Capitulo 4 — Pedras Que Se Movem
Todos no pequeno cômodo se entreolharam por um segundo silencioso, repleto de tensão. O Doctor tinha curiosidade nos olhos, e Ginny parecia perplexa, mas Draco achava que tudo aquilo era uma tolice.
— Vocês querem dizer que tem tido terremotos? — perguntou, entediado.
O chefe o censurou com o olhar, antes de responder.
— Claro que não. Eu disse que as pedras estão se mexendo, não o chão.
— Não seja rude, Draco. Essas pessoas sabem o que são terremotos. — replicou o homem, antes de sorrir de forma contagiante para todos. — Então, as pedras estão se mexendo!
Mas o questionamento descuidado de Draco tinha colocado o chefe novamente em uma posição defensiva, e os encarava com uma expressão desconfiada.
— De onde vocês vieram? Vocês falam como nós, mas não se vestem como nós, nem como nenhum filho de atlante que já conheci. — ele encarou o Doctor diretamente. — Você não se parece com um de nós, e ele — indicou o loiro com a cabeça. — tem nome de Heleno.
O homem moreno correu os olhos por toda a cena rapidamente, antes de começar a falar, no melhor tom brincalhão.
— A mãe dele gostava de histórias um pouco demais. A família dele faz negócios com os Helenos.
O Chefe continuava sem parecer acreditar muito na história.
— E o filho deles foi se tornar Druida, hem?
— É o mais novo de sete, muitas bocas para alimentar, sabe como é.
O loiro o olhou cheio de desgosto e irritação, mas o homem apenas sorriu para o companheiro de viagem. Ginny escondeu o rosto para que não vissem suas risadinhas, mas a vingança estava escrita em seus olhos. O chefe também riu.
— Eu tive sorte de nascer no momento certo. — falou, sorrindo. — Cynric, o druida não me parece certo.
— De qualquer forma, vocês dizem que as pedras estão se mexendo?
— É quase como se andassem, Doctor — respondeu o homem, cansado. — Um pouco mais perto de nós a cada dia. Primeiro, uma das crianças desapareceu enquanto as mulheres colhiam ervas perto do monumento. Depois, um de nossos construtores sumiu sem deixar vestígio enquanto procurava boa madeira. E encontramos uma pedra no meio da floresta, uma das pedras, com certeza.
— Como vocês podem ter certeza que era uma daquelas pedras? — perguntou a ruiva curiosa.
— Pelo formato, é claro — respondeu o mais jovem da mesa, claramente um guerreiro. — Não existem pedras naturais daquela maneira.
— Claro que não. — respondeu o Doctor, sorrindo. — Vocês podem nos levar até lá?
— Qualquer ajuda é bem vinda — respondeu o homem mais velho, suspirando.
— Certo, então.
— Caley os levará até lá.
— Certo, então! Lá vamos nós!
A sessão claramente tinha sido encerrada, e todos saíram de suas mesas. O Chefe aproximou-se do homem mais velho, com seriedade.
— Espero que possa nos ajudar, Doctor. Nós já não sabemos o que fazer.
— Eu prometo para você, Cynric, que vamos fazer de tudo para resolver seu problema. — O guerreiro apareceu, pronto, e o Doctor deu aos seus dois companheiros um sorriso animado. — Bem, então! Vamos lá!
Draco saiu primeiro, acompanhado do Doctor, mas a velha senhora segurou Ginny pelo pulso antes que ela saísse.
— As pedras... Elas conversam.
— O que?
— Quando começa a escurecer, elas conversam. Sussurram. Coisas terríveis. Você vai ouvir também, eu sei.
A mulher soltou a ruiva, que continuava perplexa, e se esgueirou para outro canto da cabana. A garota ficou alguns segundos sem se mexer, até que foi despertada pelo grito animado do Doctor.
— Vamos lá, Ginny! Você não vai querer perder isso!
— Estou indo — respondeu, olhando uma última vez para a velha, cujos olhos perspicazes pareciam conhecer tudo a seu respeito.
E tal simples idéia era o suficiente para deixar Ginny arrepiada.
Os três caminhavam um pouco atrás de seu guia, e foi a vez de Draco puxar assunto.
— Como as pedras podem estar se mexendo?
— Eu não posso imaginar como a menos que... Não! Não pode ser... Mas e se...? Isso é ruim. Ruim, ruim! Isso é mais que ruim! Isso é realmente... muito... ruim.
— Você poderia explicar ao invés de ficar falando como um louco — repreendeu o loiro, irritado.
— Elas são só pedras, o quão ruim pode ser? — perguntou a ruiva, tentando se tranqüilizar.
— Mas e se... E se não fossem pedras? — falou o homem, olhando para os dois. — E se estivessem apenas se disfarçando de pedras?
— Como estariam se disfarçando?
— Eu preciso pensar! — respondeu, batendo na própria cabeça. — É muito complicado — falou, então, e Draco ficou ainda mais emburrado.
— Ele nos trata como idiotas — reclamou para Ginny, e a garota riu.
— Você trata os outros assim o tempo inteiro!
— Porque vocês são idiotas o tempo inteiro! — respondeu, irritado.
A ruiva deu língua, ainda se divertindo, e o homem olhou para os dois, confuso.
— Vocês nunca param com isso? — perguntou, meio espantado. — Ah, bem, acho que não conseguiriam.
Eles o olharam, e Draco, ofendido, começou a perguntar.
— Por que tem tanta certeza?
— Vocês se odeiam, não é mesmo? — falou, rindo. — Como nas histórias!
Os dois se entreolharam diante da frase, pois apesar de ser verdade, também dava a entender coisas que preferiam não ver ou imaginar.
— Quem, afinal, é você, Doctor? Qual seu nome? — perguntou o loiro, e o homem pareceu um pouco acuado, um tanto desconcertado e ao mesmo tempo, saudoso. — De onde você veio?
Ginny estava igualmente curiosa a respeito dessas coisas, a assentiu em concordância, olhando-o com curiosidade.
— Céus, vocês resolvem concordar justamente nisso? — Depois de alguns segundos, ele riu. — Eu venho de um planeta chamado Gallifrey. Sou um Senhor do Tempo, e nós descobrimos como manipular o vortex temporal e viajar através dele. Bem, e do espaço, mas comparado com a dificuldade de se manipular um vortex, isso não seria nada demais, seria? Não, acho que não.
Os dois humanos se entreolharam, sem saber o que pensar a respeito de tal afirmação.
— Um Senhor do Tempo? — repetiu a ruiva.
— É, isso ai.
— E aquela sua nave...
— É uma TARDIS. Significa Tempo e Dimensão Relativas No Espaço; porque é isso que ela faz.
— Isso é só um nome complicado para 'ela é maior por dentro' — falou o loiro, de mau-humor.
— Oh, você é brilhante! — respondeu, sem nenhum traço de ironia. — Mas é um bom nome. E uma boa forma de viajar, não é?
Ele sorriu charmosamente na direção de ambos, e Ginny riu, o que deixou Draco ainda mais emburrado. Talvez essa reação tenha feito o alienígena perceber algo, pois imediatamente anunciou.
— Eu vou fazer algumas perguntas ao jovem Caley.
Ele saiu e Ginny o observou sorrindo, até fazer cara feia para o loiro que se aproximava.
— Você não consegue se controlar — ele disse, como forma de acusação. — Está dando risinhos para esse sujeito como se não houvesse um anel no seu dedo!
Ela remexeu nervosamente no anel, mas seu rosto não traia culpa alguma.
— E desde quando isso é problema seu? — perguntou.
— Você nem mesmo sabe o nome dele de verdade. O Doctor! Isso não é um nome, é um título de graduação! Honestamente, Weasley! Eu sempre soube que você era meio estúpida e que não podia ver um sorriso bonito, mas ir atrás dele ultrapassa até os padrões de imbecilidade que eu tenho pra você; e eles são excepcionalmente baixos!
A ruiva cruzou os braços, cheia de raiva mas reconhecendo sua loucura.
— Você viu a... TARDIS? — ela perguntou, finalmente, e era visível que tentava controlar sua irritação. — Você a viu! E aquilo é... Como alguém poderia dizer não aquilo? Tudo que ele podia oferecer, e estar de volta como se nada tivesse acontecido! Nós estamos na pré-história, Malfoy, quando você imaginou que faria algo assim.
— Nunca — ele concedeu, e quase sorriu, antes de notar com quem falava. — Mesmo assim foi idiota e arriscado. Eu devia era voltar a TARDIS e deixar vocês dois fazerem a loucura que fosse enquanto eu estava seguro e pronto pra voltar pra casa.
— E por que não vai? Ninguém está fazendo questão de você! — falou, numa explosão apaixonada.
— Porque quero garantir que ele vai estar vivo para me levar.
— É uma delas — falou o jovem guerreiro, visivelmente em pânico. Sua mão fez um sinal estranho, para espantar o mal.
— Oh, que beleza! — anunciou o Doctor, com alegria. — Oh, você é a coisa mais linda que... Nossa!
— É só uma pedra — respondeu Draco, ainda soturno. — Uma pedra quadrada, só isso.
— Oh, Draco, Draco Draco! Isso é tão mais que 'só uma pedra'! Isso é... Uma beleza! Bem, e impossível. Mas eu sempre gostei de impossível, e isso... Oh!
— O que é então? — perguntou a ruiva, curiosa e chegando perto.
— Não encoste! — gritou o alienígena, e ela pulou para trás. — Deixe-me ver isso!
Ele deu a volta na pedra, vendo o caminho por onde ela fora transportada. Abaixando-se, ele pegou a terra e colocou-a na ponta da língua, sob o olhar enojado dos dois companheiros.
— Definitivamente não é bom! — anunciou, com animação. — Isso é uma ameaça para a vila inteira!
— Você está sorrindo! — falou a ruiva, horrorizada.
— Oh, é — falou, a expressão ficando séria por um instante. — Desculpe, mas isso é... Lindo!
— O que, exatamente, é isso? — perguntou Draco, já irritado.
— Isso é a evolução acontecendo diante de nossos olhos! — disse, correndo em torno da pedra. — Oh, Darwin teria amado isso! É tão coisa dele! Eu levaria uma amostra para ele se não fosse tão perigoso!
— Darwin morreu há muito tempo — resondeu secamente.
— Estamos em dois mil antes de Cristo, Draco! Ele não vai nascer por outros quase quatro mil anos! Preste atenção! — falou, em tom repreensivo e a ruiva riu.
— Certo, mas o que é isso? — insistiu a garota, enquanto ele continuava a parecer animado.
— Você sabe que vocês são descendentes de macacos, não é? — sua excitação era histérica enquanto os dois acenavam com a cabeça. — Bem, essa pedra é como os macacos para vocês.
— Você se importa em fazer sentido? — perguntou o loiro, cruzando os braços.
— Muito tempo atrás... Quero dizer muito tempo mesmo atrás... Surgiu uma raça que nós chamamos de... Weeping Angels, os assassinos solitários. Eles são quase tão antigos quanto o universo e capazes de sobreviver à quase tudo porque tem o sistema de defesa mais perfeito que já foi desenvolvido!
— Oh, diferente do sistema bancário então — respondeu o rapaz, quase sorrindo novamente.
— Eles têm uma tranca quântica, e quando alguém os vê eles se tornam pedra!
— Só tem dois problemas nessa sua conversa — comentou a ruiva, confusa. — Um, isso não é um anjo, é um quadrado. Dois, se ele vira pedra, o que pode fazer?
— Quando você vira de costas... Quando você pisca... — a voz dele era ameaçadora, e não desviava os olhos do monumento. — Ele volta a existir e se move rápido o suficiente.
— Para matar? — agora ela tinha medo.
— Gentilmente — respondeu o alien, movendo a cabeça pro lado. — Eles se alimentam de energia potencial, então te mandam para o passado e te deixam viver até morrer enquanto no presente eles comem todos seus dias futuros.
A definição fez os dois tremerem de medo, e voltarem a olhar a pedra.
— Isso continua não sendo um anjo — falou o loiro, desconfiado.
— Como eu disse... Evolução! — novamente animado, o homem sorria pros dois. — Ninguém nunca soube como eles se desenvolveram, eles são tão antigos quanto o universo! E agora eu estou vendo, aqui! Bem na minha frente! Não é maravilhoso?
— Você tem uma máquina do tempo — riu-se a ruiva. — Nunca tinha vindo à essa época? Nem ninguém?
— Eles não são daqui — falou, suspirando. — Devem ter caído por uma fenda temporal e aterrissado aqui.
— Você não podia simplesmente voltar mais no tempo e descobrir? — insistiu.
— Regras básicas da viagem no tempo, você não pode voltar para antes dela ser inventada! — o homem riu ao dizer isso, e o loiro riu também.
— Todo mundo sabe disso, Weasley!
Os dois pareciam muito satisfeitos, e ela balançou a cabeça desaprovando.
— Nós só temos um problema agora — falou o Doctor, sério novamente.
— O que? — perguntaram os dois.
— Caley sumiu.
