Capítulo 2 — Antes de Cristo

— Como assim "antes de cristo"? — perguntou o loiro a meia-voz.

— Ah, bem, você sabe... — o sujeito ergueu uma sobrancelha — Faltam três mil anos para o bebê Jesus vai nascer em um estábulo... Embora isso nunca tenha ficado provado.

— É uma boa tirar a limpo — falou a ruiva, animada.

Draco apenas olhou-os, os olhos arregalados por alguns segundos, o que fez a garota prender o riso.

— Nós viajamos no tempo — falou, meio abobalhado.

— Acho que sim, é — respondeu o Doctor, sorrindo.

— Mas... — o loiro virou para trás, entrando novamente na TARDIS, saiu e deu a volta na cabine azul antes de falar. —É só uma caixa azul! Só uma cabine azul da polícia!

— É — respondeu o homem, trocando um olhar divertido com Ginny.

— Isso é... absurdo. — declarou, dando dois passos para longe da TARDIS.

— É como nas lendas, seu bobo! — ela deu um tapinha no braço do loiro, sorrindo. — O salvador da caixa azul? Como a Igreja que visitamos com a escola no centro de Chisiwick?

— Que igreja? — perguntou o Doctor, curioso.

— Não importa — respondeu a garota, animada.

— Então nós estamos no passado — declarou Draco, como se a ficha tivesse acabado de cair.

— Sim — respondeu o homem, com um sorriso contagiante.

— Três mil anos no passado?

— Mais ou menos cinco mil anos no seu passado — corrigiu. — Em que anos vocês estavam mesmo?

— Dois mil — respondeu a ruiva prontamente.

— Dois mil? Ótimo ano. Estive lá algumas vezes. Ah, o bug do milênio foi divertido!

Neste momento foram Draco e Ginny que trocaram um olhar confuso.

— Não houve um bug do milênio, foi só um boato.

— Não? Ah, bem, deixa para lá! — os dois humanos trocaram outro olhar, ligeiramente preocupado. — Então, já que estamos aqui, que tal explorarmos um pouco?

— Eu acho uma ótima idéia! — responde Ginny, sorrindo de forma tão contagiante que fez o coração do Doctor se comprimir; mas rapidamente controlou-se, voltando a usar uma expressão animada, olhando agora para Draco. — Então, ahn? O que me diz?

— Vocês estão loucos? Vamos ser atacados por alguma tribo primitiva e virar jantar!

— O canibalismo não era uma prática comum aqui — falou a ruiva com uma expressão de desprezo.

— Já ouviu falar em força de expressão, Weasley? Hipérbole? Ou você não chegou a ter esse nível de instrução.

— Você sabe perfeitamente bem que eu tive tanta...

— Adoro esses momentos domésticos! — afirmou o Doctor, ainda sorrindo para ambos.

Tanto Draco quanto Ginny responderam a esse comentário com um olhar de profundo desgosto.

— Deixa pra lá. Bem, então, vamos dar uma volta?

Ele virou-se na direção da colina mais próxima, imediatamente acompanhado pela garota, e Draco ficou parado, indeciso.

— Feche a porta, está bem? — ele gritou, e restou ao rapaz obedecer, fechando a porta da cabine com uma pequena batida e correndo para encontrá-los.


— Eu não sei o que aconteceu, ela simplesmente veio pra cá, sem eu mandar nem nada — falava o Doctor quando ele os alcançou.

— Ela? — perguntou o loiro.

— A TARDIS.

— Sua nave tem sexo?

— Ela é uma TARDIS — respondeu, como se isso resolvesse a questão.

— E você quer dizer que não consegue controlá-la? Ótimo! No passado e preso com um incompetente.

— Ela tem vontade própria! — retrucou, sem se irritar. — É um ser vivo, afinal.

O loiro riu pelo nariz, com desprezo antes de dizer.

— Então você tem um cavalo de viagem no tempo e sem esteio. Ótimo.

— Pode-se de dizer isso, é.

Os três continuaram andando pela planície, em direção a uma das colinas, toda a vista em volta sem marcas e a grama se estendendo por metros e metros ao redor.

Ao chegarem ao toopo da colina mais próxima, viram que uma floresta ocupava o outro lado.

— Ninguém por perto — falou a ruiva, desanimada.

— Devemos estar um tanto longe da aldeia mais próxima. Mas não muito longe, essa ilha inteira é tomada por tribos, doze tribos aliás. — Doctor olhou com atenção para floresta. — Certamente alguém passa por aqui, tem uma trilha ali — ele apontou.

Eles desceram em direção as árvores mais próximas, entrando na floresta.

— Não tem nem bichos aqui, é assustadoramente quieto! — reclamou Draco.

— Ah, tem sim — falou o homem. — Você é que está os assustando com todo esse barulho pra andar.

A ruiva parou, respirando fundo sob a copa das árvores.

— O ar aqui é tão limpo! Quase não dá pra reconhecer de tão limpo!

— A lei diz que para cada árvore derrubada, uma nova deve ser plantada.

— E quando foi que conseguiram devastar tanto? Quase não tem mais florestas na Inglaterra! — perguntou a garota, curiosa.

— Quando os romanos chegaram eles abriram estradas cruzando todo o sul da Inglaterra, até o norte, também. E precisavam de madeira para fazer seus prédios e tudo mais. Eles não tinham muita cultura de preservação, os romanos, costumavam explorar bastante suas províncias.

— Como os espanhóis fizeram na América — respondeu a ruiva, olhando para ele.

— É, exatamente como isso.

O homem sorriu para Ginny, que parecia quase brilhar sob sua atenção. Ver aquilo deixava Draco com náuseas, como se estivesse testemunhando algo errado, como se estivesse sendo traído ou rebaixado.

Parou, irritado com seus pensamentos, e por um momento pode sentir sua pele eriçar. Olhou para os dois lados, mas não havia nada de ameaçador, apenas a floresta silenciosa, as árvores quietas. Virou-se e deu mais alguns passos, tentando tirar aquilo da cabeça, mas a sensação não melhorou, pelo contrário, ficou ainda mais forte.

O loiro correu até alcançar os dois.

— Estamos sendo observados.

O Doctor olhou para ele, sua expressão completamente ilegível. Weasley olhou em volta e começou a dizer.

— Deixe de ser medroso não tem nin...

Ela não chegou a acabar a frase, um homem pulou da árvore mais próxima e prendeu seus braços em um movimento decidido. Antes mesmo que Draco pudesse registrar o que tinha acontecido, outro homem estava segurando-o, e Weasley se debatia irritada, gritando que queria ser solta. Outro guerreiro segurava o Doctor com muito mais violência do que os dois estavam sendo presos.

Dois outros guerreiros estavam parados perto, com expressões pouco amigáveis; e um terceiro, andando calmamente até eles apontou a lança para o peito do Doctor e falou:

— Quem são vocês? O que pensam que estão fazendo aqui?