Capítulo 7 – A Dança dos Gigantes
O som de passos distraiu o Doctor de sua tentativa de soltar as cordas, e quando ele tentou levantar a cabeça, viu Conary voltando, sozinho, em sua direção. Ele levava uma tocha em suas mãos, e sorria maleficamente.
— Achei que o plano fosse me deixar a mercê dos seus Deuses? Qual o problema? Duvida da capacidade deles?
— Nem por um instante — respondeu o sacerdote, arreganhando a boca de forma a mostrar os dentes. — Mas se teve algo que aprendi com eles foi que nunca deve ser deixar um homem inteligente acordado para implorar clemência.
— Ah, então teme que eles pudessem me perdoar? Eu já te falei, Conary, não são deuses!
— Deuses ou demônios, Doctor, se o que você disse é verdade, eles logo nos livrarão de você.
O Doctor teve a breve visão de um pedaço de madeira, e logo tudo ficou escuro.
— Shh! — anunciou a menina, parando. Ela ouviu atentamente, e os sons da procissão voltando à aldeia se fizeram ouvir. — Não temos muito tempo. Antes de eles chegarem alguém há de ter percebido sua falta, e vindo ao encontro deles.
— Mas o sol já praticamente se pôs. E no escuro... Podemos não chegar a tempo.
A garotinha olhou para a ruiva, e seu olhar era firme e duro.
— Eu sei disso. Mas precisamos esperar ou viraremos todos prisioneiros. Não foi para isso que Aisling me mandou aqui.
Draco olhou para as duas, quase achando graça, embora não houvesse nada de engraçado na situação. Era desesperadora.
— Não podemos dar a volta? — perguntou, tentando disfarçar a tensão. — Ou uma de vocês poderia subir na árvore e tentar ver de onde estão vindo? Você tem seis irmãos, Weasley, não passou a infância subindo em árvores?
— E você não, não é? Por quê? Mamãe não deixava você ficar sujinho? — respondeu, debochando, mas sem fazer nenhum movimento para ajudar.
— Estão quase na nossa altura, vindo pela trilha principal — soou a voz da garota, desaparecida entre as árvores. — Vamos seguir por dentro da floresta até passarmos deles. E rápido! O sol vai morrer em só mais alguns minutos!
Os dois se entreolharam, meio em pânico, e a menina pulou entre eles, ágil como um gato.
— Por aqui! — chamou, e começou a correr, sendo seguida pela ruiva. Draco apenas andava, suas pernas mais longas o dando a vantagem de não precisar correr.
— Não podemos ir mais rápido? — perguntou, e a menina acelerou.
— ÓTIMO, e como você acha que eu vou seguir? — respondeu Ginny, cheia de raiva.
— Calados! — ordenou a menininha, e os dois ficaram em silêncio. — Temos que ser como sombras. Como formas da floresta. Para que ninguém nos procure.
E em completo silêncio, continuaram a correr, o som das folhas partidos abafados pela música que se aproximava.
A grama vermelha brilhava sob o sol, e ele estava debruçado sobre os livros, tentando decifrar a escrita misteriosa com ajuda de um dicionário. O menino mais novo, de cabelos escuros e olhos azuis, tentava apressá-lo.
— Vamos logo! Se meu pai descobre que eu tirei isso de casa...
— Não é tão fácil assim — respondeu, irritado. — Estamos falando de Alto Gallifreiano, cada símbolo, cada sílaba, tem centenas de conotações...
— Eu sei, eu sei — apazigou o outro. — Mas você também sabe que ele detesta que eu tire os livros dele, ainda mais um tão raro quanto este.
— Não tem imagens — ele falou, suavemente. — É curioso, são tantos avisos, mas nenhuma...
— Apenas tente decifrar e deixe a conversa para depois — cortou o outro, apressado.
Ele sempre fora apressado, querendo a ação, não o pensamento. Mas isso tinha sido há tanto tempo, e eles estavam perdidos, então como agora ele poderia estar revivendo tudo isso? Nem mesmo os anjos poderiam levá-lo para Gallifrey agora. Sentiu sua testa franzir, e viu o olhar glorioso do menino que se tornaria, um dia, seu pior inimigo.
— Então?
— Está atrás de você — ele falou, em um sussurro.
— O que?
— Quer dizer... Está atrás de você. — continuou, assustado. Os dois olharam em volta. — Isso é...
— Assustador — completou o outro, fechando o livro. — Meu pai tinha razão, não devíamos procurar sobre essas coisas.
— Você acha que podem chegar até aqui? E se chegaram, como pudemos...?
— Pare de falar nisso — respondeu o outro garoto, irritado. — Não quero mais saber sobre Assassino Solitários, Anjos Chorões ou qualquer outra coisa. De que adianta? Eles são...
— Invencíveis — ofereceu, com um arrepio.
— Ou pior. Ou talvez só histórias para assustar crianças.
— Espero que sim — falou, suspirando. — Honestamente espero que sim, pois não vejo como alguém poderia livrar-se deles. Transformando-se em pedra quando observados, movendo-se mais rápido do que qualquer outra coisa com uma mera piscadela... Todos os pesadelos juntos.
O outro garoto levantou os dois livros, e colocou-o entre seus braços, os raios de sol tingindo seu cabelo de dourado.
— Eu vou te acordar dele, nem que seja a última coisa que eu faça!
Os três entraram no monumento, e Draco e Ginny pararam, espantados.
— Mas é Stonehenge! — ele disse, assustado. — Bem do lado de casa.
— Bem menor do que me lembro, também — ela respondeu. — Onde está o resto dele?
Os dois chegaram à pedra no meio do circulo toscamente feito de pedras e madeira misturados, e acharam o Doctor desmaiado. Um roxo parecia estar no meio de sua testa, mas era difícil ver. Praticamente não havia mais nenhuma luz, e a situação não parava de piorar.
— Faça alguma luz! — falou o loiro, irritado.
— Com o quê? — perguntou a garota, igualmente irritada. — Não tem nada por aqui que...
— Pedras e madeira, Weasley, será tão difícil assim?
— Eu te ajudo — falou a menina, pegando-a pela mão. — Rápido. Tem algo se movendo no escuro.
O alienígena murmurava, claramente em um sono agitado, e o loiro colocou as mãos sobre ele, sem saber o que fazer.
— Todos... pesadelos... — ele murmurou, em seu sono. Ginny gritou do outro lado do círculo:
— Estão vindo em nossa direção! — E o loiro disse, cheio de raiva.
— Eu vou te acordar dele nem que seja a última coisa que eu faça!
Com um tapa bem desferido no rosto, o homem começou a piscar confuso.
— Mas o que...?
— Eles estão vindo! — gritou a garotinha, enquanto Ginny tentava em vão fazer com que uma das madeiras pegasse fogo, mas ela já estava velha e semi-apodrecida.
O homem tentou se mexer, mas percebeu que estava preso.
— Fique quieto! Deixe eu te soltar! — reclamou o loiro, cada vez mais perto de uma explosão de irritação.
Mas assim que as cordas caíram, a luz de tochas bem feitas iluminou todo o círculo. Dois guardas empunhavam lanças, e estavam na entrada, ao sul, olhando para eles.
Todos permaneceram paralisados por um segundo, temerosos do que viria a seguir. Quando a luz atingiu o local, viram que várias colunas de pedra maciça tinham surgido em volta do monumento. Certamente se entrassem em um conflito com os guardas, acabariam sendo pegos.
— Ajudem a garota, não fiquem só aí parados — ralhou a voz firme de Aisling. — Vamos precisar de mais tochas.
— Você! — falou Draco, espantado, e a velha sorriu. — Mas e... Conary?
— Morto — ela respondeu, simplesmente. — E não da melhor maneira, suponho. Encontramos ele com um pedregulho em cima mais abaixo na estrada. Deve estar aqui logo — e, pouco depois, puderam ver mais uma coluna, um tanto distante, mas claramente ao sul do santuário.
— Senhora! — reclamou um dos homens. — Ela está destruindo nossos postes...
— Não importa — respondeu, ríspida. — Só acendam uma tocha para cada um.
Rapidamente o fogo ardia na madeira, alimentada pelo fogo já forte, e Ginny correu, entregando uma tocha ao Doctor, que tinha acabado de se levantar da pedra sacrifical.
— E agora, o que nós fazemos? Como vamos impedi-los? Estamos cercados! — A voz dela estava claramente em pânico. A cada virada de cabeça, via mais e mais colunas aproximando-se deles.
— Anjos que não são Anjos e não têm olhos para cobrir, anjos que são anjos mas não sabem quando estão sendo observados de verdade. Anjos que estão em um cemitério...
— Stonehenge — corrigiu Draco, chegando com sua tocha. — Ainda não tem quase nada aqui, mas eu te garanto, é Stonehenge.
O homem deu um tapa forte na cabeça.
— Mas é claro! Stonehenge! Como eu estou burro!
— Onde está Aisling? — perguntou Ginny, nervosa, procurando a menina com os olhos.
— Ela se foi — respondeu a velha sacerdotisa, com calma. — Não se preocupe com isso agora. O que nós vamos fazer, Doctor?
— Nós estamos em Stonehenge — respondeu ele, com um sorriso contagiante. Mas não tem nenhuma pedra. E você sabe por que, Ginny?
— Faz diferença agora?
— Porque as Pedras estão vindo para cá agora — respondeu Draco, perspicaz.
— Muito bom, Draco, você é brilhante. E qual o outro nome Stonehenge...?
— A dança dos gigantes? — perguntou a garota, sem entender. — E o que diferença isso faz? Como vamos nos livrar desses anjos ou seja lá o que forem?
— Muito simples, Ginny. Muito simples mesmo. — Ele olhou para os dois e sorriu novamente antes de responder. — Nós dançamos.
— Dançamos? — O loiro perguntou, exasperado.
— Uma grande e bela roda com nossos amigos aqui — ele falou, dando um tapa no braço de um dos guardas. — E então...
— Elas ficarão em circulo — respondeu o rapaz, devagar.
— E nunca mais vão se mexer! — completou o homem, satisfeito. — Porque, você sabe, eles são solitários. Nunca podem se ver, não diretamente.
— Espero que você esteja certo — falou o rapaz, cheio de dúvidas. — Ou nós estaremos seriamente ferrados.
E eles dançaram. Em uma roda, de costas uns para os outros, enquanto Aisling cantarolava e eles dançavam. E as luzes que surgiam e tornavam a aparecer atraíram as pedras em volta como mariposas. Eles sentiam o cheiro deles como se fosse carne fresca, e seguiam, apenas para encontrarem um anel, fechado, dentro do qual humanos os olhavam sem parar, dançando initerruptamente, cantando e chamando-os para a prisão.
Eterna.
Já estava amanhecendo quando eles pararam, exaustos, mas o Doctor ainda tinha animação em seu rosto.
— Eu não acredito. Nós fizemos isso! Stonehenge! Não é surpresa nenhuma que tenha sempre sido um mistério como...
A velha sacerdotisa se apoiou na pedra do centro. Era claro que o esforço tinha sido demais para seu velho coração.
— Não, não, não faça isso — pediu o alienígena, amparando-a. — Fique, Aisling, a vila vai precisar de você agora. Alguém tem que explicar para eles o que aconteceu.
— Certas coisas, Doctor, devem permanecer para sempre um mistério — Ela falou, cansada. — E alguém tem que ficar para vigiar toda essa gente... Seja lá o que eles forem.
— Não é preciso... Eles não vão voltar a viver, não agora... Terão definhado completamente até que alguém resolva movê-los, eu prometo...
A mulher velha riu, e seu riso de misturou com uma tosse fraca, prenunciando a morte.
— Tudo tem seu tempo, Senhor do Tempo — respondeu, quase firme. — E o meu já passou. Eu cumpri meu dever.
— Não precisa ser assim — ele tentou argumentar, mas Draco o interrompeu.
— Você me disse que já estava muito velha para correrias, e que não viria pessoalmente até aqui... Como soube... Por que...?
A velha riu, novamente, e o Doctor teve que deixá-la se abaixar e deitar sobre a pedra que tinha sido sua cela.
— Porque eu já sabia que viria depois — ela disse, ainda sorrindo para os estrangeiros. Os dois guardas permaneciam estáticos, observando tudo com consternação.
— Como você poderia... — começou o alienígena, mas então ele parou. — Aisling... Você disse que Aisling tinha sumido, à noite — falou, olhando para Ginny.
— A garotinha que nos trouxe aqui — ela começou, sua cabeça tentando compreender o que acontecera. — O nome dela era...
— Aisling — respondeu a velha, ainda sorrindo. — Não sou mesmo uma garota muito esperta?
Os olhos do Doctor se arregalaram, compreendendo tudo que tinha acontecido.
— Logo os homens de outra tribo a encontrarão, no caramanchão perto à água, e ela será reclamada pela sacerdotisa de lá como sua aprendiz. Só depois de muitos anos é que eu voltei, eu podia sentir... Que estava chegando o momento.
Ela tossiu novamente, e os olhos dele brilhavam de emoção.
— Você, então, foi o que fez a TARDIS vir até aqui.
— A deusa cuidou de mim — ela respondeu. — E este era um santuário à mãe terra, mas o mundo está mudando. Esses pilares... Eles serão um monumento à força do sol e das estrelas... Meu tempo acabou, Doctor. Eu devo retornar a ela, agora, a última oferenda antes que tudo mude.
O homem balançou a cabeça, sem querer concordar.
— Não. Você pode viver mais ainda, você pode impedir isso, pode explicar a verdade a todos e...
— Você nunca se sentiu... Cansado? — ela perguntou, respirando fracamente. — Eu não poderia lutar contra essa mudança, mesmo que quisesse... O mundo vai continuar pressionando, e a guerra vai se tornar gloriosa, enquanto nós ficaremos cada vez mais fracas. Eu estou cansada de lutar por esse mundo em que vivi. Só deixe-me ir agora, deixe-me retornar a ela, como tudo ao fim.
Todos ficaram em silêncio, enquanto ela fechava os olhos, levemente. O Doctor continuava a segurar sua mão, e sentia que ela ainda respirava, ainda que estivesse quieta.
— Tudo deve voltar ao pó — ela falou, suavemente. — Todas as coisas. Tudo morre... Sua canção vai terminando. — Aisling abriu os olhos novamente, encarando o homem e respirando fundo. — Faça dela a melhor de todas.
E sem mais uma palavra, ela se foi.
Ginny tinha lágrimas escorrendo de seus olhos, e Draco tinha fechado as mãos firmemente para se impedir de qualquer outra demonstração de emoção. Os olhos do Doctor pareceram firmemente vazios, como se contemplasse um abismo.
— Ela se foi — ele falou, suavemente.
— É como ela gostaria que fosse — respondeu o guarda, firme. — Nós cuidaremos para que o funeral seja realizado com as devidas honras. Ela será enterrada aqui...
— A última oferenda, é — ele respondeu, balançando a cabeça. — Vou deixar isso a encargo de vocês — continuou, antes de virar para os dois acompanhantes. — De volta para a TARDIS. Eu tenho passageiros que precisam ir para casa.
E sem mais uma palavra, ele saiu, acompanhado pelos dois humanos, ainda impactados por toda essa aventura.
— Eu não esperava... Que você fosse... — a voz dela calou, meio sem jeito.
— Se eu deixasse-o para morrer, como voltaria para casa? — perguntou, descartando.
A ruiva deu os ombros, sem querer pressionar e sabendo que o próprio rapaz estava intimidado com o ato de coragem. Não era muito o tipo dele, e ela sabia.
— Esse lugar é imenso — ela falou, para ninguém. — Eu suponho que tenha um banheiro? Eu realmente preciso de um banho.
— Segunda à esquerda, terceira à direita, suba a escada, passe pela dispensa, é a quinta porta à direita, de frente para o guarda-roupa. Pode escolher o que quiser — falou o homem, enquanto mexia na fiação da TARDIS.
A garota arregalou os olhos, mas saiu andando na direção indicada. A sala de comando ficou em um silêncio tenso por alguns minutos, exceto pelo barulho do alienígena mexendo em alguma coisa que Draco não saberia dizer o que é.
— Você tem certeza de que quer ir para casa? — perguntou, depois de algum tempo.
O loiro encostou-se à grade, segurando-se com as mãos, os ombros tensos.
— Você acha que não?
O homem o olhou por trás dos óculos de armação preta.
— Acordar, ir trabalhar, comer peixe com fritas e assistir televisão? Depois disso? Pode não ser tão fácil quanto parece.
— Certamente é bem mais seguro — disse, embora não parecesse particularmente convencido.
Os dois se olharam por um instante, e o Senhor do Tempo sorriu.
— Mas foi divertido, não?
A expressão era contagiante e Draco não pode evitar sorrir também, tirando os braços da grade dourada.
— Sim — eles riram, e o rapaz ficou novamente sério. — Ela não confia em mim, e tem razão, eu sou um covarde. Talvez você não devesse confiar também.
O outro o avaliou por alguns instantes.
— Talvez não, mas eu não sou conhecido pela prudência. — O sorriso foi rápido, e morreu para dar lugar a uma expressão pensativa e melancólica em um nível que não podia ser entendido pelo humano. — Você me lembra de um amigo que eu tive. Bem, inimigo. Bem, amigo.
A expressão confusa, com a sobrancelha arqueada fez o homem mais velho parar de falar.
— Meu amigo mais antigo e meu maior inimigo.
O rapaz riu, sem achar graça.
— Eu diria o mesmo sobre você. Exceto por toda a coisa alienígena.
Os dois riram, e o silêncio tornou a tomar conta do lugar, mas desta vez era confortável e não cheio de palavras não ditas.
— Então. Para onde, agora? — Ele falou com um sorriso, e Draco riu, aproximando-se do grande painel de controle.
— Eu não sei... Essa coisa não tem uma função de aleatoriedade ou coisa assim?
E, com um sorriso, o Doctor acionou os botões e o centro da nave começou a subir e descer, fazendo um som próprio, que ele jamais esqueceria.
Nota da Autora: Sim, vai ter mais, mas não prometo nada. Todo o planejamento do resto está em andamento. Me encham de amor, queridas
