Kyori-sensei estava na sala dos professores, olhando pela janela a chuva que caía. Esperava pelo relatório de Aki sobre as aulas que estava dando a Hiroshi. A garota disse que estaria na sala dos professores em pouco tempo e, como sempre, ela apareceu pontualmente.
- Desculpe o atraso, Kyori-sensei. – Aki abaixou a cabeça de forma relativamente humilde.
- Que atraso, senhorita Yagami? Deixe de ser tão rígida consigo mesma e venha até aqui. – a professora sorriu.
A garota levantou o rosto e foi até a professora.
- A questão, Kyori-sensei, não é se Hiroshi é ou não um bom aluno. Eu pude constatar, nas aulas que tive que lhe dar, que ele tem perfeito conhecimento sobre sua matéria, ao menos o suficiente para estar entre os dez melhores. – Aki olhava alguns papéis que trazia nas mãos, como se procurasse algo.
- E ele tem notas muito baixas por qual razão, então? – a professora parecia não entender.
- Por pura preguiça. – quando achou o que queria, Aki separou algumas folhas e as estendeu para a professora – Tomei a liberdade de tirar algumas cópias de algumas questões que pedi para ele fazer. A senhora pode constatar que estou dizendo a verdade.
- Confio nas suas palavras, mas se insiste, olharei. - Kyori-sensei pegou os papéis e deu uma breve olhada – Certamente, está tudo correto. Com exceção de um ou outro pequeno detalhe.
- Justamente por isso, Kyori-sensei, venho lhe pedir para que me permita cancelar as outras aulas. Não há necessidade em realizá-las.
- Sinta-se à vontade, Yagami, mas avise ao Hiroshi sobre isso. E também peça para ele vir falar comigo o mais rápido possível.
- Sim, Kyori-sensei. – Aki fez uma reverência e saiu.
Minutos depois, Hiroshi estava na sala dos professores.
- Pediu para me chamarem, Kyori-sensei? – o rapaz tinha uma expressão infantil e inocente.
- Sim, Hiroshi. Acabei de falar com a senhorita Yagami e ela me mostrou alguns de seus exercícios.
O garoto engoliu em seco e se aproximou.
- E o que a senhora acha, Kyori-sensei…?
- Acho que devo tomar uma medida drástica. Ou você começa a mostrar do que é capaz, ou não terei a menor compaixão e corrigirei sua prova e seus exercícios, quando entregues, com uma rigidez além da que pode imaginar. – a professora estava séria.
- Mas, Kyori-sensei, veja bem. Não acha que se eu tivesse capacidade para ir bem na sua matéria, eu tiraria notas melhores…? – Hiroshi tentava em vão melhorar a situação em que se encontrava.
A professora pegou algumas folhas em sua mesa e as entregou ao garoto.
- Essa letra é sua, Hiroshi? – ele apenas concordou com a cabeça após ver do que se tratava – Então creio que não há razão para o senhor tirar notas tão vergonhosas em minha matéria.
- Sim, senhora. – o garoto parecia constrangido.
- Pode ir agora. – ela o dispensou com um gesto simples de mão.
- Sim, senhora. – ele se retirou o mais rapidamente possível.
Aki se encontrava no jardim da escola, lendo um livro à sombra de uma das maiores árvores do campus. Não ouviu os passos apressados que se aproximavam dela, tomando consciência de que não estava mais sozinha apenas quando a pessoa parou ao seu lado e socou com raiva o tronco em que ela apoiava. Calmamente, ela marcou a página com seu marcador preferido e fechou o livro, desviando o olhar para o recém-chegado.
- Pois não, Hiroshi? – a voz dela estava estranhamente calma.
- Por que fez isso? – já a dele tinha um tom irritado bastante óbvio.
- Sinto dizer que terá de ser mais específico.
- Por que deu aquelas cópias dos meus exercícios a Kyori-sensei? – ele estava visivelmente se controlando para não elevar a voz.
Aki fitou os olhos semicerrados do rapaz, inspirando profundamente antes de responder.
- Pelo simples fato de elas serem provas de sua capacidade mental, lógico. Não acuse se não tiver provas. É uma regra básica. – ela parecia levemente surpresa pelo fato de ele não ter chegado a essa conclusão sozinho.
- Quer tanto assim que eu me torne um robozinho como você? Que sabe tudo sobre tudo? Precisa tanto assim arruinar minha vida por causa de um simples beijo? – ele já estava falando entre os dentes.
- Ora, o que o levou a concluir que esta é a causa? Apenas fiz isso pelo desejo de aproveitar meu tempo da forma que melhor me convir. Logicamente, ensinar algo a alguém que já o conhece não se encaixa no quadro. O incidente nada tem a ver com tudo isso.
Ele sorriu de canto, agora demonstrando uma mistura de sentimentos. Satisfação, raiva, diversão, irritação.
- Isso quer dizer que não se incomodou com o que aconteceu?
Aki franziu a sobrancelha por um breve momento, mas logo voltou à expressão calma de antes.
- Não, Hiroshi. Isso quer dizer que não me deixo levar pelo sentimento momentâneo a ponto de prejudicar os outros. Eu já queria há algum tempo falar com Kyori-sensei sobre sua capacidade em relação à matéria dela.
Hiroshi bufou e se afastou. Poucos segundos depois, Aki percebeu que alguma coisa havia caído atrás do rapaz. Pegou seu livro e foi ver o que era, dando de cara com um caderno fino e preto, com letras brancas na capa indicando o que era.
