Pra quem estava esperando, mais um capítulo! Chegamos na metade.

CAPÍTULO 5

— Café? — James ofereceu, enquanto desciam as escadas, recebendo um aceno positivo de Lily.

Na cozinha, ela fez questão de colocar água e pó na cafeteira elétrica, ajustando-a para duas xícaras.

— De agora em diante, use o BMW.

Ela virou-se, ressentida.

— Não há nada errado com o meu carro! É antigo, mas está em perfeitas condições.

James cruzou os braços, fitando-a, desconfiado.

— Há quanto tempo ele não passa por uma revisão completa?

"Tempo demais...", admitiu, silenciosamente, lembrando que, nos últimos meses, todo seu dinheiro havia sido gasto com despesas médicas.

— Não gostou do BMW? — indagou, indulgente.

— Suponho que, este ano, seja o veículo da moda para as esposas dos empresários bem-sucedidos, não é?

— Esse não foi o motivo que me levou a escolher o carro — respondeu, arqueando as sobrancelhas com ar desafiador.

— Não? — fingiu, surpresa. — Entretanto escolheu um carro que vai de encontro à imagem que sua posição social exige...

— E que posição é essa, Lily?

— Ora, você é um homem de sucesso, James! — exclamou, solene. — Precisa estar cercado de beleza e sofisticação. — Deu uma olhada em volta para exemplificar o que ia dizer — Esta casa, o carro, suas roupas, enfim tudo deve estar de acordo com os padrões estéticos dos ricos e famosos... Até mesmo as mulheres que gozam da sua companhia!

Seus olhos cruzaram-se com os dela, demonstrando uma perigosa irritação.

— Não sabe nada sobre as mulheres da minha vida!

Aquele argumento atingiu o coração de Lily como uma lança, provocando-lhe uma dor lancinante. Mesmo assim, para salvar seu orgulho, tentou sorrir, enfrentando o olhar frio e inescrupuloso de James.

Aquela não era uma tarefa fácil e, logo, começou a sentir dificuldade para respirar, com o choro engasgado na garganta. Não conseguiria manter aquela pose desafiadora por muito tempo, contudo também não sabia o que fazer para fugir daquele humilhante desfecho...

Quando já estava prestes a derramar as primeiras lágrimas, um apito soou, alertando que o café estava pronto.

Aliviada, ocupou-se em servir o líquido aromático, ganhando tempo para se recompor. Entretanto, seu nervosismo era tão evidente, devido às mãos trêmulas e inseguras, que custou-lhe algumas gotas de café derramadas na mesa.

— Estou muito cansada — tentou desculpar-se, limpando a sujeira com um papel absorvente.

— Adicione um pouco de licor de amêndoas e chantilly — ordenou, apresentando-lhe os referidos produtos. — Essa mistura irá ajudá-la a dormir.

Lily abriu a boca para recusar, apenas para contrariá-lo. Porém, antes que pudesse dizer algo, ele acrescentou:

— Não discuta.

— Não estou discutindo!

— Nesse caso, pare de gastar energia à toa, agindo como uma garota teimosa, que faz tudo para me contrariar!

— Sabe muito bem como eu detesto estar morando aqui! — explodiu, num acesso de raiva.

— Posso calcular... Só pode ser comparado à intensidade do seu ódio por mim, correto?— respondeu, irônico, acrescentando licor e chantilly em ambas as xícaras.

— Você é irascível! Aliás, não tem a mínima intenção de facilitar as coisas para mim, não é mesmo?

O rosto de James parecia coberto por uma máscara de mármore, impedindo a manifestação de qualquer sentimento.

— Se está disposta a iniciar um duelo verbal, quero que saiba que não estou de bom humor para brincar de gato e rato — esclareceu, experimentando o café.

— Então pare de tratar-me como uma criança rebelde!

— Comece a agir como uma mulher adulta e passarei a tratá-la de acordo — disse, mordaz.

— Para você, ser adulta significa ceder a todas as suas vontades não é? Inclusive na cama! — As palavras saíram de sua boca antes que pudesse medir as conseqüências de mais aquela provocação.

Por um instante, pensou que ele fosse agredi-la, pois seu rosto moreno estava contraído de ódio e ressentimento. Contudo, para sua surpresa, James passou os braços em torno de sua cintura, puxando-a de encontro ao seu corpo musculoso.

— Dessa vez, foi longe demais — sussurrou em seu ouvido, em tom de ameaça.

Ele era sedutor o bastante para derrotar todas as barreiras de Lily, sem ao menos recorrer à força bruta. E, abusando desse dom, passou as mãos por aquele corpo curvilíneo, parando estrategicamente sobre os seios. Depois, fitou-a, ardendo de desejo, e pousou os lábios nos dela.

À medida que James explorava sua boca com volúpia e sofreguidão, sendo correspondido com a mesma intensidade, ela sentia-se miserável! Sua consciência a recriminava, exigindo que o repelisse, entretanto era incapaz de reagir aos apelos de seu corpo...

Aquilo foi apenas o começo, em seguida, James ergueu sua saía, passando a acariciar aquelas coxas bem torneadas, com suaves movimentos eróticos.

Percebendo que seria possuída por um homem que não se contentava com nada menos do que sua completa submissão, Lily sentiu uma dor aguda no peito, que logo foi transformando-se em revolta.

De súbito, tomada pelo ódio, começou a lutar contra aquelas carícias, tentando desvencilhar-se dele de qualquer maneira. Contudo, por mais que tentasse, não tinha força suficiente para afastá-lo. Então apelou para uma manobra perigosa: deu uma bela mordida nos lábios de James.

Perplexo, ele a soltou, limpando o sangue da boca com as costas da mão. Porém, assim que se recuperou daquele gesto inesperado, tornou a agarrá-la, demonstrando que queria muito mais do que alguns beijos...

— Deixe-me em paz! — gritou veemente, empurrando-o com todas as forças.

O rosto de Lily estava desfigurado de rancor e, nem de longe, lembrava a fisionomia alegre e terna de costume. Cheia de coragem, saiu da cozinha e começou a subir a imensa escadaria.

Já estava quase no topo, quando compreendeu as exatas dimensões do que acontecera. Então passou a temer as represálias de James, e toda sua coragem desapareceu, como uma nuvem de fumaça diante de um vento mais rigoroso.

Com o corpo tremendo, de medo e ansiedade, deitou-se de bruços sobre a cama, enterrando a cabeça entre os braços cruzados. Agora, só lhe restava aguardar pelo desenlace daquela situação...

A espera durou pouco tempo, pois, logo em seguida, ele entrou no quarto, como um terremoto, colocando-a de pé, sem nenhuma cerimônia.

Frente a frente com aquele homem insensível e sem escrúpulos, Lily empinou o nariz, recusando-se a aparentar medo. Em conseqüência de mais essa afronta, recebeu outro beijo. Só que dessa vez agressivo e impetuoso.

— Jamais estaria aqui se não fosse por Harry... — desabafou, assim que viu-se livre daquele abraço sufocante.

— Sei disso — concordou, com um olhar maquiavélico. — Por tanto quem dá as cartas aqui sou eu!

— Você é... — hesitou, tentando encontrar uma palavra capaz de definir o que sentia por ele, — É desprezível e desumano! Gosta de controlar as pessoas que o rodeiam como se fossem marionetes, a seu inteiro dispor! Não vejo a hora de poder me livrar do se domínio!

Lily continuou a fitá-lo, com o peito arfando e os lábios doendo, pela violência do último beijo. Sentia-se como um pássaro, aprisionado em gaiola de ouro, sonhando com a liberdade.

— Por acaso acredita que nossa reconciliação é temporária? — indagou, sarcástico, zombando da ingenuidade da esposa.

Ela respirou fundo, tentando ganhar coragem para enfrentá-lo. Depois, com toda a franqueza que lhe era peculiar, respondeu:

— Assim que Harry estiver curado, pretendo ir embora.

Aqueles olhos castanhos esverdeados soltaram fagulhas de ódio, dando a impressão de serem rubros.

— E acha que vou permitir que afaste meu filho de mim outra vez?

— Oh! Meu Deus! — exclamou, cansada de toda aquela tortura verbal. — Por que é tão prepotente e autoritário?

James ficou calado por tanto tempo, que Lily chegou a pensar que ele não iria responder. Porém a conversa ainda não estava encerrada...

— Posso processá-la em qualquer tribunal do país pelo motivo que eu julgar conveniente — ameaçou, com se fizesse uma promessa.

— Seria capaz de envolver nosso filho nesse jogo sujo apenas para me punir?

— Puni-la? — repetiu, surpreso. — De onde tirou essa idéia?

Ela meneou a cabeça, pensando se valia a pena continuar com aquela conversa. Por fim, em nome de uma velha mágoa, perguntou:

— Bellatrix Black ainda tem ligações com você?

— Sim, em termos profissionais.

— Ah! Por acaso, ela ainda está em Birmingham ou será que também mudou-se para Londres? — tornou a questionar, cada vez sentindo mais desprezo pelo marido.

— Está em Londres.

— Compreendo... — murmurou, completamente desiludida. Fora tola em imaginar que o caso entre James e Bellatrix tivesse ter minado... Aliás era provável que jamais chegasse ao fim, pois tinham tantas coisas em comum... Ambos eram ricos, de famílias tradicionais e aficionados pelo mundo dos negócios...

— Compreende, de verdade? — quis saber, sondando o real sentido das palavras dela.

— Oh! Sim! — assentiu, com a sensação de que o mundo havia caído sobre sua cabeça.— Já compreendi essa história há sete anos!

— Tinha de mexer nesse assunto, não é? Não consegue deixar o passado para trás?

— Eu tentei... — murmurou, com sinceridade.

Deus era testemunha do quanto se esforçara para superar aquele problema! Porém aquela era uma ferida que jamais havia cicatrizado, e, agora que voltara a viver com James, estava sangrando outra vez.

— Não havia como competir com uma mulher do tipo de Bellatrix, cujo hobby favorito era conquistar homens, para não dizer "colecioná-los"... Por esse motivo, em nome do que restava da minha dignidade, decidi retirar-me — explicou, entristecida. E, após um longo suspiro, concluiu: — Além disso, é impossível perder algo que nunca foi realmente meu...

— Se tivesse algum resultado, não hesitaria em ajoelhar-me a seus pés, jurando-lhe total devoção... — Sua voz mesclava ironia com uma dose de ternura e carinho, sendo impossível definir quanto de sinceridade havia em suas palavras. — Mas é incapaz de confiar em mim, não é mesmo?

Nos últimos minutos, aquela conversa dera uma reviravolta, passando a remexer em velhos fantasmas do passado, o que não era nada agradável para Lily...

— Isso foi há muito tempo... — murmurou, arrependida por ter iniciado aquele assunto. Seu conceito de casamento era muito diferente do meu.

— Tem certeza disso?

Sentiu um aperto no coração, acompanhado de mágoa e tristeza... Era doloroso demais relembrar o modo trágico como seus sonhos de amor haviam sido destruídos...

— Se não se importa, gostaria de tomar uma ducha e ir para a cama — pediu, esquivando-se daquela pergunta.

— À vontade, ruivinha — James assentiu, jocoso. — Tenho uma série de telefonemas internacionais a fazer.

Era impossível decifrar o que ele estava sentindo, ou mesmo pensando, pois, embora calma, sua expressão era distante e misteriosa.

— A propósito... — tornou a dizer, antes de sair do quarto. — Entrei em contato com um famoso criador de labradores e ele irá entregar um filhote para Harry amanhã, no final da tarde. — Fez uma pausa, deliciando-se com a surpresa da esposa. — É uma fêmea, de cor amarela, que atende pelo nome de Françoise. Aliás, virei para casa mais cedo para garantir que seja devidamente apresentada ao Príncipe.

Em seguida, deixou a suíte, com rapidez, sem dar a Lily a opor tunidade de agradecer-lhe.

— James é um completo enigma! — exclamou, jogando-se sobre a cama. — Algumas vezes, ele é tão hostil e repulsivo que chego a odiá-lo com todas as minhas forças! Então, de repente, torna-se terno e amável como o homem por quem me apaixonei um dia... Nem sei o que pensar...

Envolvida num turbilhão de emoções antagônicas, vivia um ter rível conflito interior... Em parte, desejava dar-lhe outra chance e recomeçar seu casamento, passando uma borracha no passado. Po rém, ao mesmo tempo, com medo de magoar-se de novo, recusava-se a perdoá-lo.

Naquele momento, só conseguia atentar para as duas camas no centro da suíte, um exemplo palpável da situação que enfrentava.

Reagindo contra aquela apatia que estava se apoderando dela, arrastou-se até o banheiro, tomando uma ducha fria para reavivar os ânimos.

Dez minutos depois, olhou-se no espelho, com os cabelos úmidos e sem nenhuma maquiagem no rosto. Além da aparente tristeza, estava pálida e com profundas olheiras sob os olhos, marcas crista linas de cansaço e preocupação.

Num gesto involuntário, sua memória levou-a de volta ao passado, numa época onde seu único tormento era esperar pelo marido, gas tando horas e horas arrumando-se para recepcioná-lo. Mas fora tão feliz nos braços dele, que teve vontade de morrer quando percebera que tudo havia chegado ao fim... O que lhe dera forças para continuar vivendo fora aquela gravidez, fruto de um amor lindo e imenso, pelo menos de sua parte...

Aos poucos, deixou as lembranças para trás, voltando a analisar sua imagem no espelho. Continuava bela e atraente como antes, porém, em vez daquela ingênua e dócil expressão juvenil, ostentava agora um ar determinado e cheio de responsabilidade, que aumentava seu charme natural.

"Será que James ainda me considera sedutora?", indagou-se, passando as mãos pelo corpo voluptuoso.

Deixando-se levar pelo erotismo, fechou os olhos, imaginando que, a qualquer instante, ele entraria por aquela porta e a tomaria nos braços, louco de desejo e paixão. Num gesto brusco, arrancaria seu robe vermelho, deixando-a nua como veio ao mundo. Então, beijaria seus seios com avidez, ao mesmo tempo em que iria acariciar suas coxas e virilha.

Gemendo, em êxtase, ela participaria daquele jogo de sedução, mordiscando seus ombros viris ou beijando tórax e pescoço. Por fim, iriam para a cama, concluir aquele ritual de exaltação da luxúria e do prazer.

Percebendo que tudo não passava de uma fantasia tola e impossível, Lily abriu os olhos, embaçados por uma cascata de lágrimas. Sem nenhum constrangimento, entregou-se ao pranto, que havia prendido, no íntimo de sua alma, durante o dia todo.

Depois de chorar tudo o que tinha direito, sentiu-se mais leve e conformada e foi para a cama, disposta a dormir e esquecer todos aqueles pensamentos desagradáveis. Porém, embora estivesse esgotada ao extremo, não conseguia pegar no sono, rolando de um lado para outro, com impaciência. E, à medida que as horas passavam, sua irritação ia aumentando, pois pretendia estar dormindo pesada mente antes que ele retornasse.

Já havia perdido a noção de quanto tempo permanecera deitada, na penumbra, a intercalar cochilos com momentos de insônia, quando um leve ruído na maçaneta anunciou a presença do marido.

Fingindo dormir, permaneceu imóvel como uma estátua, embora o coração estivesse aos pulos. Logo, porém, tudo piorou...

No silêncio da noite, pôde ouvir com nitidez o barulho de roupas sendo jogadas pelo chão, compreendendo que James despia-se.

Cada célula de seu corpo vibrou, de excitação e ansiedade, como se tivesse levado um choque elétrico, ao lembrar que ele costumava dormir nu (ui!).

Traída pela memória, aquele corpo másculo e musculoso, que conhecera com tanta intimidade, voltou a ocupar sua mente, provocando-lhe ondas incontroláveis de suor gelado.

"Meu Deus! Devia estar louca ao imaginar que poderia dividi o mesmo quarto com ele, sem que fosse afetada por sua presença inconfundível!', recriminou-se, arrependida até o último fio de cabelo.

Mas afinal o que James Potter pretendia, forçando-a a aceitar aquela situação? Seria apenas vingança?

Menos de dois metros separavam uma cama da outra. Contudo essa pequena distância assumia as dimensões de um precipício intransponível, que inviabilizava o encontro de dois amantes... Para agravar o problema, Lily era capaz de distinguir, pelos ruídos, cada movimento dele: deitar-se na cama, puxar os lençóis, além de seu ritmo respiratório...

"Como seria bom sentir essa respiração ofegante bem junto de mim!", desejou, antes que esse pensamento erótico fosse censurado pelo seu lado mais racional. Logo corou, envergonhada.

Minutos cheios de expectativa se passaram, sem que nada acon tecesse.

"Será que ele adormeceu?", indagou-se, inconformada por ele não ter sequer tentando seduzi-la. Percebendo a incoerência de sua indignação, já que alardeava aos quatro ventos que não permitiria que ele a tocasse, admitiu o óbvio: tinha esperanças de reconquistá-lo.

Duplamente arrasada, pelo desprezo de James e por aquela des coberta aterradora, acabou adormecendo, sem forças até mesmo para chorar.

Sonolenta, abriu os olhos devagar, sem reconhecer o ambiente ao seu redor. Porém, numa fração de segundos, recuperou a lembrança de onde estava, desejando não ter acordado.

Como isso era impossível, seu primeiro impulso foi olhar para a cama ao lado, para ver se James ainda dormia. Pelo menos assim, teria tempo de arrumar-se, sem precisar compartilhar a intimidade daquele, momento com o marido.

Para sua surpresa, além de desperto, ele estava sentado na beira da cama, vestindo um robe de seda masculino.

Instintivamente, Lily cobriu-se com o lençol, arrancando dele um sorriso malicioso.

— Que horas são? — indagou, com timidez, sem encontrar algo melhor para dizer.

— Seis e quinze. — Seu olhar penetrante parecia enxergá-la atra vés do lençol, fazendo-a corar. Então malicioso, acrescentou: — Não precisa sair da cama tão cedo...

Sentindo-se frágil e desprotegida diante de todo aquele charme, resolveu partir para o ataque:

— Se pensa que vou aceitar suas investidas, está muito enganado!

— O que quer dizer com "investidas"? — perguntou, fingindo-se de desentendido. Entretanto seu olhar ávido de prazer desmentia a ingenuidade que queria aparentar.

Ela engoliu em seco, receando não conseguir frear seus próprios desejos.

— Está com medo, Lily?

— Medo? — repetiu, afetando surpresa. — De ser uma vítima do seu apetite sexual?

James arqueou as sobrancelhas, criando interesse naquele duelo verbal. Porém só entrava em jogos para ganhar...

Lily sentiu um frio na espinha, arrependida por tê-lo incitado. Será que nunca iria aprender a ficar quieta?

— Posso lhe assegurar que terá grande prazer, ruivinha... — murmurou, com voz rouca.

— Pode ser... Afinal todos precisam saciar seus impulsos sexuais, não?

— Cinismo não é o seu estilo — retrucou, ríspido.

— Tive de mudar em alguns aspectos para sobreviver. — Ergueu a cabeça, com altivez, acrescentando: — Afinal, não podia contar com mais ninguém!

Ele a fitou por muito tempo, embora sem demonstrar o que sentia.

— Não está mais sozinha...

Lily observou a expressão cínica e zombeteira de James, com apurado senso crítico, para tentar entender o que se passava naquele mente insondável.

— Esta sugerindo que eu passe para a sua cama e permita que você satisfaça todos os seus desejos? — indagou, sem meias palavras.

— Com você fazendo o papel de mártir? — argumentou, com desdém. — Não, minha querida. Não lhe darei essa satisfação!

A princípio, sentiu uma forte dor no estômago, como se tivesse levado um soco. Porém, ao poucos, os espasmos foram diminuindo até desaparecerem por completo. Pelo menos, restava-lhe o consolo de ter vencido aquela batalha, provando que era uma adversária digna de seu oponente.

— Que alívio saber que não preciso freqüentar sua cama! — mentiu, com a clara intenção de feri-lo. Depois, embalada por aquela vitória, perguntou: — Há mais alguma coisa que gostaria de discutir?

James não se comportava com um perdedor. Ao contrário, estava mais confiante e perigoso do que nunca. Parecia um daqueles corredores que dá alguns metros de vantagem para o adversário, a fim de tornar o embate final mais saboroso...

— A semana passada, convidei Sirius e sua esposa para jantarem aqui em casa, esta noite. E, como eles chegam hoje dos Estados Unidos, não há como desmarcar esse compromisso.

Ter que agir como a anfitriã gentil e atenciosa era um papel para o qual não se julgava preparada, pelo menos por enquanto. Contudo Sirius Black poderia ser um aliado valioso. Da última vez que jantaram juntos, estava em vias de divorciar-se da primeira mulher para se casar com outra.

— A que horas deverão chegar? — indagou, cautelosa, para não denunciar sua insegurança.

— Às oito. Mas, não se preocupe com nada, Minerva irá preparar e servir a refeição.

Seu apurado sexto sentido obrigava-a a fazer mais uma pergunta:

— Eles serão os únicos convidados?

— A filha de Sirius, Sienna, também virá.

Sete anos atrás, Sienna era uma adolescente muito precoce, maneira delicada de definir seu jeito ousado e sensual. O tempo deveria tê-la transformado numa bela mulher, do mesmo tipo de Belatrix Black.

— Outra de suas conquistas, James? — provocou, disfarçando o ciúme.

— Não fico jogando charme para toda mulher que encontro.

Lily deu uma sonora gargalhada.

— Ora, não precisa esforçar-se... Seu potente carisma sexual faz isso por você!

— Essa é uma confissão, Lily?

— Não, é apenas o parecer de quem já enfrentou esse problema e conseguiu libertar-se — corrigiu, apressada.

James piscou os olhos, com malícia, duvidando de cada palavra.

— Bem, então está tudo combinado? — confirmou, erguendo-se da cama.

— E se eu me recusar a comparecer? — arriscou, com cuidadosa.

— Por mero desinteresse em eventos sociais ou apenas para desagradar-me?

— Ora, ambos! — admitiu, com franqueza. — Não me agrada nem um pouco servir de assunto para fofocas e comentários maldosos na alta sociedade.

— Sirius é um perfeito cavalheiro, além de um dos meus melhores amigos, lembra-se?

— Está bem... Farei o possível para brilhar como a anfitriã per feita! — assentiu, disposta a conseguir algo em troca. — Posso convidar alguns amigos meus para um outro jantar?

— Quem? Sarah?

— Sim, e seu namorado Brad.

— Fique à vontade para convidar quem quiser. Satisfeita, vestiu o robe, que estava aos pés da cama, e correu para o banheiro, a fim de escapar daqueles olhares insinuantes o mais depressa possível.

O café da manhã foi servido no terraço, de frente para a piscina, criando uma atmosfera de paz e tranqüilidade, ideais para se começar bem um dia.

Lily e Harry já estavam se deliciando com os vários tipos de pães e bolos, além de muitas outras gostosuras, quando James veio juntar-se a eles, trajando um dos seus impecáveis ternos italianos.

Sua aparência marcante exalava confiança, ousadia e autoridade, atributos fundamentais de um empresário bem-sucedido, que controlava milhões de dólares.

Primeiro, ele acariciou os cabelos do filho, dando-lhe um carinhoso beijo na face. Em seguida, aproximou-se da esposa com a intenção de repetir o mesmo cumprimento.

Impossibilitada de repeli-lo, por causa da presença do menino, Lily esforçou-se para parecer feliz, quando sentiu a quentura da queles lábios em sua pele. Entretanto, no fundo, sabia que aquele carinho não a desagradava tanto assim...

— Até logo, e tenham um bom dia — despediu-se de ambos, após tomar apenas uma xícara de café com leite. — Ah! E não trabalhe demais, minha querida! — acrescentou, com um discreto tom jocoso.

Lily preferiu não responder àquela sutil provocação, fazendo um aceno afirmativo com a cabeça.

— Tchau, papai! — Harry despediu-se. Aliás era surpreendente a rapidez com que estava se afeiçoando a ele.

Minutos mais tarde, ouviram o ruído inconfundível do carro dele afastando-se rapidamente da casa.

Lily deu um profundo suspiro, sabendo que aquela seria uma manhã muito difícil, pois a consulta de Harry com o neurocirurgião estava marcada para às dez horas.

Criando coragem, ergueu-se da cadeira e convidou o filho para um passeio pelos jardins da mansão, com o intuito de explicar-lhe que teriam um dia muito diferente do habitual... Não precisaria ir à escola e sairiam juntas, no carro novo, para fazer algumas visitas.

Já era quase meio-dia, quando Lily pegou a via expressa para o sofisticado bairro de Chelsea, completamente alheia a tudo que a cercava.

Seus gestos eram autômatos e instintivos, uma vez que sua mente estava muito longe dali, ainda presa às palavras do neurocirurgião.

A todo custo, tentava assimilar o fato de que seu filho querido iria para o hospital, na manhã seguinte, para ser operada à tarde.

'Tão depressa assim!', repetia para si mesma, procurando con formar-se com aquela idéia. Seu coração de mãe gostaria de adiar ao máximo aquele momento doloroso para Harry, embora sou besse que seu problema exigia intervenção imediata.

A possibilidade de que algo desse errado durante a cirurgia a deixava em pânico, apesar de o médico ter-lhe garantido que esta seria a parte mais simples do tratamento. Pois, segundo ele, a fase decisiva para a completa recuperação da criança seria o pós-operatório, que, além dos cuidados profissionais, exigiria muito amor e carinho da família.

Como prometera, James voltou para casa por volta das quatro da tarde, meia hora antes da entrega de Françoise, uma elétrica labrador, com um laçarote vermelho no pescoço.

Harry mal cabia em si de felicidade. Afinal, um dos seus maiores sonhos acabara de concretizar-se.

Presenciando toda a cena, Lily olhou com gratidão para o homem que proporcionara aquela imensa alegria ao filho.

— Obrigada, papai! — Harry exclamou, jogando-se nos braços dele.

James beijou o filho, com tanto afeto e ternura que Lily chegou a duvidar que se tratasse do mesmo homem frio e insensível com quem estava acostumada a lidar.

Em seguida, acomodaram o cesto de Françoise no quarto do menino, deixando-os a sós para que se conhecessem melhor.

— Há muito tempo ele esperava por esse presente — Lily confessou, com remorsos por não ter podido satisfazer esse grande desejo do filho. Além do mais, de certa forma, era como se tivesse perdido pontos decisivos em sua batalha contra James

— Temos meia hora antes que os convidados cheguem — informou, consultando o relógio de pulso. — Ficará pronta a tempo?

— Claro — garantiu, indo apressada para o quarto.

Minutos depois, parecia mais sedutora do que nunca, dentro de um elegante vestido tomara-que-caia azul-royal, longo e vaporoso. Seus cabelos estavam presos num coque alto, com uma mecha caindo-lhe displicentemente sobre o rosto, maquiado para realçar seus olhos...

Mais um capítulo. No próximo é que as coisas esquentam de verdade entre James e Lily (uhu!).

Aah ! Não poderia esquecer: Maga do 4: Bem vinda! Que bom que vc gostou ;) beijos;*