- Bom… O ponto é que ainda somos colegiais. Não temos muita liberdade, especialmente estudando em um colégio interno. De duas, uma: ou nos localizariam muito facilmente, ou não teriam ideia de quem somos. – Aki começou a falar calmamente, apoiando os braços nas pernas.

- E nós preferimos acreditar na primeira, já que sempre devemos nos preparar para o pior. – Hiroshi completou.

- É verdade. – Ryuu deu os ombros – Mas será que aquele albino continua pensando tão rápido quanto antes? Ou será que a capacidade mental dele caiu com o tempo?

- Hei, hei. E quando vão começar a deixar as coisas divertidas? – Ryuuku parecia ansioso demais na opinião do trio.

- Alguém fica com ele, por favor… – Hiroshi parecia implorar pelo tom que usava.

- Mesmo que você deixe o caderno com outra pessoa, ainda será o proprietário. Então eu vou continuar seguindo você. É a regra. – Ryuuku parecia achar aquilo óbvio. Talvez fosse porque já tinha passado por isso antes.

- Tem regras então… E quais são elas? – a pergunta veio de Ryuu.

- Algumas estão na capa do caderno. – Hiroshi comentou, abrindo o Death Note – Mas não devem ser as únicas. Estou errado? – ao perguntar, ele se virou para o shinigami.

- Não. Tem outras, sim, mas eu não conheço todas. Terão de testar para descobrir. – e então Ryuuku riu.

- Está fazendo de tudo para que a gente comece a agir, não é, senhor shinigami? – Aki tinha o tom sério.

- Hm? – Ryuuku parecia ter sido pego de surpresa.

- Não brinque comigo! – Aki parecia irritada com algo – Eu sei que foi culpa sua, ok?! Eu sei que foi tudo culpa sua! Se você não tivesse trazido esse maldito caderno para cá, ele ainda estaria vivo! – ela abraçou as próprias pernas.

- Aki… – Ryuu pareceu sentir pena dela por um momento. Odiava ver a única amiga que tinha naquele estado deplorável – Aki, não fique assim. Você não pode mudar o passado. E descontar sua raiva em um deus da morte não vai mudar o que aconteceu.

- Eu sei, ok?! Sei de tudo isso! Mas não dá para evitar! Não dá! – a garota continuava abraçada às pernas – Eu queria conhecê-lo! Queria ter visto seu potencial de perto! Ele talvez tenha sido uma das mentes mais brilhantes do país!

Hiroshi tinha uma expressão confusa.

- Por acaso é sobre o tio dela que estão falando?

- Sim, Hiroshi. Ele mesmo. Quer ficar quieto? – Ryuu não tinha um tom amigável, o que fez com que o rapaz e o shinigami se encolhessem por puro instinto.

- Ryuu… Eu… Eu odeio isso, sabe…? Ser fraca desse jeito… E às vezes eu penso… O que ganhamos derrubando Near…? O que nós realmente ganhamos? Pandora logo deve substituí-lo, nós só temos de esperar. Mas não queremos, então vamos derrubá-lo. E depois disso? O que vai ser de nós? – Aki tinha um tom triste.

- Aki, pare com isso. Você não é fraca, ok? Eu sei que não. Deixe de se fazer de vítima! É normal sentir raiva de alguém e culpá-lo pela perda de algum ente da família. Não precisa ficar assim por causa disso. E nós vamos derrubar Near, eu tenho certeza! E depois disso? Depois disso, nós vamos ter nossas próprias vidas! Eu serei arquiteta, você será uma grande desenhista. E juntas seremos a maior dupla de escritoras que esse mundo já viu. Quem liga se Pandora vai substituir Near? Não o queremos fora do cargo que ele ocupa, nós queremos vingar Mello, não é? Porque ele merecia aquele cargo, mas Near não permitiu. Mello está morto por causa de Near. E daí que não conhecemos Mello? Só de ouvir as histórias sobre ele, já dá para saber quem ele foi. – Ryuu estava séria e encarava Aki.

- Tem razão. – Aki pareceu se recobrar com o discurso da loira – Tem toda a razão. Eu não devia estar me lamentando, mas trabalhando em meu próprio futuro. Nós temos um futuro grandioso nos esperando. Nós viemos de um orfanato para crianças especiais, afinal.

- Qual foi a do orfanato? Você não é órfã, Yagami-senpai. – Hiroshi sentia-se cada vez mais confuso.

Nesse momento, Aki pareceu notar algo.

- Você começou a me tratar com mais respeito, Hiroshi… Quando isso aconteceu?

O garoto se surpreendeu. Ela tinha razão. Mas quando tudo aquilo tinha começado?

- Não importa. – Ryuu logo interveio – Vamos ao plano. Essa é a parte importante de nossa reuniãozinha aqui, não?

Aki riu de canto.

- Tem razão.


Já era noite e o cheiro do jantar sendo preparado invadia os dormitórios. A barriga de Ryuu roncava e Aki achava graça das expressões da loira. Hiroshi estava trancado em seu quarto, com a televisão ligada no noticiário. Tinham decidido testar a veracidade do caderno naquela noite ou, no máximo, na seguinte. Não podia ser ninguém que tivesse qualquer relação com eles, nem anunciado recentemente. Um assassino anunciado semanas antes, por exemplo, era uma boa cobaia.

Hiroshi suspirou. O caderno aberto em seu colo continuava em branco.

- E então? – Ryuuku estava ficando mais impaciente do que nos outros dias.

- Eu não sei com quem testar, ok? Pare de pressionar… – Hiroshi já estava irritado com o shinigami.

- Por que não usa um desses caras que eles estão anunciando agora…? – o shinigami parecia confuso.

- Você prestou atenção no que Yagami-senpai disse? Tem que ser um mais… Antigo, pode-se dizer. – o rapaz franziu a sobrancelha. Sabia que se forçasse um pouco a memória, se lembraria do nome e do rosto de algum… Mas quem era bom suficiente para ser cobaia?

- E como você vai saber se ele morreu ou não…? – Ryuuku não entendia.

- Por ali. – Hiroshi apontou para o computador, cuja tela exibia um arquivo da polícia. Ele sabia como hackear um sistema extremamente bem e Aki ficou mais animada do que assustada com a notícia. Se um dos prisioneiros morresse, logo a informação seria postada no sistema da polícia.

Ryuuku olhava o computador com interesse. Só desviou o olhar ao ouvir Hiroshi se levantando da cama, vendo-o ir até a cômoda. Talvez ele já tivesse escrito o nome e o shinigami não tivesse reparado porque estava concentrado demais na máquina. Ao ver o rapaz rabiscando algo no caderno, no entanto, Ryuuku constatou que estava errado.

- E então? – o shinigami não se preocupou em esconder a curiosidade.

- Então o que? É só esperar. – Hiroshi parecia indiferente demais na opinião do deus da morte.