, cheia de prédios e igrejas históricas e isso para um arqueólogo era a primeira maravilha do mundo.

Já passava das três da tarde quando retornaram a casa que Saga ocupava. Era uma casa simples que ficava nos fundos da igreja. O sacerdote convidou o irmão a entrar enquanto arrumava uma pequena mala. Não esperava demorar muito tempo em Corinto, na verdade, ainda estava em dúvida se queria mesmo voltar àquele lugar.

- Podemos pegar o voo da meia noite, o que acha?

- Primeiro temos que ir a Roma de trem. – explicou Saga jogando algumas roupas de qualquer forma na mala.

- Certo, eu... – Kanon suspirou – Eu vou fechar a conta no hotel e nos encontramos daqui a meia hora o que acha?

- Perfeito. – respondeu seco, sentindo um clima incomodo entre os dois desde que chegaram e a viajem a Corinto se mostrou mais concreta.

Kanon saiu e Saga foi tomar um banho. Jogou-se sob a água fria, molhando os cabelos. Sua mente estava em um turbilhão de lembranças e sentimentos...

...Abriu mais as pernas e fechou os olhos, jogando a cabeça para trás. Sentindo o amante entrar mais fundo em si. Gemeu mais forte, começando a rebolar lentamente, o corpo querendo mais contato, mais prazer, a dor cedendo ao prazer selvagem que brotava em seu corpo. Apertou o corpo de Kanon segurando-o pelas nádegas, cravando as unhas nela de forma ardente e possessiva; ouvindo o irmão grunhir de prazer enquanto se arremetia cada vez mais forte contra si; Saga era completamente dominado por aquele inédito sentimento contraditório de desespero, dor e prazer enquanto seu corpo bailava ao ritmo de Kanon. Sentiu uma vertigem, foi como se tudo a sua volta se desfizesse, antes de ele se derramar contra o abdômen do irmão se contraindo e o guiando, com um grito extasiado, também ao orgasmo.

O padre esfregou o rosto fortemente para se livrar daqueles pensamentos pecaminosos do seu passado. "Pecado nefando" era assim que muitos se refeririam ao seu envolvimento com Kanon e ainda havia o incesto! Deus! Aquilo nunca estivera longe de si, nada ficou pra trás, era apenas negação...

Voltou para o quarto onde se enxugou e vestiu o terno negro. Não soube por que achou estranho ao colocar o clergyman preso ao colarinho. Fechou os olhos e fez uma rápida oração para que aquela sensação passasse. Era como se a identificação de sua consagração ao sacerdócio fosse uma pedra que o amarrava.

Prendeu os cabelos e se olhou no espelho com um sorriso irônico. Havia cortado-os bem baixos nos primeiros anos de sacerdócio, tanto pela austeridade da igreja quanto para não se lembrar de Kanon cada vez que se olhava no espelho (como se isso fosse possível),mas nos últimos anos os deixara crescer novamente. Como estava numa região mais remota e menos rígida não se preocupara muito com isso e agora as madeixas já estavam quase em sua cintura como no passado.

Horas depois dentro de um trem para Roma, ele ria por Kanon lhe dizer que fizera exatamente o mesmo, cortara e deixara os cabelos crescer por diversas vezes e o cortara com o mesmo intuito.

O padre não esperava que a relação entre eles se restabelecesse com tanta naturalidade. Sim, havia os momentos de silêncio incômodo e de sorrisos amargos, mas a maior parte do tempo era prazeroso e leve, muito leve estar com o irmão. Compreendiam que não eram apenas irmãos gêmeos, eram irmãos de almas e almas gêmeas.

Kanon agora era um homem seguro, sério, muito bem resolvido e que não perdia tempo remoendo dores antigas. Saga se dava conta cada vez com mais pesar de que o antigo sentimento do irmão evoluíra para um saudosismo saudável e que, agora, ele não passava de seu irmão. Mesmo com a declaração no restaurante. Declaração essa que ele fez questão de dizer a Kanon que foi descarada, fazendo-o rir. O que existiu entre eles no passado não poderia ser resgatado no presente.

Uma leve amargura bailou por seu espírito ao pensar nisso. Mesmo porque, naquele emaranhado de sentimentos intensos que vivenciava na presença do gêmeo mais jovem, ainda não conseguira identificar quais eram os seus e isso o inquietava, por mais que exteriormente estivesse tranqüilo.

Já era noite quando chegaram a Roma e foram direto para o aeroporto. Kanon já havia comprado as passagens.

- Como sempre impulsivo! Nada lhe garantia que eu aceitaria ir contigo! – comentara Saga quando o arqueólogo lhe informara que as duas passagens já estavam compradas.

- Eu o conheço, Saga. Conheço seu coração! – foi a resposta de Kanon.

Agora eles estavam um ao lado do outro em silêncio, dentro de um avião que chegaria a Atenas em alguns minutos. Saga sentiu a tensão em seu corpo crescer ao notar a proximidade das luzes da cidade. Estavam próximos do natal e a capital grega estava iluminada por luzes e decorada para o advento. Imaginava como estaria Corinto, a cidade mais católica da Grécia. Suspirou com amargura enquanto ouvia a comissária de bordo informar que o veiculo pousariam em alguns minutos.

Sentiu a mão de Kanon sobre a sua, e ergueu os olhos, encontrando o sorriso do irmão.

- Vai dar tudo certo. – ele disse.

- Sim. – respondeu Saga e respirou profundamente.

Estavam muito cansados, mas não quiseram esperar até o dia seguinte para ir a Corinto. O mais velho disse que se tinha que fazer aquilo que fizesse logo.

Alugaram um carro e seguiram para a cidade natal da mesma forma que deixaram o aeroporto; famintos e cansados. Chegaram ao hospital já passava das 11h00min da noite. Saga esperava pacientemente na recepção enquanto Kanon conversava com um dos médicos. Por um medo infantil, não quis participar da conversa, tinha medo de escutar que Adamantina já estava morta...

Adamantina! Tantos anos e ainda não conseguia chamá-la de mãe. Lembrava-se o quanto condenara Kanon por sua mágoa contra os pais, justo ele que tantos motivos tinha para isso!

Ele, monsenhor Saga Cástor, ruminara uma mágoa profunda por 15 anos. Hipócrita! Sempre falando de fé e perdão em suas missas; um fugitivo de si mesmo, um ser humano desprezível!

Kanon deixou o médico e se aproximou do irmão com um olhar ainda mais sério que o natural.

- Saga...

- Ela morreu? – perguntou de súbito, preparando-se para a resposta que teria.

- Não. Ainda não. – respondeu o gêmeo mais novo – Mas piorou bastante desde minha última visita. Os médicos pediram para que nos preparassem para o pior. É provável que ela não passe dessa noite...

Saga engoliu em seco.

- Vamos então... – sua voz foi um leve balbuciar e ele começou a andar em direção ao corredor branco que se seguia à frente. Contudo, a mão de Kanon segurou seu braço e ele se voltou.

- Eu preciso alertá-lo de que ela já não é a mulher altiva que conheceu. – disse o arqueólogo – Está velha, frágil e doente, então...

- Fique tranqüilo, Kanon. – interrompeu-o o padre – Eu não estou indo lá para atirar pedras e nem ruminar o passado. Como disse: o que foi feito, foi feito, acabou.

Acabou. Aquela palavra destruiu uma parte da convicção que o arqueólogo tinha até ali. Sabia que dentro de si ainda não havia acabado. Será que dentro de Saga havia?

Caminharam lado a lado até o quarto informado. Ele estava escurecido e ouvia-se o apitar de um aparelho. Um barulho fraco e entrecortado.

- Mãe... – Kanon disse se aproximando da cama.

Mãe? Saga ergueu uma sobrancelha. Aquele definitivamente não era o Kanon que conhecera. Demorou um pouco até o padre mirar aquele vestígio sobre a cama do que fora Adamantina. Vestígio? Aquilo não era nem a sombra. Engoliu em seco. A mulher era uma massa de pele e osso. Os belos cabelos negros não mais existiam sobre a cabeça e seus olhos eram baços, sem mais nenhum resquício do brilho e determinação do passado.

- Kanon... – murmurara a figura na cama – Você me perdoa, meu filho?

- Sim, eu perdôo. – Kanon já havia dito aquilo várias vezes, mas a doença parecia afetar as faculdades mentais da mãe e ela sempre que o via repetia a mesma pergunta.

- O Saga... onde está o Saga? – ela perguntou e logo começou a chorar – Você me prometeu que o traria pra mim...

O gêmeo mais novo se voltou com um olhar de súplica para o mais velho que continuava estático no meio do quarto.

- Ele está aqui, mãe. – disse sem deixar de olhar o irmão – Ela já não enxerga, Saga.

O padre sentiu seus olhos se umedecerem. A máscara de frieza e equilíbrio caiu! Toda dor, mágoa, revolta contra si próprio, contra a mãe, contra... Deus! Tudo voltou avassaladoramente em seu peito e ele deu as costas ao irmão e aquela mulher estranha na cama e saiu do quarto correndo.

Kanon o alcançou e o segurou pelos ombros.

- Saga...

- Não, Kanon! Não! Eu não consigo! – gritou o monsenhor – Está vivo demais dentro de mim, vivo demais!

- Saga, olha pra mim. – o mais jovem segurou-lhe o rosto entre as mãos – Você é mais forte que isso! Eu sei que não é fácil, eu mais que ninguém sei. Mas você é a única pessoa que pode se livrar dos seus próprios demônios, mano...

Saga respirou fundo, sentindo as lágrimas quentes molharem seu rosto. Não se lembrava da última vez que chorara. Fazia muito tempo. Nos últimos anos ele fora a visão da placidez sacerdotal; não reclamava de nada, não chorava. Agora via que não passara de um autômato todo esse tempo.

Resignado, aceitou voltar ao quarto onde estava aquela que o gerou. A mulher ainda chamava seu nome como em transe.

- Saga, Saga meu filho, fale comigo! Diga que me perdoa! – pedia Adamantina com voz fraca – Saga, você está aí, Saga?

- Estou... – murmurou engolindo o nó que se formava em sua garganta e parecia querer-lhe impossibilitar a voz e a respiração.

- Segure minha mão...

Saga se aproximou da cama e segurou a mão magra da mulher. Sua mão tremia.

- É você sim... eu conheço a sua mão. Sempre consegui diferenciá-los pelas mãos... – Adamantina sorriu – Venha, Kanon, onde você está?

- Estou aqui, mãe. – o gêmeo mais novo segurou a outra mão da mulher que deixou escapar um sorriso débil de contentamento.

- Eu sonhei, sabia? Eu sonhei que estávamos no paraíso. Vocês ainda eram meninos. Eu vestia um vestido tão branco, vocês dois também estavam de branco, e havia uma grande árvore dourada. O Tales nos esperava de braços abertos sob os galhos dourados... e corríamos pra ele...

Os gêmeos permaneceram calados. Prender a voz era a única forma de prender a emoção. A mulher apertou suas mãos mais forte.

- Vocês me perdoam? Eu sei que não há perdão para mim nos céus... Posso ver Deus apontando para mim agora... os anos de solidão e dor não foram suficientes para me limpar do que fiz, mas... Deus pode me dar uma nova chance se vocês deixarem... Digam que me perdoam...

- Eu perdoo... – sussurrou Kanon fechando os olhos com força.

- Quem ama sempre perdoa. – a voz firme de Saga ecoou pelo quarto e fez o irmão abrir os olhos e o encarar.

Ambos sorriram, seus olhos presos como imãs. Perceberam o sorriso plácido que invadiu o semblante cadavérico de Adamantina.

- Vocês não podem imaginar... É tudo tão claro, meus meninos, tão claro e morno... É como uma brisa de primavera, e Deus, ele é tão jovem... tão jovem quanto vocês naquele verão...

Adamantina morreu naquela noite.

No dia seguinte, os gêmeos providenciaram para que o corpo fosse velado na igreja. Presentes? Poucos conhecidos e curiosos. Saga soubera por Kanon que durante todo aquele tempo a mãe vivera sozinha e infeliz, perseguida pelos fantasmas do passado, em penitência constante.

Os gêmeos estavam sentados ao lado do caixão com olhares meio perdido. Kanon pensou em sair para fumar um cigarro, mas não queria deixar o irmão sozinho.

- Avisei a Aioros e Aiolia e a Camus e Milo. Aioros me disse que tentaria vir, mas não creio que ele consiga um voo de Madri até aqui nessa época. Aiolia chegará de Atenas daqui algumas horas e Milo e Camus disseram que viriam nem se fosse preciso fretar um avião.

Saga apenas balançou a cabeça.

O dia passou lento. O enterro seria a tarde. Aiolia foi o primeiro a chegar com a esposa e os dois filhos, já que era quem morava mais próximo. O garoto que Saga conhecera, apesar de já não ser tão garoto assim, ainda tinha o mesmo sorriso e o abraçou com força e emoção. Saga sentiu um calor no peito enquanto era envolvido pelos braços forte do amigo que mais que tristeza pela situação, demonstrava a alegria em revê-lo depois de tanto tempo.

- Ainda hoje não entendo porque você foi embora sem dizer a ninguém. – Aiolia disse algum tempo depois enquanto Saga brincava com sua filha Hebe que trazia no colo, a menina tinha 3 anos e o leonino também tinha um menino, Aquiles de 5 anos.

O monsenhor engoliu em seco e encarou o irmão. Leu nos olhos de Kanon que o amigo não sabia de nada que acontecera entre eles ou que sabia pouco.

- Só daria certo daquela forma. – respondeu enquanto enrolava os cachinhos loiros de Hebe nos dedos – Você tem uma linda família, e a Marin é muito bonita e simpática. – comentou para mudar de assunto.

- Algum de nós tinha que se salvar e gostar de mulher, não é? – riu Aiolia, mas depois corou – Desculpe-me, Saga, eu... eu me esqueci que você agora é... um padre...

- Sem problemas, Aiolia. – sorriu o clérigo – E o Oros, como vai?

- Ah, ele te xingou muito por uns tempos. Mas você sabe o quanto o Aioros é doce e compreensivo. A mágoa dele passou rápido, ficaram apenas as doces lembranças.

- Eu sinto muito...

- Não sinta, foi muito bom o tempo que passamos juntos, nossa infância e juventude. Como dizia uma música que ouvi certa vez: foi uma página de um livro bom. E mesmo que não entenda porque você partiu sem se despedir, sei que teve seus motivos.

- Sim, tive meus motivos, mas isso não é justificativa. – sorriu de canto e encarou os olhos verdes do leonino – Vocês eram meus amigos, eu não deveria ter feito o que fiz.

- Eu concordo. Principalmente comigo.

Ambos se viraram ao ouvir a voz fria e com um sotaque francês ainda mais carregado. Saga soltou a menina que tinha nos braços e ela saiu correndo em direção a mãe. Ele encarou o olhar turquesa sério a sua frente. Camus lhe estendeu a mão, e Saga ficou um tempo sem saber o que fazer. O francês estava vestido elegantemente em um terno azul marinho e seus cabelos lisos e agora curtos estavam penteados para trás de forma charmosa. A pele claríssima apresentava raras linhas de expressão na testa, fora isso, o ruivo ainda era a imagem do rapaz que fora há 15 anos.

Saga apertou-lhe a mão e o puxou para um abraço que não foi rejeitado. Apertou Camus com força nos braços e sentiu vontade de chorar com o reencontro e foi o que acabou fazendo; chorou no ombro do amigo, enquanto lhe sussurrava vários pedidos de desculpa. Pedia perdão por ter sido fraco, por não ter ficado ao lado dele enquanto ele sofria.

Camus deixou que o amigo chorasse enquanto dava suaves tapinhas em suas costas. As pessoas ao redor não compreendiam; somente eles sabiam o que aquele reencontro significava.

Depois que Saga desabafou e parou de chorar, Camus sorriu e encarou o amigo.

- Você sabe que não precisa se desculpar. – disse tentando esconder a emoção que também sentia – Não há como se mudar o passado, meu amigo, e cada um conhece suas dores. Eu não fiquei magoado, porque fiz o mesmo, fugi assim como você.

Saga se calou e enxugou o rosto. Estava muito feliz e emocionado. Estranho! Estava no velório de sua mãe, mas só conseguia sentir a alegria e emoção de reencontrar pessoas tão caras e que deixara para trás de forma tão abrupta e dolorosa.

- Onde está o louco do Milo?

- Com Kanon... – respondeu o francês – Acho que ele ainda tem receio de que tenha mágoas dele.

- Eu não tenho. Kanon deve explicar isso a ele. – disse, mesmo sem convicção.

- Isso é bom. – sorriu o ruivo.

Camus mal terminou de falar e eles escutaram um sonoro: Filho da puta!

Milo quase correu em direção ao padre e o abraçou com força. Saga engoliu em seco. As lembranças da última vez que vira o loiro voltaram como chamas. Sim, Kanon o traíra com Milo. Milo e Afrodite eram de certa forma culpados pela separação...

"Não, Saga. Ninguém nunca conseguiria me tirar de você, a não ser você mesmo."

As palavras de Kanon invadiram sua mente e o padre fechou os olhos com força enquanto recebia o abraço de Milo. O loiro se afastou depois de alguns minutos e seus olhos úmidos que eram o mais puro mar o encararam.

- Você me perdoou? – indagou nervoso – Saga, nossa intenção nunca foi magoá-lo...

O sacerdote sorriu e balançou a cabeça.

- Incrível como parece que o tempo não passou para alguns. – disse – Não há nada a ser perdoado, Milo. aquilo ficou no passado.

- Sim, eu sei. Mas não gosto de deixar nada mal resolvido. – falou Milo de forma séria – Durante muito tempo me culpei pelo... pelo rompimento de vocês...

Caíram num silêncio constrangedor e então, Camus se aproximou mais uma vez de ambos, colocando a mão, carinhosamente, no ombro de cada um.

- Não é momento para esse tipo de conversa. – disse sabiamente – Vamos encontrar o Kanon, o cortejo até o cemitério já vai seguir.

Todos concordaram. Aiolia pegou os filhos e colocou um em cada braço, enquanto seguia com a esposa ao encontro de Kanon que estava na capela ao lado do caixão. Os demais fizeram o mesmo.

O cortejo seguiu em direção ao cemitério. Algumas religiosas acompanhavam junto ao novo padre da paróquia, já que padre Nestor morrera há alguns anos. Aiolia, Milo e Camus era quem levavam o caixão com os gêmeos que traziam semblantes impassíveis. Nada poderia ser lido nos rostos sérios de Kanon e Saga o que os deixavam ainda mais iguais.

Nenhum som além dos cânticos das idosas era ouvido enquanto o caixão baixava a sepultura. Saga olhava a cena de um jeito amargo, e Kanon por instinto segurou-lhe a mão, trazendo os olhos do irmão para si.

Quando os coveiros começaram a cobrir a cova com a terra avermelhada, o gêmeo mais novo se voltou para o mais velho e disse uma palavra simples, mas que tanto significava:

ACABOU.

Saga sentiu um estremecimento pela segunda vez ao escutar aquilo e assentiu com a cabeça.

Nenhum dos dois chorou. Sabiam que as lágrimas não eram necessárias. Saíram do cemitério a pé, em direção a antiga casa da família. Os amigos se ofereceram para acompanhá-los, já que pensavam ser difícil entrar naquele lugar, mas ambos dispensaram a ajuda, disseram que precisavam.

Camus informou que eles estariam na casa da família de Aiolia se precisassem de algo.

Saga sentiu um mal estar terrível ao se aproximar do pequeno e velho portão de madeira da residência dos Vaskália. Kanon segurou seu ombro com força em apoio.

- Foi difícil para mim também a primeira vez. – disse e sorriu com melancolia – Só que eu estava sozinho...

Saga sentiu o estômago revirar com mais força...

"Eu estava sozinho... Sozinho! Eu estava sozinho... SOZINHO!"

A voz do irmão criava ecos em sua mente perturbada e sua vontade era gritar para que Kanon calasse a boca e deixasse de perturbá-lo, embora soubesse que a intenção do irmão não era essa.

- Eu... eu acho que não estou me sentindo bem... – confessou sentindo o suor descer por sua testa, assim como um calafrio.

Kanon olhou o céu onde um sol resplandecia escaldante.

- É o calor. – concluiu – Venha, vamos entrar.

Sem esperar que Saga desse resposta ele guiou o irmão pelo braço para dentro da residência. Saga sentiu as pernas tremerem. Tudo continuava bizarramente igual. Era como se o tempo tivesse parado ali.

- Certa vez ela me disse que só compreendeu o quanto foi feliz naquele verão com nossa presença, no verão seguinte quando tudo era solidão. – disse o gêmeo mais novo indo a cozinha e voltando com uma garrafinha de água mineral e entregando ao irmão.

- É engraçado como só damos valor ao que perdemos, não é? – continuou Kanon.

Saga nada respondeu, pegou a garrafa d'água e virou na boca como um náufrago, fechando os olhos; talvez se fechasse os olhos fosse capaz de esquecer onde estava, de esquecer que voltara para o antro dos seus pesadelos e mais doces sonhos.

Continua...

Notas finais: Eu sei que tinha prometido que esse seria o último capítulo, mas não consegui colocar tudo que queria nele então teremos outro que deve sair entre hoje e amanhã.

Beijos a todos que estão acompanhando, não listarei os nomes como geralmente faço porque estou na correria para terminar logo o próximo onde listo todo mundo como sempre.

Beijos afetuosos!

Sion

Postado em 04/01/2010