Capítulo 2 - Magnólia

Eu tinha finalmente saído da passarela e chegado mais uma vez ao camarim. As primeiras a desfilarem não estavam entendendo nada. Não entendiam as minhas lágrimas e nem mesmo a minha correria, além de ouvir as meninas sussurrando algo como "ela é maluca?" e outras rindo baixinho, deixando-me com raiva e uma enorme vontade de socar a primeira que abrisse a boca para falar comigo.

Peguei a minha bolsa, localizada em cima da penteadeira, e continuei a ir embora. Na verdade, eu deveria ter pensado um pouco mais antes de abrir a porta: vários fotógrafos já estavam à espreita e um conseguiu tirar foto da minha cara espantada, fazendo com que eu ficasse sem reação. No entanto, senti alguém me puxar e apenas fui guiada por essa pessoa, sem hesitar, mesmo esbarrando e empurrando as pessoas, mesmo saindo de lá cheia de roxos e sempre gritando um pedido de desculpas. Realmente, se não fosse por ela, ainda estaria lá, parada e com uma expressão idiota no rosto.

Era madrugada, cinco horas da manhã, para ser exata. Eu ainda estava cansada, é claro. Porém, eu precisava encontrá-lo e descobrir suas razões para não marcar presença num momento tão importante para mim.

Não era necessário perguntar onde ele estava... Eu já sabia, sempre soube. O lugar onde nos conhecemos. E agora, o lugar onde nos despediríamos. Sempre que pensava nisso, ficava com um aperto enorme no coração.

– Natsu... – Ele olhou para trás e eu pude notar uma tristeza enorme em seu rosto, passando a sentir o mesmo. Afinal, não ouvir aquela maravilhosa risada e toda aquela energia, características exclusivas dele, me faz ficar preocupada e um tanto quanto decepcionada.

– Você realmente veio – Ele tentou esboçar um pequeno sorriso, sem sucesso, porém.

– Mui... Muito obrigada... – Eu estava cansada demais para falar, minha respiração estava falha e minhas pernas bambas, fazendo eu me encostar à parede e finalmente deslizar para o chão, sentando com tudo.

– Não me agradeça, apenas não gosto de jornalistas irritantes – A garota sentou ao meu lado e pelo que pude perceber, estava igualmente cansada.

– Verdade, eles estão sempre no seu pé, não é? Mas também, você sempre está no meio dos escândalos. Ou os provoca. – Nós duas rimos e depois o silêncio tomou conta daquele beco. Após algum tempo, suficiente para descansarmos e estabilizarmos nossas respirações, ficando de pé finalmente e a encarando:

– Muito obrigada, Cana... – Eu me virei e comecei a ir embora, mas ela veio atrás de mim e segurou meu braço, me fazendo ficar assustada e me perguntando a razão dessa agressividade toda. É verdade, Cana era modelo. Porém, nunca fora uma menina comportada.

– Um dia eu irei te visitar, Lun... Lucy! – Pequenas lágrimas rolaram sobre minha face e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela me empurrou – Vá logo, não quero saber de choro perto de mim. Você é adulta ou não? – Eu assenti e finalmente voltei a tomar o meu rumo.

Eu não havia feito melhores amigos em Paris, longe disso... Mas, definitivamente não me esqueceria dela: toda descuidada e exagerada. E ainda assim, uma grande pessoa, capaz de proteger a tudo e a todos, sem se importar com reputação e coisas do tipo. Cana... Quando ela for me visitar, com certeza gostarei de conhecê-la melhor.

Eu me aproximei dele a passos lentos, pensando se realmente deveria estar ali. Quer dizer, ele me queria ali. E eu estava, porém, eu o queria lá... E ele não estaria.

– Levy já deve ter falado com você sobre a carta... – Ele passou a encarar o imenso céu e a mexer no cabelo, como se estivesse pensando no que dizer. Se é que havia algo a ser dito – Só leia aquilo quando estiver dentro do avião, certo? – Eu murmurei um pequeno "sim" e o abracei pelas costas, escondendo meu rosto e o tendo somente para mim naquele momento.

– Não vai ser difícil só para você, sabe? – Dessa vez, eu não choraria – É verdade, eu consegui uma oportunidade de ouro... mas, meus amigos não estarão lá para dizer: "mandou bem, Lucy!", "nossa, roupa ridícula aquela em", "como foi que deixaram você desfilar?", eu... Sentirei falta disso tudo, sabe? – Ele me fez tirar meus braços ao redor do abdômen dele e agora estávamos um de frente para o outro, extremamente próximos e sem expressão alguma no rosto... Felicidade, tristeza, dúvida... Nada disso, apenas um vazio completamente irritante.

– Eu sei que não será complicado só para mim. E é por isso, justamente por isso, que eu fico tão chateado. Eu queria poder estar lá para te apoiar. Eu queria poder fazer parte de todas as suas conquistas e derrotas, para comemorarmos muito e para eu não deixar nada te abalar. Mas, pela primeira vez, estaremos distantes. E não importa o quanto eu queira, nada poderei fazer – Ele colocou suas mãos em minhas bochechas e encarou intensamente meus olhos. Após isso, ele se aproximou um pouco mais e com os olhos fechados, beijou minha testa, fazendo eu me sentir calma e segura.

– É suficiente para mim... – Eu dei um leve riso e gritei – É suficiente saber que você gostaria de estar lá! – Ele pronunciou meu nome como se ainda o estivesse aprendendo:

– Lu... cy... – E me abraçou apertado, com uma preocupação enorme estampada no olhar. Contudo, aquele abraço nos acalmou. E ao notarmos o Sol nascer, deitamos um ao lado do outro e passamos a observá-lo em silêncio.

Estávamos juntos e aquilo sempre bastou para permanecermos felizes.

O lugar onde nos conhecemos e nos despedimos: o mais perfeito campo de flores de Magnólia. Algumas ainda desabrochavam, outras exalavam um perfume maravilhoso. E todas apresentavam cores variadas e inspiradoras. Além do fato das flores rosa e amarela sempre crescerem juntas, me fazendo ficar sempre com um humor melhor.

Eu havia chegado finalmente no meu apartamento. E essa decisão de abandonar tudo havia sido tomada algumas semanas atrás. Com isso em mente, bastava decidir apenas o dia: hoje, simplesmente por completar exatamente cinco anos que eu deixei Magnólia. Cinco anos longe de tudo e mesmo assim, quem dominou meus pensamentos, foram eles.

De qualquer forma, minhas malas já estavam prontas. Meu quarto vazio mais uma vez. E eu ansiosa para chegar e abraçar todos. É verdade, não falei muito com eles durante esse tempo... Andava sempre ocupada e raramente tinha tempo para me comunicar, então simplesmente não faço ideia de como eles se encontram. Espero do fundo do meu coração que estejam todos bem.

Eu peguei minhas malas e finalmente fechei o quarto. Um dos carregadores veio me ajudar e eu deixei a chave na recepção, dizendo um enorme adeus para o quarto 504. Eu definitivamente não sentiria falta daquela vida.

Os carregadores me acompanharam até um lugar próximo do hotel e um tanto quanto isolado e lá, um aviador me esperava.

– Boa noite, senhorita Luna Heartphilia, já está tudo preparado para a viagem, basta subir e decolaremos – Eu concordei e apontei para as malas deixadas pelo carregador do hotel:

– Teria como me ajudar a guardá-las? – O piloto pediu desculpas e começou a colocá-las adequadamente dentro do jatinho particular, me fazendo ficar mais esperançosa e ansiosa. Isso não era um sonho, eu realmente estava voltando para casa.

Finalmente me acomodei no meu assento e pudemos iniciar a viagem. Eu tinha plena confiança no meu piloto e justamente por ser um jatinho, estaria em Magnólia em menos de duas horas, pelo menos.

Isso me fez lembrar quando comecei a minha carreira e precisei me despedir de todos no aeroporto: eu havia chegado lá nove horas da manhã, Natsu havia me ajudado. Ele me acompanhou até em casa e colocou as malas no carro do meu pai, nos despedimos e eu fiquei acenando dentro do carro até não vê-lo mais. Foi um momento difícil, para nós dois.

Quando cheguei ao aeroporto, todos já estavam lá. E aproveitei muito cada palavra e gesto. Levy havia finalmente entregado a carta, e eu estava simplesmente morrendo de curiosidade para ler. Porém, eu aguentei. Havia prometido: apenas dentro do avião, sozinha.

Foi realmente um momento caloroso: abraços, beijos, choros, risadas. Tantos sentimentos que eu até fiquei um tanto quanto perdida. Mas, feliz. Feliz por ter amigos maravilhosos e perceber como eu havia conquistado aquelas pessoas. E como elas haviam me conquistado. Simplesmente amei ver o quanto elas se dedicaram para corresponderem os meus sentimentos e me fazerem ficar bem.

Quando havia dado o horário de entrar no maldito avião, eu me senti completamente solitária. E foi aí que percebi a razão dele ter feito aquela carta: eu a leria e perceberia – não estou sozinha.

Aquela carta... Ela está comigo agora. Exatamente como naquele dia, eu a tenho em mãos. E eu a guardei com todo o meu amor durante todo esse tempo que se passou. Cinco anos... Agora temos todos vinte ou vinte e um anos de idade. Provavelmente, alguns arranjaram emprego. Ah, serão tantas novidades, mal posso esperar.

Eu olhei a carta em meu colo e a abri vagarosamente, apreciando aquele momento como se fosse o último. Agora, tudo que eu mais desejava, era ficar sempre ao lado deles.

Apreciei a letra do Natsu e fiquei imaginando se ela estaria muito diferente agora. Mais uma vez, li aquelas lindas palavras:

"Lucy,

Quando você ler esta carta, provavelmente já estará no céu. A vista deve ser linda aí em cima, não é?!

Eu não sou bom com palavras. E acho que você sabe disso mais do que ninguém. Mas, eu realmente não queria deixar você viajar sozinha. Então, pois é... ao ler essa carta, imagino você ouvindo minha voz. Logo, estarei aí com você.

De qualquer forma, eu desejo uma boa viagem. E sério, posso não ter mostrado isso, mas estou feliz por você! Com certeza conseguirá fazer o melhor...

Depois me diga o formato das nuvens! Aposto que deve ter muita coisa legal! Aposto que dá para ver um dragão! E todas essas coisas enormes. Ah, é verdade... Eu devo ser uma simples formiga agora, não é?

Então, eu não sei muito o que falar, hahahahaha

Oe, Lucy, eu já disse o quanto você é idiota hoje? Não, né? Pois bem, você é muito idiota!

P.S. I Love you – Esse é o seu filme favorito, não é? Acho justo terminar uma carta dizendo isso, ainda mais para alguém tão especial quanto você.

"Quando as pessoas se importam umas com as outras, sempre dão um jeito de fazer as coisas darem certo."

Eu farei as coisas entre nós darem certo e obviamente não fui eu quem escreveu isso, foi o tal do seu autor meloso favorito, Nicholas Sparks... Er... Ele realmente têm frases boas, hahahaha

Natsu".

Eu terminei de ler e estava com um sorriso no rosto, como eu sempre ficava ao estar perto dele. Com certeza ele não era bom com palavras, mas era ótimo para animar as pessoas, deixá-las confiantes e mais calmas. Com esse sentimento de realização, eu me coloquei a apreciar as nuvens e finalmente consegui tirar um cochilo.

Após um tempo de viagem, finalmente chegamos: ele pousou numa mata próxima à Magnólia e eu fiz tudo apressada: desci com tudo, peguei as malas e agradeci pela viagem confortável e segura. O piloto pareceu não entender nada e isso me fez rir um pouco. Eu estava carregando as malas com dificuldade e ele me ofereceu ajuda, obviamente eu aceitei. Era um tanto quanto orgulhosa, mas... caramba, nessas horas você só pensa: vamos logo! Parece até uma criança de cinco anos visitando um parque pela primeira vez.

– Você parece bem animada, senhorita! – Eu assenti e continuei a caminhar a passos firmes e acelerados – Poderia me contar o motivo? – Eu pisquei para ele e disse:

– Posso, com certeza. Mas, não agora! – Eu voltei a olhar para frente e parei com tudo ao notar certo homem de cabelos rosa, deixando minhas mãos ficarem frouxas e as malas caírem com tudo no chão, chamando a atenção das pessoas ao redor. Nossos olhos haviam finalmente se encontrado: eu, perplexa e ele, curioso. Na verdade, ele parecia não me reconhecer ou não crer no que seus olhos viam e aquilo me assustara. Ficamos assim durante algum tempo, até ele virar o rosto e seguir o seu caminho. Até o piloto sacudir meus ombros e eu acordar para a realidade.

Aquele só podia ser o Natsu. Tinha que ser. Mas, o que houve para ele ir embora? Ele não me reconheceu? Ele... não me reconheceu?

– Senhorita, está tudo bem? – Eu olhei para o homem ao meu lado e concordei com a cabeça

– Sim, sim, eu só pensei ter visto alguém... Vamos indo! – Eu peguei as malas e voltei a caminhar ao lado do aviador – Muito obrigada por tudo, Loki...

– É uma honra ajudá-la, senhorita Luna! – Ele sorriu e eu também.

– Pode me chamar de Lucy... Não precisa mais da senhorita, muito menos do Luna... – Ele estava prestes a perguntar o porquê, mas desistiu. E eu agradeci em silêncio por isso. Afinal, no momento, só conseguia pensar naqueles cabelos rosados indo embora e desaparecendo entre casas e pessoas.