"O que eu faço agora?" Era o único pensamento de Carter, ao se jogar na sua cama. O fato de ter de lutar com o pai era a única coisa que dominava a sua mente. Sim, ele sabia que teria que fazer isso em algum momento em sua jornada, mas nunca imaginou que seria o primeiro Ginásio. Já havia visto o pai lutar e sabia que ele lutava muito bem! Não tinha pena nem dó dos oponentes e ia com tudo. Eram poucos os que o venciam e levavam a Insígnia do Terremoto...
Os dois haviam chegado em casa fazia meia hora. Sair da floresta foi fácil. Ainda mais com o faro de Drilbur os ajudando. Clay foi direto cuidar de seu Krokorok, enquanto Carter subiu para o quarto. Estava ansioso e nervoso. O pai não desistiria dessa batalha e já estava confirmada para o dia seguinte. E o pior! O pai havia anunciado essa batalha pela cidade inteira! Então, dezenas de pessoas viriam ver a humilhação que o garoto passaria. E Carter só tinha dois Pokémons mal treinados. Perderiam, com certeza, dos poderosos Pokémons terrestres de Clay.
"Que pensamentos são esses, Carter?" o garoto dizia para si mesmo, em sua mente "Não desista, jamais! Se você perder amanhã, perderá com a cabeça erguida! Se vencer, vencerá com a cabeça erguida! Tenha esperança!"
Então, ele se lembrou das palavras, ditas há muito tempo, por uma pessoa que ele mal conheceu:
- Filho, se mantenha firme! – dizia a mulher, enquanto Carter jogava videogames e se sentia frustrado por perder – Você perdeu hoje, ganhará amanhã. Ganhou hoje, perderá amanhã. A vida é assim. Não se vence sempre, sabia?
- Eu não posso vencer sempre? – perguntou o garotinho, que tinha entre 4 e 5 anos.
- Não, mas aí que está a parte boa! Não perdemos sempre também! Mas, para vencer, precisamos nos manter firmes! Não desistir! – ela observava enquanto os olhinhos do garotinho brilhavam de alegria – Agora, quero ver você religar esse joguinho e não desistir! OK? Faz isso pela mamãe?
- Faço!
Carter ficou ali, largado em cima da cama. Sentiu uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Percebendo isso, levantou-se e se encaminhou para o banheiro. Passou água na face e, em seguida, desceu as escadas. Encontrou a cozinha vazia e um pequeno bilhete em cima da mesa. Ele o pegou e leu. O bilhete dizia:
Caro Carter, eu fui enfrentar um desafiante no Ginásio. Espero que saiba se virar bem aí em casa. Qualquer coisa, sabe onde me achar! Abraços, Clay!
Lentamente, o garoto deixou o pedaço de papel de volta ao lugar onde o tinha achado. Pegou um pouco de leite com chocolate e se sentou, bebendo enquanto apreciava o silêncio. A cozinha era pequena, contendo apenas uma geladeira, um fogão, uma pia e a mesa. Havia uma janela que dava vista para o Ginásio, do outro lado da rua e um balcão que dividia este cômodo com a sala. As luzes estavam apagadas, o que deixava o lugar sombrio.
Assim que terminou o leite, Carter pegou um casaco e saiu de casa. Começou a andar pelas ruas da cidade, desertas. Era pleno sábado e as pessoas queriam ficar dormindo em suas casas, principalmente neste dia, que estava nublado. O frio era grande, o que trazia ao garoto uma sensação familiar. Ele foi andando pelo norte da cidade, que era mais arborizado. Foi então, que uma memória veio a sua cabeça:
- Mamãe! Mamãe! Mamãe! – gritava o pequeno Carter, de 6 anos, observando a rua chuvosa e as altas árvore atrás de si. Silhuetas de pessoas passavam, segurando guarda-chuvas e nem se preocupavam com o garotinho gritando, desesperado.
- Cadê você? Cadê você, mãe? Por favor, mãe! Não me deixe aqui! Por favor! – ele gritava até cansar a garganta. Vendo que ninguém respondia, ele caiu sentado na calçada, esperando. Estava ensopado e os fortes pingos de água que caiam do céu ajudavam a manter o cenário triste e assustador, que era o que se passava no coração do pequeno Carter.
No momento em que ele iria gritar de novo, ouviu uma voz a sua esquerda:
- Não tente de novo. Tanto eu, como você sabemos que sua mãe não pode mais estar com a gente.
O som de uma trovoada trouxe Carter de volta a realidade. Uma leve garoa teve inicio, brincando de tamborilar no asfalto. Uma loja de doces ao seu lado direito trazia conforto, mas também trazia mágoa. Ele se lembrava nitidamente de ter visto a mesma loja no dia em que chamava a mãe, desesperado. Aquele fora o dia mais triste da sua vida!
- Boa tarde – disse o atendente da loja, no momento em que Carter entrava. Porém, assim que o garoto ouviu a voz, outra lembrança veio a sua cabeça:
- Moço, o senhor pode me ajudar?
- O que você quer, pirralho? – perguntou o homem, com pouco caso. Estava prestando atenção na linda moça que olhava os doces na vitrine. Mulher e dinheiro ao mesmo tempo!
- Você pode me ajudar? Perdi minha mãe e não sei como chegar em casa.
- Vaza daqui, moleque. A senhorita ali pode pensar que você é meu filho! Aposto que outra pessoa pode te ajudar.
O garoto obedeceu e saiu. Mas levou consigo aquela mágoa e tristeza. A mãe morrera e não podia contar com ninguém.
- Olá, quer alguma coisa? – o garoto acordou ao ouvir a voz do homem. Ele era muito parecido com aquele que lhe desprezara 7 anos antes. Estava mais velho, com certeza, mas era a mesma cara de ignorante, o mesmo corpo magro e o mesmo nariz pontudo.
- Com licença? Vai querer algo, garoto? – a voz do vendedor persistia.
- Para falar a verdade, quero sim. – Carter se virou para ele, o rosto retorcido de fúria. – Você se lembra de mim?
- Não... Eu deveria lembrar?
- Bem, espero que aquela mulher olhando na vitrine tenha feito algo de bom para você! Por causa dela, você não deu atenção ao pobre garotinho que estava perdido, sem mãe e lhe pediu socorro, não é?
De repente, o rosto do atendente assumiu uma expressão confusa. Mas assim que assimilou a voz do garoto, entendeu tudo:
- Então, você é aquele pirralho que me encheu o saco?
- Sou! Sou aquele que você ignorou! Aquele que você deixou para ficar na rua, na chuva! Aquele que havia acabado de perceber que perdeu a mãe! – Carter cuspia cada palavra como se fosse um tiro de canhão, pronto para atingir bem na barriga do vendedor.
- Calma, que raiva... – o homem se afastou um pouco, na direção de seu balcão.
- Que raiva? Você diz para eu me acalmar e depois diz "Que raiva"? Vou te mostrar o que é raiva! Quando você me desprezou, eu saí pelas ruas aí! Perdido! Por sorte, achei o caminho de volta para casa! Mas e se fosse atropelado? E você, aqui, podia ter dado um simples telefonema para o meu pai, não seria difícil, pois ele é o líder do Ginásio! E não o fez! – Carter levou a mão ao bolso e sacou a sua Pokébola – Vamos ver se você se sente feliz, depois que eu mandar meu Pokémon te transformar em retalhos! Drilbur vai!
A pequena toupeira foi expelida para fora da esfera bicolor, preparada para ajudar seu treinador a se vingar. Assim que recebeu o comando de utilizar a Garra Furiosa, partiu para cima do amedrontado vendedor, que teve de rolar para o lado para se esquivar da sequencia de arranhões desferidos. Carter já ia ordenar o próximo golpe, quando uma outra lembrança veio a sua mente, quase como por mágica:
- E agora? Se aquele moço tivesse me ajudado! – lamentava o garotinho, correndo pelas calçadas chuvosas. Correu e correu. Até que pensou ver o telhado do Ginásio atrás de uma casa verde. Tentou chegar até lá, atravessando a rua, quando um carro apareceu, virando a esquina. Vinha acelerando na direção do menininho. Sua morte era certa, até que...
- Não temas! Você está bem! – dizia uma voz leve e doce na mente do próprio Carter, enquanto o mesmo era, de repente, pego por uma força invisível e foi flutuando para fora da rua, enquanto o carro passava em alta velocidade. Quando sentiu que estava de volta no chão, abriu os olhos. Sua única visão era o fundo de um beco escuro, mas havia uma luzinha piscando ao lado de umas latas de lixo.
- Quem é você? – perguntou Carter.
- Eu sou aquele que te salvou.
- Como me salvou?
- Um simples truquezinho. O golpe se chama Psíquico. Pode ser usado para vencer batalhas ou salvar garotinhos. Eu escolhi salvar garotinhos! – a pequena criatura brilhante saiu da escuridão. Tinha as cores bege e amarelo. Suas grandes orelhas formavam a letra V. Seus grandes orbes azuis fitavam Carter com uma curiosidade especial. E, além de tudo, tinha duas asas no lugar onde deveria ser a cauda. Finalmente, o estranho Pokémon sorriu.
- Você me salvou! E você não é igual aquele homem da loja! Ele não me salvou! Ele é mal! – dizia o menininho, completamente enraivecido.
- Calma! Não sinta raiva. Ele poderia ter agido melhor, mas se você ficar com raiva e guardar rancor, não será melhor que ele. Deixe que o próprio Universo castigue os maus. Seja bom e você será recompensado! – disse o Pokémon salvador e então, lentamente, começou a desaparecer...
- Driiil? – chamou Drilbur, aguardando ordens. Carter voltou à realidade. Observou enquanto sua toupeira se mantinha de pé com as garras apontadas para o homem, que se escondia atrás de um pote de doces.
O garoto podia acabar com ele ali. Se livrar da ânsia de vingança. Mas se lembrou das palavras do Pokémon que o salvara e mudou seus planos:
- Drilbur, vamos embora. Ele não vale a pena.
Não se sabe quem ficou mais surpreso. O vendedor ou a toupeira. Mas, lealmente, ele obedeceu. O treinador e o Pokémon saíram andando da loja, em um silêncio absoluto, enquanto o homem continuava lá dentro, absorvendo tudo o que havia acontecido. Mas, logo esqueceu aquilo e voltou a tratar de seus negócios.
Em algum momento no percurso de volta para casa, Carter recolheu Drilbur na Pokébola, enquanto ia apreciando os prédios e casas da cidade. Quando chegou perto de casa, mais uma lembrança lhe veio a cabeça:
- Parece que chegamos! – disse o Pokémon, que flutuava ao seu lado.
- É, aqui é minha casa! – confirmou o garotinho – Muito obrigado por me acompanhar e me ajudar a achar o caminho!
- De nada! Foi uma honra estar na sua presença, Carter! E lembre-se, eu nunca irei te abandonar. Sua mãe foi uma grande mulher, mas você será um homem ainda mais grandioso! Não desperdice o seu coração! Tem muito potencial aí dentro!
- Obrigado! Vou tentar! – respondeu o menino, com alegria nos olhos – E, a propósito, quem é você?
- Meu nome é V, de vitória! E eu sou seu melhor amigo! E agora, tenho que ir! Lembre-se de todos os conselhos que eu te dei! E, principalmente, nós só podemos vencer se tentarmos! Não há lucro sem jogo!
- OK, pode deixar! E obrigado por tudo!
- Adeus!
- Tchau! – Carter acenava, enquanto via o seu novo amigo V sair voando pelos ares, envolto em uma bola de chamas.
Uma lágrima escorreu pela bochecha do garoto. Ele pescou uma chave no bolso do casaco e abriu a porta. A chuva continuava, mas ele nem ligava. Entrou dentro de casa.
Assim que deixou o casaco no cabideiro, subiu as escadas e correu para dentro de seu quarto. Depois, olhou ao redor. Em um dia com tantas lembranças tristes, Carter começou a ter mais uma, porém, esta foi de um dos melhores momentos de sua vida:
- Filho, eu sei que só é permitido que pessoas se tornem treinadores a partir dos 10 anos, mas eu quero lhe dar um presente – anunciou Clay, com uma caixa na mão.
- O que é papai? – perguntou o pequeno Carter, com 7 anos.
- Eu quero te dar um Pokémon! Eu o capturei recentemente e quero que seja o seu primeiro!
- Eba! Terei um Pokémon só para mim? Jura? – os olhinhos do garotinho brilhavam.
- Juro! Você terá o seu Pokémon! E vocês serão fortes juntos! E eu sei que um dia, você se tornará um grande treinador e derrotará até mesmo a mim! – completou o pai, entregando de vez a Pokébola ao filho. O garotinho segurou, firme e então, a abriu. De dentro dela, saiu aquele Pokémon, tão fofo e confiante que teve uma surpresa ao receber um abraço apertado de seu mais novo dono.
- Um Drilbur! Um Drilbur! Pai, você é demais! Eu e Drilbur treinaremos bastante! Seremos os melhores! E nunca, nunca e jamais desistiremos!
E, enquanto comemorava a sua mais nova aquisição, o pequeno Carter não notou o Pokémon com as orelhas em forma de V observando-o, enquanto flutuava ao lado da janela, com um sorriso no rosto.
- Filho, você está aí? – a voz de Clay soou da escada e fez com que Carter acordasse de suas lembranças.
- Estou sim! – ele respondeu ainda zonzo e perdido em seus pensamentos.
- Ei, o que acha da gente sair para jantar? – convidou o pai, já na porta do quarto – Podemos ir comer uma pizza! Tipo, para aliviar a tensão da batalha de amanhã. Vai ser legal! O que acha?
- Seria legal! Eu topo!
- Ok, eu conheço uma pizzaria bacana aqui perto! Chama-se Canto do Alomomola e é uma delícia! Vou já ligar para fazerem uma reserva... – e saiu andando, com o telefone na mão esquerda e a sua habitual mala na mão direita.
Carter sorriu e já iria segui-lo, quando sentiu a presença. Ele se virou para o lado e o viu. Desta vez não era lembrança e nem sonho. Era real!
- Vá em frente! Se lembre dos conselhos e boa sorte! – desejou Victini, o Pokémon que tanto ajudara Carter há tanto tempo.
