Capítulo 5 – O julgamento
— Certo, vamos todos ficar calmos — falou em vão o alienígena, enquanto os três encaravam a pedra, meio metro adiante de seu local inicial.
— Fácil falar — resmungou o loiro, quase sem respirar.
— Agora tudo que precisamos fazer é andar para longe sem tirar os olhos dela.
— Como se isso fosse fácil! — falou Ginny, tensa. — Tem árvores por aqui.
A clareira era cercada de árvores estreitas, e mesmo o caminho por onde tinham vindo não era largo o suficiente para garantir que continuassem a ver a pedra por muito tempo.
— Bem, é uma pedra. Ela não pode se mover tão rápido quanto se fosse um anjo — tentou racionalizar o Doctor.
— O sol está baixando. — avisou Draco, dando dois passos para trás. — É melhor irmos logo.
— Certo. Nós podemos fazer isso. Bem devagar, agora.
Os três andaram para trás, tentando não fazer barulho, como se aquilo fosse ajudar em algo. Chegando cada vez mais perto uns dos outros, andando de costas pela trilha estreita, temendo o instante em que aquilo deixasse de estar visível.
— Está quase fora do nosso campo de visão — anunciou Draco, tenso.
— Tudo bem. Eu tenho um plano para quando isso acontecer — falou o lord do tempo, atipicamente sério.
— E qual é? — perguntou a ruiva, encolhendo-se a cada passo.
— CORRAM!
Sem precisar de um segundo aviso, os dois jovens começaram a correr desesperadamente na direção por onde tinham vindo. Draco era alto, e suas pernas longas o deram a dianteira rapidamente, enquanto o Doctor puxava Ginny pela mão. Não demorou muito para que começassem a ouvir sons estranhos, como se algo estivesse sendo arrastado pela floresta.
— Mais rápido! — gritou Draco, acelerando.
Os outros dois o seguiram, parando já na entrada do círculo de cabanas, sob o olhar curioso dos nativos enquanto respiravam fundo. A garota olhou em volta, ainda assustada, e falou:
— O que a impede de vir para cá?
— Nada — respondeu o alienígena, quase rindo. — Mas tem muitos olhos aqui.
— E agora? — perguntou o loiro. — O que vamos fazer?
— Contar a eles o que está levando as pessoas, é claro! — respondeu o homem, sorrindo.
— E você acha que eles vão aceitar isso bem? — perguntou o rapaz, desconfiado.
— Não subestime! Eles são mais capazes de acreditar que vocês.
— Draco acha que só ele é capaz de compreender as coisas. — retrucou a ruiva, implicando.
O homem saiu ainda um tanto animado, acompanhado da garota, na direção da cabana do chefe. Draco respirou fundo, observando por um instante antes de declarar.
— Só eu notei que isso não pode acabar bem? — perguntou para si mesmo, antes de segui-los.
Toda a tribo foi reunida naquela tarde, para que todos soubessem das descobertas do Doctor. A expectativa enchia o ar, e o Chefe da tribo levantou-se de sua cadeira, que fora trazida ao centro das cabanas junto com as pertencentes aos demais membros do conselho.
— Então, Doctor! Nós te enviamos porque é um Sábio, e tudo sabe sobre os mistérios do mundo! Conte-nos o que encontrou.
— Bem, erm... Eu descobri que as criaturas... Bem, as pedras, elas são, é... criaturas. Do espaço.
Era claro para Draco e Ginny que o alienígena estava incomodado com toda aquela atenção, sua habilidade de falar desaparecendo por completo em público.
— Espaço? — questionou o homem, confuso.
— É, bem... Do céu. De... depois da lua.
Um dos homens do conselho levantou-se, erguendo o cajado.
— Os deuses estão entre nós! — gritou para a multidão, parecendo exultante. — Eu sempre disse que isso iria acontecer! Eles desceram de seu palácio e vieram misturar-se conosco, pela glória de nossa tribo!
A tribo pareceu animada com a ideia, gritos de concordância reverberaram, os guerreiros levantaram suas lanças em um grito de guerra, enquanto o Senhor do Tempo parecia aterrorizado com aquilo.
— Eles acham que as pedras são deuses! — exclamou a ruiva, impressionada. — De onde eles tiraram isso?
— Bem, eles têm apenas uma palavra para "céu" e "paraíso" — comentou o Doctor, balançando a cabeça. — Mas eu preciso esclarecer isso! Seria um erro terrível, terrível se...
— Os deuses nos ajudarão, e nos tornaremos uma tribo poderosa! Nossos inimigos serão massacrados, pois temos a força dos deuses conosco!
— Não, não, não... Eu quis dizer que eles vêm de outro lugar, não que vieram do paraíso! Não são deuses, eles são perigosos!
— E quem é você, Doctor, para nos dizer quem são os nossos deuses? — questionou novamente o homem, apontando o cajado para ele. — Você não é um de nós, você é um estrangeiro! Por tudo que sabemos, pode até ser um espião dos inimigos!
— Calma, Conary — alertou a velha mulher, sentada ao seu lado. — Ele é um de nós, não serve a nenhum mestre que não seus deuses.
— E quem garante a você, Aisling, que os deuses a que ele serve não são inimigos dos nossos?
— Inimigos ou não, todos tem o direito de serem servidos — replicou a mulher, levantando-se também. — Ou você está esquecendo daquilo que aprendeu?
— Silêncio — decretou o chefe, e ambos sentaram relutantemente. — Vamos ouvir o estrangeiro Doctor.
— Ah, obrigado — respondeu, sorrindo. — Eu não sou inimigo, e não vim ofender seus deuses...
— Um inimigo inteligente diria isso! — zombou Conary. — Se você não é um inimigo, me diga, onde está Caley? Por que ainda não o vimos aqui?
O silêncio pairou por toda a reunião, observando a resposta do homem. Ginny torceu as mãos de nervoso, por trás das costas, enquanto Draco murmurou.
— Agora estamos ferrados.
O homem colocou as mãos no bolso, e sua expressão era genuinamente triste conforme respondeu:
— Eu sinto muito... Eu realmente sinto muito, mas ele se foi.
— O que você quer dizer com "se foi"? — questionou o chefe, parecendo chocado. — Para onde ele foi? O que vocês fizeram para que ele fosse?
— Nada! — respondeu o Doctor, imediatamente. — As pedras... Você não pode deixar de olhá-las... Se você virar de costas, se você piscar... Elas se movem, e rápido o suficiente para te encostar e... Bem, elas te enviam para o passado. Eu sinto muito, mas ele se foi. Para sempre.
— Meu filho! — exclamou o chefe, sentando-se com a mão no peito, sob o som do assombro dos demais. — Meu único filho!
— E você diz que as pedras não são deuses? — Falou Conary, levantando-se novamente e passando a dominar o local. — Eu te digo, Doctor, esse é o poder dos nossos deuses! Eles estão entre nós!
A população gritou com alegria, concordando.
— Eles andarão entre nós e conheceremos seus segredos! Nós seremos imortais, como eles, pois eles entregam suas dádivas a nós! O que eles fizeram a Caley foi uma benção!
— Isso está errado. Não é dado a nós possuir as dádivas divinas — respondeu Aisling, irritada. — Caley foi tirado de nós! Isto não é uma benção, é uma punição!
— Você tem razão, irmã! — respondeu o velho, os olhos febris. — Eles vêm para nos abençoar, e como vocês os recebem? — perguntou, apontando para a tribo em geral. — Acolhendo um inimigo e pedindo que ele desvende seus segredos, ao invés dos homens da própria tribo! Claro que eles ficam furiosos! Eles conhecem o passado, o presente e o futuro, e sabiam o que faríamos! Mandaram as pedras para nos testar. É por isso que levaram nossas crianças, nossas mulheres! E nós falhamos, pedindo ajuda a um sacerdote de falsos deuses! E agora nossos guerreiros! Caley foi levado e abençoado, mas nossa tribo foi amaldiçoada por enviar um estrangeiro para onde os Deuses caminham!
— Ouçam o que eu estou falando! Essas pedras não são deuses! Não querem o seu bem! — tentou novamente o Doctor.
— Cale-se! — ordenou o sacerdote, inflamado de terror. — Tudo isto é culpa sua! Sua presença é uma afronta aos nossos deuses!
— Seus deuses não podem desaprovar alguém querendo ajudar! — tentou racionalizar Draco.
— Eles desaprovam quando vêm de inimigos como vocês! — gritou o sacerdote, irado. — E a única forma como podemos nos redimir, é oferecer um sacrifício aos deuses! Sacrificar nossos inimigos!
— Agora eu acho que você está indo longe demais — anunciou o Doctor, empertigando-se. — Vamos parar com essa história de sacrifício!
— E que sacrifício melhor — continuou o homem. — do que os falsos sacerdotes que nos desgraçaram?
— Acho que devíamos correr — alertou Draco, baixinho, mas era tarde demais. Os guerreiros próximos já apontavam as lanças perigosamente perto deles, encurralando-os.
— Nós devemos amarrar esse Doctor na pedra do sacrifício e deixar que os deuses decidam qual é a melhor punição para ele!
— Vocês estão cometendo um erro! — avisou o alienígena.
— Prendam-no! — gritou o homem, e as lanças aproximaram-se ainda mais do alienígena, enquanto um dos guerreiros empurrou Draco e segurou os braços deles, amarrando-os.
— E o que faremos com os outros dois? — perguntou Angus, o chefe dos guerreiros.
— Nós podemos pedir um resgate por eles — respondeu o homem, sorrindo de forma feroz. — Assim, além de nossos deuses ficarem felizes, nosso tesouro também crescerá! Nós teremos plena glória! Avante, todos para a pedra do Sacrifício!
Os homens começaram a puxar todos violentamente, carregando-os para longe. Já estavam longe quando a sacerdotisa levantou-se, e ao erguer a mão, eles pararam, esperando que ela falasse.
— Eu jurei que todas as mulheres seriam para mim como parte de minha própria família! Não posso quebrar meu voto, ainda mais para com uma irmã. A garota ficará sobre a minha responsabilidade.
— Como quiser, Aisling. Mas se eu descobrir que você a ajudou a fugir... — ameaçou o sacerdote, e ela enfrentou-o com o olhar.
— Ela será tratada com toda cortesia devida a uma sacerdotisa da Grande Mãe. Não posso interferir nos seus planos, mas a deusa sabe que não quero assisti-los. Levem-na para minha cabana.
O sacerdote parou, olhando-a como se tentasse descobrir seus pensamentos.
— Muito bem. Deixarei os prisioneiros aqui, com uma escolta, e garota pode ficar em sua cabana. Leve-os embora — ordenou a um dos rapazes, e quando a mulher fez menção de retirar-se, ele segurou-a pelo braço. — Não ouse me trair, Aisling.
Ela soltou-se, com bastante vigor para uma mulher de tanta idade.
— Não tenho nenhum Senhor, apenas a Deusa, Conary, e só ajo em nome dela. Mas lhe aviso: você está cometendo um erro.
Ela o deixou, sem mais uma palavra, e ele ignorou-a completamente. Sacerdotisa ou não, era apenas uma mulher, e ele sabia que seus deuses o apoiariam.
