Oi, pessoas...aqui estou eu de volta, depois de cinco anos (ufa!) para postar o terceiro capítulo da fic. Antes que me chamem de louca, vou explicar: eu fiquei de coração partido com o rumo que as coisas tomaram no HBP e perdi o pique. Então, fiquei longe esse tempão, mas agora voltei e resolvi continuar. Vocês vão encontrar quase um AU, pois Lupin e Moody estão vivos, assim como muita gente. Mas, a boa notícia é que praticamente terminei a fic, e vou postar à medida em que minha beta aprontar os capítulos. Obrigada por tudo, e me digam se estiver muito ruim, eu tô enferrujada...
Beijos...
A sala estava repleta de pessoas desconhecidas para Draco. Estava no Saint Mungus, e acabara de ver seu pai e sua mãe. Agora, esperava o início da reunião onde seria discutido o destino imediato de sua família. Lupin, o único que era gentil e educado com ele, não tinha voltado ainda desde que o deixara no quarto de Narcissa. Não que Draco se importasse com a animosidade velada que os demais nem tentavam disfarçar. Estava apenas cansado, queria ir logo para a sua casa, se limpar de vez daquele cativeiro onde nem mesmo podia tomar banho todos os dias. Ele não sabia o que os homens do ministério esperavam para libera-lo, deviam levar em conta que acabara de ser libertado e precisava descansar. Os pais, ele já sabia, deveriam demorar ainda uma semana no hospital, em parte para concluírem o tratamento, mas também por uma questão de segurança. Draco desejava apenas que seus pais pudessem estar tranquilos e seguros, independente de onde fosse esse lugar.
A porta se abriu e por ela entrou o estropiado Moody, de quem Draco tinha péssimas lembranças, ainda que o Moody da ocasião não passasse de um comensal cumprindo ordens de Voldemort. Voldemort. Agora era só um nome para Draco, mas a idéia do bruxo recentemente morto ainda mexia com a imaginação das pessoas, mesmo aquelas que tinham se empenhado em derrota-lo. O Moody verdadeiro claudicou até alcançar o lugar designado para ele na mesa, e depois de se sentar anunciou que tinha más notícias. Todos os olhares se voltaram para o bruxo que, depois de limpar a garganta, disse que o comensal que mantivera Draco no cativeiro tinha ferido Shacklebolt e conseguido escapar.
Um murmúrio percorreu a sala, e o bruxo teve que pedir silêncio para continuar a falar. Estavam de volta à estaca zero. Os autores dos atentados contra ex-comensais e aurores estavam à solta. Toda a precaução se fazia necessária até que fossem localizados, o Ministro estava pessoalmente empenhado nisso.
Draco olhou para o homem que agora mantinha o olho giratório fixo nele. Ergueu a mão, pedindo licença para falar, e depois do consentimento de Moody, dirigiu-se a ele.
—Eu poderia reconhecer aquele homem, embora nunca tenha visto o seu rosto. Na verdade, ele não parecia um comensal. A linha de conduta dos seguidores de Voldemort era bem diferente da atuação dele.
Draco ouviu novos murmúrios brotando de todos os cantos da mesa. A animosidade velada contra ele de repente tomou a forma de protestos. Olhavam-no como se fosse culpado pelos ferimentos do tal Shacklebolt, e ele chegou a se sentir desconfortável. Moody os interrompeu, agradecendo a Draco pela boa intenção, e dizendo que em virtude dos novos acontecimentos, nem ele nem os pais poderiam retornar à mansão Malfoy nesse momento. Disse que Narcissa e Lucius ficariam no próprio Ministério, e que ele, Draco, seria instalado num local seguro, onde Lupin se encontrava nesse instante, preparando tudo para a sua transferência. Draco sentiu que nada mais havia a ser dito, e nem tentou protestar. Graças à incompetência do auror negro, estava condenado a mais uma temporada longe de sua casa e de sua família. Suspirou. Ao menos sabia o que estava acontecendo, e por mais que fosse desagradável a idéia de ficar longe dos seus, ao menos estava entre aliados. Nada amistosos, mas ainda assim aliados.
Harry mantinha o olhar fixo na cortina que esvoaçava por sobre a mesinha, acariciando perigosamente a estatueta de Eros. Diante dele, Lupin concluía seu discurso sobre a importância que sua ajuda teria para a Ordem nesse momento. O moreno suspirou, resignado. Precisavam dele, precisavam manter Draco Malfoy em segurança até que o autor dos atentados fosse capturado novamente. Quando Harry sugerira que o loiro ficasse em Grimmauld Place, Lupin alegara que o herdeiro dos Malfoy não era confiável o bastante para ser mantido no quartel general da repressão aos seguidores de Voldemort. É claro que isso Harry podia compreender, os Malfoy trocavam de lado conforme a sua conveniência. Seria realmente tolice mantê-lo num local onde poderia ter acesso a informações negociáveis.
Harry gostaria de poder dizer que nada daquilo lhe interessava, que na verdade esperava que resolvessem seus problemas sem importuna-lo, mas era Lupin quem estava ali. Harry não podia esquecer que o ponderado lobisomem, além de já tê-lo ajudado muito, tinha sido um grande amigo dos seus pais.
—E quando ele virá?—Olhou o ex-professor, que balançou a cabeça, satisfeito.
—Vou trazê-lo ainda hoje. Sei que isso parece muito desagradável, Harry, mas não vai demorar muito tempo. Vamos nos empenhar ao máximo para encurtar o tempo dele aqui. Você sabe, por mais que tenha sentido vontade de se afastar de tudo, você tem amigos verdadeiros entre nós...
Harry concordou com um movimento de cabeça. Sim, ele sabia. Nada poderia substituir a amizade de Rony e Mione, o carinho do casal Weasley, o amor de Hagrid. Isso sem mencionar Gina e o próprio Lupin. Ele suspirou.
—Quero que eles saibam que não pretendo alterar a minha rotina por causa dele. Estou tendo aulas, que vou manter. E digam ao Malfoy para fazer a sua parte. Ele não é nem de longe uma pessoa agradável, e para mim é o responsável pela morte de Dumbledore. O tempo passou, algumas coisas podem ter sido esquecidas, mas eu ainda penso nele todos os dias...
Lupin fixou nele um olhar de brilho intenso, e Harry percebeu que suas palavras tinham emocionado o lobisomem. Para ele também Dumbledore tinha sido mais do que um bom e dedicado diretor. O lobisomem pigarreou, e levantou-se.
—Não se preocupe com nada, Harry. Vou conversar longamente com Malfoy antes de trazê-lo essa noite. O tempo passou para ele também, já não é o garotinho irritante dos tempos de Hogwarts.
Harry despediu-se de Lupin com a sensação vaga de que a pouca tranqüilidade que conseguira encontrar no seu exílio no mundo trouxa seria jogada por terra com a vinda de Draco.
Lupin folheou mais uma vez os relatórios que estavam diante dele, sobre a mesa. Moody o olhava, aguardando seu parecer. Ele encarou Olho-Tonto.
—Você sabe que eu não concordo com isso. Vou cumprir a minha obrigação e obedecer às suas ordens, mas quero registrar aqui o meu protesto.
—Você acha que deveríamos procurar Potter e dizer a ele que nós monitoramos cada passo que ele dá, que enchemos de feitiços protetores o raio de dez quilômetros ao redor de seu apartamento, e que tememos que ele esteja se tornando um dependente de álcool? Acha que assim o traríamos de volta?
Lupin fechou os olhos, cansado.
—Não, não acho que deveria ser feito dessa forma. No entanto, não posso evitar um sentimento de culpa, por que a verdade é que estamos invadindo sua privacidade. Poderíamos ajudar Harry de uma outra forma..
—Os relatórios dos medibruxos estão aí, nas suas mãos. Eles acreditam que Potter esteja sofrendo pela ausência de um objetivo em sua vida. Ele perdeu pais, padrinho, Dumbledore, e cumpriu a missão de sua vida, que era derrotar Voldemort. E agora? Seria o momento de seguir em direção a um futuro brilhante, de se casar com a filha do Weasley, de cuidar da continuidade do seu nome. Mas o que ele fez? Se isolou. Nem da garota ele quer saber mais, e não dorme se não esvaziar uma garrafa, ou como ele tem feito atualmente, se não for todas as noites até aquele maldito bar trouxa para tomar as suas doses. Está tudo aí, você sabe disso. Fazer com que ele se sinta envolvido em uma causa pode ajudar...
—Mas escolher exatamente Malfoy me parece demais. Eu sei o que você vai dizer, os medibruxos acreditam que se Harry resolver essa pendência relacionada à morte de Dumbledore poderá conseguir retomar sua vida, mas eu temo por ele, trancado naquele apartamento com Draco. E se o efeito for inverso? E se a convivência piorar a situação?
—Então...—Moody foi se levantando e recolhendo os papéis de cima da mesa.—trataremos de encontrar uma outra forma para resolver a situação. Você sabe, o ministro deixou bem claro que não vai permitir que o mundo bruxo testemunhe o definhamento do seu herói.
Lupin suspirou. Não, eles jamais permitiriam que isso acontecesse. Não disse nada. Para quê? Alastor sabia tão bem quanto ele que interesses políticos estavam por detrás daquilo. Recebiam ordens, e tinham que cumpri-las, apenas. Levantou-se, percebendo que o outro também aparentava um cansaço tão grande quanto o seu próprio.
—Depois que conversar com Malfoy e o deixar no apartamento de Potter, me procure. Tenho uma preciosidade que quero compartilhar com você, da safra de 1900.
Saiu da sala com seu andar bamboleante, deixando Lupin com um sorriso muito leve nos lábios.
Draco entrou logo depois de Lupin pela porta envidraçada do prédio de apartamentos do bairro trouxa de Londres. O hall de entrada era bem ornamentado e havia um grande espelho na parede. Enquanto Lupin se identificava junto ao porteiro, Draco aproveitou para ajeitar os cabelos. Estava limpo e barbeado, tinha passado em sua casa para pegar algumas roupas e agora aguardava enquanto o porteiro falava pelo interfone com Potter, anunciando os visitantes. Alguns monitores enviavam imagens do pátio interno, do jardim e das entradas social e de serviço. Draco esperava, olhando as imagens, tentando não demonstrar seu desconforto por se ver cercado de tantas engenhocas trouxas. Enquanto observava, lembrava-se da conversa que tinha tido com o lobisomem.
Ele tinha detestado a idéia de ter que conviver com Potter, ainda que por poucos dias, mas não tinha adiantado protestar. Depois da guerra já não havia tantos aurores disponíveis, e a casa de Potter era bem protegida. Ficava mais fácil assim para o Ministério, que além de perseguir os últimos comensais desgarrados ainda andava às voltas com a possibilidade de ter um traidor passando informações. Um idiota, fosse lá quem fosse, pensava Draco. Era suicídio não se colocar ao lado da Ordem, Voldemort tinha sido dizimado e não havia no mundo atual ninguém com força e poder suficientes para se opor à situação.
O porteiro anunciou que eles podiam subir, e Draco observou Lupin apertar um botão que se acendeu ao lado de uma porta fechada. Instantes depois, a porta se abriu e Lupin fez sinal para que ele entrasse no pequeno cubículo espelhado. Lupin apertou um botão onde tinha escrito o número sete, e uma voz metálica anunciou que iam subir. Draco sentiu como se seu corpo subisse e seus órgãos ficassem para trás e deve ter feito uma cara assustada, por que Lupin sorriu.
—A primeira vez é ruim, mas depois você se acostuma com o elevador.
Draco ia replicar, mas sentiu que o elevador parava. A porta se abriu novamente e ao deixar o elevador ele se viu diante de um corredor com quatro portas, apenas duas com números. Lupin se encaminhou em direção à que marcava 701 e apertou outro botão. A campainha emitiu um som suave e melodioso, e instantes depois Potter estava diante deles, olhando para Draco com uma expressão indefinível.
O moreno afastou-se e pediu que eles entrassem. Draco foi na frente, e num relance já tinha visto tudo o que havia na sala de Potter. Uma lareira, uma estante pequena com livros ao fundo, um sofá, uma coisa arredondada e aparentemente macia diante de um aparelho que Draco identificou como uma TV, apesar do tamanho enorme, diferente das que ele já tinha visto. O tapete de pelos altos e uma mesinha onde havia uma estatueta horrível completavam o mobiliário.
O loiro seguiu Lupin e foi se acomodar no sofá, enquanto Potter tomava assento na coisa arredondada, voltado de frente para eles. Estava mais alto, seus ombros estavam largos e tinha perdido aquele ar de criança que tinha da última vez que Draco o vira. Olharam-se, e Draco percebeu que o outro também o avaliava. Deveria parecer diferente aos olhos dele, afinal, não se viam há muito tempo.
Lupin, acomodado no sofá ao lado de Draco foi quem quebrou o silêncio constrangedor.
—Bem, acredito que vocês não se vêem há bastante tempo, desde a época da escola, não é mesmo?—Sorria, encarando um e outro alternadamente, e Draco de repente se deu conta de que quase simpatizava com o lobisomem.
—Eu creio que isso é tudo. — Harry olhou para Draco. O loiro balançou a cabeça, afirmativamente. Estavam de pé diante do armário que dividiriam a partir de agora. Draco percebeu que Harry ainda o olhava, talvez à espera de que ele tivesse alguma pergunta ou comentário a fazer.
—Perfeito, Potter. Obrigado.— O loiro disse, um tanto secamente. Foi a vez de Harry responder com um movimento de cabeça antes de deixar o quarto.
Os dois tinham passado a última meia hora definindo questões tais como o lugar onde Draco dormiria, ou onde guardaria suas coisas. Harry também tinha explicado ao loiro as regras do condomínio, as exigências de segurança impostas pelo Ministério da Magia que incluíam a proibição do uso de feitiços no apartamento, e suas próprias regras. Draco sorriu levemente, pensando que Potter parecia mais azedo do que nunca, mas ao contrário dos velhos tempos, quando seu azedume tinha um quê de agressividade competitiva, agora parecia um misto de impaciência e tédio. O loiro suspirou, desanimado, ao erguer sua bagagem e avaliar o espaço que dispunha para acomodar seus pertences. Não caberia nem um terço do que trouxera.
A primeira semana de convívio passou tranquilamente. O minúsculo apartamento parecia comportar muito bem os dois antigos antagonistas, e ao contrário do que Draco imaginara, tinha espaço suficiente para que não ficassem se esbarrando todo o tempo. Mas isso só era possível por que ambos se esforçavam ao máximo para serem discretos, mantendo uma distância confortável um do outro.
A princípio Harry se sentira péssimo. Não tinha se dado conta do quanto apreciava sua solidão até que Malfoy entrou pela porta e ele soube que o loiro não iria embora. Claro que ele já sabia que seria assim, mas confrontar a presença indesejada foi bem pior do que ele tinha imaginado. Para não enlouquecer, Harry lia o tempo todo em seu quarto, evitando assistir tevê ou fazer qualquer coisa na sala, que passara a ser território de Draco. Não que eles tivessem determinado isso, simplesmente aconteceu. Harry não podia deixar de se sentir privado de sua preciosa liberdade, mas com o passar dos dias percebeu que o convívio não seria tão difícil quanto ele pensara. Especialmente por que, na verdade, eles não "conviviam", apenas dividiam o mesmo espaço.
Harry tinha contratado uma faxineira que fazia a limpeza do apartamento uma vez por semana. No restante dos dias, ele mesmo se encarregava de manter as coisas em ordem. Quando Malfoy chegou, uma das coisas acertadas entre eles foi a divisão das tarefas domésticas. O moreno tinha imaginado que isso seria um problema para Draco, mas surpreendeu-se ao constatar que o loiro não só fazia a sua parte como era organizado e cuidadoso. Menos mal.
Faziam a maior parte das refeições em casa e embora comessem juntos, o faziam sempre em silêncio, quebrado apenas quando havia uma boa razão para isso. Harry se ocupava com seu curso e suas tarefas diárias. Draco parecia deslumbrado com a televisão. Assim, cada um cuidava seus afazeres e mal percebia a presença do outro. Tudo o que Harry queria era que as coisas continuassem amenas e que chegasse logo o dia em que Lupin viesse buscar Draco e desaparecesse com ele de sua vida.
