Não demorou muito para que Aki tornasse a falar com Kyori-sensei sobre as aulas que daria a Hiroshi. Tinha um horário perfeitamente planejado, com aulas programadas para quando o garoto não estivesse em nenhum curso obrigatório. Ela não era a melhor apenas por se dar bem nas provas, também sabia o que fazer para conseguir o que quisesse.

A primeira aula era dentro de dois dias. Nesse meio tempo Hiroshi podia receber a tabela de horários e se preparar para o encontro sufocante. Se aparecesse sem saber de nada, o mais provável era que Aki o estrangulasse. Só a idéia o fazia tremer. A garota não era normal.


Longe dali, em um orfanato especial, Near fazia uma visita a Roger, juntamente de sua mais nova assistente. Todos a conheciam por Pandora. Era uma garota de jeito bastante insensível, já que não demonstrava muito suas emoções. Era bonita, com longos cabelos negros na altura dos ombros e olhos cor de Ônix. Tinha a franja dividida ao meio e a pele tão clara quanto a de Aki. Não só isso como também tinha uma altura próxima da garota.

Naquele momento, ela usava um vestido preto colado até a cintura, com a saia de poucas camadas e uma renda discreta na barra que ia até pouco antes de seus joelhos. Sua bota igualmente preta tinha várias fivelas e seu cano ia até mais ou menos metade da canela. Como sempre, suas unhas estavam pintadas de preto e ela levava uma corrente prata com um pingente do mesmo material.

Estava com o albino na sala de Roger, mas não interferia na conversa.

- Near, como está indo o treinamento de Pandora? – Roger parecia realmente interessado.

- Ela tem capacidade. – o albino estava montando um quebra-cabeça qualquer e não olhava para Roger ao responder.

- Fico feliz em ouvir isso. E os estudos dela não estão sendo prejudicados? Afinal, Pandora ainda está no colegial…

- Não.

- Mesmo? Que bom. Fiquei surpreso quando me pediu autorização para que ela seguisse a vida como uma adolescente normal, mas acho que me preocupei à toa.

- Sim. – Near olhou o quebra-cabeça pronto e então o desmanchou, começando tudo de novo.

- Se precisarem de qualquer coisa, telefonem para cá. Caso não esteja conseguindo que Pandora tenha um treinamento eficiente, pode mandá-la para passar uns dias no orfanato.

Ao ouvir isso, a garota franziu a sobrancelha.

- Tudo bem. – Near pareceu indiferente.

Pandora estava ficando irritada. Nunca gostara do albino e desde que passou a conviver com ele, sentia que ficava mais difícil suportá-lo. Sua mania de sempre brincar com dados e cartas, ou mesmo os bonecos, de dedo ou não. Seu jeito de sempre falar sem olhar para a pessoa e sua falta de interesse em tudo. Pandora se sentia irritada com cada uma dessas coisas.


Em um outro cômodo, deitada na cama e distraída com alguma coisa fora da janela, estava Last. A garota com jeito de moleque, com longos cabelos loiros e enrolados sempre presos em um rabo baixo, olhos bem azuis, roupas largas. A única que um dia entendera Aki. Tinha 15 anos, mas às vezes agia como se tivesse bem menos.

Ao seu lado, aberto em uma página um pouco rabiscada, estava um caderno de desenhos. Era um dos poucos com alguma folha em branco. Sobre a cômoda do quarto estavam vários tipos de jogos, várias caixinhas coloridas, diversos consoles. Eram seus passatempos. Jogar e desenhar.

Naquele momento, seus pensamentos acabaram convergindo para um ponto bastante comum nas últimas semanas. Sair daquele orfanato sufocante. Nunca gostara de lá, das pessoas, da comida, de tudo. Queria fugir. Socar o primeiro que aparecesse. Queria acabar com Near. Queria poder ser livre. Queria provar a superioridade de Mello, alguém que conhecera através das histórias, mas que admirava muito.

Ouviu algumas batidas na porta e, sem muito interesse, disse para a pessoa entrar. Não era ninguém que ela conhecesse ou ao menos conseguisse se lembrar, mas quando seus orbes azuis pousaram sobre a garota que tinha entrado, uma imagem de um passado nem tão distante veio com tudo a sua mente. "Mochi…"

- Você é a Last? – a voz da garota na porta tirou a loirinha do transe.

- Hm? Ah, sim. Sou eu mesma. – ela não parecia muito amigável.

- Roger pediu para chamá-la. Parece que o encontro dele com Near já acabou. – quando acabou de falar, a garota se retirou.

Last demorou um pouco para se levantar e ir até a sala de Roger. Tentava imaginar o que ele poderia querer com uma garota tão problemática quanto ela. Talvez a expulsasse do orfanato por ter causado muitos problemas, talvez a mandasse fazer algum trabalho como castigo. Podia ser qualquer coisa. Notando que só tinha como saber se fosse ver Roger, Last se levantou e foi até o escritório.