Capítulo 6 – Escapando do Passado
Draco nunca tinha estado em um lugar cujo silêncio pudesse ser tão profundo – quase palpável – mais um pouco ele estaria ouvindo a própria grama crescer. Nem mesmo a aproximação eventual de um guarda era capaz de quebrar a monotonia; eram tão silenciosos quanto gatos e pouco interessados em entrar para lidar com o prisioneiro, que além de fechado na cabana estava firmemente amarrado na raiz da árvore que ocupava o centro desta.
Já tinha desistido de conseguir fugir e começava a temer a morte que se aproximava quando a porta foi aberta, ao que ele respondeu com um grito. O rosto de Aisling era severo, claramente reprovando a reação, mas seus olhos brilhavam com uma certa jovialidade.
— Senhora! — ele exclamou, ainda assustado.
— Eu posso te ajudar, mas antes de mais nada, quero saber a verdade! — falou, firme. — Você não é um aprendiz de sacerdote e vocês não moram perto do mar. Vocês estão completamente fora de onde vieram.
Os dois se olharam por um segundo; a velha desafiando-o e ele espantado além das palavras.
— Como a senhora pode saber?
— A visão ainda não me abandonou totalmente, meu filho. Conte-me a verdade, e eu irei te ajudar.
— Eu nem mesmo saberia por onde começar, mas se a senhora realmente quisesse me ajudar, o faria sem exigir nada em troca!
Ela sorriu para ele, achando graça no comportamento do rapaz.
— Você é mimado demais para se passar por um aprendiz de druida. De onde vocês vieram?
— Eu nasci e cresci nessa ilha — respondeu obstinadamente. Achou que se respondesse a verdade, seria morto imediatamente, ou coisa pior.
— Talvez a pergunta certa seja de quando vocês vem.
A resposta foi um silêncio chocado da parte do rapaz, e a velha senhora sorriu sabiamente.
— Sei o que elas fazer, meu filho, essas pedras.
— Como a senhora...?
Ela sorriu, o cansaço transparecendo, e cortou o rapaz.
— Apenas me responda.
— Do futuro... Muito distante. O tempo de centenas de vidas suas... milhares!
A mulher balançou a cabeça, séria, em concordância.
— E foram tocados pelas pedras?
— Não nós viemos em uma... Caixa...? Que pode viajar no tempo.
— E o Doctor? O que ele é? É realmente um feiticeiro, um curandeiro?
O rapaz moveu a cabeça de um lado para o outro sem comprometer-se.
— Ele vem de outro planeta, nasceu em outro lugar. A caixa é dele, e ...
A velha colocou a mão no peito por um instante e se apoiou na árvore.
— A senhora está bem?
— Aisiling, venha aqui — pediu, a voz quebrada.
Ele ficou confuso por um instante, mas uma garotinha, com não mais que sete anos, entrou na cabana, supreendendo-o.
— Corte as cordas que estão prendendo o rapaz — a velha disse com suavidade. — Você deve levá-lo por fora das cabanas até onde Ginevra está, querida.
A menina era rápida, e quando teve seus braços soltos, Draco soltou um suspiro de alívio. Virou-se quase imediatamente para a velha sacerdotisa, que continuava a se apoiar na árvore maciça.
— A senhora vai... Fazer o que?
— Estou velha demais para correrias, rapaz. A pequena Aisling vai levá-lo até sua amiga, e de lá vocês podem tentar descobrir como salvar o Doctor.
Ela colocou as mãos marcadas pelos anos sobre a cabeça da criança, sua pele queimada e envelhecida contrastando com o brilho dos cabelos dourados, e abençoou-a.
— Leve-os até o tempo dos mortos. Tome cuidado para não se machucar, e se cair e estiver longe deles, vá para o lugar onde os salgueiros fazem um caramanchão no rio e fique lá. Alguém irá até lá o mais rápido possível, certo, querida?
A garotinha acenou em silêncio, e Draco achou aquelas instruções um tanto estranhas, mas não iria questionar a velha, ainda mais quando ela parecia não se sentir muito bem. A menina puxou sua manga, falando em uma voz fina porém firme:
— Por aqui... E fique em silêncio.
E o loiro a seguiu para dentro do crepúsculo sem dizer uma única palavra.
Seus braços não tinham sido amarrados, e não tinha sido confinada no escuro — a mentira a respeito de suas identidade tinha posto-a sob a proteção da sacerdotisa e a influência de Aisling na tribo eram tão grande que tinha sido confortavelmente alojada em uma espécie de sub-cabana, cuja saída dava para dentro do salão das mulheres.
As garotas que lá se encontravam — em isolamento por causa de seu 'ciclo lunar' e sem poder acompanhar os excitantes acontecimentos lá fora — contaram-lhe que o cômodo costumava ser usado para iniciações femininas e isolamentos pré-nupciais; e não costumava ter tantos confortos. Tinham lhe deixado com uma pequena fogueira para aquecer a si e ao local, comida e água frescas estavam à sua disposição, suas guardas eram as próprias mulheres confinadas, gentis e dispostas a conversar com a estrangeira. A principio, sequer tinham levado-a para o cômodo separado, deixando-a ficar entre elas e contando-lhe mais sobre como viviam — mas sua tentativa de fuga tinha acabado com grande parte da boa vontade, e fora obrigada a se recolher em seu canto, enquanto elas continuavam a conversar entre si.
O murmúrio suave das vozes femininas falando e cantando enquanto teciam a embalou, levando-a lentamente a mergulhar em um sono suave dentro da cabana escura e aquecida. Nem mesmo sonhou, pois estava cansada demais até mesmo para isso, entre corridas e a montanha russa emocional que tinha sido seu dia desde que encontrara o Doctor — tão intensa que sequer parecia que tudo acontecera em um único dia.
Foi uma rajada de ar úmido que a acordou, mas inicialmente não entendeu o que acontecera. O fogo tinha apagado e tudo estava escuro, foram alguns segundos antes que conseguisse ver algo: o rosto de Draco, os cabelos claros emoldurando-o, e os braços do rapaz estavam dos lados do corpo da garota, que pensou em gritar, mas ele foi mais rápido e tampou sua boca.
— Não faça barulho — avisou, sussurrando em seu ouvido, e a ajudou a se levantar, destampando a boca da garota. — Vamos, devagar, e silêncio.
— Como...
— Shh — ele avisou novamente, irritado.
Viu que o rapaz se abaixava próximo a parede de cabana, mas estava escuro demais para conseguir distinguir bem o que ele fazia. Demorou alguns minutos para que ele virasse, e Ginny se sentia assustada e tensa.
— Vem — ele murmurou, esticando o braço na direção dela, dentro do que parecia ser um buraco.
Cogitou a hipótese de estar sonhando, não fazia sentido algum o sempre arrogante e maldoso Draco estar ajudando-a a escapar. Segurou a mão dele, meio em dúvida, mas ele estava tenso e impaciente, e a puxou. A ruiva caiu dentro do buraco, que era claramente pequeno demais para os dois ficarem de pé confortavelmente, mas o loiro já estava abaixado.
— Me siga — avisou, ainda falando em um tom abafado, e abaixou-se novamente, entrando no que parecia o começo de um túnel.
O espaço era pequeno, e ela precisou esperar algum tempo antes de conseguir abaixar e engatinhar atrás dele. Não por muito tempo: o 'túnel' não deveria ter mais do que dois passos, e servia apenas para passar por baixo da parede, que não era fincada profundamente ao chão. Era abafado e desconfortável, meio claustrofóbico, e Ginny imaginou que a única coisa que poderia ser pior do que aquilo eram corredores subterrâneos cheios de passagens de água e ecos de pedra.
Não que ela jamais tivesse estado em algum lugar daqueles, mas sentia um temor além do que saberia explicar.
Do lado de fora, Draco a esperava, e o sol ainda não tinha se posto, embora estivesse cada vez mais perto. Uma garotinha estava ao lado dele, séria e concentrada, olhando a jovem estranha sair de dentro do buraco como se aquilo fosse absolutamente esperada.
— Mas como...?
— Essa é a pequena Aisling — ele falou, meio arfante. Não estava habituado a aventuras como aquela. — A velha Aisling me soltou e me mandou com ela. Precisamos ir. O Doctor está em perigo.
— Mas como... Por que...? — começou a argumentar, mas o loiro a cortou irritado.
— Escuta aqui, eu não sei se sua cabeça é tão enferrujada quanto parece, mas eu não quero viver na Idade da Pedra, entendeu, Weasley? Vamos logo, antes que aquelas pedras peguem o Doctor e ai sim nós estaremos completamente fodidos.
— E como você pretende chegar até lá se não sabe onde é? — replicou, irritada, a voz se levantando sem que reparasse.
— É ai que eu entro — respondeu a garota, interrompendo antes que a briga saísse de controle. O rosto de ambos estava corado de raiva, mas ela não se incomodou. — Vamos andando agora, antes que todo mundo que ficou note que vocês soltos.
Aisling era pequena, mas era também uma menina criada na natureza. Era rápida e silenciosa, e seus passos corridos mantinham Ginny andando rápido com suas pernas curtas, e Draco em um ritmo constante.
— Quanto tempo vai demorar? — perguntou ele, tenso, olhando para os lados. Parecia a ele que a floresta toda estava cheia de sons.
— Não chegaremos antes do sol se pôr — respondeu a garota, e eles puderam notar que ela também temia o que poderia acontecer. — eu sei onde podemos achar madeira boa, mas sem uma pedra para fazer fogo...
— Se ao menos tivéssemos nossas coisas... — reclamou a ruiva.
— Nós temos — replicou o rapaz. — Ela me entregou nossos celulares e aquela coisa que o Doctor usa antes de irmos te buscar.
— Melhor nos apressarmos — falou a menina, e sem mais nada, saiu correndo no meio das árvores, sendo seguida pela outra imediatamente.
— Eu odeio isso — resmungou o loiro para si mesmo antes de segui-las.
— Nós estamos reunidos aqui — anunciou Conary, solene — para honrar nossos deuses!
O velho tinha os braços abertos e erguidos, levantando alto seu cajado que proclamava sua posição como Sacerdote da Aldeia. A platéia o observava fascinada, sorvendo cada suspiro de seu discurso como se fosse a mais maravilhosa das bebidas.
— Erroneamente, nós lutamos contra eles, e duvidamos de seu poder! Nós os esquecemos de nossas obrigações, e negligenciamos o serviço divino, em nome de coisas que não tem valor! Fomos punidos, sim, e justamente! Falhamos em nossos deveres, e ainda pior! Convidamos um estrangeiro para combatê-los!
Conary apontou com o bastão para o prisioneiro, que fora amarrado à pedra do altar, e os aldeões fizeram um distinto som de desgosto. Amordaçado – pois o sacerdote percebera o perigo de suas palavras - e bem preso, não havia muito que o Doctor pudesse fazer a não ser esperar que alguma sorte de coisa improvável acontecesse. Ele gostava do improvável, sempre vivera sua vida dependendo dele.
— Nossos deuses são fortes. Nossos deuses são poderosos. Nossos deuses são os doadores da verdadeira magia! Nós devemos agradar nossos deuses! E o que mais os agradaria do que entregarmos a eles um infiel?
A multidão rugiu em aprovação, e o velho sorriu, quase benevolente.
— Para provar que acreditamos em sua magia, não vamos assassinar este impostor. Deixemos que o servidor de falsos deuses fique amarrado aqui, e amanhã, vocês verão, ele terá desparecido e uma pedra estará em seu lugar, pois esta é a magia de nossos deuses! E, com eles ao nosso lado, nossos inimigos se tornarão pedras, e como pedras serão espatifados!
— AEEEEEEE — gritou o grupo, e dois auxiliares acenderam os archotes que iluminavam o local enquanto o sol ainda se punha.
— Pelo Sol e pela Água, pelo Ar e pelo Fogo, nós consagramos esse homem como um divino sacrifício! — berrou o sacerdote, aspergindo coisas sobre o alienígena. — E que seja feita a justiça divina!
— AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE.
O velho sorriu.
O Doctor estava tão morto quanto um homem poderia estar.
Na floresta já escura, Draco, Ginny e Aisling corriam a toda velocidade em direção ao Monumento, torcendo para chegarem a tempo, e para não serem pegos no caminho.
Os aldeões voltaram-se novamente em direção a aldeia, cantando para honrar seus deuses.
Sozinho altar mal iluminado, o Doctor tentava se soltar, e podia ouvir as pedras começando a se mexer, de fora do círculo, vindo em sua direção.
O tempo era curto.
