Três anos tinham passado. Mochi agora sabia muito melhor como agir dependendo da situação. Seus olhos verdes tinham um brilho de determinação que era quase inexistente antes. Seu cabelo castanho claro estava na altura dos ombros, continuando perfeitamente ondulado. Mas a diferença mais marcante era a pulseira prata que usava sempre. Fora um presente da mãe, que havia aprendido a amar.

Naquele momento, Aki estava no colégio. Não era mais chamada de "Mochi", seu pseudônimo na Wammy's House. Também não ligava, já que não via mais sentido em ser chamada daquela forma. Era uma garota do segundo ano do colegial e não mais uma criancinha prodígio. Estava no melhor colégio do Japão e era o que importava.

- Senhorita Yagami. – o professor a chamou, fazendo-a desviar o olhar da janela para a frente da sala – Poderia ler o próximo parágrafo?

Aki se levantou e pegou o livro, impressionantemente aberto na página correta. Ela respirou fundo e começou.

- "Quando vira o garoto passar na frente da lojinha, ela saíra voando, sem ter tempo de ajeitar o cabelo. Como se acabasse de tirar a touca de banho de mar, seus cabelos estavam em desalinho, deixando-a ansiosa. No entanto, na frente dele, ela era uma menina inibida que não conseguia arriscar um gesto para ajeitar os fios rebeldes de seus cabelos. O garoto, por sua vez, temia que pudesse ofendê-la se lhe pedisse para ajeitá-los." (1)

O professor agradeceu e permitiu que ela se sentasse. Em seguida, retomou as explicações sobre o livro que estavam lendo naquele bimestre. Aki tornou a olhar pela janela, completamente desinteressada na aula. Gostava do livro, mas era maçante ter que ouvir o professor falando sobre o contexto histórico em que foi escrito por mais de três aulas consecutivas.

Antes que percebesse, no entanto, a aula acabou. Aki ouviu o comando e se levantou. Todos os alunos agradeceram pela aula, tornando a se sentar depois. Alguns foram conversar em pontos diferentes da sala, outros foram fazer uma breve visita a alguém de outra turma. Aki apenas continuou ali, distraída, até que seu nome fosse pronunciado por um garoto que ela nunca vira.

Quando virou em direção a ele, notou que o rapaz tinha ido correndo o mais rápido que podia até a sala, fazendo o recado parecer realmente importante. Ela agradeceu e se dirigiu para a sala dos professores. Não tinha idéia do que queriam com ela, mas também não importava. Se um professor chamava, o dever do aluno era ver o que era.

- Senhorita Yagami, fico feliz que veio tão rápido. – era a professora de História do Japão quem falava.

- Não foi nada, Kyori-sensei. – Aki sorriu ao responder.

- Eu a chamei aqui porque preciso que ajude um de meus alunos com a matéria. Você é a mais brilhante dentre todos no colégio, creio que seja a mais indicada para ajudar um colega.

- E quem seria o aluno a quem devo ajudar?

- Ele deve estar chegando. Se puder aguardar um momento…

Assim que a professora acabou de falar, alguém entrou pela porta de forma estrondosa. Era um aluno do primeiro ano de cabelos pretos, olho castanho escuro, alto demais na opinião de Aki. Ao vê-lo, a garota franziu a sobrancelha. Aparentemente, ele estava fugindo de alguém.

- Kyori-sensei! – ele se aproximou e a cumprimentou – Vim o mais rápido que consegui!

Do corredor vinha uma voz masculina em um tom bastante irritado.

- Vejo que aprontou novamente, Hiroshi. – ela estava séria.

O garoto deu uma risada sem graça.

- Essa – a professora indicou Aki – será a aluna que irá ajudá-lo em minha matéria. Tenha respeito, ela é a melhor aluna do colégio.

- Por que eu tenho que ensinar um garoto primeiranista? – Aki pareceu se ofender.

- Senhorita Yagami, por favor. Já tentamos os melhores alunos do primeiro ano, mas ninguém foi capaz de ajudá-lo. Estou contando com a sua ajuda. – a professora tentava esconder o ar de desespero que tinha na voz.

Aki suspirou.

- Tudo bem… Mas seus horários devem se adaptar aos meus. Suas atividades não devem afetar seu desempenho. Se por acaso acabar se metendo em problemas e não comparecer nas minhas aulas, considerarei que sabe a matéria e não tornarei a ajudá-lo. Deve me chamar de "Yagami-senpai" e nunca, jamais!, falar comigo nos corredores da escola ou quando eu estiver com algum amigo. Entendeu, Hiroshi? – o olhar dela estava frio.

- S-sim…! – ele parecia sufocado pelo tanto que ela falara sem parar para respirar uma única vez.

- "Sim" o que, Hiroshi? – ela cerrou os olhos.

- Sim, Yagami-senpai…! – o garoto se apressou em dizer.

A professora sorriu.

- Vejo que vão se dar muito bem. Bom, estão dispensados. Voltem para suas classes antes que o intervalo acabe. – a professora fez um gesto com a mão, mandando-os embora.

Aki automaticamente se dirigiu à saída, sem nem olhar para Hiroshi. Quando tivesse montado uma tabela de horários para ele, voltaria a procurar Kyori-sensei e pediria a ela que entregasse a Hiroshi. Na tabela estariam indicados os horários e locais das seções de estudos. Eventuais mudanças seriam comunicadas posteriormente.

Era assim que Aki trabalhava. De forma organizada e metódica. Impondo seus quereres e sem dar espaço para críticas. Não suportaria a mesma dor mais de uma vez, então criava barreiras entre ela e as pessoas ao redor.

Hiroshi ficou acompanhando Aki com o olhar até que ela passasse para o corredor. Então tornou a se virar para a professora, agradecendo por ela ainda tentar ajudá-lo daquela forma. Como das outras vezes, ele prometeu se esforçar e em seguida se retirou, voltando para sua sala.


Hora das notinhas da autora! Primeiro a nota de rodapé a respeito do livro que a Aki lê no começo do capítulo…

1) Trecho do livro Contos da Palma da Mão, de Yasunari Kawabata.

Eu achei esse livro na Internet. Precisava de algo para esse capítulo que fosse adequado e por acaso me deparei com um site que trazia trechos. Muita sorte, eu diria. E devo admitir que me despertou interesse. Acho que vou tentar encontrá-lo em alguma livraria. Desejem-me sorte! E também que minha Internet tenha sinal… Assim eu poderia postar minhas coisas logo…