A vida no apartamento trouxa teria enlouquecido de tédio o Draco antigo, tão exigente e perfeccionista, tão blasé quanto somente um Malfoy poderia ser. Mas o novo Draco, lapidado no submundo, afastado de luxos, privado até de coisas essenciais, recebia a nova rotina com tranquilidade. Dividir o micro apartamento com o Potter-perfeito, dormir num colchão inflável no chão da sala, ver aquela estatueta medonha o tempo todo, nada disso parecia ruim perto do que ele tinha vivido nos últimos anos.

Havia algumas coisas bem incômodas, como por exemplo, as visitas de Rony Weasley. Ele continuava o mesmo idiota de sempre, sem educação, sem charme, sem noção. Não era possível ver nele nenhum sinal de evolução, de maturidade, o que fazia com que Draco se perguntasse o que a Granger fazia com ele. Por mais que o loiro ainda nutrisse pela garota uma leve antipatia, tinha que admitir que ela evoluíra tanto emocional quanto fisicamente. Estava mais segura, mais tranquila e muito mais bonita. Mas se ela queria se desperdiçar com o Weasley, isso era problema dela.

Para evitar situações desagradáveis Draco procurava não estar presente durante as visitas do casal, o que fazia com que todos se sentissem mais confortáveis. Nessas ocasiões ele ia a um café distante três quarteirões do apartamento e ficava ali, lendo os estáticos jornais e revistas trouxas, até que as visitas fossem embora. Não era divertido, Draco fazia o que podia para impedir que percebessem seu estranhamento em relação às coisas que ele desconhecia, mas tinha que se policiar todo o tempo para não exclamar de espanto a cada novidade. O barulho e a intensidade do trânsito e a quantidade de parafernálias eletrônicas a que tinha que se adaptar faziam com que uma simples saída de casa se tornasse uma aventura. O fato de estar sendo perseguido por comensais tornava essa aventura ainda mais perigosa. No entanto, tentava confiar nas palavras de Lupin, que tinha assegurado que a região estava bem guardada de modo que, sendo prudentes, ele e Harry poderiam levar suas vidas tranquilamente.

Draco sentia falta de sua casa, de seus pais, mas não mais como antes. Sentia que trazia em si tudo o que precisava para viver, especialmente a capacidade de se adaptar a qualquer situação. Fazendo um balanço dos poucos acertos e dos inúmeros erros que cometera, o loiro tinha que admitir que sobreviver tinha sido uma grande sorte. É claro que seria muito bom se sua família pudesse estar junta outra vez no conforto da mansão Malfoy, mas isso não era mais imprescindível. Desde que seus pais estivessem bem, Draco poderia se contentar em receber apenas notícias esporádicas deles. Luxo, conforto, dinheiro, tudo isso era bom e é claro que o loiro sentia falta, no entanto, descobrira que era possível viver sem essas coisas, desde que não existisse outra opção, é óbvio.

A garçonete se aproximou trazendo uma xícara de café expresso que depositou sobre a mesa, sorridente, enquanto perguntava se Draco desejava algo mais. O loiro devolveu o sorriso e o olhar enquanto agradecia. A moça corou levemente e disse a ele que se desejasse qualquer outra coisa, era só chamar. Draco agradeceu novamente e a seguiu com os olhos até que ela desaparecesse por detrás do balcão do café. Ela era jovem e atraente, tinha a pele clara e cabelos castanhos bem cacheados. Também tinha belas pernas, o que o fez pensar em sexo pela primeira vez desde... Ele mal se lembrava. Claro, os eventos envolvendo os abusos dos comensais não contavam. Já fazia realmente muito tempo desde a última vez, e agora Draco sentia que era o momento. Por alguns instantes esteve tentado a ir atrás da garçonete trouxa, mas então se lembrou que isso provavelmente lhe traria aborrecimentos com os aurores. Lupin tinha enfatizado bastante que tanto ele quanto Potter deveriam se relacionar o mínimo possível com as pessoas da vizinhança.

Seguindo o rumo dos seus pensamentos, Draco se perguntou como o herói faria para resolver sua situação, já que, pelo que ele pudera perceber, Potter e a caçula dos Weasley não estavam se vendo mais. Parecia estúpido pensar na vida sexual de Harry Potter, mas a verdade é que Draco agora estava curioso a respeito disso.

Não era preciso ser muito esperto para perceber que o herói andava deprimido. Draco, que não tinha muito o que fazer, depois de duas semanas de convívio conhecia minuciosamente a rotina do moreno. Ele era bem metódico, tinha hábitos que seguia religiosamente, como por exemplo, a bebida antes de dormir. O loiro estranhara as primeiras vezes em que o outro chegara da rua, já bem tarde, aparentando ter tomado algumas doses a mais, mas depois, com a repetição do fato, Draco percebeu que aquilo já estava incorporado à rotina de Potter. Nessas ocasiões fingia dormir, em primeiro lugar por que eles mal se falavam, e depois, por que sua experiência com pessoas alteradas pela bebida não tinha sido das melhores.

Draco dobrou o jornal que estivera lendo e o colocou sobre a mesa. Pelos seus cálculos as visitas de Potter já deveriam ter ido embora. Olhou ao redor tentando localizar a garçonete para fechar sua conta mas não a viu. Então, deixou sua mesa e foi até o balcão, onde a garota tentava sem sucesso abrir uma garrafa de conhaque para servir uma dose a um cliente. Draco ficou parado observando-a durante algum tempo, até que ela o notou e enrubesceu. Ele sorriu, galanteador.

—Me deixe ajudar.

A garota, sorrindo em resposta, passou a ele a garrafa, que Draco abriu sem esforço. Ela agradeceu. Depois de servir o cliente ela foi fechar a conta do loiro, e enquanto isso conversavam. Ela estava tão receptiva que em instantes ele já sabia seu horário de saída do trabalho, entre outras coisas. Uma deliciosa tentação, ele pensou, enquanto brincava de reter a nota que ela tentava pegar de sua mão para cobrar sua despesa. Foi nesse clima de brincadeiras e risinhos que Draco foi surpreendido ao ouvir a voz às suas costas.

—Fazendo novos amigos, Malfoy?

Virou-se para se deparar com um Potter de olhar fuzilante e com Lupin, com seu ar tranquilo de sempre.

—Olá, Draco.

Estavam de volta ao apartamento. Harry mal podia controlar sua raiva, enquanto Malfoy se mostrava absolutamente calmo.

—Onde é que você estava com a cabeça, Malfoy? Você se esqueceu do que nós combinamos?

—Não, Potter. Eu só estava...

—Pulando em cima da garota.— Harry o interrompeu. —É isso o que significa ser discreto para você? Não chamar a atenção das pessoas?

O moreno andava de um lado a outro da sala, agitado e furioso, enquanto Draco tentava se desculpar.

—Eu sinto muito. Eu não tive a intenção, Potter, só...aconteceu.

—Harry, não vamos dar tanta importância a isso, já passou, e Draco está se desculpando.

Harry olhou de Draco para Lupin. Que ótimo, era só o que faltava. Estava sendo repreendido como se fosse uma criança briguenta, dentro de sua própria casa. Será que todo mundo tinha enlouquecido? Ele estava fazendo um favor, se esforçando para tolerar a presença de Draco e era assim que Lupin retribuía? Respirou fundo.

—Eu acho que talvez seja melhor encontrar outro lugar para ele ficar. Isso não vai dar certo.

—Harry... —Lupin começou a falar, mas foi interrompido por Draco.

—Ah, vamos lá, Potter. Seja adulto. O que eu fiz de tão grave? Nada. Eu só saí para deixar você e os seus amigos à vontade, como eu tenho feito sempre que eles aparecem, e até hoje ninguém reclamou disso.

—Você disse bem, até hoje, quando você resolveu nos colocar em perigo para se exibir para aquela garota. Foi uma estupidez, apenas mais uma para se juntar às centenas de coisas idiotas que você já fez na sua vida medíocre.

Lupin, que desistira de se manifestar, assistia em silêncio à discussão dos dois.

Draco se conteve para não mandar Potter se ferrar. Sabia que era a ponta frágil da corda, então tinha que se manter tranquilo para tentar evitar que a situação piorasse.

—Eu não estava me exibindo, Potter. Ela foi gentil e eu me empolguei um pouco, foi só isso. Se você faz questão, eu nem volto lá mais.

—Ora, deixe de ser ridículo! Como se eu me importasse com os lugares onde você vai ou deixa de ir.

—Mas então, o que você quer que eu faça?

—Um cruzeiro, um retiro espiritual, seja abduzido por um alienígena, qualquer coisa, apenas suma da minha frente!

—Com certeza, qualquer uma dessas opções seria bem mais prazerosa para mim do que viver aqui. Você tem razão, isso nunca vai dar certo. — Draco voltou-se para Lupin.

—Eu gostaria de ser levado para outro lugar, talvez para junto dos meus pais. Eles estão no Ministério, não?

—Sim, eles estão lá, mas isso tem nos causado alguns transtornos. Não seria aconselhável que você se juntasse a eles nesse momento, Draco, mas eu prometo que vou tentar conseguir algo, embora isso não vá ser fácil.

Draco bufou.

—Quanto tempo você acha que pode levar até encontrar um lugar para mim?

—Sinceramente, nesse momento eu não tenho como responder a essa pergunta. Sinto muito.

O loiro concordou com um movimento de cabeça, embora sua expressão fosse de desagrado. Lupin limpou a garganta antes de falar.

—Eu realmente lamento por toda essa situação, mas quero que tanto você quanto Harry saibam que não há nada mais que eu possa fazer por enquanto.

Harry, que tinha estado observando em silêncio, suspirou.

—Ok, eu acho que exagerei um pouco. Me desculpe, Malfoy, e você também, Lupin. Eu vou tentar fazer com que isso funcione, afinal, não deve levar tanto tempo assim para tudo voltar ao normal, certo?

Concluiu a frase olhando para o lobisomem, que balançou afirmativamente a cabeça.

—Eu farei o possível para que tudo se resolva logo. E quero reafirmar que eu compreendo como vocês se sentem. Eu lamento muito que tudo isso esteja acontecendo. Se dependesse de mim, as coisas seriam diferentes. Perdoem-me por eu não ter conseguido evitar essa situação.

Harry encarou seu ex-professor.

—Não se preocupe, nós todos sabemos como são essas coisas. Eu vou me esforçar para que não haja nenhum problema.

—Draco? —Lupin encarou o loiro que apenas balançou novamente a cabeça em sinal de concordância.

—Bem, o objetivo principal da minha vinda aqui hoje é, além de saber como vocês tem passado, trazer notícias sobre os últimos acontecimentos. Tivemos algumas novidades relacionadas à identificação de pessoas que vem ajudando os comensais a executar seus atentados. Isso deve nos levar a esses comensais desgarrados mais rápido do que tínhamos imaginado. —Enquanto falava, Lupin olhava para os dois, Harry, sentado na pontinha do sofá, e Draco, de pé, com as mãos nos bolsos da calça. — Sobre o possível traidor infiltrado, infelizmente, ainda não há novidades. Mas nosso pessoal está trabalhando duro para que, em breve, a vida possa voltar ao normal.

O comentário de Lupin deixou Harry com uma pontinha de culpa. Pela primeira vez pensou em seu trabalho, ou melhor, no que deveria ser o seu trabalho. Ele tinha, assim como Rony e Hermione, decidido se tornar um auror, mas ao contrário dos amigos, estava ali, fazendo nada, e o que era pior, sem o menor desejo de fazer qualquer coisa. Suspirou, e ouviu Lupin dizer como se tivesse lido seus pensamentos.

—Você não deve se culpar, Harry. Você já fez muito, ficou com a pior parte. Nós todos sempre deveremos algo a você.

—Mas você disse que os aurores estão sobrecarregados.

—Sim, e isso é verdade. Mas você não está totalmente recuperado da batalha contra Voldemort. Ninguém espera, e muito menos deseja, que depois de tudo que você enfrentou, deixe de se recuperar para correr atrás dos peixes pequenos. Deixe um pouco de diversão para os outros também...

Lupin tinha concluído sua frase com um sorriso, no que foi acompanhado por Harry. Draco se mantinha distante e frio. Naturalmente ele prestava atenção a tudo o que era dito, só não estava disposto a se juntar a Lupin em sua manifestação de apoio e consolo a Potter.

—Eu notei que dois homens se revezam vigiando a entrada do prédio. Ambos são de estatura média e bastante comuns, um deles tem cabelos castanho-escuros bem curtos e o outro tem cabelos pretos. Eles são aurores, eu espero...

Draco não pode se impedir de usar um tom levemente ácido. Estava aborrecido pela discussão com Potter, e agora Lupin já não lhe parecia tão simpático enquanto paparicava o moreno. Lupin sorriu, balançando a cabeça.

—Muito observador, Draco. Eles são sim, aurores, e para ser sincero eu esperava que eles pudessem ser mais discretos.

—Não os culpe.— Draco sorriu, irônico. — Eu realmente tenho muito tempo livre e um dos hobbies que adquiri recentemente foi a apreciação da vista na varanda. Você aceita uma xícara de chá?

Lupin riu e agradeceu, dizendo que tinha se demorado mais do que planejara e estava atrasado. Despediu-se e Harry o acompanhou até a porta. Antes de ir, perguntou ao moreno se eles ficariam bem. Potter fez uma careta, depois riu e balançou a cabeça afirmativamente. O lobisomem partiu e Harry fechou a porta. Voltou-se e viu Draco, no mesmo lugar e posição de antes, olhando-o.

—Há uma coisa que eu quero dizer, Potter.

—Diga, então. —Harry se aproximou e ficou de pé, perto de Draco, esperando.

—Quando você se refere às centenas de coisas idiotas que eu fiz em minha vida medíocre, isso certamente inclui a morte de Dumbledore, não?

—Certamente, Malfoy. —Harry encarou o outro, numa atitude desafiadora. Por mais que tivesse prometido a Lupin que evitaria problemas, Harry não via muitas chances dessa conversa terminar sem que ele e Draco brigassem. A morte de Dumbledore, provocada indiretamente pelo loiro, era um espinho que Harry sentia atravessado em sua garganta.

—Eu imaginei isso. Não vou tentar me justificar, por que reconheço que não há justificativa que possa validar aquilo. Mas se serve de consolo, Potter, a visão de Dumbledore voando do alto daquela torre é minha assombração pessoal.

Harry ia interromper, mas o loiro não permitiu.

—Eu não estou tentando fazer você mudar sua maneira de me ver. Eu quero apenas deixar claro que, em primeiro lugar, eu ainda não consigo, e nem sei se conseguirei algum dia, lidar bem com esse acontecimento. E em segundo lugar, bem, o próprio Dumbledore soube avaliar a situação e entender que eu apenas representei nessa história o papel da segunda vítima. Se ele compreendeu, para mim não é necessário que qualquer outra pessoa o faça.

—Oh, ele compreendeu sim, e também perdoou você. Mas ele era Albus Dumbledore, e eu não creio que haja alguém mais no mundo capaz disso.

—Pense o que quiser. Você tem direito à sua opinião e eu não ligo a mínima para ela, seja qual for. Eu só quero deixar claro que embora eu vá me esforçar para aguentar seu azedume e suas explosões temperamentais, eu não conseguirei ser tolerante em relação a esse assunto.

Harry riu, sarcástico.

—Isso é um aviso, não é Malfoy? Sobre o que eu não devo me atrever a fazer? Você acha realmente que está em posição de determinar qualquer droga de coisa?

—Eu sei em que posição eu me encontro, Potter. Estou sob o seu teto, sob proteção do Ministério da Magia, limpo o chão e o banheiro de seu apartamento sem usar feitiços e tenho necessidades que estou impossibilitado de satisfazer, ou seja, minha vida está uma droga. Ainda assim, eu estou pedindo a você que evite mencionar aquele acontecimento. —Fez uma pausa. — Por favor.

Harry o olhou durante alguns instantes, em silêncio. Até ao pedir um favor Malfoy conseguia ser arrogante. Por mais que desejasse mostrar a ele a porta da rua, sabia que o orgulho do loiro não suportaria isso e ele realmente iria embora. Não que Harry se importasse com o que pudesse lhe acontecer, mas havia pessoas boas trabalhando duro por sua segurança, não seria justo que Harry comprometesse seu trabalho.

—Eu prometi a Lupin que me esforçaria para conviver com você, então pretendo manter meu compromisso com ele. Quanto a essa nossa conversa eu penso que seria prudente encerrá-la agora, antes que eu me atrase para o meu curso.

E para o seu porre diário, pensou Draco ao ver o moreno passar por ele bruscamente a caminho do quarto.

No final daquela mesma tarde, Lupin estava diante de Moody reportando o que vira no apartamento de Potter.

—Então as coisas parecem estar caminhando bem. — Moody atirou o relatório da segurança sobre a mesa.

—Eu diria que sim. Eu notei empenho da parte dos dois.

—Mas Harry continua tomando seus drinques... —Alastor afastou a cadeira giratória e levantou-se com alguma dificuldade.

Lupin assentiu em silêncio.

—Eu achei um bom sinal que ele tenha se sentido incomodado por estar afastado do trabalho. —Moody tinha dado a volta e estava sentado na beirada mesa, diante de Lupin.

—Foi um bom sinal. Mas ele ainda está bem longe de estar pronto para voltar.

—Pelo menos ele iniciou o processo. Acho que agora é só uma questão de tempo para ele se recuperar e seguir sua vida. Vamos esperar.

Harry deixou o prédio da escola e seguiu pela rua iluminada, cheia de gente. Sentia-se irritado por pensar que ao chegar em casa encontraria Draco Malfoy deitado em um colchão inflável no meio de sua sala.

Como era seu hábito, desceu a pé até o cruzamento com a avenida larga. O fim de semana começava e o trânsito, mesmo àquela hora, era intenso. Ele atravessou a avenida e andou alguns metros até chegar à entrada do bar, que como ele imaginara, estava lotado. Caminhou até o balcão e sentou-se no seu banco habitual, milagrosamente vazio. Em instantes o barman, que já o conhecia, se aproximava trazendo a garrafa de scotch e o copo com gelo, e bastou aquela visão para que Harry se sentisse mais relaxado. Cumprimentaram-se afavelmente enquanto o atendente enchia o copo com a primeira dose, e como sempre, ao terminar deixou a garrafa sobre o balcão, afastando-se. Harry pegou o copo e virou-o num só trago. Suspirou de prazer enquanto sentia o calor se espalhar pelo seu peito e aos poucos percorrer suas artérias. Serviu-se de uma nova dose, que dessa vez bebeu devagar, enquanto deixava a mente vaguear, começando a se sentir livre e leve.

Draco estava recostado diante da TV ligada, mas sua mente não conseguia se conectar ao programa que passava. A todo instante divagava, indo parar na sua discussão da tarde com Potter. Desde o início, quando viera para o apartamento, Draco sentira a tensão entre eles e sabia que a qualquer momento aquilo teria que explodir. Por mais que estivessem sendo polidos, por mais que tentassem se ignorar, eram Potter e Malfoy trancafiados num lugar minúsculo, onde sequer podiam realmente ter privacidade. Era de se esperar que as coisas fossem esquentar, no entanto Draco se sentia levemente desapontado. Como sempre acontecia, desde que eles eram crianças. Após as brigas, se vencia, exultava, mas logo o sentimento era substituído pelo eterno incômodo. Draco hoje admitia que não ter sido amigo de Potter fora uma de suas derrotas da infância. Por mais que parecesse idiota, o loiro sabia que no fundo, ao vir passar essa temporada em sua casa, talvez tivesse trazido embutido em sua bagagem um fiozinho de crença na realização desse desejo infantil. Mas a realidade era outra, Potter o veria para sempre empunhando a varinha contra Dumbledore na noite em que os comensais invadiram Hogwarts.

Harry voltara do banheiro e encontrara uma bela loira ocupando o assento ao lado do seu. A moça o olhara com uma intensidade além do normal, e logo ele compreendeu que ela estava caçando. Se por solidão ou dinheiro, não importava. Ele não estava interessado. Depois de cumprimentá-la cortesmente, voltou a se ocupar de seu copo, que tinha se esvaziado. A garrafa de scotch, já pela metade, era a única companhia que ele desejava. A moça ainda ficou por lá algum tempo, mas logo Harry a viu sair na direção de uma mesa cujo ocupante solitário se mostrava mais interessado. Ou interessante, pensou Harry com um sorriso torto. Talvez devesse se preocupar com o fato de sequer sentir desejo sexual, mas a realidade é que não se importava. Parecia que todo o ardor, toda a emoção que um dia existiram nele tinham morrido junto com Voldemort. Voldemort, Dumbledore, Hogwarts, Draco. Por associação de ideias seu pensamento se voltou para a discussão que tivera com o loiro nessa tarde e se sentiu aliviado por ainda conseguir sentir raiva. Com movimentos lentos, pegou a garrafa e encheu seu copo vazio.

O banheiro minúsculo estava totalmente tomado pelo denso vapor que se formara enquanto Draco tomava um reconfortante banho. Tinha estado imerso em espuma durante mais de meia hora e agora, sob a ducha vigorosa e quente, sentia-se renovado. Estava precisando de algo que acariciasse seu ego, e como o isolamento com alguém que o detestava dificilmente poderia oferecer alguma oportunidade disso acontecer, o loiro mimava-se com cuidados pessoais que o faziam sentir-se muito melhor. Limpo e perfumado, unhas cortadas, pelos aparados, pele hidratada e macia, esse era Draco Malfoy. Terminou de pentear os cabelos e olhou-se no espelho de corpo inteiro do banheiro de Potter. Seu bom metabolismo mantinha a forma que conquistara com os exercícios que praticara com o quadribol. Estava bem, seu corpo era bem feito e proporcional, e ao se observar nu, belo e solitário no espelho, Draco não pode conter um suspiro. Pelo horário, Harry deveria estar quase chegando. O loiro vestiu-se para dormir e foi preparar seu colchão inflável na sala.

Harry tinha passado boa parte de sua noite entregue a reflexões sobre os últimos acontecimentos de sua vida. Isso equivalia a dizer que boa parte da noite tinha sido dedicada a reflexões sobre Draco Malfoy. Ainda que não desejasse, o moreno não tinha como negar que a participação de Draco na morte de Dumbledore fora apenas teatral, especialmente pelo fato do velho diretor já estar condenado pela maldição do anel de Gaunt. Além disso, todos sabiam que Voldemort não designara Draco para essa missão esperando que tivesse êxito, ao contrário. O bruxo das trevas desejava apenas divertir-se com o desespero dos pais do garoto. Com as emoções potencializadas pelo álcool, Harry se sentia invadido por uma onda de piedade pelo loiro. Pensou que, no fim das contas, tanto Draco quanto ele não passavam de crianças forçadas a pegar em armas para combater forças infinitamente superiores às suas, assim como Rony, Neville, Luna...Merlin, tantos. Se tudo tinha acabado, por que não simplesmente enterrar o passado? Decidiu dizer isso a Draco, sentiu que devia isso a ele, mais do que isso, tinha urgência em dizer ao loiro que estava tudo bem, tudo aquilo era apenas passado. Muito bêbado, acertou sua conta e deixou o bar cambaleante, mas firme em sua decisão de fazer justiça a Draco Malfoy.

Lady Bogard: Fico feliz por você ter achado convincente o estado de espírito do Harry, eu tava meio chateada quando comecei essa fic e transferi tudo pra ele, tadinho. Espero que esse capítulo tenha trazido alguns dos fogos que você deseja ver nesse horizonte pacífico...^^ Obrigada pela sua review, espero muito que goste e continue lendo.

Beijos.

Fabianadat: Aimeudeus, eu fiquei super feliz ao ler sua review. Me sinto tão culpada por ter abandonado a fic, adorei saber que não perdi você como leitora. Não se preocupe, a fic tá terminada, eu vou postar assim que Mione, minha beta fofa, liberar os capítulos. E camarada, andei vendo algumas coisas suas e gostei muito, mas falaremos sobre isso lá na sua fic, ok? Obrigada por tudo.

Beijos.

: Nossa, obrigada por todas as coisas gentis e maravilhosas que você escreveu. Espero que o capítulo tenha te agradado, mas se não, sinta-se à vontade para expressar sua opinião. Eu acho isso muito importante. Quanto ao tamanho do capítulo, bem, esse foi maior do que o anterior, né? Espero mesmo que você tenha gostado.

Beijos, e continue lendo.

Siremele: Minha linda beta fofa, adorei o que você disse, mas você comentou sobre o capítulo que você ainda estava betando...hahahaha. Mas você pode tudo, até dar spoilers (só um pouquinho) da fic.

Beijinhos.