Ryuu ainda não entendia as palavras de Aki. Sobre controlar o que fazia. Aki era a pessoa mais controlada que a loira conhecia. Então de que raio ela estaria falando quando disse aquilo? Fosse o que fosse, Roger concluíra que mandá-la para trabalhar com algum artista profissional pudesse resolver, por isso pôs Near para orientá-la. Roger era a chave para chegar ao fundo da história.
Queria ligar para ele, mas não era uma boa ideia. Então a solução que achou foi matar umas aulas. Se fossem pôr o plano em ação, aquele de derrubar Near, talvez tivessem que abrir mão de algumas coisas, então quanto antes soubesse do que Aki estava falando, melhor seria. Quando Aki saiu do quarto para ir para a aula, Ryuu ficou. Tão logo estava sozinha, tirou uma maleta do armário com as coisas que precisaria e saiu.
Entrou na Wammy's sem muita cerimônia. Ir para a Inglaterra de repente era algo que as pessoas não esperavam de uma adolescente, mas Ryuu não ligava. Só queria falar com Roger o antes possível. Andava em passos largos até a sala de Roger, impaciente. A loira martelava em sua cabeça o que poderia estar por trás das palavras da amiga.
- Roger! – ela entrou sem permissão, sem ligar se ele estava ocupado ou não.
- Ah, Last. O que a traz aqui tão de repente? – ele parecia verdadeiramente surpreso.
- Eu preciso falar com você sobre a Mochi. E precisa ser já. – ela foi até ele.
- Tudo bem, o que foi? – Roger estava um pouco confuso, mas tentava não demonstrar.
- Mochi me disse esses dias algo como… "Eu não tenho a cabeça muito boa", "eu posso ser impulsiva de um jeito prejudicial à sociedade" e também… Que o jeito frio dela é apenas para que tenha mais controle sobre o que faz… O que isso significa?
- Isso significa… Que ela tem mais do tio do que da mãe. – Roger suspirou – Você sabe como Mello morreu? Ou por que Near é o substituto de L? – Ryuu negou com a cabeça, então Roger continuou – Porque o tio de Mochi criou um caso complicado… Ele foi quem chamaram de Kira.
Ryuu gelou. O Caso Kira era o mais comentado na Wammy's, mesmo anos depois de já ter sido resolvido. Então Aki tinha parentesco com o assassino doentio que começara tudo? Mas… Se eles iam fazer Near cair, isso significava que… Ryuu não queria acreditar naquilo. Não era verdade. Não podia ser, podia? Ela sabia que sim. E a ideia viera inicialmente de Aki… Era o sangue de seu tio pulsando em suas veias.
- Kira… Aquele que conseguiu fazer até mesmo o presidente dos EUA se curvar diante de seu poder, aquele que assassinou milhares, senão milhões de pessoas, que envolveu inocentes… Ele era… Tio de Mochi? – Ryuu parecia assustada.
- Exatamente. E acredito que ela tenha puxado isso dele, apesar de sua mãe ser extremamente bondosa. O pai é um ex-policial japonês, então ele está acostumado com adrenalina, eu imagino. Talvez, juntando tudo isso, Mochi tenha se tornado essa pessoa complicada e impulsiva… – Roger suspirou.
- Mochi não é impulsiva…! E todos aqui são complicados! – Ryuu estava sendo teimosa. Não com Roger, mas com algo que martelava em sua cabeça incansavelmente. Que eles terminariam como o Kira anterior devido a uma ideia bastante idiota e… Complicada. Porque eram impulsivos.
- Last, entenda uma coisa. Não se pode lutar contra a própria natureza, mas se pode reduzir suas conseqüências. Ajude Mochi a fazê-lo. – Roger estava visivelmente preocupado.
Ryuu concordou com a cabeça e se retirou. Então era isso. A amiga sabia de seu tio, sabia que podia ser como ele e talvez tivesse medo disso. Mas ainda assim queria derrubar Near, queria se tornar o que seu tio fora ou tentara ser. Por causa de um impulso, de um desejo de uma mente complicada e caótica. E ela, a melhor amiga, concordara. Porque tinha o mesmo desejo.
Aki voltou ao quarto no intervalo, estranhando ao ver que Ryuu não estava lá. Não tinha visto a loira a manhã toda e esperava encontrá-la no quarto, mas estava errada. Sentindo-se um pouco derrotada, Aki decidiu voltar para a sala. A partir daí, não prestou atenção em mais nada, uma aula sequer, nenhuma palavra dos professores.
A manhã passou em branco. Aki só voltou a se concentrar quando Hiroshi apareceu seguido de Ryuuku, dizendo que já não suportava mais o shinigami. Precisavam fazer algo logo ou ele iria enlouquecer com Ryuuku no seu pé. Ele próprio já não agüentava. Ter o caderno era impressionantemente enlouquecedor.
Ryuu voltou ao colégio no fim da tarde, encontrando Aki e Hiroshi discutindo seriamente algo em seu quarto. Curiosa, e vendo que Ryuuku parecia ansioso, a loira resolveu se juntar a eles. Guardou a maleta de volta no armário e se sentou em sua cama, ao lado do rapaz. Tentou entender do que eles falavam, mas não conseguiu. Era por isso que não gostava de pegar as conversas começadas.
- Licencinha… De que raio vocês estão falando?
A presença de Ryuu pareceu ser finalmente notada.
- Ah, Ryuu! Onde esteve o dia todo?! – Aki tinha um tom curioso e repreendedor ao mesmo tempo.
- Na Wammy's. – ela deu os ombros.
- O que?! – Aki se exaltou, parecendo um pouco desesperada. A voz saía alta e ela tinha se levantado – Por que?! O que você foi fazer lá?! E o fez no lugar de assistir às aulas?!
- "O que", posso dizer "uma visita a Roger". "Por que", devo dizer que foi por conta do que me disse ontem. Eu fiquei preocupada. E "o que eu fui fazer lá" foi esclarecer alguns pontos. Sobre a última pergunta, eu preciso mesmo responder?
Aki se sentou, sem conseguir acreditar direito.
- Sobre… Ontem… Sobre ontem…?! Por que não perguntou direto a mim…? – a garota piscava algumas vezes, como se processasse o que ouviu.
- Odeio interromper… Mas o que houve ontem? – Hiroshi estava confuso.
- Aki, o que você sabe sobre seu tio? – Ryuu simplesmente ignorou o garoto.
- Não muito, na verdade… Só que ele, assim como vovô, foi da polícia… – Aki também o ignorou – Nesse fim de semana, eu estava pensando em visitar meus pais. Acho que vou incluir essa pergunta no roteiro.
- Bom, deixando isso de lado… Sobre o que estavam falando na minha ausência? – Ryuu se ajeitou na cama.
- Sobre nosso plano de derrubar Near. Ryuuku está ansioso por diversão e Hiroshi está enlouquecendo com isso. – Aki não parecia ligar muito para o que dizia.
- Interessante… E o que decidiram até agora? – Ryuu desviou o olhar para o shinigami, depois para Hiroshi e então para Aki.
- Não muito. – a resposta veio do rapaz.
