O ano estava chegando ao fim, o caderno ainda não tinha sido usado. Ryuuku estava mais entediado do que antes e perturbava Hiroshi por isso. Como o rapaz era o proprietário do caderno, o shinigami precisava estar com ele o tempo todo.

- Então… Quando pretendem testar o caderno? – Ryuuku perguntava a mesma coisa pela quinta vez no dia.

- Eu já disse, Ryuuku. Yagami-senpai não quer testá-lo ainda. O ano está chegando ao fim e temos que estudar para as provas. – Hiroshi estava sentado à escrivaninha, estudando alguma coisa que Ryuuku não entendia muito bem.

- Tsc. Eu vou ter que esperar mais quanto tempo?

- Umas duas semanas, eu acho… Ou talvez até o ano que vem… Quem sabe? Por que não joga um pouco de PlayStation? – Hiroshi apontou para o videogame no canto do quarto.

Os olhos de Ryuuku brilharam.


Dois meses depois…

- Eu detesto aquele albino infantil! – Aki estava visivelmente alterada e se irritava facilmente desde que voltara de sua viagem nas férias. Ela batia com força no travesseiro de sua cama.

- O que rolou exatamente quando foi visitar as raízes? – Ryuu estava vendo aquela mesma cena desde que a amiga voltara e ainda não sabia o motivo.

- Certo. Vou contar. Foi o seguinte…


Início do Flashback

Aki estava parada na frente da Wammy's House, ponderando se devia ou não entrar. Então desviou o olhar para a janela da sala de Roger. Devia falar com ele primeiro e então ver onde ficaria naqueles dias que passaria no orfanato. Respirou fundo e entrou no prédio. A primeira coisa que fez foi ver Roger.

- Mochi, há quanto tempo! – ele sorriu ao vê-la.

- Olá, Roger. – a garota sorriu de volta. Sentia certa nostalgia de estar naquele lugar.

- Bom, seu quarto antigo ainda está vago… Vai querer ocupá-lo durante sua estadia aqui?

Aki ia responder, mas alguém bateu na porta antes que ela pudesse.

- Entre. – Roger parecia já esperar pela segunda visita.

Near entrou no cômodo; seu jeito típico de andar inalterado pelo tempo. Ainda parecia uma criança, como no caso Kira. Aki só tinha visto fotos daquela época. Near se aproximou, cumprimentando Roger e depois a garota. Ela apenas acenou com a cabeça em resposta.

- Então, Roger. – ele começou a falar logo depois de receber o cumprimento da garota – Eu darei aulas a quem nesses dois meses?

- Na verdade, quero que você supervisione aqueles que têm o nome nessa lista. – Roger estendeu um papel ao albino.

Near pegou a lista e deu uma olhada.

- Aqui há algumas pessoas que já saíram do orfanato, não é…?

- Sim, mas elas estarão presentes nesses dois meses. Sendo você o maior detetive do mundo, imagino que possa dar uma ajuda. – Roger tinha os braços apoiados na mesa – Bom, Mochi… O que a trouxe aqui? – ele mudou o foco de atenção.

Near saiu do cômodo ao constatar que a conversa com ele já tinha terminado.

- Roger… Que nomes estão naquela lista…? – Aki hesitou, imaginando se estava envolvida.

- Os nomes de alguns prodígios que temos ou… Tivemos e que eu acho que precisam de alguma orientação.

- E o meu nome…?

- Está na lista. – Roger parecia indiferente.

Aki não respondeu, apenas girou sobre os calcanhares e saiu. Não conseguia acreditar naquilo. Ela seria orientada por Near. Ela seria orientada por Near. O ser que menos gostava no planeta. E serviria de orientador para ela.

Os dias passaram sem que o albino fosse procurá-la. Isso durou quase um mês, o que tinha feito com que a garota esquecesse que uma hora Near a procuraria. Então, num dia fresco de verão, enquanto Aki estava no jardim olhando algumas crianças jogando bola, Near decidiu ver o que faria por ela. Olhou por cima do ombro da garota para o desenho que ela fazia, sem expressão nenhuma no rosto.

- Você tem talento artístico… Não sabia. – a voz do albino fez com que Aki fechasse a mão com força em torno do lápis.

- Claro que não. Se soubesse, significaria que já tivemos algum contato significativo. – a voz da garota estava ácida.

- Isso seria ruim? – ele se sentou ao lado dela.

- Seria. Porque é sua culpa o fato de Mello não estar aqui hoje no seu lugar. – Aki se controlava para não quebrar o lápis nem começar a gritar – Você já tem o que? Uns 20 e poucos anos? Talvez já esteja nos 30… E ainda age como uma criancinha… Isso é patético. Tomara que Pandora o substitua logo. – então ela se levantou, carregando suas coisas no colo, e começou a se afastar.

Near suspirou e foi atrás dela.

- Mochi, não é? – quando a alcançou, a jovem estava quase em seu quarto.

- Sim, e daí? – ela ainda tinha o tom ácido.

- Fiquei sabendo que você não é realmente órfã…

Aki cerrou os punhos com força, controlando-se para não fazer nenhuma besteira.

- Como você sabe…? Não… No que isso diz respeito a você…? – ela parecia querer chorar.

- Este é um orfanato… Apenas isso. – Near parecia indiferente.

- Sim, isto é um orfanato. E eu não sou órfã… Acontece que eu cresci aqui, não é? Então ponto. Não se discute. – ao terminar de falar, ela entrou no quarto e fechou a porta.

Quando Near a procurou de novo, apenas uma semana havia se passado.

- Mochi.

- O que o melhor detetive do mundo quer comigo agora? – ela não parecia feliz em vê-lo.

- Eu entrei em contato com umas pessoas e você pode ter… Creio que o melhor termo seja "estágio" com um deles. – o detetive não parecia abalado.

- Ou seja, interromper os estudos e investir na minha carreira. – Mochi parecia ter amaciado com o comentário.

- Basicamente. – foi tudo que o albino respondeu.

Eles estavam no jardim do orfanato, afastados dos demais órfãos.

- Hm… E por que fez isso? – Aki sentia-se curiosa, não podia negar.

- Porque sei que você tem talento. E sobre nossa última conversa, eu falei com Roger e ele me explicou a situação. Ainda assim, você não deveria estar aqui.

O comentário a irritou.

- Você não devia bisbilhotar em vida alheia sem ser necessário! Se eu não contei, é porque não gosto do assunto! Quem é você então para se achar no direito de me investigar?! Não me importa se é ou não o maior detetive do mundo! Se eu não sou uma criminosa, deixe meu passado enterrado! – Aki gritava a todo pulmão e estava a ponto de chorar. Não gostava daquele assunto, independentemente de quem tocasse nele. Quando acabou o que tinha para falar, se retirou.

Nos outros dias, Near não voltou a procurá-la.

Fim do Flashback


Ryuu suspirou. Alguma coisa não estava certa. Por que o interesse repentino de Near em Aki? E por que Roger achava que ela precisava de orientação? Só por que ela não mostrava interesse nenhum em ser uma artista profissional? Isso não era motivo… Tinha de haver algo mais. Talvez ele visse algo em Aki que ninguém mais via… Mas o que poderia ser?

- Ele sabe, entende? Que eu não tenho a cabeça muito boa. – Aki percebeu a expressão pensativa da amiga e sorriu de canto ao falar – Roger percebeu nos anos em que estive lá… Ele percebeu que eu posso ser impulsiva de um jeito… Prejudicial à sociedade.

- O que quer dizer com isso…? – Ryuu não entendia.

- Meu jeito frio é apenas para que eu tenha mais controle sobre o que faço…

Aki tinha o olhar distante.