Capítulo 4
Harry correu até a cozinha e arregalou os olhos ao ver a porta dos fundos escancarada, a chuva pesada varrendo para o interior da casa. Não era possível que aquele doido houvesse saído com um clima desses! O vento estava absurdamente forte, e algo poderia atingi-lo no meio daquela escuridão confusa lá fora.
Bufando exasperado, Harry correu para fora também, e por pouco não foi jogado para trás pela força do vento assim que pôs os pés na rua. Perdeu a conta de quanto tempo ficou procurando por Draco, e depois de um tempo começou a se desesperar. Já havia se afastado muito da casa, e quase sido atropelado por galhos e outros objetos perigosos um número incontável de vezes.
"Draco!" Tentou gritar, mas sua voz facilmente se perdia no meio daquela tempestade. "Merda, merda, merda!" Recitou desejando ter-se lembrado de colocar um casaco antes de sair. Ainda estava sem camisa, e suspeitava que o loiro estava no mesmo estado.
Harry suspirou aliviado quando, graças a um raio que clareou toda a rua, poder vislumbrar o loiro refugiado embaixo do abrigo do prédio da faculdade da cidade. Estava abraçando o corpo, completamente ensopado.
"Você ficou doido?" O moreno gritou ao alcançá-lo. Segurou-o pelos ombros e praticamente sacudiu-o exasperado. Draco, batendo os dentes, olhou-o de maneira nervosa.
"Eu estava sufocando naquela casa!" Exclamou tentando vencer o barulho da chuva e do vento. "E você não estava ajudando!"
"Você estava gostando!" Harry retrucou tremendo de frio.
"Eu-" A voz de Draco falhou. "Eu não quero que seja apenas sexo para você!" Admitiu completamente vermelho. "Não quero que você me deseje apenas pela minha atração veela..." Ele fez uma pausa. E continuou: "Eu imaginei como seria ficar com você por quase cinco anos! Não pode sair errado agora, entende? Nada!"
Harry piscou aturdido. Era confuso acreditar nas palavras do loiro quando não conseguia acreditar naquela história maluca de magia, atração veela entre tantas outras coisas que ele insistia em afirmar cheio de convicção.
"Draco..." Murmurou, e antes de mais nada, abraçou-se com força ao loiro, afundando o rosto no pescoço dele e ainda conseguindo captar o cheiro suave da pele macia, a despeito da chuva. "Eu... desculpe. Eu não sei exatamente o que eu sinto por você, mas..."
"Mas...?" Draco incentivou com o coração acelerado pela proximidade. Mesmo molhado, o corpo de Harry parecia quente, quando tudo ao redor estava gelado.
"Eu não quero que você me deixe. Então vamos procurar algum lugar seguro, okay?" O moreno pediu afastando-se um pouco para mirar Draco nos olhos e, antes que percebesse, inclinou-se para frente, fazendo seus lábios se encontrarem.
Draco se segurou a ele e entreabriu os lábios, deixando que Harry buscasse sua língua com um carinho que não havia experimentado antes. Abraçou-se a ele também e segurou-lhe a nuca, retribuindo na mesma intensidade, sentindo ainda gosto de chocolate na boca exigente, o que o deixou ainda mais ávido por mais.
Harry estreitou os braços ao redor do loiro e chegou a erguê-lo um pouco do chão. Os dois se afastaram ligeiramente quando o ar faltou, e Draco apoiou a testa à de Harry, abrindo os olhos e deparando-se com aquelas íris incomparavelmente verdes.
"Eu..." Murmurou incerto. "Está frio." Torceu os lábios de uma mneira que Harry precisou morder.
"Como você poder ser tão... sexy e adorável ao mesmo tempo?" Perguntou o moreno.
Draco revirou os olhos e deu um jeito de sair do abraço.
"Adorável!" Exclamou exasperado, nem um pouco feliz com o adjetivo. "Homens não são adoráveis, Potter! Se você quer algo adorável, vá catar conchinhas na praia!"
Harry soltou uma risada rápida e segurou o braço do loiro.
"Estamos bem perto da república, é apenas a uma quadra daqui. Vamos ter de correr até lá." Advertiu, encarando a tempestade.
"Sério, Potter? Eu achei que precisaríamos nadar até lá. Obrigado pelo aviso." Draco debochou.
"Alguém já lhe disse que o seu humor varia numa velocidade impressionante?" Harry ergueu as sobrancelhas. Até um minuto atrás, ele estava se declarando. Agora, já tirava com a sua cara. Não havia como não enlouquecer ao menos um pouquinho convivendo com esse doido!
"A culpa é toda sua e – atchim!" Draco acabou espirrando e tremendo de cima abaixo. Harry percebeu que os lábios dele estavam perigosamente roxos, então apertou a mão ao redor do braço dele e correu em direção à república dos amigos.
O loiro bem que tentou reclamar, mas não conseguiu impedir que Harry o arrastasse com ele.
XxX
"Vocês ficaram doidos? Resolveram correr seminus pela cidade no meio desse temporal?" Luca acusou ao abrir a porta depois que Harry ficou vários minutos batendo e chamando por alguém.
"Aconteceu um imprevisto." Harry explicou tremendo, o que arrancou um murmúrio incrédulo de Luca. "Oh, que bom, vocês estão com luz aqui!"
"Vou ir buscar umas toalhas. Vamos, entrem logo! E tirem esses sapatos! Vão sujar tudo aqui dentro." Mandou, batendo a porta assim que eles entraram. "Vocês tem sorte de estar inteiros. Esse temporal está praticamente destruindo a cidade, e isso que o ciclone sequer está perto daqui."
Harry viu Draco arregalar os olhos e o envolveu em um abraço protetor, beijando-o na bochecha, o que fez o loiro, apesar de ruborizado, fazer uma careta de desprezo.
"Oh, era você batendo, Harry!" Mikael apareceu descendo as escadas. Ele soltou um gemido sofrido ao ver o loiro sem camisa, ensopado e trepidante nos braços do amigo. "E trouxe o seu namorado."
O moreno ruborizou ligeiramente com o 'título'.
"Draco está aqui?"
Harry grunhiu infeliz ao reconhecer a voz de Ruby, e logo a moça descia as escadas aos pulinhos.
"Ai meu deus! Que legal! Estava tão tediosa essa república! Uma falta de sorte minha estar aqui bem quando a tempestade começou, sabe?" Ela jogou os cabelos cacheados para trás e sorriu contente. "LUCA! Onde estão as drogas das toalhas? Traga logo!"
"Que gritaria é essa?" Hugh surgiu também. "Oh, Harry e Draco." Ele murmurou nada contente, obviamente porque agora toda a atenção de Ruby estaria nos dois. "O que estão fazendo aqui?"
Mais dois rapazes apareceram – Benji e Thomas –, completando os cinco moradores da república quando Luca chegou com a toalha, jogando-as em cima deles.
"Esses dois estavam passeando abraçadinhos pela chuva." Luca ironizou, cruzando os braços sobre o peito. Era um rapaz alto e magrelo, de cabelos negros bem curtos, com uma expressão severa e lábios finos, lembrando a Draco uma bizarra versão masculina e mais nova de McGonagall.
"Isso é tão romântico!" Ruby bateu palminhas, não percebendo o sarcasmo.
"É melhor vocês tomarem um banho quente, e colocarem roupas secas. Vão acabar doentes se continuarem assim." Benji, um garoto baixinho, com algumas espinhas no rosto, olhos azul-claros por trás de óculos de grau e cabelos dourados e curtos, recomendou.
"Roupas... Seria mesmo uma boa. Principalmente para você." Mikael apontou carrancudo para Draco, que simplesmente o ignorou.
"Eu perdi completamente o sono." Thomas se espreguiçou com um bocejo comprido. "Vou fazer alguma coisa para gente comer. Alguém quer?"
"SIM!" Praticamente todos afirmaram ansiosos. Thomas cozinhava maravilhosamente.
"Eu não como nada desde o meio da tarde." Ruby comentou, colocando um dedo fino sobre os lábios carnudos. "Vou te ajudar a cozinhar!" Ela exclamou entusiasmada.
Thomas gemeu como se sentisse dor, mas não a contradisse.
"Venham. Benji tem razão. Vocês precisam de um banho." Luca os chamou e guiou para o segundo andar. Entregou toalhas e roupas secas. "Sejam rápidos!"
"Hei, espera!" Draco falou quando o rapaz os empurrou juntos para dentro do banheiro e fechou a porta na cara deles. O loiro se virou para Harry. "Ele não espera que tomemos banho juntos, espera?"
"Humm... É necessário. Eles têm problemas com a água aqui. Se eu tomar banho primeiro, ela pode faltar para você." Harry mentiu descaradamente, mas ao ver Draco cruzando os braços sobre o peito, claramente não acreditando em algo assim quando cinco pessoas moravam ali, suspirou. "Certo. Mas seria bom, não?" Largou as roupas e toalhas sobre o balcão da pia e encarou profundamente o loiro.
Draco enrijeceu, mas não desviou o olhar.
"Eu prometo não fazer nada que você não queira... mas assim, a gente começa a se... acostumar um com o outro, e vamos aos poucos." Tentou. Era uma tremenda de uma desculpa esfarrapada. Mas falava sério sobre se controlar e não fazer nada contra a vontade de Draco.
"Tudo bem." O moreno se surpreendeu ao ouvir a afirmativa.
Harry ficou sem voz por alguns instantes e engoliu em seco, seu olhar descendo pelo peito do loiro até o cós das calças encharcadas. Mordeu o lábio inferior, nervoso.
"Eu posso te despir?" Perguntou em um tom baixo, e percebeu que Draco hesitou antes de assentir silenciosamente. Harry o puxou pelo cós da calça para mais perto, a ponto de poder sentir o calor do outro se dissipando em sua direção.
Harry se surpreendeu ao perceber que suas mãos estavam tremendo quando abriu o zíper da calça dele e deixou que ela escorregasse até o chão. Deteve-se um momento observando-o apenas com a roupa íntima.
"Você vai ficar só olhando?" Draco praticamente rosnou, e Harry ergueu o olhar, vendo-o corado e irritado.
"Não mesmo." Retrucou malicioso, abrindo um breve sorriso. "Mas resolvi me despir completamente primeiro." Explicou, começando a tirar a própria calça.
Draco arregalou os olhos e virou o rosto, mas acabou espiando Harry se desnudar pelo canto do olho. Quando ele ficou completamente nu, a apenas alguns centímetros de distância, o loiro sentiu uma fisgada forte nas entranhas e uma onda de calor por todo o corpo. Harry se aproximou lentamente e, em um meio abraço, correu as mãos pelas costas do loiro, descendo-as até engatar os polegares na barra da cueca dele.
Os rostos estavam muito próximos, e Harry acabou beijando-o enquanto retirava enfim aquela última peça de roupa do loiro, que gemeu baixinho e segurou com força os ombros do moreno, como se pudesse desfalecer caso não o fizesse.
Harry se afastou com uma sugada forte no lábio inferior do loiro, deixando-o ainda mais arroxeado, e admirou atentamente o corpo nu dele. Draco, obviamente, sentiu-se extremamente constrangido com a análise minuciosa. O moreno segurou-lhe fortemente a cintura enquanto o verde de seus olhos escureciam perigosamente.
"Você é perfeito." Harry falou admirado, com uma expressão de fome. "Sua pele é tão bonita. Tão macia e clara." Murmurou, tocando o abdômen do loiro suavemente. "Vire-se." O moreno ordenou.
Draco ergueu uma sobrancelha, olhando descrente para Harry de uma forma que deixava bem claro que não iria acatar aquela ordem. Harry ergueu o olhar ao perceber que o loiro não iria se mexer.
"Certo, sem viradas." Assentiu abobalhado, e segurou o braço do loiro, levando-o para dentro do box junto com ele. Empurrou-o e depois o puxou de modo que ele ficasse de frente para si, e de costas para o registro. "Vamos dar um jeito nesses seus lábios roxos." Harry estendeu a mão e abriu o registro.
Esperou até que a água se tornasse quente para empurrar o loiro suavemente para baixo dela.
"Satisfeito?" Draco perguntou, escondendo seu nervosismo por trás do sarcasmo. A água quente era um bálsamo depois daquele banho gelado de chuva, e parecia ainda mais quente com Harry completamente nu logo à sua frente.
O corpo dele era bonito, apesar de não muito musculoso, apenas em locais estratégicos, com uma definição apropriada para sua altura e estrutura corporal. A pele bronzeada de sol e os cabelos escuros e desgrenhados, junto com os olhos verdes como pedras preciosas eram o ponto alto de seu charme. Ele não deveria ser nem cinco centímetros mais alto, mas conseguia envolver o loiro de forma reconfortante quando o abraçava.
"Ainda não..." Harry foi para baixo da água também, sentindo-a escorrer gostosamente por todo seu corpo. Quando o fez, praticamente colou seu peito ao de Draco, e os dois gemeram baixinho com o contato.
O loiro tentou dar um passo em falso para trás, mas Harry o segurou pela cintura, mantendo-o perto.
"Está frio demais para não ficar de baixo da água." Justificou subindo a mão e acariciando o rosto de Draco, que fechou os olhos por um breve instante com a respiração desregulada.
Inconscientemente, o loiro inclinou a cabeça para frente e deixou que Harry acabasse com a pouca distância antes de voltar a devorar seus lábios. A ereção dos dois roçou, o que arrancou uma lamúria contida de Draco, que pela primeira vez experimentava um contato tão íntimo com outra pessoa – com sua alma gêmea.
Com a mão trêmula, enquanto retribuía ao beijo do moreno – a língua exigente dele deslizando pela sua de uma maneira que o deixava tonto de desejo –, Draco envolveu o membro rígido de Harry, que soltou um gemido rouco e alto contra sua boca.
"Wow, nossa..." Harry falou atordoado, afastando-se para puxar o ar. "Draco, você... ah!" Não conseguiu completar o pensamento quando o loiro começou a mover a mão, olhando para baixo para se certificar que estava fazendo certo.
Harry afundou o rosto no pescoço do loiro, respirando alteradamente enquanto se debruçava sobre ele.
"Você está colocando todo o peso do seu corpo em mim, Potter!" Draco reclamou quase escorregando para trás. O moreno o segurou, impedindo-o de cair, e pareceu acordar da onda de prazer que o dominara ao perceber que o loiro não estava mais o tocando. Grunhiu insatisfeito, desejoso de mais.
Com mais um grunhido, Harry segurou os cabelos loiros e puxou um pouco a cabeça de Draco para trás, de modo a ter livre acesso ao pescoço dele, por onde passou a língua, recolhendo junto a água que caía sobre os dois. Também enlaçou a cintura do loiro e fez com que suas ereções voltassem a se friccionar e, rápido demais, escorreu os dedos por entre os glúteos de Draco e o tocou ainda mais intimamente.
Isso fez com que Draco pulasse de susto.
"O que você...?" Ele perguntou chocado, e Harry piscou confusamente.
"O que foi?"
"Você... quero dizer... eu sei que... mas... eu não estava... achei que iríamos com calma!" Draco se perdeu totalmente com as próprias palavras, e ruborizou irritado.
"Desculpe." Harry pediu sinceramente, sem entender exatamente o que fizera de errado. Respirou fundo, retomando o controle de seu corpo, e alcançou o xampu. Colocou-o calmamente em uma das mãos, e então se aproximou para passar nos cabelos do loiro.
Draco ficou parado enquanto Harry lavava gentilmente seus cabelos.
"Desculpe por aceitar e depois recuar." Draco lamentou. Conseguia – literalmente – ver o quanto Harry estava excitado, mas tinha medo que depois que transassem, o moreno o chutasse de sua vida. Patético, ele sabia.
Mas, junto com sua insegurança, também havia o gostinho de fazer Harry se esforçar para tê-lo por completo.
'Porque o meu coração ele já tem.' Draco pensou, e depois torceu o nariz ao perceber a própria pieguice. Era uma sorte que Harry não pudesse ler sua mente.
"Nós temos todo tempo do mundo." Harry falou depois de alguns breves segundos de silêncio, e Draco encarou-o surpreso. Seu maldito coração acelerara desconcertadamente perante àquela frase.
"Temos mesmo?" Perguntou, odiando-se pelo quão ansioso e esperançoso soou. Harry sorriu carinhoso.
"Mesmo, mesmo." Garantiu.
"HEI, É PARA VOCÊS TOMAREM BANHO, OUVIRAM? NÃO PARA FICAREM SE AGARRANDO AÍ DENTRO!" Ouviram Luca berrar do outro lado ao passar pelo corredor e bater algumas vezes na porta para chamar a atenção dos dois. "OUTRAS PESSOAS USAM ESSE BANHEIRO TAMBÉM, ESCUTARAM?"
Draco acabou rindo quando os resmungos de Luca soaram por mais alguns segundos à medida que o rapaz se afastava da porta. Harry o achou lindo rindo tão espontaneamente, e sorriu também.
"É melhor nos apressarmos." Disse o loiro, e pegou o xampu para também passar em Harry. E estremeceu por completo quando o moreno começou a passar o sabonete por seu corpo, enquanto esfregava os cabelos dele.
"Nós deveríamos fazer isso mais vezes." Harry sugeriu, com um sorrisinho safado.
"Pervertido." Draco bufou.
XxX
Quando os dois desceram, devidamente secos e vestidos, encontraram Benji, Ruby e Hugh jogando vídeo-game – Mortal Kombat de Xbox. Draco arregalou os olhos para o jogo, achando um verdadeiro absurdo aquele banho de sangue como modo de diversão.
Ruby soltou uma risadinha maravilhada quando ganhou de Benji de novo.
"Vocês são todos péssimos!" Ela cantarolou. Era bizarro, mas Ruby sempre ganhava de todos os garotos da república em qualquer jogo de luta e corrida. "Ah, Harry, vem jogar! Esses dois não estão dando conta!"
"Dessa vez eu ganho!" Harry falou determinado e pegou o controle oferecido por Benji.
Não demorou nada para que Kitana fizesse picadinho de Sub-zero, enquanto Ruby parecia quase possuída enquanto apertava todos os botões do controle sem um padrão lógico. Harry soltou um grunhido exasperado quando a morena sorriu convencida antes de piscar-lhe um olho.
Draco, sentado com a postura ereta e impassível no sofá, revirou os olhos com a incompetência do moreno para ganhar de uma garota que mal parecia ter saído das fraldas.
"Jogando isso de novo?" Luca apareceu na sala. "Ruby, você não ia ajudar Thomas com o jantar?"
"Ele me chutou de lá! Não parava de dizer que eu estava fazendo tudo errado!" Ela reclamou, alterada, largando o controle e cruzando os braços sobre o peito, sentada sobre uma almofada grandona de chão.
"Ok, eu só estava perguntando..." Luca concedeu.
"Eu adoro a sua comida." Hugh garantiu para Ruby, que o espiou pelo canto do olho, desconfiada.
"E alguém nesta casa por acaso não adora a minha comida?"
Harry revirou os olhos e, fingindo espreguiçar-se, passou um braço pelos ombros de Draco, que balançou a cabeça, achando a tática do moreno péssima. Eles ficaram mais um tempo jogando, conversando e xingando um ao outro quando perdiam ou ganhavam até que o jantar ficou pronto.
"Olha o rango!" Mikael avisou saindo da cozinha seguido por Thomas, ambos carregando algumas tigelas com petiscos.
"Uau, você se puxou hoje, Tom-tom!" Benji gracejou com o apelido mais odiado de Thomas, que prontamente deu-lhe um peteleco após largar a tigela em cima da mesinha do centro.
"Temos um convidado especial hoje." Thomas falou simpático, referindo-se a Draco com uma piscadela.
"Cuidado. Assim o Harry fica com ciúmes!" Hugh avisou. "Você tinha que ver os olhares assassinos que ele lançava para os colegas que se aproximavam do Draco na faculdade..."
Ruby pegou um anel de cebola empanada e afundou-a no molho tártaro. "Eles fazem um casal bem fofinho." Comentou distraidamente, com uma mordidinha na cebola.
Todos ficaram quietos e a encararam incredulamente.
"O que foi?" Ela perguntou, surpresa. "Olha, se Harry houvesse me dito antes que era gay eu obviamente não teria ficado perdendo meu tempo com ele!"
Harry pigarreou. Era a primeira vez que alguém o chamava em alto e bom tom de gay, e se surpreendeu ao perceber que isso não lhe causava nenhum estranhamento. Afinal, era verdade. Ele estava louco por aquele loirinho maluquinho sentado bem ao seu lado. De que adiantava negar?
Já Hugh parecia maravilhado com as palavras da moreninha.
"Se ele não fosse gay, obviamente que não haveria opção melhor do que eu," Ela continuou convencidamente. "Mas já que gosta de homens, devo dizer que escolheu muito bem." Ela sorriu abertamente. "Quem sabe a gente não joga verdade ou consequência?"
Todos piscaram aturdidos com a sugestão súbita.
"Nem pensar. Nem tem graça: um bando de marmanjo com só uma garota." Mikael logo já reprovou a ideia.
"O que é verdade ou consequência?" Draco perguntou curioso, franzindo a testa.
"Você não conhece?" Benji perguntou impressionado.
"Ele nem sabia o que era coca-cola até uns dias atrás." Harry contou debochado, recebendo um olhar afiado do loiro que o fez encolher os ombros.
"Ainda bem que agora o Harry vai ensinar e mostrar pro Draco as coisas boas da vida." Mikael falou cheio de malícia antes de cair na gargalhada quando Thomas balançou os braços ao lado do corpo fingindo dar um 'créu' eu alguém.
Ruby revirou os olhos.
"Draco obviamente não precisa de Harry para ensinar-lhe essas coisas." Ela sugeriu, mas parou ao ver a expressão de quem não sabia onde se enfiar de Draco, enquanto Harry abria um sorrisinho pervertido. "OH MEU DEUS, ELE PRECISA! ISSO É TÃO FOFO!"
Os rapazes – a exceção de Harry e Draco – tossiram tentando abafar as risadas.
"Eu gostaria de saber por que isso é tão errado." O loiro cruzou os braços e bufou irritado. "Muggles australianos... todos uns depravados." Murmurou.
"Vocês estão constrangendo a visita. Recomponham-se!" Luca ordenou, bebendo uma coca-cola.
"Vamos jogaaaaaar!" Ruby choramingou.
E, claro, quando a garota colocava algo na cabeça, não desistia até conseguir o que queria. Ninguém aguentou mais do que cinco minutos de insistência dela. Apesar de extremamente contrariado, Mikael também acabou concordando em participar.
Eles afastaram a mesa, depois de devorarem boa parte dos aperitivos, e fizeram uma roda, colocando uma garrafa de cerveja no centro – enquanto outra garrafa cheia passeava de mão em mão. Draco negou, não querendo acabar bêbado. Já havia percebido que era fraco para o álcool.
A melhor parte foi quando Ruby quis consequência, e Harry mandou que ela beijasse Hugh de língua. Ela não tentou negar, simplesmente foi até o rapaz e o puxou para o beijo, deixando o surfista completamente atordoado.
"Era só um beijo! Não uma sessão de kama sutra com a língua!" Thomas debochou.
Ruby se afastou e mostrou a língua para ele, mas todos perceberam que ela passou o resto da noite lançando olhadelas interessadas em Hugh, que parecia ter subido às nuvens e ainda não voltara.
Mas ainda melhor foi quando Benji pediu consequência e Mikael 'perversamente' mandou-o beijar Luca na boca do mesmo modo que Ruby fizera com Hugh.
"O quê?" Benji perguntou vermelho, arregalando os olhos.
As narinas de Luca inflaram de indignação.
"Você..." Ele murmurou ameaçador para Mikael. O rapaz mais velho entre todos ali havia prometido a si mesmo que nunca mais iria botar uma gota de álcool na boca quando acabou completamente bêbado havia alguns meses e confessou a Mikael que era apaixonado por Benji já há dois anos.
Mikael ergueu as mãos em rendição.
"Não é minha culpa que ele tenha pedido consequência!" Exclamou, segurando o riso.
"Aí, cara, não é legal obrigar os dois a se beijarem só porque-" Harry tentou ajudar, mas Benji o interrompeu.
"Tudo bem. Não tem graça a brincadeira se a gente se nega a fazer o que mandam." Ele se levantou, impressionando a todos, e atravessou a roda até Luca, que parecia um pimentão de tão vermelho. O rapaz de cabelos dourados se ajoelhou em frente ao mais velho e mordeu o lábio nervosamente.
Draco logo simpatizou com o garoto – o menos depravado de todos ali, evidentemente.
Luca pareceu virar uma pedra quando Benji se inclinou e deu-lhe um selinho.
"É de LÍNGUA!" Ruby lembrou, insatisfeita com algo tão... chocho. "Mais paixão, garotos!" Exigiu.
"Eu ainda mato todos vocês." Luca rosnou para eles, e então segurou a nuca de Benji e o puxou com vontade. O garoto espalmou as mãos no peito de Luca e entreabriu os lábios, deixando que ele tomasse o controle. Luca gemeu baixinho e envolveu a cintura estreita de Benji com o braço, trazendo-o mais para perto.
"Assim está bom, Luca. Não precisa também abusar do Benji. Ele só tem dezenove aninhos. Você já tem vinte e sete, seu pervertido." Mikael implicou, apenas para constranger o amigo.
Luca, ainda mais vermelho do que antes, soltou Benji.
"Seriamente, onde você encontrou esses amigos?" Draco perguntou baixinho em desaprovação – apesar de não estar falando realmente sério. Apenas um pouco.
Harry riu.
"Ah, eu estava na rua e os encontrei jogados na sarjeta. Tomei pena e acabamos amigos." Brincou, passando o braço pela cintura do loiro e beijando-o rapidamente no pescoço.
Eles ficaram mais um tempo jogando, a maior parte do tempo apenas revelando segredos vergonhosos uns dos outros. Uma coisa Draco descobriu: os rapazes só tinham memória de Harry até poucos anos atrás. Harry crescera numa cidade vizinha, e se mudara para ali havia quatro anos. Viveu um ano na república antes de ir morar sozinho.
Draco pensou que precisava entrar em contato com os tais pais do moreno, para averiguar melhor aquela história de perda de memória. Talvez conseguisse extrair alguma informação deles. Qualquer coisa era útil para desvendar aquele mistério.
Depois de um tempo, os rapazes começaram a dispersar, alegando sono.
"Vocês podem dormir no seu antigo quarto. Está basicamente a mesma coisa de antes." Luca aconselhou a Harry.
"Hei! Eu ia dormir lá!" Ruby reclamou.
"Você pode dormir com o Hugh." Thomas sorriu dando uma cotovelada em Hugh.
Ruby pareceu cogitar a ideia por um momento.
"Você se importa, Hugh?" Ela perguntou, deixando o rapaz completamente desconcertado.
"N-não! Claro que não!" Falou aflito.
"Ótimo!" Ruby exclamou contente, enquanto parecia a todos óbvio que Hugh estava próximo de uma parada cardíaca. Quando todos os outros subiram, Harry se virou para Draco, que estava com uma expressão extremamente concentrada e séria.
"O que houve?" Perguntou o moreno.
Draco ainda manteve a mesma expressão por alguns instantes antes de sorrir.
"Eu consegui." Falou quase inaudível, com os olhos presos sobre algo em cima da mesinha da sala.
Harry ergueu uma sobrancelha e olhou na mesma direção que ele – e pulou para trás, com o coração saltando do peito ao ver um dos pedaços desossados de costelinha de porco empanada que havia sobrado flutuando vários centímetros acima da mesa.
Mas o que diabos...!
XxX
Draco torceu o nariz quando Harry pegou uma almofada e tocou na direção da costelinha de porco, fazendo com que sua mágica sem varinha fosse para o espaço.
"Droga, Potter! Você sabe quantas noites eu passei em claro, e quantas tardes tediosas eu gastei treinando magia sem varinha? Aí quando eu finalmente consigo um mísero Wingardium Leviosa, você joga uma almofada em cima da minha prova!" Draco se levantou do sofá bastante irritado.
Harry o encarou com os olhos arregalados, parecendo mais branco do que deveria.
"Prova de quê?" Ele praticamente gritou, exacerbado.
"De que tudo que eu falei até agora é verdade!" Draco devolveu e, concentrando-se em uma almofada, fez com que ela voasse contra a cabeça do moreno, que soltou uma exclamação de susto e a jogou para longe.
"Pare com isso!" Harry exigiu, assustado.
Draco parou ao ver o quão alterado o moreno parecia. Na verdade, ele parecia estar entrando em estado de choque. Harry deu alguns passos para trás, mirando o loiro como se ele fosse algum tipo de assombração.
"Não pode ser verdade..." Harry murmurou.
Draco avançou até ele quando viu-o se curvar e segurar a cabeça, soltando um gemido alto de dor.
"Não me toque!" Ele estendeu o braço impedindo que Draco se aproximasse mais, e segurou novamente a cabeça, com outro gemido, mais alto e mais dolorido. "Não... o que é isso! Esses flashes e... não..." Harry se apoiou a parede, com o corpo ainda curvado, e abriu bem os olhos, fixando-o no chão.
Sua respiração se alterou. A cada fisgada forte de dor que sentia na cabeça, um novo flash, uma nova memória, esparsa, desconexa e confusa transpassava sua mente. Um armário. Um meio-gigante em um casebre no meio de uma ilha. Uma coruja branca alçando voo. Um castelo grande, antigo e imponente. Quatro mesas compridas em um salão estrelado. Um bruxo de longa barba branca e óculos meia-lua.
Um garoto loiro estendendo-lhe a mão: "Você em breve vai descobrir que algumas famílias bruxas são melhores que as outras, Potter. Não vai querer fazer amizade com os tipos errados. Eu posso ajudá-lo com isso."
Famílias bruxas... animais e varinhas mágicas… feitiços...
"Não..." Harry gemeu de novo. "Tudo mentira..."
"Mentira, Potter? Pense na vida que você acha que tinha antes de se mudar para cá. Suas memórias são extremamente falhas. Já entrei na sua mente. A escola onde você estudou, você se lembra de todos os seus colegas? Não acha estranho que não tenha contato com nenhum daqueles que você acreditava serem seus amigos antes? E a garota com quem você acredita ter namorado aos quinze anos, você não tem nenhuma memória dela além do primeiro beijo e vocês e da primeira vez que transaram?" Draco realmente odiava essa memória falsa.
"E seus pais? Eu demorei a perceber que na verdade eles não existem, e são apenas uma projeção, mais velha, de seus verdadeiros pais, de como teria sido se eles não houvessem sido... assassinados." Draco suspirou. Viu algumas lágrimas caindo no chão, enquanto o moreno mantinha a cabeça baixa. Não sabia por que estava sendo tão cruel, só sabia que queria acabar com toda aquela mentira de uma vez. "Sua vida antes daqui não é nada do que você acredita."
"Mas o mais impressionante-" Draco foi até Harry e o ergueu, empurrando-o contra a parede e mirando-o diretamente nos olhos. Agora que a mente do moreno estava confusa e fraca, podia fazer legilimência nele. Essa prática já havia aprendido há tempos a realizar sem magia, mas não tinha conseguido informações sobre o período de 'encaixe' entre o Harry real e o 'Harry inventado'. "O mais impressionante é que foi você mesmo quem decidiu apagar suas memórias e fugir. Por quê?" Perguntou contumaz, segurando-o fortemente pelos ombros.
Ainda extremamente confuso, com mente e memórias completamente fora do lugar, Harry apenas empurrou Draco e correu para as escadas.
"Potter!" Draco chamou, mas parou ao ver Arnold, o gato, pular na sua frente, trancando-lhe o caminho. Estreitou os olhos, e não se surpreendeu quando o bicho se transfigurou em um bruxo com longas robes escuras, comprida barba cinza-clara, uma barriga proeminente, e oblíquos olhos verde-água. "Eu sabia que havia algo de errado com você."
"Você não faz ideia, rapaz, da confusão e do dano que acabou de causar na mente daquele jovem." O homem disse com uma voz calma, mas incontestável.
"É? Então por que não me impediu?" Draco cruzou os braços sobre o peito e lançou uma careta de desdém ao homem.
"Oh, essa chuva me distraiu. É incrível a quantidade de ratos que saem dos bueiros em dias como esse e-" O homem apalpou a barriga, mas parou e pigarreou ao ver a expressão incrédula do loiro. "Erm... acho que vivi como gato por tempo demais."
"Quem demônios é você?" Draco perguntou exasperado. "Qual a sua relação com Potter? Foi você quem tirou a memória dele? Por quê?"
"Você faz perguntas demais, e já sabe tudo que precisa saber. Harry quis deixar a Inglaterra e esquecer-se de tudo. Pense em tudo o que ele passou, e o desejo de apenas ser normal e levar uma vida tranquila e feliz."
"Uma mentira! Viver uma mentira!" Draco explodiu irritado. Não podia aceitar que Potter havia sido tão covarde a ponto de fugir de tudo e de todos, para viver uma vida que não era a dele. "é você quem manda dinheiro para ele todo mês?"
"Dinheiro da própria fortuna dele. E você está errado. Harry realmente tem pais aqui. São um casal de muggles que tiveram um filho bruxo que morreu na guerra da Inglaterra. Sempre moraram aqui, e Harry os conheceu antes de ter a memória alterada. O casal aceitou tomá-lo como filho." O bruxo falou, sério. "Mas, claro, todas as memórias sobre eles não deixam de ser projeções da vida que Harry queria ter tido com seus próprios pais. Como ele imaginava que poderia ter sido se não fosse por Voldemort."
"Isso tudo é um absurdo." Draco rosnou. "Eu vou conversar com Potter-"
"Engraçado você dizer que o ama e nem sequer conseguir chamá-lo pelo primeiro nome," O bruxo observou. "Engraçado também não conseguir aceitar a decisão dele. Pelo contrário, impõe sua vontade de que ele se lembre de você e de coisas que ele queria mais do que tudo esquecer apenas por egoísmo. Joga toda a verdade em cima dele sem qualquer tato, sem se importar em saber se é isso que ele realmente quer. Você deveria ter parado ao descobrir que ele apagou as memórias porque quis."
"Eu apenas não acho certo-"
"Isso não é sobre o que você acha certo, garoto." O bruxo cortou, parecendo crescer alguns centímetros ao se aproximar do loiro, que recuou hesitante. "Você não tinha nenhum direito de aparecer e estragar a vida que Harry criou para ele. Você é o errado aqui, e deveria apenas ir embora com seu amor veela egoísta e auto-centrado."
O queixo de Draco caiu, e uma pontada extremamente dolorosa quase rasgou seu coração.
O bruxo voltou a se transformar em gato e pulou em cima de Draco, que soltou uma exclamação assustada, colocando o braço na frente para se proteger, mas, com um ploc após afundar as unhas novamente em seu braço, o gato sumiu.
O loiro teve certeza de que ele fora para o quarto de Harry, e correu até lá. Tentou bater à porta e chamar por Harry, mas sentiu que havia magia de imperturbabilidade rodeando todo o cômodo.
Era a sua vez de deixar as lágrimas caírem.
Encostou as costas na porta e escorregou até o chão, e então abraçou os joelhos, escondendo o rosto entre os braços. Não sabia mais o que fazer. Seu amor era assim tão egoísta?
Algo lhe dizia que sim.
NA: Alguém aí chuta o que acontece a seguir? uhaUIAHuihaUIAHIU! Quem desconfiou do gato, desconfiou certo! Vocês estão boas no chute, também teve gente que achou que havia sido o Harry mesmo a tirar a própria memória. ;D
Muuuito obrigada por todas as reviews! Vocês são muito amores! :*
Dani: Linda, você provavelmente foi a única que gostou do gato! O Arnold não é um bruxo malvado, porém. Ele apenas se preocupa com o Harry, uahuahaua! Sinto que os leitores vão odiá-lo ainda mais, xD Obrigada pela review! Beijão!
FranRenata: Fiquei com medo de você. UHAUAHAU Não quero ser castrada, por isso, vou cuidar bem do nosso loiro mais divo do mundo, não se preocupe. xD Vou tentar manter as atualizações rápidas. Estou louca para escrever o próximocap. *estralando os dedinhos* Só imagine por que, hhoho! Beijos!
Keicy M.E: Não só você, flor! uhauahauahua! Todos querem matar o Arnold! E pode apostar que vai ser mais intenso do que teria sido, porque, afinal, o Harry vai saber quem é o Draco, e vai estar completamente ciente do que está fazendo. *_* E você acertou direitinho que foi o Harry que quis alterar a memória! Quero saber qual sua ideia do que vem pela frente, hein? auhauahau! Muito obrigada pela review! Beijão!
Poke: Oi, flor! Ai, comecei a rir imaginando o Harry jogando o Arnold no ciclone. UHAAUHUA E as duas varinhas do Harry vibrando. FATO. AUHAAHAUA É só o Draco estar perto que elas se assanham. OIJAIUOhauIOAHIUO adoro! É muito lindo imaginar Harry e Draco como almas gêmeas, super fófis *.* E gostei da ideia. Depois da primeira vez deles, o Draco vai se entupir de chocolate. UHAUAHAIU Beijos, amada!
