Quando finalmente chegaram ao instituto, estavam completamente ensopados, parecia que tinham caído dentro de uma piscina ou algo do género. Fubuki sem hesitar nem pensar duas vezes, levou Tasha para o seu quarto. Afinal de contas, tinham planeado fazê-lo.

- Pronto, agora já estamos abrigados. – Disse Fubuki satisfeito. – Tens fome? Se quiseres posso preparar-te alguma coisa, não é incómodo nenhum para mim! – Disse-lhe sorrindo.

- Não obrigada, eu não tenho muita fome. – Respondeu-lhe timidamente, observando cada recanto do quarto onde se encontrava.

- Então está bem. De qualquer das maneiras vou fazer um pouco de chocolate quente, vai fazer-nos bem e vai manter-nos o corpo quente.

- Que bom! Eu adoro chocolate quente, principalmente quando leva daqueles marshmallows em miniatura por cima! – Disse, contente.

- Referes-te a estes? – Disse, apresentando-lhe um tabuleiro com duas canecas de chocolate quente com doces brancos por cima. Tasha limitou-se a rir perante aquela situação e responder afirmativamente, era como se aquele miúdo lhe lesse os pensamentos. - Então já somos dois! – Respondeu-lhe ele, dando-lhe a beber uma das canecas.

- Obrigada. – Disse, provando um pouco da sua bebida. – Mm! Isto está delicioso! – Disse com um rubor de satisfação nas suas bochechas. Fubuki riu-se e sentiu-se feliz de que a sua amiga tivesse gostado, também não eram muitas as pessoas com quem ele tinha partilhado um chocolate quente.

- Agora a sério. Estamos ambos ensopados, se não nos secarmos rapidamente vamos acabar por ficar doentes. – Disse um pouco preocupado.

- E mesmo que ligue-mos o aquecedor, ainda demoraríamos umas quantas horas a secar-nos. – Disse pensativa. Tinham que pensar em algo, não podiam simplesmente ficar ao frio. Pensaram durante pelo menos uns cinco minutos, até que Fubuki teve uma ideia.

- Tira a roupa. – Fubuki olhou para longe de Tasha com um rubor nas suas bochechas, estava envergonhado por causa daquilo que tinha acabado de dizer.

- O quê? – Tasha nem podia acreditar naquilo que tinha acabado de ouvir, muito menos vindo da boca de alguém como Fubuki.

- Ouviste-me bem. Temos de tirar as roupas, amenos que queiras ficar constipada! – Disse olhando-a de frente.

- Está bem, mas; o que fazemos com as nossas roupas? – Perante isto, Fubuki ligou o seu aquecedor no segundo nível para as poupas secarem um pouco mais depressa, mas também para não se queimarem.

- Pomo-las aqui, entretanto, secamo-nos com umas toalhas. Não te parece demasiado, ou parece? Só te digo uma coisa: temos de ficar em roupa interior, mais nada; devem ter sido as únicas roupas que não ficaram molhadas. – Disse um pouco corado.

- Está bem, mas tens de prometer que não espreitas enquanto eu me estiver a despir! – Disse, também um pouco envergonhada. Entendendo a sua situação, Fubuki concordou. – E não te preocupes, eu não te vou espreitar a ti.

Então, viraram-se de costas um para o outro. Tasha virada para a porta, e Fubuki para a parede onde estava encostada a sua cama. Aos poucos, foram começando a despir-se, até que ficaram ambos em roupa interior. Fubuki tinha ficado apenas com os seus boxers e tinha-se sentado na sua cama; e Tasha com uns boxers femininos. Mas para Fubuki, que a viu depois de uns instantes, teve uma surpresa; Tasha tinha bastantes ligaduras à volta do seu peito, que iam até um pouco acima da linha da cintura, e que estavam presas por algumas tiras que passavam por cima do seu ombro direito; que apenas deixavam ver uma das alças do soutien de Tasha.

- Olha, Tasha… - Disse Fubuki um pouco envergonhado por ver a sua companheira assim.

- D-diz. – Respondeu-lhe, ainda de costas para ele.

- Senta-te aqui. Já deves estar um pouco cansada de estar de pé depois do dia que tiveste, vai fazer-te bem um pouco de descanso. – Disse, com um pequeno sorriso, embora que fosse apenas para esconder a sua vergonha.

- S-sim; j-já vou. – Tasha engoliu um pouco de saliva e inspirou bem fundo, para se livrar de alguns nervos, depois disto, Tasha pôs-se de frente para Fubuki, quem ficou bastante mais corado; e sentou-se ao seu lado, com a cabeça baixa, sentia muita vergonha, nunca tinha estado assim com ninguém, nem sequer com uma rapariga, quanto mais um rapaz.

- Olha, parece que hoje vai haver uma tempestade. – Disse Fubuki, olhando pela janela.

- Espera um pouco. Uma tempestade como um temporal ou uma tempestade elétrica? – Disse-lhe Tasha, com medo pintado por toda a sua cara. Fubuki não notou nada disso, pois estava fixado no céu que agora tinha uma cor aproximadamente negra, e engoliu em seco, pois também ele estava um pouco preocupado. – Uma tempestade elétrica. Por que é que perg- Fubuki não terminou a sua frase, pois viu que a sua amiga não estava lá muito bem.

- O que é que eu vou fazer? Se soar um trovão eu não sei o que me possa acontecer. Vai acontecer o mesmo que daquela vez. – Sussurrava Tasha baixinho, enquanto uns arrepios gelados lhe percorriam as costas e faziam com que começasse a tremer e a bater os dentes.

- Estás com frio? – Perguntou, aproximando-se mais de Tasha, encostando a parte lateral da sua perna esquerda à perna direita de Tasha, o que fez com que ela corasse um pouco.

- U-u-um po-po-pouc-co. – Disse gaguejando devido ao frio, olhando para baixo, de braços cruzados esfregando os antebraços.

- Nesse caso… - Disse Fubuki, passando os braços pelas costas de Tasha. Passou o seu braço esquerdo pela barriga de Tasha, atravessando-lhe a cintura de um lado ao outro, e o seu braço direito pelo seu peito, apoiando-o na sua clavícula, pondo-lhe a mão no ombro esquerdo, pousando a sua cabeça no ombro direito de Tasha, fechando os olhos e puxando-a para si, deixando-a completamente à sua mercê, encostando o corpo dela ao seu na totalidade. – Deixa que eu te dê um pouco do meu calor. – Disse-lhe, fazendo com que ela corasse um pouco, mas que não se queixasse um único momento; e que lhe olhasse olhos nos olhos.

- Muito obrigada, agora já estou um pouco mais quente, mas continuo com frio. – Disse, tremendo um pouco.

- Acho que é melhor desfazeres os totós, assim o teu cabelo vai secar melhor; além disso, se ele secar com os totós feitos amanhã de manhã vai ficar a parecer um oito, e acho que tu não queres mesmo que isso aconteça. – Disse, rindo-se e imaginando a figura da sua amiga.

- Acho que sim. Bem, é melhor desfazê-los. – Disse, levantando os braços para desfazer os seus totós.

- Espera; eu desaperto-os por ti! – Disse, agarrando-lhe nos pulsos, e sorrindo-lhe. Tasha pousou os braços de imediato e deixou Fubuki mover-se à sua vontade. Este pôs-se atrás de Tasha de joelhos e pouco a pouco foi suavemente desapertando um dos totós de Tasha, mas quando foi desapertar o segundo…

- Au! Está a doer! – Queixou-se Tasha, pondo uma mão na cabeça, onde lhe doía.

- Desculpa, não era minha intensão magoar-te. – Disse, pondo-lhe uma mão no ombro.

- Não faz mal. Achas que consegues tirar este nó? – Perguntou-lhe um pouco triste.

- Tem calma, eu vou ter muito cuidado, está bem? – Perguntou-lhe suavemente. Recebeu um sim como resposta e devagar foi tentando tirar o nó até que conseguiu, e reparou que Tasha estava muito tensa, agarrava com força os lençóis da cama de Fubuki, e tinha os olhos fechados com força. Fubuki, ao ver isto decidiu divertir-se um pouco nesta situação; visto que Tasha não tinha sentido sequer que já não tinha o nó no cabelo. – Oh, não! Vou ter de te cortar o cabelo, o nó não quer sair! – Disse ele sarcasticamente.

- Não! Por favor, não! Tudo menos isso! – Disso abanando Fubuki pelos ombros, com força, para a frente e para trás; gritando aflita.

- Tem calma, eu já te tirei o nó à algum tempo, não precisas de te preocupar. – Diz, enquanto lhe põe uma mão na cabeça de Tasha e afagou-a gentilmente, o que a fez sorrir e fechar os olhos para apreciar a carícia.

- Desculpa. E obrigada. – Disse, sorrindo.

- Ainda tens frio? – Pergunta-lhe calmamente.

- Sim, mas é só um bocadinho. – Respondeu-lhe sentando-se de lado na cama e pondo uma mão ao seu lado, para se equilibrar.

- Espera um pouco, eu vou buscar alguma coisa para nos aquecer.

- Está bem. Já agora, tu não divides o quarto com o Kazemaru?

- Sim, mas não te preocupes. Eu pedi ao Kazemaru que não viesse ao nosso quarto pelo menos até faltar uma hora para o recolher.

- Mas… Porquê?

- Porque queria passar um bom tempo a sós contigo. Quero conhecer-te melhor e também que sejamos bons amigos! – Diz-lhe com um sorriso enorme. – É melhor bebermos o resto do chocolate quente antes que fique frio. – Fubuki pegou nas canecas de chocolate e chegou-se à beira de Tasha, com um cobertor bem grosso na mão. Deu uma das canecas a Tasha e recostou-se contra a parede. – Agora chega-te aqui e cobre-te.

- Sim. – Respondeu-lhe timidamente, aproximando-se da parede, deixando que Fubuki a cobrisse com aquele cobertor, compartindo-o com ele.

Estavam os dois aconchegados naquela cama, debaixo de um cobertor; agora já se viam os flaches dos relâmpagos e Tasha começava a ter a pulsação acelerada, mas sentia-se estranhamente calma em relação às outras vezes em que tinha havido tempestades. Ouvia-se o vento a assobiar bem alto, quase se podia sentir as gotas de chuva, pois caiam com tanta força que parecia que iam passar através do vidro e acertar-lhes a qualquer momento. Ainda assim, Tasha não se importava e sentia-se como nunca antes se tinha sentido, sentia-se muito calma e não tinha medo, não sabia por que é que se sentia assim, mas tinha um palpite: era por causa da companhia que tinha. Nesse momento, ela tinha a cabeça encostada no peito de Fubuki, quem a estava a abraçar protetoramente, para que não tivesse frio, embora que não estivesse a resultar na totalidade, visto que ela tossia com força e espirrava de vez em quando.

- Tasha, ouve, eu tentei conter-me, mas já não aguento mais. Por que raio é que tens essas ligaduras? Se não as tirares vais acabar por ficar pior! – Diz-lhe, olhando-a zangado e um pouco preocupado.

- Eu não posso. – Respondeu-lhe olhando para longe do seu rosto.

- Afinal por que é que tu usas essas ligaduras? Não estás magoada, não vejo razão alguma para as usares.

- Sabes; isto já aconteceu à algum tempo. Eu era gozada por todos. Os outros miúdos conseguiam mesmo pôr-me fora do juízo, quando o faziam a única coisa que conseguiam ver era o meu punho na cara deles. E se eles se metiam com os meus amigos, nem mesmo isso conseguiam ver. A partir daí, todos passaram a ter medo de mim, afastavam-se de mim e diziam que eu era uma aberração. Ainda assim, outros diziam que eu era uma fraca, uma falhada; era mesmo insuportável. Então se me vissem como sou agora, iriam gozar-me ainda mais. Por isso é que eu uso estas ligaduras, entendes? Uso-as apenas para esconder o meu peito, mais nada. – Disse Tasha, acabando por desabafar com o seu amigo, com as pernas encolhidas e com a cabeça entre elas. Visto isto, Fubuki não conseguiu conter a sua vontade e partiu-se a rir.

- Mas tu usas ligaduras por causa de uma coisa dessas?! Vá lá, não me faças rir! – Disse, apertando a zona da barriga, rindo-se já com lágrimas nos olhos de tanto rir.

- Afinal eu estava enganada a teu respeito. – Disse ela, num tom frio.

- Huh? O que queres dizer com isso? – Perguntou-lhe preocupado.

- És como todos os outros. Apenas queres fazer troça de mim! – Disse irritada, a ponto de chorar.

- Isso não é verdade, eu nunca faria troça de ti! – Disse triste, olhando-a preocupado; pensava que era desta vez que tinha arruinado a sua amizade com Tasha.

- Mente-me… Mente-me e diz-me que não estavas a rir-te de mim! – Respondeu-lhe olhando-o cheia de raiva e medo.

- Olha-me bem, Tasha. – Disse-lhe, pousando-lhe suavemente a sua mão direita na sua bochecha, fazendo com que ela o olhasse de frente. – Eu estava a rir-me, mas não era de ti. Eu juro por tudo o que é mais sagrado que eu nunca te quis magoar. – Disse-lhe, com umas lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto.

- Tu estás… A chorar? – Perguntou-lhe com receio.

- Diz-me uma coisa. Só te peço isto: queres que eu te diga o porquê de eu estar a chorar?

- S-sim.

- Tu. Tu és a razão de eu estar a chorar; tu tens uma personalidade radiante, tens a voz mais doce que eu já ouvi. Além disso… Não achas que é um pouco absurdo usares ligaduras apenas para esconderes o peito? Afinal, é normal numa rapariga da tua idade ter o peito crescido, não é? – Respondeu a rir, ainda que com as lágrimas a cair.

- Acho-Acho que sim. – Respondeu rindo-se um pouco envergonhada. Por muito que lhe custasse admitir, era Fubuki quem tinha toda a razão.

Estavam ambos um pouco envergonhados com aquela cena, mas tinham de admitir que estavam muito divertidos. Tinha passado pouco mais de meia hora desde que tinham chegado ao quarto de Fubuki. Eles estavam tão entretidos um com o outro que nem tinham notado no temporal que se estava a fazer lá fora. Tasha nem sequer se lembrava que lá fora havia uma tempestade, até que soou um trovão.

- Aaaahhh! – Tasha gritou de imediato ao ouvir o trovão, abraçou-se a si própria com medo. Gemia e tremia e tinha lágrimas a escorrer pela cara. Nesse momento, toda aquela alegria que sentia foi dissipada pelo medo. Para ela, já nada mais existia a não ser a escuridão.

- Tasha. Tasha, o que se passa? – Fubuki começava a afligir-se por Tasha. Ainda assim, havia qualquer coisa de familiar nela. Fubuki abanava-a com força, tentava chamá-la à razão. – Por favor, Tasha! Não deixes que o medo te domine! Não… Não me deixes! – Acabou por dizê-lo.

- Tenho muito medo. O que eu menos quero neste momento é deixar-te! Não quero ficar sozinha; não quero que as chamas voltem a tirar-me tudo! – De repente, Tasha juntou ambas as mãos às de Fubuki, apertando-as com força.

- Tasha… - Disse Fubuki com um ar triste, com olhos a brilhar da melancolia. – Está tudo bem… Estou aqui contigo, não precisas de ter medo; está bem? – Perguntou, envolvendo-a num abraço com um dos braços, enquanto com a mão direita levantava levemente o seu queixo para que Tasha o olha-se nos olhos. Tasha, vendo a profunda honestidade gravada nos olhos de Fubuki, limitou-se a abanar a cabeça em concordância.

- Agora, Como é que é isso de as chamas te tirarem tudo? – Perguntou ele fazendo-lhe pequenas carícias com a mão que tinha nas suas costas.

- Sabes, quando eu era muito pequenina, tinha por volta de seis anos, os meus pais foram obrigados a separarem-se de mim e dos meus irmãos, todos menos o mais velho dos meus irmãos mais velhos; que estava escondido nesse momento. Depois disso, eu só me lembro de acordar numa cama individual e de ver uma enfermeira a dizer-me que eu estava num orfanato e que tinha estado a dormir durante três dias inteiros. – Disse ela, olhando-o com os olhos molhados.

- Eu… - Tentou ele dizer. Estava sem palavras, o que Tasha lhe tinha dito tinha-o deixado horrorizado. – Peço imensa desculpa! Eu não sabia Tasha, não queria que te sentisses mal! – Disse, tentando desculpar-se.

- Não faz mal nenhum, Fubuki. – Disse ela, sorrindo, apenada pela reação de Fubuki. – Eu… Já estou muito, muito habituada. – Disse, baixando um pouco a cabeça, fazendo com que a sua franja tapasse os seus olhos.

- E então… - Disse ele, hesitando um pouco.

- E então, o quê? – Disse Tasha, voltando a encara-lo de frente.

- A história. Tanto quanto me pareceu, ainda tens umas coisas por explicar; visto que o que me contaste não tinha nada a ver com chamas… - Disse ele, secamente.

- Pois! – Disse ela, com uma gota de nervosismo a escorrer-lhe pela cabeça, enquanto coçava a nuca. – Bem, onde é que eu ia… - Perguntou para si mesma enquanto fechava os olhos e punha um dedo no queixo e fechava os olhos para tentar lembrar-se melhor; o que fez Fubuki soltar um leve risinho. – Ah, já sei! Mais ou menos passado um mês de eu lá estar, um casal entrou lá e adotou-me. A casa deles era mediana; nem pequena nem muito grande; estava lá no meio. Eu pensava que a partir daí ia ter uma vida melhor, mas estava redondamente enganada. Eles mandavam-me ir às comprar, fazer-lhes o jantar, limpar a casa de cima a baixo; e nem sequer diziam obrigado, nem uma vez. Eles não me deixavam brincar, a minha vida era realmente um horror, mas eu não o odiava de todo. Afinal, eles davam-me comida, roupa e um teto sobre a cabeça; que mais podia eu desejar, era o que muitos se perguntavam. Mas; eu só tinha uma resposta… - Terminou ela de dizer, olhando para Fubuki nos olhos.

-Ser feliz. – Disseram os dois ao mesmo tempo, o que provocou surpresa da parte de Tasha, e um olhar nostálgico de Fubuki.

-Continua, estás à vontade, eu não conto isto a ninguém, prometo! – Disse ele, sorrindo. Tasha apenas respondeu afirmativamente e continuou a falar.

- Um dia, eles tinham ido jantar fora, e era uma noite de tempestade. Não sabia porquê, mas nessa altura, olhar para os relâmpagos e para os trovões era tão relaxante, tão… Nostálgico. Até que ao mesmo tempo, um relâmpago e um trovão colidiram e atingiram a casa onde eu estava. A casa, como não tinha para-raios, incendiou-se e não demorou nada para que o fogo fosse até ao quarto onde eu estava. Para que aquilo não piora-se, eu pus-me a correr e agarrei em todos os fósforos, acendalhas e qualquer outra coisa que soubesse que podia arder e subi as escadas até ao quarto deles. Tranquei-me lá pensando que o fogo não entraria com a porta fechada. Mas, eu era uma criança que nunca tinha andado na escola, o que queriam que pensasse? O fogo passou e como uma das garrafas estava a vazar, acabou por me escorrer um pouco pelo corpo abaixo. Bastou apenas uma faísca para que o pior acontecesse: o líquido entrou em combustão e começou a queimar a minha pele. Eu berrei de dor e de medo; os vizinhos ouviram, e, em meu auxílio, chamaram os bombeiros. Eles não tardaram muito em chegar, mas para mim já era muito tarde, já não tinha voz de tanto gritar, e começava a perder a consciência. Estava quase a desmaiar quando de repente um homem entrou pela janela e começou a chamar por mim, o que me fez reagir, levantado o braço com muita dificuldade, como que pedindo ajuda. Ele imediatamente pegou em mim ao colo e desceu pela escada por onde tinha subido; mas não sem primeiro reparar no que eu tinha entre os meus braços. Nesse momento, eu comecei a recuperar as minhas forças e acordei; e pus-me em pé, mesmo que com dificuldade. Ao longe, eu vi os donos da casa a chegar e a sair do carro; vindo pedir explicações aos bombeiros acerca do incêndio na casa. Os bombeiros explicaram-lhes tudo, e resolveram também fazer-lhes um pequeno interrogatório… - Disse ela, enquanto as memórias lhe preenchiam a mente.

- Desculpe, mas porque é que não estava em casa? – Perguntou um agente da polícia à Dona da casa.

- Não é óbvio? Eu e o meu marido fazemos cinco anos de casados, e resolve-mos ir comemorar num bom restaurante. – disse ela, com o seu nariz empinado.

- E deixou sozinha uma criança pequena, numa noite de tempestade?!- Gritou-lhe o bombeiro.

- Criança, mas que criança? – Perguntou agora o marido.

- Aquela ali; vocês nem se recordam da vossa própria filha? – Perguntou agora, a ferver de raiva.

- Ela não é nossa filha; nem nossa nem de ninguém! Aquilo não é um ser humano, é uma aberração! – Gritou a mulher com desprezo, apontando para uma menina pequena, de pijama chamuscado e roto, com o corpo repleto de queimaduras.

- Como se atreve a falar assim de uma criança? – Pergunta um dos paramédicos.

- Não me interessa como falo ou deixe de falar dela, afinal é apenas a criada.

- O que disse? – Perguntou um chefe da polícia.

- Sim. Ela limpa a casa, faz as compras, e tenta cozinhar aquilo que sai carvão. Não nos serve de muito, mas não se queixa, e isso é melhor que nada.

- Minha senhora, você desculpe, mas está a dizer que você obriga esta menina inocente fazer trabalho doméstico?

- Sim. E depois?

- Vocês os dois estão presos em nome da lei! – Disseram todos os polícias ao mesmo tempo, apontando as suas armas para o casal.

- Mas porquê? Nós damos-lhe comida, damos-lhe um par de roupas e damos-lhe uma casa onde viver. Já agora, que foi caríssima. – Disse ela indignada pela sua casa reduzida a cinzas. – O que é que tu tens aí, pirralha? – Disse ela, observando o que a menina tinha nos braços. – Como é que pudeste?

- O que se passa, meu amor? – Perguntou o seu marido.

- O que ela tem nas mãos são objectos sensíveis às chamas: fósforos, álcool, acetona, acendalhas! Foi ela que pegou fogo à casa!

- Como te atreves, nós demos-te tudo o que poderias desejar. Agora, vais sentir toda a dor do mundo! – Disse ele, agarrando no pescoço da menina, apertando-o com todas as suas forças. A menina gemia pela falta de ar e a sua visão começava a ficar turva, até que alguém acabou com isso, dando um forte golpe na nuca do homem, fazendo-o perder a consciência, e largando a menina. A mulher abaixou-se com um sorriso suave, e disse à menina para se aproximar. A menina fê-lo, mas o que ela não sabia era que a mulher tinha um cinto atrás das suas costas. – Vai pró inferno! – Gritou, cortando-lhe o braço com o dente da fivela.

- Aaaahhh! – Gritou a menina pela dor. Depois disso, caiu ao chão por causa do cansaço e acabou por desmaiar, mas não sem primeiro dizer as ultimas palavras – Miko-kun… - E com isto, caiu num profundo sono.

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