A Wammy's House estava agitada naquele dia. Por alguma razão, em uma pequena folga, Pandora decidira visitar o lugar. Como era estranhamente querida por muitos quando ainda estava lá, os órfãos sentiam certa ansiedade em revê-la. Nem todos, mas era apenas um detalhe.

Quando a garota chegou, Roger estava na porta a sua espera. Não era algo muito normal, mas a garota preferiu deixar quieto. Não ganharia nada questionando a conduta de Roger e para Pandora, atitudes desnecessárias eram mais nocivas do que podiam aparentar. Fazer apenas aquilo que se mostra necessário, era assim que ela sempre agia e continuaria agindo.

Entraram no orfanato no mais profundo silêncio e foram direto ao escritório de Roger. Aquele era o real objetivo da garota e Roger provavelmente concluíra isso após o telefonema anunciando a visita. Não era todo dia que uma criança que já havia saído de lá e tinha a honra de trabalhar com o maior detetive do mundo decidia visitar o lugar onde crescera.

- Então, Pandora – Roger começou assim que entrou na sala e fechou a porta atrás de si –, o que a traz aqui?

Ele estava sentado em sua cadeira e tinha os cotovelos apoiados em sua mesa, com o olhar fixo na jovem.

- Eu gostaria de lhe pedir um favor, Roger. – ela tinha um ar sério.

- Não vejo problema nenhum nisso, mas você sabe que, dependendo do que me pedir, eu não poderei dar permissão.

- Tenho plena consciência disso e creio que aceitará meu pedido.

- Nesse caso, pode pedir. – Roger se ajeitou em sua cadeira, apoiando as costas no encosto e os cotovelos nos braços da cadeira.

- Gostaria que me nomeasse oficialmente como substituta de Near e que me permita abandonar os estudos caso eles comecem a atrapalhar as investigações sobre qualquer caso em que eu acabe envolvida. – o ar sério da garota pareceu suavizar minimamente enquanto ela falava.

Roger respirou fundo antes de responder.

- Faz sentido… Eu pedi a você que acompanhasse Near para se acostumar com o cargo de detetive por ser a pessoa mais capacitada para tal. No entanto, nunca disse que você era a única que poderia substituí-lo e isso deve incomodar. Em relação aos estudos, no caso de Near precisar de você além do tempo que já dispõe, não vejo qualquer problema em trancar o colégio ou a faculdade, que você cursará em pouco tempo. Sendo assim, eu aceito seus pedidos. Avisarei Near, não se preocupe.

Pandora agradeceu e saiu. Uma vez que já tinha resolvido o que precisava, decidiu dar uma passeada pelo lugar. Já tinha alguns anos desde que saíra do orfanato e queria saber o quanto o lugar havia mudado. Respirar um pouco de ar fresco também não faria mal nenhum.


Hiroshi estava revirando seu quarto atrás de alguma coisa que parecia impossível de ser encontrada. A julgar pelo desespero com que ele procurava, o objeto era algo realmente importante. Mais da metade do quarto do rapaz já havia sido virada de cabeça para baixo quando alguém bateu na porta.

- O que foi? – ele não tinha um tom amigável ao receber o visitante, mas pareceu se arrepender do tom ao ver quem era.

Não foi um fato deixado de lado pela pessoa que havia batido na porta, como Hiroshi pode constatar pelo sorriso de canto com um ar estranho que havia se desenhado no rosto do visitante. O que mais surpreendeu o garoto, no entanto, foi o que a pessoa trazia na mão.

- Onde… Onde achou isso…? – ele engoliu em seco.

- Ora, ora… Então eu acertei em cheio ao concluir que o garrancho nessas páginas era seu. – a visita pareceu satisfeita com algo e logo entrou no quarto – Sorte não ter um colega dormindo sob o mesmo teto, não é? Assim pode fazer toda essa bagunça despreocupadamente.

- O que veio fazer aqui? – ele tinha um tom sério e ao mesmo tempo confuso.

- Devolver isto aqui ao proprietário, lógico. O que mais eu teria a fazer nesse lugar? – a pessoa estendeu o que tinha em mãos para Hiroshi. Era um caderno preto e fino, com dizeres brancos na capa.

O rapaz tratou de pegar o caderno rapidamente e foi até o outro lado do quarto em passos largos. Vários pensamentos se passavam em sua mente naquele momento e ele talvez não fosse muito capaz de formular algo que fizesse sentido se a visita começasse a conversar com ele. Quanto antes estivesse sozinho novamente, melhor seria.

- Agora que já terminou o que veio fazer aqui, pode ir embora. – Hiroshi não se virou para o visitante ao falar.

- Parece nervoso. Aconteceu alguma coisa? Por acaso… Minha presença o incomoda tanto assim desde que você passou dos limites? – a satisfação estava óbvia na voz do visitante.

- Não aconteceu nada. – Hiroshi se voltou para a outra pessoa, vendo seu sorriso de satisfação – O que mais você quer comigo? Não foi suficiente criar problemas para mim com a Kyori-sensei?

- Como você é tolo. – uma risada fraca escapou depois da frase, mas isso não parecia um incômodo – Fiz aquilo apenas para me livrar daquelas aulinhas sem utilidade alguma. O que eu quero vindo até aqui é simples. Você vai me dizer o que é esse caderninho preto aí.

- E por que eu deveria fazer isso, Yagami-senpai? – Hiroshi ficou sério.

- Porque, Hiroshi, se você não fizer, eu vou descobrir sozinha. E dependendo do que for, isso pode ser ruim para você, não é?

O garoto não respondeu.