Capítulo 3 — Instrumentos Mágicos
— Na na na na na... Primeiro, eu acho que você deveria abaixar essa lança. — falou o homem, ainda com animação na voz, como se ser seguro daquele jeito fosse algo absolutamente natural em sua vida. — Nós não estamos armados, nós não somos nenhuma ameaça!
O que parecia ser o chefe do grupo fez um gesto, e os homens os revistaram, sem achar nada a não ser uma caneta de modelo esquisito em um dos bolsos, e os celulares dos dois.
— Que tipo de armas são essas? Parecem coisas do antigo-povo-do-mar. — O guerreiro estava sério, e parecia mais ameaçador que nunca, a pintura azul marcando a pele pálida.
— Não são armas — falou a ruiva, ainda tentando se soltar. — São... Para falar com as pessoas.
— Para que vocês têm boca então?
— Para falar com as pessoas que estão longe — corrigiu o loiro, entediado.
Isso fez os guardas os soltarem, embora ainda segurassem o homem mais velho.
— Feitiçaria. Feiticeiros de outra tribo! Mil perdões, senhor, não queríamos ofendê-los.
Draco os olhou incrédulo, levantando os olhos para encontrar os de seus companheiros de viagem. A garota parecia tão surpresa quanto ele, enquanto o homem não parecia estar nem um pouco surpreso.
— Eles são meus aprendizes — respondeu, com uma nova dignidade na voz.
Os guardas o soltaram diante dessa afirmação, mas o chefe continuava encarando-o com reservas.
— Uma mulher? Como o senhor pode...
— E por que não uma mulher? — questionou a ruiva, pegando fogo, mas o homem a puxou pelo braço a fazendo ficar calada.
— Ela é uma de nossas Irmãs Sagradas e partilha nossa caminhada como forma de auxiliar aqueles que precisam.
O jovem guerreiro mantinha sua postura orgulhosa e os avaliava firmemente por alguns instantes antes de responder.
— Muito bem então. Vocês virão conosco, para ter com nossos Anciões. Devolvam as coisas deles — falou, finalmente, e eles recuperaram seus pertences.
— Caley, Devlin, levem-nos até a tribo. O resto de nós ainda precisa arranjar comida.
Os dois rapazes não pareciam particularmente contentes com a tarefa que lhes tinha sido designada. Também não pareciam particularmente desconfiados dos forasteiros, ou muito dispostos a ficar perto; a idéia de que eram alguma espécie de feiticeiros os deixara em uma aceitação muda e um pouco hostil.
— Porque eles acharam que éramos feiticeiros? — perguntou Ginny, confusa.
— Oras, preste atenção, Weasley, aparelhos para falar a distância? O que mais queria que eles achassem?
— Bem... é — falou o homem com as mãos nos bolsos do paletó — O cabelo vermelho também deve ter ajudado.
— O cabelo? — ela perguntou, confusa, pegando uma das mechas flamejantes.
— Que tem de especial em ter cabelos parecendo uma fornalha? — emendou Draco.
A garota fez uma careta, e ele respondeu com um olhar de desprezo.
— Use sua cabeça — falou o outro, olhando para cima. — E seus olhos. Você não reparou neles?
— Reparar o que? — questionou o rapaz, confuso.
— Uma dúzia de loiros atléticos e arrogantes, você realmente não notou? Achei que estivesse quase a vontade... A não ser por ser tão magrelo;
— Qual o problema em ser magrelo? — questionou o homem, e o loiro retrucou, indignado.
— Nenhum problema! E eu não sou gay pra ficar notando nesse tipo de coisa!
— Há controvérsias — foi a resposta da ruiva, rindo para si mesma.
— De qualquer forma — interrompeu o homem, antes que continuassem a trocar insultos sem motivo. — Esse tom de ruivo, vermelho é muito forte pro normal deles. Mas é bastante comum entre descendentes de atlantes.
— Atlantes... Você quer dizer... de Atlântida? — questionou Draco.
— O que mais poderia ser atlante? — foi a resposta imediata.
— Atlântida é só uma lenda!
— E caixas voadoras azuis também — retrucou a ruiva.
— Sério, qual é a história das caixas azuis?
— Nada não, então, me diz outra coisa: como eles podem estar falando inglês?
— Eles não estão falando inglês, estão falando... Seja lá qual for o dialeto deles, alguma forma de gaélico. E não tente falar gaélico com eles, provavelmente eles vão confundir com galego ou algo parecido.
— Qual a diferença? — perguntou o rapaz, confuso.
— Tem muitas diferenças. — respondeu o homem, indignado. — A música por exemplo. É uma séria diferença na música. Nunca, nunca interrompam um galego cantando.
Os dois humanos se entreolharam, divididos entre achar graça, ficarem confusos e simplesmente desacreditarem no que tinham acabado de ouvir.
— Mas eu estou ouvindo inglês — insistiu a ruiva. — e eles estão entendendo o que a gente diz!
— Ah, sim, isso é a TARDIS. O campo telepático dela traduz tudo que vocês ouvem e falam, por isso é que vocês ouvem inglês.
— Então sua nave-mulher é como um grande tradutor online falando em nossa cabeça? — caçoou o rapaz, rindo.
— Ah não! É muito diferente! — respondeu o homem, sério.
— A grande diferença sendo? — perguntou a ruiva, também sorrindo.
— A TARDIS funciona. — Ele olhou novamente para a frente, as mãos no bolso do sobretudo e continuou — O ruim de viajar tão para o passado é que eles não tem lojinhas!
Draco já tinha concluído, muito antes, que estavam acompanhados por um homem completamente louco, mas tal frase teve um impacto muito maior em Ginny: não apenas ela começou a desconfiar que ele era meio maluco, como também ficou particularmente impressionada que ele conseguisse fazê-la ter algo em comum com Draco Malfoy — de todas as pessoas.
A aldeia para onde eles tinham sido levados parecia bastante organizada — ainda que primitiva. As crianças brincavam no meio da clareira, enquanto as mulheres trabalhavam na porta das casas de madeira. Parecia que todas as pessoas eram brancas e com diferentes tons de loiro e castanho claro nos cabelos.
Não tiveram muito tempo para observar, sendo levados imediatamente para uma das maiores casas, onde, aparentemente, estavam reunidos os Anciões e Chefes da tribo. Eles sentavam-se em uma mesa, homens e mulheres, com apenas as marcas de expressão mostrando a idade quando os cabelos brancos eram quase imperceptíveis em meio aos fios quase sem cor.
— Nós os achamos na floresta, perto do Monumento — falou Delvin, sua lança ainda na mão.
— Você pode ir agora, meu filho — falou um dos homens, claramente o chefe, olhando para os recém chegados. — Agora, quem são vocês?
— Bom, eu sou o Doctor, ela é Ginny e ele é Draco.
— Um curandeiro? — exclamou uma das mulheres, o cabelo preso com uma rica presilha de azeviche. — Isso é raro, um curandeiro andando sem rumo.
— Ainda assim, é uma chegada apropriada — falou um dos homens mais velhos, cuja cabeça continuava baixa e segurava firmemente em seu cajado. — Qualquer ajuda é bem vinda.
— Nós estamos no meio de uma crise — admitiu o chefe. — Se vocês puderem, com sua mágica, fazer qualquer coisa para nos ajudar, seremos gratos.
— Okay, vamos lá. Me contem o que está acontecendo — falou o homem, com um sorriso.
— Nós temos um monumento para os nossos mortos, duas horas daqui, para o norte. — começou o homem e respirou fundo. — Nós fizemos tudo que sempre fizemos antes, mas algo mudou, Doctor. Primeiro alguns de nossos guerreiros, e depois algumas crianças... sumiram.
— O quão surpreendente isso pode ser? É claro que tem toda espécie de bichos e... — começou Draco, impaciente, mas o velho bateu com seu cajado no chão, assustando-o.
— Impaciência é uma péssima característica em um Druida, meu filho. Você deve aprender a escutar, antes de chegar a conclusões.
O Doctor o olhou por baixo dos olhos com uma clara expressão de quem gostaria de dizer "eu avisei", e o loiro corou de vergonha. Quis insultar e gritar com o velho, mas quem sabia o que aqueles selvagens poderiam fazer se acabassem com seu disfarce.
— Nenhuma fera, nenhum traço de sangue, nada — arrematou o chefe, sério. — Apenas uma coisa mudou.
— E o que foi essa coisa? — falou Ginny, inclinando a cabeça.
— As pedras estão se movendo.
