Draco estava sentado no chão, sentindo a frieza da parede de pedra contra as suas costas. Estava escuro, não havia nenhuma abertura por onde a claridade externa pudesse penetrar, mas ele era capaz de ver as grades que o mantinham aprisionado, o colchonete fino onde dormia, o canto da pequena cela reservado para as suas necessidades fisiológicas.
Estava na direção exata da porta, era nesse lugar que passava quase a maior parte do tempo. Observava-a atentamente, como sempre. Por ela entrava, algumas vezes por dia, sempre no mesmo horário, o homem encapuzado e silencioso que trazia comida e água, limpava o "banheiro" no canto da cela com um movimento de varinha e depois desaparecia até a hora da próxima refeição. Ele caminhava arrastando os pés e não pronunciava uma palavra sequer, todos os feitiços que fazia eram não verbais. Jamais olhava diretamente para Draco, e isso levava o loiro a pensar que ele tinha medo de ser reconhecido, o que era um bom sinal. Se pretendessem mata-lo, não se importariam que ele visse seus rostos.
Sim, eles. Eram dois, o mais baixo e magro presente diariamente, vigiando e mantendo vivo o prisioneiro. O segundo homem, mais alto e de compleição sólida e volumosa, só tinha estado lá uma vez. Ele olhou Draco de longe, o capuz encobrindo totalmente seu rosto. Quando percebeu que o loiro o encarava fixamente, tratou de se colocar fora de suas vistas. Foi quase divertido.
Mas agora a paciência de Draco começava a acabar. A angústia pela falta de notícias dos pais, especialmente de sua mãe, estava presente todo o tempo. Ninguém respondia às suas perguntas, era como se não o ouvissem.
Já tinham se passado nove dias desde o ataque à mansão Malfoy. Draco já se cansara de repassar mentalmente os acontecimentos daquela manhã, quando ainda à mesa do café, ele e a mãe haviam sido surpreendidos pela invasão dos comensais. Tinha sido tudo tão rápido que ele mal pudera perceber o que acontecia. Amaldiçoou-se por não ter sido ágil o bastante para impedir que sua mãe fosse atingida pelo feitiço que a fez voar para longe da mesa. Ele tinha se levantado e estava apontando a varinha para o comensal que acertara Narcissa quando sentiu uma dor aguda nas costas, e tudo à sua volta desapareceu. Despertou na cela escura e fria.
Draco vivera muitas coisas durante seu curto período como comensal, conhecia as regras de cativeiro, a técnica usada em cada ocasião, de acordo com o que se almejava do prisioneiro. Mas o comportamento dos seus guardiões era absolutamente atípico.
Ele sabia que se a idéia fosse excuta-lo por vingança contra Lucius, teriam feito isso de imediato. Manter um prisioneiro era arriscado demais, por isso só em casos de extrema necessidade isso costumava ser feito. Bem, se não o tinham executado, certamente desejavam algo em troca dele. Dinheiro? Draco não acreditava, apesar de sua família ter muito mais dinheiro do que poderia gastar nas próximas duas gerações. Algum tipo de barganha? Dificilmente, pois a posição de Lucius era de fragilidade no momento, e fora dinheiro, não tinha nada a oferecer, por enquanto. Narcissa não negociava, não influenciava, não coagia.
Draco não tinha nenhuma informação a oferecer em troca de sua liberdade, da mesma forma que seu pai e sua mãe também não tinham. Era exasperador pensar e repensar e voltar à estaca zero sem ter uma pista sequer do que poderia lhe acontecer. Cansou-se de olhar para a pesada porta de madeira, sabia que ainda faltavam algumas horas para que o seu carcereiro lhe trouxesse o jantar. Então, foi se deitar, olhando o teto e pensando em tudo o que tinha lhe acontecido desde que recebera a marca negra.
Era estranho lembrar que chegara a sentir empolgação por ter sido escolhido pelo Lorde para ser um de seus comensais. Até mesmo quando recebeu as ordens relacionadas a Dumbledore, Draco se entusiasmou. Era a sua chance, ao mesmo tempo que protegia a família, ganhava uma posição de destaque entre os comensais, desbancando até mesmo Snape, em quem o Lorde confiava o máximo que sua natureza desconfiada permitia. Mas Draco também esperava mostrar a seu pai seu valor, fazer com que ele o respeitasse e aprovasse, finalmente.
Seu sexto ano em Hogwarts tinha sido o pior de sua vida escolar. Só estudava o suficiente para seguir adiante, tinha que manter as aparências, embora todos os professores tivessem estranhado sua mudança. Até Snape, que sabia muito bem o que se passava com ele, exigia de Draco boas notas e deveres completos, o que o irritava. Como um comensal, Snape tinha que compreender que matar Dumbledore exigiria muito do tempo e raciocínio de qualquer um, e pelo Lorde, ele tinha o dever de aliviar as coisas para que o plano pudesse dar certo.
Mas não, ao invés disso lhe dava detenções, tirava seus pontos , mandava chama-lo para conversar em seu escritório. Perda de tempo, desgaste desnecessário.
Draco suspirou, mirando o teto enquanto pensava em toda a angústia e desespero que vivera naquele ano, vendo cada uma das suas tentativas fracassar, sem conseguir ter uma boa idéia para executar as ordens do Lorde, temendo pela própria vida, além da de seu pai e sua mãe, vendo o tempo caminhar implacável. Naqueles dias, quando a aflição se avolumava insuportavelmente dentro dele, só conseguia desabafar com o fantasma. Era estranho, mas não se sentia diminuído por chorar e aliviar um pouco da dor que o sufocava diante dela.
Ele nem se importava mais com o Potter-perfeito. Depois que conhecera de perto o Lorde das Trevas, tremendo em seu poder, sabia que o garoto-que-todos-paparicavam estava com seus dias contados. Afinal, como Potter poderia sobreviver a tamanha força, a tanto conhecimento da Arte antiga e poderosa?
Então, tinha conseguido consertar o Armário Sumidouro da Sala Precisa. Impossível descrever o que sentiu, toda a euforia, toda a emoção de ver para si e sua família um futuro de honras e glória. Recebeu os comensais e os guiou pelos corredores de Hogwarts como se estivesse em sua casa, recepcionando amigos.
Parecia que todos os seus passos tinham sido ensaiados, as coisas corriam bem demais, até o momento em que Dumbledore surgiu na torre de Astronomia.
Ali, naqueles minutos que antecederam o desenlace da situação, Draco sentiu que não teria forças para cumprir as ordens de Voldemort. Olhar dentro dos olhos azuis de Dumbledore nunca fora tão terrível. Ali estava todo o conhecimento de si mesmo que ele sempre buscara. Ali estava também a esperança, a possibilidade das coisas virem a dar certo. Enquanto mirava o velho e ouvia suas palavras, Draco pensou que , afinal, talvez Potter fosse vencer essa luta. E a consciência de que estava, junto com sua família, do lado errado da guerra acabou de neutralizar sua ação.
Assistiu à chegada dos comensais acompanhados do Lobo Greyback, viu Snape surgir, e quase desabou quando o viu executar simples e friamente o velho diretor. Naquele momento Draco percebeu que jamais poderia ser um deles, ao mesmo tempo em que se dava conta de que era tarde demais para mudar de lado.
Depois da fuga de Hogwarts, começou para ele um período negro e angustiante. Os comensais que estiveram presentes à invasão da escola não pouparam detalhes sobre o seu fracasso, e Draco compreendeu que estava ali à espera apenas do momento em que o Lorde desse a ordem para a sua execução. Draco sabia que Snape agora tinha tanta força e influência com o Lorde como nenhum outro tivera. Mas nem pelo voto perpétuo que ele fizera com Narcissa, poderia salvar Draco das garras de Voldemort. Parecia o fim, para ele e todo o clã dos Malfoy.
No entanto, a ordem para a sua execução não chegava. Draco abria os olhos a cada manhã com a expectativa de morrer, e quando ia se deitar, agradecia a Merlin por ter sobrevivido mais um dia. É claro que o torturavam e se divertiam com ele, levando-o a um grau de padecimento físico quase insuportável. Mas o pior era o terror psicológico. Seu sofrimento era atroz, lamentava-se mil vezes pela marca negra em seu braço, lamentava-se por não ter procurado a ajuda de Dumbledore quando ainda podia, lamentava acima de tudo não ter aceitado a última oferta que o diretor lhe fizera, momentos antes de sua morte.
E então, ao final de um dia em que tinha sido especialmente torturado, Draco recebeu a visita de Snape em sua cela. Entrou em pânico ao ver o bruxo se aproximar, com uma expressão medonha no rosto. Encolhido num canto, Draco esperou que o ex-professor sacasse a varinha e o executasse tão friamente quanto fizera com Dumbledore na Torre de Astronomia, mas para sua surpresa e alívio, o outro conjurou uma cadeira e sentou-se calmamente diante dele.
Então disse que, apesar do fracasso em sua primeira missão, o Lorde Negro iria lhe dar uma segunda oportunidade. A guerra estava começando a ficar mais acirrada, e com isso, o consumo de poções curativas vinha aumentando. Preparar as poções mais utilizadas pelos comensais seria a sua missão do dia seguinte em diante. Draco concordou depressa, enquanto ouvia Snape dizer que além disso, ele auxiliaria Petigrew no trato dos prisioneiros do Lorde. Snape se levantou sem dizer mais nenhuma palavra, e só quando se aproximava da porta, virou-se e olhou novamente para Draco.
—Você sabe que eu e sua mãe fizemos um voto onde eu me comprometia a proteger você em sua missão, se preciso com minha própria vida, não sabe? Pois bem, o fim da missão selou o fim do voto. Você está por sua própria conta agora, portanto, não falhe, não cometa nem o mais inofensivo dos erros, se quiser viver.
Draco engoliu em seco enquanto observava Snape ir embora.
O que se seguiu depois podia ser resumido em poucas palavras. Ele trabalhava mais do que um elfo doméstico, preparando poções e ungüentos para o consumo dos seguidores do Lorde. Levantava muito cedo e ia se deitar muito tarde, sempre. Tratavam-no como se fosse um lixo, sem nenhum respeito pela sua linhagem ou pela dedicação de sua família a Voldemort. Tinha que ajudar Petigrew em suas tarefas diárias também, e isso incluía os cuidados com a cobra de estimação do Lorde.
Mas o que ele realmente detestava eram os encontros freqüentes entre os comensais, que, dependendo do fracasso ou sucesso dos empreendimentos do dia, podiam apresentar um humor virulento e agressivo ou uma excitação e alegria esfuziantes. Draco não poderia determinar o que era pior, se ser chutado, enfeitiçado, azarado de todas as formas possíveis enquanto eles extravasavam sua frustração, ou participar como um brinquedo das festas promovidas para comemorar suas vitórias. Definitivamente, não eram festas divertidas para ele.
Lembrava-se de uma, em particular, em que comemoravam um ataque bem sucedido a um alto funcionário do Ministério, de quem tinham conseguido arrancar informações valiosas antes de enlouquecer o homem com uma sessão interminável de Cruciatus. Lestrange, o marido de sua tia, tinha resolvido brincar um pouco com Draco no seu quarto, e o loiro, que esperava por algum protesto de Bellatrix, viu estarrecido que ela, apesar de parecer não gostar da idéia, simplesmente recomendou que o marido não se empolgasse e o ferisse gravemente, afinal o Lorde vinha apreciando bastante os serviços que Draco prestava.
Ela era a irmã de sua mãe. Enquanto sofria com a brutalidade de Lestrange, Draco se perguntou se ele seria tão inábil assim com a esposa também. Desejou que sim, que a tia que agora odiava tivesse passado por muito desconforto e dor nos momentos de intimidade com o marido, a mesma dor que ele sentia agora, acompanhada de ódio e vergonha por ter que se comportar como se estivesse gostando, pois era assim que Lestrange queria.
Mais tarde, enquanto se limpava no quarto em que dormia, Draco ainda sentia o rosto queimar de humilhação e raiva, apesar de não ter sido a primeira vez em que terminara a noite na cama de um dos comensais. O fato de ter acontecido com Lestrange, e a frieza e indiferença da tia em relação a ele é que tinham sido o diferencial. Desse dia em diante, ele mudou. Sentiu que tinha amadurecido o bastante para fazer a sua própria escolha, e decidiu que não queria que Voldemort saísse vitorioso da guerra. O tempo passava, e enquanto trabalhava como um escravo, Draco ia se situando em relação aos acontecimentos da guerra. Observava tudo, conversava com prisioneiros e comensais, conseguia pequenas mas valiosas informações. Apesar das ações ensandecidas dos seguidores do Lorde, era o outro lado que vinha, pouco a pouco, ganhando terreno. Então Draco decidiu que era o momento de começar a planejar sua fuga, e passava todo o tempo livre que tinha arquitetando seu plano, esperando a oportunidade certa para coloca-lo em prática.
Pouco mais de mês depois, Draco viu surgir o momento pelo qual vinha esperando, ansioso. Uma ofensiva comensal planejada cuidadosamente tinha terminado numa quase catástrofe. Vários deles estavam feridos, alguns gravemente, mas a pior notícia para o Lorde foi a prisão de Bellatrix. Seu marido, que tinha tentado liberta-la, quase tinha sido preso também, e Snape era um dos feridos. Foi uma noite terrível, não havia poção suficiente para todos, e Draco trabalhou como um louco, preparando tudo sozinho. Voldemort estava possesso, e isso era o que realmente atemorizava a todos. Ninguém se animava sequer a descontar a raiva em Draco, e o loiro, deixado em paz, conseguiu adulterar a poção energética que preparara, adicionando ingredientes que a transformaram num poderoso sonífero. Ministrou a poção a todos os que não estavam gravemente feridos, e esperou pelo efeito para iniciar sua fuga. Viu Amico despencar no velho sofá, com os olhos vermelhos e quase se fechando de sono, e sentiu que era a hora. Com a desculpa de ir buscar mais poção, seguiu para o fundo da casa que servia de esconderijo para os comensais, e em seguida rumou para o aposento em que Lestrange dormia com a mulher, único que possuía uma janela que abria o suficiente para que seu corpo passasse. Subiu no parapeito, passou uma das pernas para fora, e quando ia passar o resto do corpo, ouviu a voz de Snape às suas costas. Pálido e ferido, o professor o encarava, a varinha firmemente apontada em sua direção.
—O que você colocou na poção?
Draco engoliu em seco. Não poderia escapar, Snape o atingiria pelas costas com a maior facilidade. Sentindo que ficava tão pálido quanto o ex-professor, respondeu, inseguro.
—Eu...adicionei um pouco mais de asfódelo, e também coloquei extrato de raiz de ...
O outro o interrompeu com um gesto seco.
—Um sonífero, apenas?—Draco fez um sinal com a cabeça, concordando. O professor cravou nele os olhos escuros, agora cercados de pequenos vincos, em quantidade muito maior do que quando ele lecionava em Hogwarts.
—Está bem. Se conseguir sobreviver, procure por Lupin no Cabeça de Javali. Se for apanhado, não mencione essa nossa conversa, ou eu o matarei pessoalmente, depois de provar para o Lorde que você é um lunático. Entendeu o que eu disse? Não vá para a sua casa, nem para nenhum outro lugar. Vá até o Cabeça de Javali e espere por Lupin, ele passa lá todas as noites.
A surpresa mantinha Draco mudo, o loiro teve dificuldade em fazer a voz sair para responder a Snape, que queria saber onde tinha mais da poção adulterada. Ele também ia beber, para que não levantar suspeitas. Draco conseguiu responder, e sem esperar mais, passou pela janela e saltou, caindo no chão coberto de grama alta. Sentiu uma pontada no tornozelo, mas ignorou a dor. Correu em direção à cerca e pulou para o outro lado, aparatando imediatamente.
Sua fuga pareceu tão simples que ele lamentou ter esperado tanto para tomar a iniciativa. Fácil demais. Mas então, perguntou-se se teria sido assim tão fácil sem a ajuda de Snape. Estava claro para ele que o ex-professor estava fazendo jogo duplo, e também que ele estava encarregado pessoalmente de vigia-lo, ou não o teria encontrado tão depressa, no momento da fuga. Na verdade, Draco só tinha conseguido escapar graças a Snape, e nem queria pensar no que estaria acontecendo no esconderijo naquele momento.
Passou todo o dia seguinte escondido na floresta de Hogwarts, com fome e em pânico. Nunca um dia lhe pareceu tão longo, e quando finalmente o sol começou a se por, sentiu um alívio enorme. Esperou que as sombras cobrissem a floresta antes de se aventurar a deixa-la, e surgiu diante do Cabeça de Javali logo depois do anoitecer. Não podia simplesmente entrar e sentar numa mesa, teve que se manter escondido do lado de fora e esperar pacientemente, apesar do estômago roncar furioso, e da sensação de medo e cansaço. Por volta de oito da noite, viu o magro e roto ex-professor se aproximar da entrada do bar, e correu até ele. Depois de uma rápida troca de palavras, Lupin disse que o levaria para um local seguro.
Ele esteve na casa embolorada que agora pertencia a Potter durante algumas semanas, mas não chegou a ver o dono da casa enquanto esteve lá. Depois foi levado, junto com Narcissa, para uma espelunca numa cidadezinha perdida no interior. Passaram lá o tempo suficiente para assistir a Ordem acumular vitórias. Ouviu falar sobre as horcruxes e a luta de Potter para encontra-las e destruí-las, e soube que seu pai, de Azkaban, tinha começado a colaborar com os oponentes do Lorde, inclusive, passando a Potter uma informação que acabou levando o garoto-de-ouro a localizar umas das tais horcruxes. Não que o pai soubesse qualquer coisa sobre elas, ele só indicou alguns locais em que o Lorde ordenava que passassem periodicamente, verificando através de magia se alguém tinha tido acesso a eles.
Draco, que já tinha adorado a notícia da prisão de Bellatrix, exultou quando soube que tinham pego Lestrange. Assim, de derrota em derrota, o cerco foi se fechando em torno do bruxo das trevas, e Draco e sua mãe puderam voltar para a mansão, levando uma vida quase normal.
O fim de Voldemort não surpreendeu a ninguém, a não ser aos idiotas que ainda o seguiam. Draco e a mãe fizeram uma pequena comemoração nessa noite, mas não foi à queda do bruxo que brindaram. Coincidentemente, foi nesse dia que souberam que o ministério estava encaminhando um pedido de indulto para Lucius, e se tudo corresse bem, ele deixaria Azkaban em três meses.
Assim, com a vida prestes a se organizar permanentemente, os Malfoy não esperavam pelo ataque que sofreram. Draco suspirou longamente, olhando para o teto. Quando tudo parecia bem, quando faltava tão pouco tempo para Lucius deixar a prisão, seu mundo mergulhara outra vez nas trevas. Não sabia se o pai e a mãe ainda estavam vivos, não sabia por que estava preso há nove dias, não sabia quem poderia estar por trás de tudo aquilo. Só o que Draco podia dizer é que se sentia esgotado. E para piorar, o seu carcereiro escolhera justamente esse dia para atrasar com o jantar.
Ah, sim, só quem está preso sabe o valor dos acontecimentos rotineiros. Uma luz que não se acende, um som que não se ouve, um banho ou uma refeição que não acontece, tudo isso faz o mundo do prisioneiro mergulhar no caos. Draco se lembrou do tempo em que era carcereiro de Voldemort, e do quanto desprezava o desespero dos presos submetidos à tortura da quebra da rotina. Agora, quando sentia a inquietação tomar conta de seu ser, podia compreendê-los.
Seu jantar finalmente chegou, e Draco conteve o impulso de perguntar o que havia acontecido. Em primeiro lugar por que sabia que não obteria resposta, e depois para não demonstrar seu abalo pelo atraso. Ele terminou de comer e passou o prato e os talheres pelo vão existente num dos cantos da grade, feito com essa finalidade. Observou o homem recolher tudo para depois se afastar em silêncio, arrastando os pés. Foi para a cama, a cabeça cheia de dúvidas e preocupações.
Draco abriu os olhos. Pela intensidade da escuridão, calculou que ainda levaria no mínimo uma hora para o dia amanhecer. Seu décimo sétimo dia de cativeiro, dia de tomar banho. O pensamento o alegrou. Tomava um banho a cada dois dias, sempre de mangueira, conjurada pelo bruxo-carcereiro, logo depois do café. Draco se despia e ia para o lado do "banheiro", que o bruxo já havia limpado, levando o sabonete que o homem passava pelo vão da comida. A água era boa, quente, e a sensação deliciosa. Quando terminava, o homem o secava com um feitiço, fazia a mangueira desaparecer e ia embora. Draco voltava a se sentir gente nos dias de banho.
Draco ouviu o barulho da porta se abrindo e sentiu imediatamente o cheiro de ovos com bacon. Instantes depois o carcereiro passava o prato pelo vão, acompanhado do copo de suco de abóbora, e o sabonete. Draco comeu com apetite, enquanto o guardião ia limpar os dejetos. Quando terminou de comer, o loiro passou de volta o prato e o copo vazios, depois se despiu e deixou as roupas sobre o colchonete, seguindo para o "banheiro".
Tomou seu banho, lavando bem os cabelos. O bruxo o secou, depois de fazer a mangueira desaparecer, e recolheu a louça. Saiu com seu clássico arrastar de pés, enquanto Draco se vestia, sonhando com roupas limpas e perfumadas.
Penteava seus cabelos com os dedos quando ouviu um ruído estranho, abafado pela distância. Parou o que fazia e ficou em alerta. Então, um novo ruído, dessa vez mais forte. Ouviu passos apressados, gritos, e o som de coisas se quebrando. Sentiu seu coração acelerar. O que poderia ser aquilo? O tumulto continuava, e Draco, com o rosto colado à grade, tentava compreender o que se passava lá em cima. Os sons foram diminuindo, e então a porta se abriu, dando passagem para um homem negro, que Draco vira de relance algumas vezes durante o tempo em que passara na casa de Potter.
—Ele está aqui embaixo!—Ele gritou para a porta, e um segundo depois, Remus Lupin passava pela porta, correndo na direção da cela, a varinha em punho.
—Você está bem, Draco?
O loiro se adiantou, ansioso.
—Me tira daqui!—Ele mal podia acreditar que tinha sido encontrado, que poderia enfim ter notícias de Narcissa e Lucius.—Onde estão os meus pais?
Lupin sorriu, e pedindo a Draco que se afastasse, mirou a fechadura da cela e lançou um feitiço que abriu a porta. Draco correu para fora, sob o olhar indiferente do negro. Lupin disse a ele que tanto Narcissa quanto Lucius estavam praticamente recuperados, e que Draco iria vê-los em breve. O loiro, que não desejava nada além de sair depressa dali, mal respondeu, correndo pelas escadas, com os outros dois em seu encalço. Quando chegou ao andar de cima, percebeu que estivera aprisionado num porão, e que a sala que dava acesso a ele estava praticamente vazia, contendo apenas um velho sofá, certamente o local onde o seu carcereiro descansava. Lupin e o homem negro estavam parados ao seu lado.
—Havia um homem, na verdade eram dois, vocês os pegaram?
—Sim, não se preocupe.—Lupin desviou o olhar, olhando em volta.—Vamos para o ministério, temos que examinar você, e também lhe fazer algumas perguntas...
—Onde está ele? Era magro, baixo, ficava aqui o tempo todo. Vocês o prenderam?
O negro o olhou.
—Remus já disse que sim. Vamos logo, não podemos ficar a vida toda aqui.
Draco o olhou, surpreso com a impaciência que percebeu no tom do homem negro.
—Eu queria saber quem ele é. Ele não se parecia com nenhum dos comensais que eu conheci.
Lupin olhou para ele, e Draco sentiu que o negro também o encarava.
—Você viu o rosto dele?
—Não, ele sempre usava o capuz puxado para a frente, e nem me olhava diretamente, mas sei pelo jeito de andar, pela estrutura do corpo, que nunca o vi entre os comensais.
O negro fez uma cara de quem estava começando a se aborrecer.—Você não pode pretender conhecer todos os ex-seguidores de.. do..—pareceu engasgar.
—Voldemort.—disse Draco, num tom de desafio.—E eu não disse que conheço todos, só que este não fazia parte do grupo mais próximo do Lorde.
—Sei, o grupinho seleto, das tradicionais famílias de sangue puro e anos de conspiração e traição...
Draco ia rebater a alfinetada quando Lupin se interpôs entre os dois.
—Vamos parar com isso agora mesmo. Draco, vou levar você comigo. Kingsley, você conduz o prisioneiro.
O negro, Kingsley, e agora que ouvira o primeiro nome Draco se lembrava de ter ouvido alguém chama-lo de Shark, ou qualquer coisa parecida, deixou a sala sem proferir nenhuma palavra. Draco pensou em insistir com Lupin para deixa-lo ver o prisioneiro, mas o lobisomem já se encontrava diante da lareira da sala, pronto para seguir para o ministério. O loiro deu de ombros e o seguiu. Estava livre, isso era o principal, então, que importância poderiam ter os seus raptores? Mas no fundo, sabia que não descansaria enquanto não visse os rostos deles.
Bom, pessoal, aí foi o segundo capítulo. Eu demorei um pouquinho mais do que pretendia para postar, mas ando muito ocupada com meu estágio e com o cursinho, então só agora deu pra atualizar.
Quero agradecer a todos que estão lendo, espero que tenham paciência para ir até o final, a fic vai ser curtinha. Bom, acho que é só. Beijos, e até o próximo capítulo...
Mione de Avalon: Muito obrigada mesmo, você é um amor, como sempre.
Quanto ao Harry cheirosinho, quem não gosta, não é mesmo? Até o Draco, que de bobo não tem nada...hahahaha. Ah, mas nem eu gostei dessa onda dos congelados do Harry.. vamos ver se nos próximos capítulos isso muda, né?
Sobre Mrs. Dalloway, leia sim, eu recomendo.
Beijos, minha linda, e obrigada por tudo!!
PS: Ansiosa pela sua chegada pra gente caminhar com a fic...
Ana Paula: Olá, Ana.
Que bom que você gostou, fiquei super feliz. Continue lendo, e me diga o que está achando, ok?
Beijos!!
Amélia: Oi, Amélia.
Para variar, suas reviews me enchem de alegria e também de medo de decepcionar...hehe
Obrigada pelo estímulo, eu bem que estava precisando. Prometo fazer o meu melhor, e espero conseguir atender à sua expectativa.
Muito obrigada mesmo pelo seu carinho, você nem imagina o quanto isso é importante para mim. Beijos, linda...
Sy .P: Hahaha... você viu, né, o pobre bem à vontade no seu banhinho de espuma, e ouve um barulho... ficou meio "filme de terror", mas não passou de susto. Espero que você continue lendo a fic, e que goste.
Beijos e obrigada.
