CAPITULO 2
Sakura acordou mal-humorada. O sono agitado não lhe permitira descansar. E, ainda por cima, não ouvira o despertador. Preparou uma vitamina com leite e bananas e depois de ingerir apenas a metade do copo, saiu apressada. Na hora do almoço faria uma refeição mais completa, pensou.
Quando entrou no escritório, teve a impressão de que todos a olhavam com espanto.
— O que aconteceu ontem à noite? — perguntou Tomoyo, acomodada atrás da mesa de trabalho e saboreando uma tigela com leite e cereais. O computador estava ligado e processando uma complicada pesquisa de mercado.
Sakura surpreendeu-se com a pergunta. Imaginava que ela já tivesse ligado para Eriol a fim de saber as novidades.
— Não estava muito animada. Fiquei na varanda por algum tempo e depois fui direto para casa. E você? Divertiu-se?
Tomoyo lançou-lhe um olhar especulativo.
— Tenho certeza que está me escondendo alguma coisa.
Sakura corou. Mas, para não dar chance à colega, tornou a perguntar:
— Divertiu-se muito? Está com uma aparência radiante!
— Eu? Ao contrário...
— Por quê? As coisas pareciam estar se encaminhando bem. Eu os vi pela janela.
Pareciam feitos um para o outro!
Tomoyo a olhou, perplexa.
— Do que você está falando?
— Você e Syaoran, quem mais? Ele parecia hipnotizado!
— Syaoran? — indagou Tomoyo com surpresa. — Ele nem mesmo estava lá!
— Como não? Eu o vi com você. Um homem alto, moreno, usando uma jaqueta preta de couro.
— Ah! — exclamou a amiga e depois riu. — Aquele não era Syaoran. Era o Eriol!
Sakura sentiu o chão fugir sob seus pés.
— O homem com quem estava conversando era Eriol?
Tomoyo assentiu com a cabeça.
— Então quem... Oh, Deus! — exclamou, com o coração disparado.
— Quem o quê? — perguntou a amiga, cheia de curiosidade.
O som de vozes no corredor alertou Tomoyo, que se apressou em esconder a tigela de cereais atrás de uma pilha de livros, em num dos cantos da mesa. Sakura posicionou-se atrás da amiga e pôs uma revista no topo da pilha, só para garantir.
Logo depois, um grupo de consultores aguardou na porta, enquanto Touya, o diretor do departamento de pesquisas, entrou na sala.
Com um sorriso cordial ele cumprimentou as duas mulheres e em seguida, dirigiu-se à Tomoyo:
— Lembra-se de Syaoran? Acaba de retornar de Nova York.
Sakura percebeu o olhar perspicaz do diretor. Afinal, não era surdo. Teria ouvido as inúmeras vezes em que Tomoyo falara sobre o breve regresso de Syaoran.
Com o olhar curioso, espiou por cima do ombro de Touya, para ver o homem alto que ainda aguardava na porta junto com outros.
— Entre Syaoran! — pediu Touya e acenou para os demais o seguirem.
Oh, Deus! Não pode ser! Sakura exclamou para si mesma, ao reconhecer o homem com os arrasadores olhos âmbares, trajando terno e gravata. Era o Eriol que conhecera na noite anterior! Ou melhor, Syaoran! Ela ficou imóvel, incapaz de dizer qualquer coisa. No entanto, reparou que ele era ainda mais bonito pela manhã, barbeado e com um traje impecável.
Touya prosseguiu apresentando os outros homens. Sakura, porém, sequer tomou ciência dos nomes. As pernas bambeavam tanto que precisou ancorar-se com firmeza no encosto da poltrona giratória, onde Tomoyo estava acomodada.
Por fim, conseguiu manter o controle e exibir um sorriso polido. Quando notou que eles estavam saindo para visitar a base de dados dos terminais da biblioteca, baixou os olhos e caminhou até a própria baia. Precisava sentar-se.
— Eu devia ter lhe contado.
Quando ergueu os olhos deparou com Syaoran bem perto dela. Assustou-se e e!e sorriu zombeteiro.
— Devia mesmo! — resmungou.
Com um gesto de protesto, Sakura o encarou furiosa. Recusou-se a reconhecer a atração irresistível que ainda sentia.
— Sinto muito. Não queria enganá-la.
— Mas enganou, não foi? E isso é imperdoável!
Ele olhou para a porta e notou que os consultores já estavam impacientes com a demora dele. Antes de sair, perguntou:
— Acordou com dor de cabeça?
— Claro que não! — Sakura respondeu, irritada. Com uma entonação mais agressiva do que desejava.
Só então notou que os outros a olhavam com surpresa. Tomoyo arregalava os olhos.
— É melhor acompanhá-los — sugeriu Sakura.
— Estive fora apenas por seis meses. Posso encontrar sozinho o caminho da biblioteca.
— Bem... Eu tenho trabalho a fazer.
— Não quero atrapalhar.
Por milagre ela conseguiu retomar o equilíbrio das pernas e acomodou-se em sua mesa de trabalho, próxima à de Tomoyo. Aborreceu-se pelo fato de ele ainda estar ali e testemunhar que ainda não tinha sequer ligado o computador.
Ele inclinou-se e sussurrou no ouvido dela:
— Até logo, linda. — Em seguida ele abandonou a sala.
Sakura ficou pensativa. Saber que ele trabalhava ali e a posição que ocupava complicava a situação. Não poderia evitá-lo e precisava. Não queria cometer outra vez o mesmo erro do passado. E o que faria com os sentimentos que acabavam de aflorar em seu coração?
Syaoran permaneceu o tempo todo com um sorriso nos lábios. Mas não era pela apreciação dos novos sistemas de computadores. Mantinha as mãos enfiadas nos bolsos, para impedilas de correr os dedos pelos cabelos. Era o que sempre fazia quando estava nervoso.
O pensamento escapava-lhe a todo instante e voltava para a sala onde estava Sakura.
Ainda bem que ela estava usando calça comprida. Seria uma tortura vê-la de saias e não poder tocar na pele macia das coxas, além das meias. Só de lembrar a sensação o excitava.
Era o primeiro dia como sócio e seus únicos pensamentos eram para ela. Tinha
trabalhado duro para conseguir a posição e a última coisa que pretendia no mundo era perder a atenção por causa de um par de belas pernas.
Também não precisaria agir como se fosse um monge. Afinal, não pensava em nada sério no momento. Casamento e filhos não faziam parte dos seus planos. Em primeiro lugar estava no seu trabalho. Aliás, sempre fora seu lema nunca envolver-se com alguém do escritório.
Porém, Sakura era uma tentação! E, como imigrante, certamente logo estaria em outro serviço temporário. Talvez até em um país diferente... O ideal para um romance rápido e ardente.
— Conte-me tudo, agora mesmo! — Tomoyo exigiu. Sakura percebeu, pelo olhar da colega, que não poderia mais se esquivar do assunto.
— Pensei que ele fosse Eriol.
— Quem?
— Syaoran. Pensei que fosse Eriol, na festa de ontem.
— Na festa! — exclamou Tomoyo — Ele estava lá?
— Sim. Na varanda.
— E não entrou com ele?
— Não. Decidi ir para casa e ele me ofereceu uma carona.
— E o que aconteceu?
— Nada — respondeu Sakura e demonstrando uma indiferença que estava longe de sentir. Porém, tinha consciência das faces que enrubesciam — Eu... disse que não estava interessada nele.
— O quê?
— Pensei que ele fosse Eriol e que você o tivesse mandado para me assediar. Por isso, disse-lhe que não estava a fim de namorar ninguém.
Tomoyo deu uma risada sarcástica:
— Não acredito! Sabia que isso aconteceria! Sakura franziu as sobrancelhas, formando uma ruga de dúvida entre elas,
— E pensar que pedi a Eriol para mantê-la fora do caminho antes que Syaoran a visse... Era minha única chance!
— O que está dizendo? — Quis saber Sakura, ainda sem entender nada.
Tomoyo deu um suspiro desanimado.
— Ouça, conheço Syaoran há anos. E ele nunca demonstrou sequer uma ponta de
interesse em mim ou em qualquer outra do escritório. Não havia uma só garota no
departamento inteiro que não se derretesse por ele — e com uma expressão de desgosto, concluiu: — Tinha esperanças de ter uma chance quando ele visse meu novo visual. Por isso queria que Eriol tirasse você de cena!
— Por quê?
A amiga girou os olhos nas órbitas e desabafou:
— Olhe para você mesma! Alta, linda, curvas nos lugares certos. Quantos rapazes daqui não quiseram levá-la para sair e você simplesmente os ignorou? É óbvio que tem toda chance com Syaoran. E tão carismática quanto ele!
— Carismática?
— Acho que é a única que não percebe isso! — E usando um tom confidente, declarou:
— Vi a maneira como ele a olhava. E posso lhe assegurar que nunca o vi fazer isso antes, com ninguém! — Com um sussurro, finalizou: — Também nunca a vi tão corada!
Sakura apoiou os cotovelos sobre a mesa e massageou as têmporas.
— Carismática? — repetiu em voz baixa. _Não pensava daquele modo, principalmente depois do acontecido na noite anterior.
Tinha se comportado como uma mulher "fácil". Até demais! E, mesmo naquela manhã, apenas com a intensidade daqueles olhos extasiantes ele conseguira fazer com que ela perdesse a imagem, que sempre ostentara, de ser uma mulher segura e virtualmente inacessível.
Aquilo não poderia continuar, concluiu em pensamento. Ele não era Eriol. Era sócio da firma, ou seja, um dos chefões. Não queria mais complicações em sua vida. Não depois de ter que abandonar um dos melhores empregos que conseguira... Tudo por causa de um dos donos da empresa.
Por conta do serviço atrasado no departamento em que Sakura trabalhava, todos
resolveram emendar o horário de almoço. De modo que, por volta das duas horas da tarde estavam todos exaustos.
— Vou tomar um café. Querem um também? — perguntou Sakura, ansiosa por esticar as pernas.
Touya e Tomoyo ergueram a cabeça ao mesmo tempo e aceitaram com um sorriso ansioso.
— Volto em dez minutos.
Ao chegar à cafeteria, aproximou-se do balcão e fez o pedido. Enquanto se acomodava em uma das banquetas altas, ouviu a conversa entre alguns homens, sentados em uma das mesinhas do bar, e congelou ao reconhecer a voz de Syaoran. Girando a cabeça na direção das vozes foi possível avistar. Os olhares se cruzaram. E, outra vez, o âmbar envenenado daqueles olhos a fascinou, provocando-lhe um calafrio na espinha.
Recuperando a compostura, ela se apressou em tomar o café fumegante que acabara de lhe ser servido e ordenou outros dois para viagem. Assim que o balconista entregou-lhe a encomenda, pagou e ergueu-se.
Para seu alívio, a mesa em que ele estava, acompanhado de dois consultores,
encontrava-se vaga. Suspirou e caminhou em direção à saída do estabeleci- mento.
Syaoran a esperava do lado de fora. Contudo, ela não o viu. E quando ouviu um sussurro ao ouvido, quase derrubou o café que levava.
— Deixe-me ajudá-la.
Ele disse, tirando a embalagem descartável das mãos dela.
Sakura não teve nem tempo de recusar a oferta. Por isso, só lhe restava acompanhar-lhe os passos.
— Não vai mais falar comigo? — perguntou ele, risonho.
— Não. Você me enganou. Devia ter me contado quem era.
— Eu sei. Mas foi bem mais divertido assim. Ela forjou uma expressão zangada:
— Tomoyo nunca irá me perdoar. E eu ainda nem contei a ela toda a verdade.
— E nem deve. Ela não precisa saber — E dando uma parada intencional, ele
perguntou: — Quer jantar comigo?
— Não.
— Um lanche?
— Também não.
— Um café? — Sakura sacudiu a cabeça, com um gesto negativo. — Por que não?
— Não me envolvo com pessoas da firma.
— Nem eu.
— Então por que está insistindo?
— Porque no seu caso posso fazer uma exceção. E quem foi que falou em
envolvimento?
Sakura mordeu o lábio inferior. Ele era esperto e malicioso. Mesmo assim, não permitiria que a vencesse. Syaoran não era apenas um colega de trabalho. Era um dos maiorais. E sua última experiência lhe custara o emprego e um quinhão de tristeza.
— Não gosto de fofocas no trabalho.
Ele deu uma risada alta e prosseguiu caminhando. Ela o acompanhou.
— Se não gosta de fofocas, por que é que estava me contando sobre Tomoyo e o homem que supunha ser eu?
Ela corou. Sabia que era verdade.
— Estava apenas comentando um fato. E, sem nenhuma malícia — argumentou.
Ele a olhou pensativo e depois insistiu:
— Prometo que ninguém vai saber.
Sakura sentiu-se tentada por um momento. Mas uma voz interior lhe dizia para ficar o mais longe que pudesse daquele homem.
— Alguém sempre alguém acaba sabendo — afirmou ela.
— E o que os outros pensam importa para você?
— Claro! — exclamou Sakura, franzindo o cenho. A verdade não era bem essa; Sua mãe lhe ensinara a seguir determinadas regras de vida que sempre a acompanharam: agir com dignidade e evitar magoar as pessoas. Assim, ninguém teria razões para julgá-la e poderia viver sua vida independentemente da opinião alheia. Nunca namorar um colega de trabalho era uma das principais normas. Ela sentira, por experiência própria, o resultado de transgredir esse aviso.
— Sabe que o beijo que trocamos foi muito significativo, não sabe?
Ainda bem que não era ela quem segurava o café, pensou. Pois certamente o teria
derrubado naquele instante. Syaoran dissera aquelas palavras com tanta ternura que Sakura sentiu vontade de provar aqueles lábios outra vez. Mas não devia! Repreendeu-se, mentalmente. Se ele fosse o Eriol, seria mais fácil. No entanto, tratava-se de Syaoran, sendo assim, a situação era outra e o perigo também.
Quando alcançaram o saguão do prédio onde trabalhavam, ela estendeu as mãos para receber a embalagem contendo os copos descartáveis com o café.Syaoran, porém, sacudiu a cabeça, recusando-se a entregar-lhe.
No elevador, ele quebrou o silêncio que já durava alguns minutos.
— Está muito quieta, hoje. Na noite passada falava tanto que parecia uma outra pessoa!
Era verdade. Mas na noite passada ela não sabia que ele era o seu chefe.
Prosseguiram calados. De vez em quando os olhares se encontravam. E a atração que havia entre eles era impossível de dissimular.
Quando as portas do elevador se abriram, ela saiu em disparada. Queria afastar-se da presença perturbadora dele o mais rápido possível.
— Ei! Esqueceu o café!
O chamado fez com que estacasse de repente. Praguejou em pensamento e, girando nos calcanhares, retornou. Syaoran estava parado no hall, com a embalagem nas mãos, diante do olhar curioso da recepcionista a poucos metros de onde estavam.
Sakura aproximou-se e ele lhe passou a bandeja descartável com todo cuidado. As mãos se tocaram na manobra. Ela sentiu como se tivesse sido atingida por um ferro em podia? Perguntou-se em pensamento. Ele era apenas um homem como outro qualquer!
— Obrigada.
— Foi um prazer, linda — respondeu ele com um largo sorriso. Depois, virou-se e
desapareceu pela porta dos fundos do andar.
— Têm um minuto? — perguntou Touya retornando de uma reunião com a Diretoria.
Sakura e Tomoyo giraram as poltronas ao mesmo tempo para poder olhá-lo de frente.
— Estamos designando profissionais para um novo projeto. — E, indo direto ao ponto, esclareceu: — Trata-se de um trabalho confidencial para um cliente de grande porte. Será uma jornada de apenas duas semanas. Estão precisando de uma pesquisadora que seja rápida na digitação. — Sem mais delongas, dirigiu-se a Sakura:
— Querem você. Começa na segunda-feira.
Sakura ficou paralisada.
— Não poderá trabalhar em dois lugares ao mesmo tempo. Por isso está dispensada do que está fazendo no momento. — Prosseguiu o encarregado do departamento, revelando os detalhes finais. — É um grupo pequeno de apenas um dos sócios da firma, dois consultores e uma pesquisadora, que será você. Deverá ser encarregada da apresentação da proposta e do relatório final. Tudo bem?
Sakura concordou com um gesto de cabeça.
Procurou disfarçar a muito custo o desapontamento. Estava trabalhando num projeto para uma empresa de Portugal já fazia algum tempo. E além dos benefícios que recebia, tinha sido prometida pela firma portuguesa uma cortesia: Um final de semana em Bilbao com todas as despesas pagas. Ela estava muito ansiosa em poder desfrutar esse prêmio. Não teria chance de fazer isso com suas próprias economias. E, também, nem haveria mais tempo.
O visto para trabalhar em Tomoeda estava expirando e a passagem de volta para a Nova Zelândia já estava reservada.
— Na segunda-feira poderá ir direto para a sala de reuniões II — avisou Touya — Suashabilidades são excelentes. Tenho certeza de que se sairá muito bem. O próprio "chefão" escolheu você. Trabalhará diretamente com Syaoran.
No primeiro dia do novo trabalho, Sakura chegou 15 minutos antes do horário combinado.
Ficou surpresa ao notar que era a última a entrar na sala de reuniões.
— Tudo bem, Sakura. Você não está atrasada— Syaoran tranqüilizou-a, enquanto contornava a imensa mesa de reuniões para cumprimentá-la. — Nós é que começamos mais cedo para que, quando chegasse, tivesse trabalho a fazer.
Ela assentiu com a cabeça e os olhares se encontraram. Mas dessa vez ela viu neles apenas interesse profissional. Mesmo assim, não pôde impedir que o coração se acelerasse e o calor subisse do abdômen até os seios erguidos e fartos.
— Onde está o computador? Preciso checar o acesso ao centro de dados.
Ele gesticulou para a cabeceira da mesa e acompanhou-a até o lugar onde se
encontrava o micro.
— Faremos um desjejum daqui a 15 minutos e depois discutiremos alguns tópicos do programa. Tudo bem? — perguntou ele cobrindo-a com o olhar.
Na primeira terça-feira, no final da tarde, os consultores saíram para recolher alguns dados em uma reunião importante e Sakura ficou a sós com Syaoran.
O silêncio era total.
Sakura digitava e prestava atenção no monitor. Pretendia com isso, ignorar a presença dele.
De repente, Syaoran ergueu-se e espreguiçou os braços. O gesto parecia torná-lo ainda mais alto. Ela sabia que não deveria ficar observando-o. Mas era impossível.
Ele sorriu e determinou:
— Já chega por hoje. O grupo precisa de descanso.
— O grupo? — perguntou ela surpresa. — Estamos apenas nós dois!
No fundo estava receosa de ir embora na companhia dele. As memórias da despedida ardorosa em frente ao prédio onde morava ainda a excitavam.
— A reunião já deve estar terminando. Pedi a Chiharu e Yamazaki para nos encontrarem no bar assim que estivessem liberados.
Bem, pelo menos, a sugestão parecia não oferecer muito perigo. Os outros iriam
encontrar-se com eles. Além disso, Syaoran era o chefe. Não havia muita escolha.
Sakura desligou o computador e ele fez o mesmo. Depois ela apanhou seu sobretudo e ajustou o cinto.
Sem perceber, ela apertou demais, adelgaçando a cintura. O que salientava as curvas perfeitas dos quadris. Pôde perceber que estava sendo observada por olhos repletos de desejo. Por uma fração de segundos ela inclinou a cabeça para trás, desejando que Syaoran se aproximasse e lhe beijasse a curvatura do pescoço.
Porém ele simplesmente saiu da sala.
Dentro do elevador, ambos permaneceram em silêncio. Ela se culpava pelo gesto
leviano que tivera. Como podia um simples olhar ter ocasionado tamanho impacto? A tensão sentida no ventre e nos seios foi dilacerante ao perceber a chama sensual naqueles olhos. Por um instante perdera o controle e agora pagava por isso. Tinha permitido que ele soubesse o quanto ela o desejava?
Já caminhando pela rua, Sakura estranhou quando passaram direto pelo bar que a
maioria do pessoal freqüentava.
— Não vamos ao Jackson's?
— Vai ser difícil manter nosso grupo unido com tantos amigos por lá. O happy hour é só nosso Sakura.
"Só nosso?" ela perguntou-se em pensamento, e o sangue tornou a ferver.
Syaoran prosseguiu nas explicações:
— Vamos trabalhar juntos por muitas horas. Precisamos estar unidos o tempo todo. Não podemos arriscar falar algo que não devemos. E também precisamos evitar... distrações.
A ênfase que ele deu na última palavra "distrações" a magoou. Ela não pretendia
representar uma "distração". Preferiu não discutir. Ele ainda era o chefe.
Syaoran percebeu a expressão de desgosto nas feições dela. Então, estacou de repente fazendo com que ela também parasse.
— Vou ser honesto com você, uma atração enorme desde o primeiro
momento em que a vi. Esse sentimento parece crescer ainda mais a cada minuto que passamos juntos — confessou ele, com o rosto corado. — Porém, não posso arriscar um projeto como esse assediando você em vez de concentrar minha atenção no trabalho. E, acredite, é muito difícil resistir à tentação. É por isso que estou me declarando a você neste instante. Quero saber se sente o mesmo a meu podia perceber, vagamente, o trânsito de pessoas na calçada onde estavam parados e o fluir barulhento do tráfego de ônibus e carros. O tempo parecia ter parado, enquanto ela observava o homem à sua frente e se perguntava por que não conseguia ser sincera com ele ou consigo mesma. Não queria permitir que nada acontecesse entre eles e, no entanto,minutos atrás, praticamente, pedia por isso. Mas não podia esquecer que ele era seu chefe e,também, não sabia de mais nada a seu respeito. Não podia arriscar.
Finalmente, ela falou:
— Não posso, Syaoran. Simplesmente, não posso.
Ele deu um passo à frente, quase encostando nela:
— Não pode ou não quer? Sei que é solteira. E também estou certo de que gostou de me beijar.
Negar era impossível. Por isso, ela preferiu o silêncio. Syaoran deu um longo suspiro.
— Vou tomar seu silêncio como uma negativa. Tudo bem, Sakura. De agora em diante nos concentraremos apenas no trabalho. Quem sabe, quando isso tudo terminar, poderemos voltar ao assunto.
Ela sentiu as pernas bambearem e as faces esquentarem. Mas não podia ser escrava dos apelos sensuais. Decidiu controlar-se e executar um excelente trabalho no projeto. Não iria cair nas garras da sedução outra vez.
Syaoran Li deu mais um dos seus sorrisos arrasadores e ofereceu-lhe o braço:
— Não fique preocupada. Tudo vai dar certo.
Ela enlaçou o braço oferecido e prosseguiram na caminhada até que ele a conduziu para dentro de um barzinho aconchegante.
— Você escolhe a mesa. Enquanto isso vou pedir os drinques. Qual sabor
prefere, maçã ou framboesa?
— Não quero nada que contenha álcool. Vou preferir uma limonada, por favor.
— Direto para casa hoje? — ele gracejou. Ela assentiu com a cabeça.
Direto para casa e sozinha, acrescentou mentalmente. Depois escolheu a mesa que ficava bem no centro do pequeno ambiente. Nada de cantos escuros e propícios a romances.
Precisava comportar-se de modo profissional. A declaração dele na calçada a surpreendera, contudo. Embora tivesse confessado a atração que sentia por ela, deixara claro que o trabalho vinha em primeiro lugar.
Além do mais, a considerava uma "distração". E provavelmente era isso mesmo que ela representava. Não podia esquecer de que a maioria dos casos amorosos que sabia acontecer entre colegas de trabalho não passavam disso, casos. Era apenas uma forma de tornar mais atraentes as longas horas de trabalho.
Syaoran aproximou-se com um copo em cada mão e escolheu o lugar oposto ao dela.
— Está gostando de trabalhar para a Doidouji? — perguntou ele, logo após provarem suas bebidas.
Antes que ela respondesse, o diálogo foi interrompido pelo toque do celular de Syaoran.
Após alguns segundos de "sim" e "não", ele desligou o aparelho e a olhou com ar
desanimado.
— Era Yue. Ainda está na reunião e disse que precisa da minha assistência.
— Então cancelamos o happy hour. Tudo bem estou mesmo cansada. Vou para casa.
— E, ameaçou levantar-se.
Syaoran gesticulou para os copos quase intocados e falou:
— Não podemos desperdiçar o dinheiro da menos termine seu refresco.
Ela apanhou o copo com as mãos trêmulas e quase terminou o líquido com um só gole.
— Eu a deixei nervosa? — quis saber, com uma expressão matreira.
— Claro que não — respondeu ela, tentando demonstrar segurança. A verdade, é que estava mais do que nervosa. Porém, consigo mesma. Não conseguia controlar a emoção.Não na presença dele. E isso a fazia agir como uma tola.
— A indecisão nos seus olhos diz exatamente o contrário — provocou ele.
— Preciso ir.
— Quer uma carona?
— Melhor não.
— Está bem. Mas ainda voltaremos àquele assunto.
Ela saiu apressada do bar e da presença dele. Precisava respirar. Ninguém merece passar pelo mesmo tormento duas vezes, pensou.
Subiu no ônibus e escolheu um lugar junto à janela. Queria apreciar a vista que tanto a encantava, já que tinha poucas semanas pela frente para desfrutar de Tomoeda.
Porém, os olhos só focavam o vazio, porque os pensamentos se perdiam no passado.
Sakura acreditara cegamente em Yukito. Um homem experiente e dez anos mais velho do que ela. Sabia exatamente como conquistar-lhe a atenção: flores, presentes, palavras doces e tudo mais. Um romance tão perfeito que ela só tinha visto acontecer em filmes.
Tinha a certeza de que ele a amava. Até descobrir sobre Kaho, a noiva com quem já havia até marcado a data do casamento!
Quando a verdade veio à tona, é claro que ela sentiu-se humilhada e também furiosa por nunca ter desconfiado. Ele nunca a levara ao apartamento dele. Sempre se encontravam no dela. Também lhe pedira para manter segredo sobre o relacionamento deles aos colegas de trabalho. Argumentava que, sendo seu chefe, poderiam acusá-lo de favoritismo.
Ela gostaria de tê-lo processado por assédio sexual, mas estava tão envergonhada em ter representado o papel da "outra" na vida dele que não teve coragem de se expor daquela maneira. Preferiu pedir demissão e candidatar-se para um serviço temporário em Tomoeda.
Precisava afastar-se para recuperar a auto-estima.
E agora lhe aparecia Syaoran!
Ela não conhecia nada sobre a vida particular dele. Só sabia que em tão poucos dias tinha posto abaixo suas defesas. Tinha um desejo incontrolável de sentir o calor do corpo atlético outra vez. E as mãos imensas deslizando por seu corpo inteiro.Só não podia arruinar o trabalho do grupo por causa da sua loucura. E o único jeito de prevenir isso seria mantendo distância dele, o que a fez decidir por tomar uma postura fria e profissional. Só falaria com ele quando fosse estritamente necessário para o andamento do projeto.
