Capítulo 2: Flores de mercado
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Hinata entrou no mercado e a primeira coisa que seus olhos captaram foram as prateleiras de flores, que ficavam pouco depois das portas de vidro. Amava flores, isso era um fato. Poderia haver algo mais encantador do que um vasinho de flores do campo sobre um aparador logo na entrada de casa ou um canteirinho de margaridas à beira da janela?
Mas as flores de mercado... Essas, certamente, não a agradavam. Não as flores em si, mas o fato de estarem à venda ali, como se fossem produtos de varejo à espera de uma promoção relâmpago ao estilo "leve dois e pague um".
Flores não mereciam isso. Correu os olhos pelas mil cores das orquídeas, crisântemos e gerânios, todos de uma aparência decadente. Imaginou um atendente de mercado, entediado e de regador na mão, molhando as plantas sem a candura de um florista. Faria, esse atendente, a distinção de quem deveria ser regado todos os dias ou apenas uma vez na semana?
Sorriu, se sentindo tola. Aqueles pensamentos a estavam deixando estranhamente irritada. O que esperava fazer em seguida? Greve de fome pelo destino das flores de mercado? Ajeitou sua bolsa de patchwork no ombro e esticou os braços, alcançando um vaso com três gérberas, laranjadas como o pôr-do-sol. Uma delas ainda estava em botão, mas era provável que morresse antes de florescer. Encostou o nariz nas pétalas aveludadas da mais vistosa, sentindo o perfume amendoado.
Então, um repentino flash a assustou, e sentiu-se invadida por uma sensação de déjà vu. Virou-se rapidamente.
Ah, o rapaz esquisito da livraria.
Por um momento, havia pensado que ele seria o tipo de pessoa que só se encontra uma vez na vida. Daquelas que se tem uma conversa agradável por horas, numa ocasião qualquer, e depois há aquela dúvida se tal indivíduo realmente existiu - Sai, é claro, não deu essa impressão; o livro em sua estante era uma prova mais que irrefutável. Mas, ainda assim, parecia que havia sido num dia em outro universo, paralelo e irreal.
- Que faz aqui?
- Compras – ele respondeu como se fosse tão óbvio quanto um mais um fosse dois.
Hinata olhou para a cesta que o rapaz carregava, a alça pendurada à curva do cotovelo – era uma posição estranha e aparentemente desconfortável, mas presumiu que só estava ali para que ele segurasse a bendita câmera. Duas caixas de leite e um saco de maçãs tão vermelhas quanto a camiseta que ele usava.
Voltou os olhos para as flores que em seus braços. Podia sentir uma quenturinha agradável no rosto.
- Não disse que ia parar com isso?
- Fotografar você? – Ele deu de ombros. – Assenti quando pediu que não o fizesse novamente. Ficou zangada, dessa vez?
- Sempre faz isso? Fotografar pessoas distraídas?
- Não. Só quando vejo momentos que não devem passar sem serem registrados.
Virou-se novamente para Sai, o encarando bem nos olhos. Era, geralmente, difícil fazer isso com outras pessoas. Normalmente, todos lhe dirigiam olhares e sorrisos de esfinge, prontos a devorá-la. Mas o olhar de Sai era cru, sem uma essência posterior à sua existência - assim como as maçãs em sua cesta.
- Por que olha com desgosto para as flores?
- Não olho com desgosto para elas. Só acho errado que estejam aqui.
- Entendo. Acho que deveria resgatar esta aí. – Então, ele sorriu aquele sorriso estranho, que levantava as maçãs de seu rosto pálido demais e apertava seus olhos. – Ela me parece a menos propícia a ser comprada.
- É o que eu ia fazer. Apesar de gérberas de vasinho morrerem mais rápido, acho que posso cuidar dessas.
Abraçada à planta, adentrou mais o mercado. Naquela conversa de flores e fotografias roubadas, quase esquecera do que fora fazer ali. E não foi preciso olhar para trás para saber que Sai a seguia. O rapaz permaneceu em silêncio, observando-a escolher as caixinhas de chá. Aquilo a deixava nervosa.
- Gosta de chá, Sai?
- Prefiro café.
Fazia sentido. Café sempre lhe soou como uma bebida curta e grossa. Assim como Sai era.
- Não tem de pegar mais nada?
- Quer que eu vá embora?
Mordeu o lábio, nervosa. Foi essa a impressão que deu?
- Não é isso - disse suavemente, sem desviar os olhos das prateleiras.
Ele sorriu de novo. Tomou as caixinhas de suas mãos e acomodou perto de suas maçãs.
- Imaginei que não. Quer tomar um café de verdade depois que terminar de escolher seus chás?
- Café de verdade?
- Sim. De preferência algo que envolva grãos moídos manualmente e filtros de papel.
Apertou o vasinho de plástico preto entre os dedos e o encarou. Cru, curto e grosso.
- Quero sim.
~x~
Como prometido, Entre Livros... está de volta. O pequeno projeto que citei anteriormente, antes de retirá-la, não deu certo, o que é meio triste - praga da Bianca Caroline, só pode (te peguei nessa, moça)!
Fiz pequenas, mínimas, alterações e, em breve, trago um terceiro - e último - capítulo.
Até lá.
