O táxi que trazia Harry encostou diante do prédio de apartamentos situado no tranquilo bairro residencial da Londres trouxa. O moreno, depois de pagar a corrida, deixou o veículo e caminhou em direção à entrada do prédio em que morava, tentando inutilmente não caminhar em zigue-zague. Certo, tinha bebido, mas estava perfeitamente bem. Ao menos era o que imaginava, ao contrário do porteiro do prédio, que vendo o morador do 701 chegar mais uma vez trocando as pernas, balançou a cabeça em desaprovação. Ainda assim, deixou sua mesa e se aproximou da entrada, pronto para ampará-lo caso ele precisasse. Harry entrou pela portaria e cumprimentou o funcionário, que se manteve por perto até que ele tivesse chegado à porta do elevador. O moreno subiu, enquanto o porteiro se perguntava o que poderia levar um rapaz tão distinto e educado a beber dessa forma.
Diante de sua porta, Harry cambaleava. O chaveiro estava em suas mãos, mas nenhuma das chaves parecia servir. Ele tentava e tentava, e por duas vezes deixou tudo cair no chão antes de conseguir, finalmente, abrir a porta e entrar.
Draco, deitado de lado, fingia estar dormindo. Fazia isso não apenas por não se sentir bem diante de pessoas alteradas pelo álcool, mas também por cortesia ao seu anfitrião. Pensou que tudo seria como nas noites passadas, que Harry, depois de brigar com a fechadura, passaria direto pela sala e iria dormir. Assustou-se quando ouviu a voz num tom estranho, bem ao lado de sua cama.
—Malfoy...
Abriu os olhos e fixou-os no outro, que oscilante, o encarava de volta.
—Potter. —Draco se sentou. —O que houve?
—Eu queria...conversar...
Harry mantinha-se de pé com dificuldade, seu corpo se balançava para frente e para trás e Draco teve a impressão que ele ia desabar a qualquer minuto. Passou a língua pelos lábios.
—Potter, acho que seria melhor se nós conversássemos amanhã, já é tarde.
O outro balançou a cabeça.
—Não...eu quero falar agora.
O loiro suspirou e de um salto se pôs de pé.
—Está bem, conversemos então.
Harry deu um passo em sua direção, mas algo saiu errado e ele oscilou perigosamente para trás. Com um movimento rápido Draco o segurou pelo braço, impedindo-o de cair. Ao se aproximar sentiu o cheiro forte da bebida.
—É melhor nós nos sentarmos no sofá.
—Não, não precisa. — Harry puxou o braço que Draco ainda segurava com a intenção de conduzi-lo até o sofá. O loiro o soltou.
—Eu sei...eu sei, você deve estar pensando que eu bebi, mas eu...Eu bebi, mas não tem nada errado , eu posso ficar aqui e conversar, certo?
—Se você diz... —Draco o observou empurrar os óculos contra o rosto e piscar, como se precisasse ajustar o foco de seus olhos. Então ergueu a cabeça e encarou o loiro.
—Eu amo o Rony. Eu amo muito o Rony Weasley, ele é meu irmão.
—Eu sei disso. — Draco falou mais secamente do que tinha pretendido, mas Harry não pareceu perceber.
—Ele e a família dele foi tudo o que eu tive...em Hogwarts...minha tia...irmã da minha mãe...ela nunca me quis por perto...— o moreno riu. —Tinha muita gente que não me queria por perto...mas eu fiquei lá, e Rony ficou do meu lado.
Draco revirou os olhos, impaciente. Ser tirado da cama tarde da noite para conversar idiotices com o Potter bêbado já era ruim, mas piorava muito se o assunto tivesse que ser o ruivo sardento.
—Todo mundo sabe disso, Potter.
Harry continuou, sem perceber o tom de desagrado do outro.
— Eu fiz outros amigos, e eu os amo também, mas Rony não é só meu amigo...ele sempre me apoiou, e a Mione...— Draco viu o rosto do moreno se iluminar num enorme sorriso.—Eu amo muito os dois...
Harry parecia diferente, Draco constatou nesse instante, enquanto observava sua expressão ao falar dos amigos, com os olhos esmeralda reluzentes por detrás das lentes dos óculos. Mas nem por isso deixava de parecer um idiota incapaz de perceber que sua amizade com o Weasley e a Granger era um assunto que não interessava a ninguém, pelo menos não ao loiro, que nesse instante fitava cada detalhe do seu rosto como se o visse pela primeira vez.
E era quase como se fosse. Nunca antes Draco tivera tanta liberdade para apreciar detalhes tais como a cicatriz em sua testa, o desenho dos seus lábios, a curva do queixo, do pescoço, os olhos. Olhava de um ponto a outro e concluiu que Harry tinha se tornado um homem interessante. Estranhou seu próprio pensamento, mas não tanto quanto a mão de Harry em seu ombro, despertando-o de seu devaneio.
—...que nós dois poderíamos ter sido amigos...independente de qualquer coisa...independente de qualquer pessoa...nós poderíamos sim...
O outro ainda sorria e Draco não sabia o que responder, então concordou e viu o sorriso de Potter se ampliar antes que sua mão fosse até a nuca do loiro e o puxasse em sua direção. Por um instante Draco não soube o que aconteceria até sentir sua testa de encontro à do outro, ouvir sua palavras e sentir seu hálito de bebida tão próximo e morno.
—Não é tarde demais, Draco...nós só temos que enterrar o passado...
A cabeça de Draco girava agora ao ouvir seu nome pronunciado daquela forma, como se Harry gostasse dele, como se fossem amigos muito próximos. Então o moreno se afastou e Draco não sabia o que sentir, muito menos o que dizer.
—Você não falou nada...você ainda me odeia?
—Não!— o loiro respondeu mais depressa e com mais ênfase do que gostaria, mas bêbado como estava, Potter provavelmente não percebera.
—Eu não odeio você...Harry. —Chamá-lo assim soou estranho aos seus ouvidos, mas deve ter parecido bem natural para o moreno, que deu outro daqueles sorrisos que Draco nunca tinha visto antes. Não dirigidos a ele.
—Bom...era isso...era isso. Agora eu vou dormir...
—Boa noite. —O loiro o viu seguir para seu quarto e enquanto o observava compreendeu que, por alguns minutos, tivera acesso ao Harry que todos os Weasley, a Granger e os demais que podiam usufruir de sua amizade conheciam. Um Potter desarmado, envolvente e carinhoso. Draco então voltou para sua cama, e enquanto esperava o sono chegar, percebeu que sentimentos estranhos, entre eles um inexplicável misto de euforia e perda, o agitavam. Rolou de um lado a outro por um bom tempo, até finalmente conseguir dormir.
Acordou na manhã seguinte com a claridade que entrava pela janela e atravessava facilmente as leves cortinas da sala. Ficou quieto durante algum tempo, tentando ouvir qualquer som que pudesse indicar que Potter já se levantara, mas tudo estava absolutamente silencioso. Sentiu-se feliz por isso, ainda estava sob o efeito dos acontecimentos da véspera e não queria encontrar o outro antes de colocar em ordem suas emoções. Precisava se preparar para qualquer coisa, afinal tinha sido um Harry bêbado quem propusera a paz final entre eles. A lembrança do momento em que fora puxado pelo outro pela nuca, da proximidade de seus rostos, de suas testas coladas, provocou um calor intenso no peito e no rosto do loiro, e a sensação o deixou perplexo. Levantou-se, tomou uma ducha e depois foi à cozinha para preparar algo para o desjejum. Não havia regras para determinar quem prepararia quais refeições, eles simplesmente o faziam de acordo com sua vontade ou conveniência. Enquanto preparava o café, Draco pensou que Harry poderia nem se lembrar da noite anterior, ou então se arrepender de tudo. De uma forma ou de outra, o loiro logo descobriria. Estava de costas, mexendo ovos numa frigideira quando ouviu a voz do moreno.
—Bom dia, Malfoy.
Draco se assustou e atribuiu a isso a aceleração do seu pulso. Harry sorriu meio sem jeito.
—Me desculpe por ontem. Tirar você da cama àquela hora não foi uma idéia muito boa.
Draco riu de leve e continuou a mexer os ovos. Então Potter se lembrava, e pelo seu tom parecia não ter se arrependido das coisas que dissera. O loiro sentiu que se acalmava. Harry abriu a geladeira e pegou uma garrafa grande de água. Bebeu uma quantidade considerável de uma só vez sob o olhar de soslaio de Draco, que desligou o fogo.
—Ovos mexidos com bacon, suco de laranja, café e torradas.
Harry olhou para a comida, desanimado.
—Parece bom, mas eu não vou conseguir comer nada agora. Eu exagerei um pouco ontem...
Tinha sido impressão ou o moreno realmente dissera a última frase olhando-o fixamente? Draco não poderia responder, nem teve tempo para perguntar, por que Harry, pegando sua garrafa, anunciou que estava voltando para a cama e deixou a cozinha.
O loiro olhou para toda a comida que tinha preparado e teve que encarar a realidade: tinha feito tudo aquilo esperando que pudessem sentar e comer juntos, conversar um pouco. A decepção que sentia começou a incomoda-lo. Afinal, o que estava acontecendo com ele?
—Então agora vocês são amiguinhos...
Rony estava sentado no chão, diante de uma enorme vasilha cheia de pipocas. Ele tinha descoberto o micro-ondas e não visitava mais Harry sem levar pelo menos meia dúzia de pacotes do milho em sabores variados. Harry respondeu com a boca cheia.
—Não, é claro que não. Isso não aconteceria assim, de uma hora para a outra. Tudo o que eu quero é que as coisas fiquem bem enquanto nós estivermos aqui, e sei que ele também quer isso.
—É estranho ouvir você falar pelo Malfoy...
Hermione terminava de chegar da cozinha com uma bandeja com uma jarra de suco de abóbora e colocou-a na mesinha. Depois voltou-se para Rony, rindo.
—Eu estou vendo alguém aqui com ciúmes?
—Quem? Do que é que você está falando?
—De você, que está todo enciumado por que Draco e Harry estão se aproximando.
—Eu não estou com ciúmes, Hermione, e nem tenho motivos para isso. Eu não sou o único amigo do Harry e nem ele é o meu, mas eu preferia vê-lo abraçado com um trasgo do que baixando a guarda para o Malfoy.
—Rony, deixe de ser intolerante. — Hermione se sentou no chão, entre o namorado e Harry. — A sua opinião sobre o Draco foi formada quando nós todos éramos muito jovens. Tanta coisa aconteceu, todos nós mudamos muito.
—Eu não vim aqui para ficar falando sobre o Malfoy e nem preciso, você sabe quem ele é, Harry.
Rony a ignorou e inclinou-se para falar com Harry. Mione suspirou, resignada. Ele era teimoso demais e estava realmente preocupado. O melhor seria deixar o tempo passar e esperar que ele se acalmasse. Então, talvez ele percebesse que estava exagerando.
—Tudo bem, eu até concordo com a Mione, todos nós mudamos, mas conservamos a nossa essência. Ele também, você pode apostar. Não dá pra ser normal tendo sido criado pelos pais dele, orientado apenas para adquirir poder, dinheiro e influência. É só isso o que importa, o mundo deles é outro.
—Rony, você fala de uma maneira que faz parecer que eu estou colocando minha vida nas mãos dele. É só um tempo de convívio, que eu gostaria que fosse bom. Por mais que a gente se aproxime, quando tudo voltar ao normal nossos caminhos vão se distanciar naturalmente, você sabe disso.
—É bom mesmo que seja assim, Harry, por que eu acho que nós devemos sempre esperar o pior dele.
—Tudo bem. —Harry sorriu para o amigo. — Você não precisa se preocupar, eu só quero amenizar um pouco as coisas. Sei que o Malfoy e eu não temos quase nada em comum para embasar uma amizade, é como eu disse, daqui a pouco ele vai seguir a vida dele e eu a minha, e então, nós nem nos lembraremos mais disso
—E onde ele está agora? No café, secando a garçonete?
Hermione fez uma careta e Harry riu.
—Eu não creio...deve estar andando à toa por aí.
—Tomara que se perca e não volte mais.
Harry riu. Estava sentado no chão, ao lado do amigo.
—Ele tem se comportado bem. Além disso, eu passo a maior parte do tempo no meu quarto, nós mal nos vemos.
—Isso me deixa mais tranquilo. Vê se fica de olho nele...
—Eu estou atento, não se preocupe.
—É bom mesmo. Afinal, ele é e será sempre Draco Malfoy, e com essa história que a Hermione inventou eu acho que eu vou precisar de você daqui a um tempo.
Hermione ficou de pé e olhou o namorado, incrédula.
—História que eu inventei? Deixe de ser insano, Ronald Weasley. — Ela se voltou para Harry.—Ele me pediu em noivado, e vamos comemorar na Toca, nesse sábado. Nós também já estamos pensando na data do casamento.— Hermione, sorridente e excitada, olhava o amigo.
—O que você disse?—Harry deu um pulo, derramando um pouco de suco no tapete.— Vocês vão ficar noivos? E vão se casar?
—Eu só queria o noivado. Essa parte do casamento é invenção dela...—Rony teve que se abaixar para fugir da chuva de pipocas que Hermione atirou em sua direção.—Mas como parece que eu não vou conseguir escapar, vou precisar de você para ser meu padrinho. Portanto, não deixe o Malfoy te matar até lá, ok?
Demoraram-se em conversas e risadas e só se deram conta de que era tarde quando ouviram o barulho de chaves e no instante seguinte viram Draco entrar pela porta.
—Hora de ir. — disse Rony imediatamente, sem sequer olhar na direção do loiro. Draco cumprimentou Hermione e seguiu para a cozinha. Harry, que acompanhara o casal até o corredor, continuou com eles à espera do elevador.
—Você é maluco, Harry? Deu as chaves de casa para ele?
—Ele mora aqui, Rony.
—Não, você mora aqui. Ele está aqui temporariamente, por que toda a sua família esteve envolvida com quem não deveria. Eles não passam de um bando de traidores que agora se escondem como ratos dentro das nossas casas.
—Shhh...A porta está aberta, ele pode ouvir.—Hermione falou num tom que era quase um sussurro. Rony fez um gesto de ombros indicando que não se importava. Harry ia replicar quando o elevador chegou e Hermione empurrou o namorado para dentro dele.
—Nos veremos no sábado, então. —Ela disse a Harry de dentro do cubículo espelhado.
—E nem pense em levar o seu novo amigo! — Rony fez uma careta e Harry riu e acenou, enquanto a porta do elevador se fechava.
O moreno voltou para o apartamento e foi limpar a bagunça da pipoca, enquanto Draco tomava um banho. Viu quando o loiro saiu do banheiro já vestido e sério. Harry se perguntou se ele teria ouvido Rony, e imediatamente teve a resposta para sua dúvida.
—Talvez eu não precise mesmo ter as chaves. Afinal, quase não vou a lugar nenhum.
Harry o encarou, pensando no que poderia dizer para tentar consertar as coisas, e ia começar a falar quando notou que Draco tinha um meio-sorriso no rosto. Sorriu em resposta, satisfeito por constatar que o loiro não se importara com a provocação de Rony. Aproximou-se dele e colocou a mão em seu ombro.
—Ainda assim, fique com elas. — Pressionou o ombro do loiro e depois seguiu para seu quarto para se preparar para sair.
O resto da semana transcorreu tranquilamente. Harry agora não sentia mais nenhum incômodo pela presença de Draco, ao contrário, estava se habituando ao convívio e à companhia que o loiro lhe fazia. Lupin, que tinha vindo visita-los, notou o bom clima entre eles e pareceu muito satisfeito por isso. Assim, o humor de Harry esteve bom durante toda a semana, e só no sábado, dia da festa de noivado de Rony e Mione, voltou a se sentir tenso.
A expectativa de reencontrar o mundo bruxo o alegrava, mas ao mesmo tempo sentia um nó nas entranhas só de pensar que veria pessoas que o fariam recordar momentos que ele desejava esquecer. Também havia Gina e todo o embaraço pela "pausa" do namoro dos dois.
Harry havia combinado com Lupin que se deslocaria de taxi até uma área considerada pelo ministério segura para o uso de magia. Uma vez lá, Harry aparataria para a Toca. Já pronto para sair, ele hesitava, sob o olhar de Malfoy, que também parecia tenso naquele dia.
—Você tem certeza que eu pareço bem? —Sabia que já tinha perguntado isso algumas vezes a Draco, mas sentia-se inseguro em relação a sua aparência. Viu o loiro levantar os olhos da carta que Lupin trouxera, enviada por Lucius e Narcissa, e responder, muito sério.
—Lindo. Você está lindo, Potter. — Sorriu de uma maneira que a Harry pareceu sacana e depois voltou a ler sua carta.
—Bem, então eu já vou. — Já tinha dito isso também, e dessa vez Draco sequer o olhara. Vendo que não tinha mais como retardar o momento, finalmente Harry saiu, ouvindo a voz de Draco enquanto fechava a porta.
—Juízo, Potter.
Ao chegar na Toca Harry se deparou exatamente com o quadro que tinha visualizado em sua mente. Havia bastante gente, e a recepção a ele foi mais do que calorosa. Recebeu fortes abraços de Molly e Hagrid, foi praticamente carregado por Rony, recebeu um beijo carinhoso de Mione, que estava deslumbrante, e depois passou de mão em mão, recebendo tapinhas nas costas, mais abraços e apertos de mão. Um cheiro bom de comida se espalhava pelo ar, e Harry sentiu-se em casa.
Rony deu um lindo anel de noivado a Mione e depois houve brindes ao casal. Então, seguiram para o jardim, onde a festa realmente aconteceria. Harry e Gina tinham se abraçado quando ele chegou, mas tinha sido um abraço fraterno e caloroso, e nesse momento ele sentiu-se tolo por ter ficado tão nervoso antes de vir.
Arthur tinha providenciado fogos de artifício trouxas para abrir e encerrar a festa, e agora todos se aproximavam para assistir ao espetáculo, que era fantástico se se considerasse que ali não havia magia. O patriarca dos Weasley, emocionado, assistia a tudo sorrindo bobamente, até que o último dos fogos queimou. A uma pequena distância Harry e Rony o observavam.
—Tá vendo só, Harry? Tudo isso por que ele sabe que vai se livrar de mim daqui a algum tempo.
Harry passou o braço pelo ombro do amigo.
—E ele está certo, você é insuportável! —Rindo, foram se juntar às pessoas que se agora se aglomeravam em volta de um círculo formado só por mulheres. Ia começar a dança.
Nymphadora Lupin, Fleur Weasley, Molly, a Sra. Granger, Luna Lovegood e Gina eram algumas das mulheres que, mantendo Hermione no centro do círculo, batiam palmas marcando o ritmo da música enquanto ela dançava. Com passos bem ensaiados a garota girava com graça e se movia ritimadamente, enquanto os homens, e também as mulheres que não participavam, rodeavam o círculo principal, reforçavam as palmas. Rony observava Hermione com uma expressão embevecida, enquanto o círculo se abria e ela se aproximava dançando ainda, os olhos fixos nos do noivo até o alcançar e puxá-lo para dançar com ela. Nympha tomou o lugar da garota e o círculo tornou a se fechar, até que ela saiu e pegou o marido para dançar. E assim foram fazendo até o momento em que Harry viu Gina no meio do círculo e soube que ela o escolheria. Eles tinham estado juntos e conversado, mas tinha sido uma conversa casual, corriqueira entre amigos. Mas agora, enquanto ela se aproximava, Harry notou uma determinação em seu olhar, enquanto uma excitação coletiva parecia ter tomado os presentes. O herói e sua prometida iam dançar.
Draco sentia-se como um leão enjaulado. Já tinha tentado assistir a um programa de tevê, tinha tentado ler, já tinha até tomado um dos seus demorados e normalmente relaxantes banhos de espuma, mas nada fizera com que sua mente se desligasse da visão de Harry, hesitante e lindo, saindo para a festa.
O loiro não conseguia parar de imaginar cenas entre o herói e a caçula Weasley, e a cada instante sua certeza de que algo aconteceria na festa aumentava. Estava angustiado e ao mesmo tempo irritado consigo mesmo. Nunca tinha se deixado dominar por sentimentos desse tipo, nunca tinha sentido nada parecido por ninguém. Sentiu uma vontade louca de ir atrás do moreno, ainda que isso significasse ter que aterrissar no ninho de Weasleys como persona non grata. Só não o fez por que não haveria nada que pudesse justificar essa atitude perante Harry.
Olhou o relógio, vendo que eram apenas dez da noite. Sentiu que ia enlouquecer se não saísse para andar um pouco, ainda que isso significasse uma quebra das regras de segurança. Que se danasse tudo, ele não ia sufocar dentro daquele apartamento imaginando Harry e Gina juntos. Foi até o armário que dividia com o moreno e retirou sua varinha, guardada há três semanas no fundo de uma gaveta. Não sabia para onde iria nem o que ia fazer, sua única certeza é que morreria se ficasse só mais um minuto ali.
Harry assoviou, enquanto dobrava o corpo e colocava a mão nos joelhos. Gina, diante dele, ria do drama que o moreno fazia.
—Ora vamos, Harry...nós só dançamos três músicas, ninguém ficaria assim tão cansado.
Ele riu. —É sério, Gina, eu preciso parar um pouco. Acho que estou ficando velho...
A garota o olhou e então, com naturalidade, pegou-o pela mão.
—Já que é assim, então vamos descansar num lugar mais tranquilo. Venha.
Não era um convite, mas uma intimação. O sinal de alerta dentro do moreno disparou.
—Onde nós estamos indo?
—Não se preocupe. — A ruiva riu e tirou uma mecha de cabelos que lhe caía sobre o rosto. — Nada de mal vai acontecer a você.
Harry a seguiu, resignado, observando que se afastavam do tumulto da festa e se embrenhavam por um dos lados da construção onde havia um banco. Sentaram-se.
—Sabe, Harry, eu sei que uma pessoa inteligente como você não poderia acreditar que nós não teríamos essa conversa, não é mesmo?
Direto ao ponto, pensou ele, enquanto se voltava para ela.
—Bem, eu não posso dizer que não esperava por isso.
—Ótimo, assim ninguém vai poder me acusar de causar um trauma em você. — Ela sorriu.
Por impulso Harry pegou a mão dela e apertou entre as suas, mas em seguida a soltou.
—Diga...
—Eu preciso, realmente, não é? Então vamos lá. —Ela o encarou. — Não é preciso ser muito esperta para entender que você não mudou de opinião, afinal, só estamos aqui tendo essa conversa por você veio ao noivado de Rony. Então, não vou perguntar se você quer voltar a namorar comigo por que sei a resposta. Só o que eu quero dizer é que eu sinto que nós temos um futuro juntos e não acho que isso seja uma impressão boba. Mas o fato é que eu não posso dar pausa em minha vida para esperar por você. Eu sei, não precisa dizer. —Ela não permitiu que ele a interrompesse.
—Eu sei que se dependesse de você eu talvez já estivesse saindo com outra pessoa, você nunca me pediu para esperar. Eu esperei por que quis fazer isso, por que acredito sinceramente no nosso futuro juntos, mas se você não quiser realmente, não acontecerá. Então, minha pergunta é: você está pronto para me dizer isso? Você seria capaz de me olhar nos olhos e dizer que não quer mais ficar comigo, definitivamente?
Harry passou a língua pelos lábios, depois encarou seus olhos castanhos. Não sabia o que dizer.
—Gina, nesse momento...
—Não faça isso, não é justo. Eu quero uma resposta definitiva , para esse momento e para os que virão depois. Se você não consegue encontrar uma, talvez eu possa ajudar.
Ela se ergueu subitamente e se posicionou diante dele. Harry a olhava sem entender quando ela o puxou, fazendo com que se levantasse. Então o trouxe para si e o beijou com ardor, fazendo questão de não deixar um mínimo espaço entre seus corpos, acariciando seus cabelos e sua nuca, pressionando o corpo contra o dele. Harry, pego de surpresa, reagiu instintivamente ao beijo, mas não sentiu em si nenhum sinal da onda furiosa de desejo que sempre o possuía quando eles se beijavam dessa forma. Mantinha os braços ao redor do corpo dela mas não buscava maior proximidade. Gina, então, percebeu que ele se movia por pura inércia. Encerrou o beijo e se afastou dele. Harry, envergonhado e triste, evitou seu olhar.
—Bem, eu acho que temos a nossa resposta. — A voz dela soou num tom estranho.
—Eu sinto muito.
—Não sinta, deve ser melhor para nós que tudo termine assim.
Harry sabia que ela estava quebrada por dentro, mas ainda assim mantinha o queixo erguido, numa demonstração de amor próprio e força. Ele pensou em dizer que sua vida estava de cabeça para baixo, que não via sentido em nada e por isso a ausência de desejo não significava necessariamente que ele não a quisesse mais. Mas entendeu que fazer isso seria o mesmo que coloca-la numa estante, mantendo-a ao alcance de sua mão para o caso de mudar de ideia. Permaneceu em silêncio.
—É melhor a gente voltar para a festa, antes que as pessoas comecem a imaginar coisas. — Ela lhe deu as costas e começou a andar. Ele a seguiu, sentindo-se ao mesmo tempo aliviado e apavorado. Tinha fechado, definitivamente, uma das portas de sua vida, e a esse pensamento angustiante, sentiu que o que mais precisava nesse momento era de um drinque.
Draco caminhara pelas ruas até sentir que a ansiedade que o corroía diminuía. Pensava em Harry, mas também pensava em si mesmo, nos seus estranhos sentimentos. Ainda não tinha se conformado, não podia aceitar que estivesse apaixonado por Potter, o mesmo Potter que se negara a ele a vida inteira. Isso era suicídio emocional, e Draco nunca tivera o temperamento suicida. Tinha que haver uma explicação racional para isso. Então, tomou uma decisão. Na manhã seguinte, bem cedo, deixaria a casa de Potter e procuraria por Lupin. Se não houvesse outro lugar para ficar, voltaria para sua casa e enfrentaria as consequências desse ato. Era um homem agora e tinha que governar a própria vida. Era um Malfoy e em suas veias corria o sangue Black. Isso não era pouca coisa.
Nesse ponto decidiu voltar para o apartamento e retirar suas coisas do armário antes que Harry, ou melhor, Potter, voltasse. Forçava-se agora a pensar nele como seu antagonista. É claro que, como adultos que eram, poderiam manter um relacionamento cordial, mas Draco não pretendia mais se esquecer que era herdeiro de duas linhagens puras e antigas. Seu lugar, definitivamente, não era ali, naquele apartamentozinho desconfortável, sem poder usar sua magia, fazendo serviços de um elfo doméstico e tendo que conviver com as bebedeiras de Potter.
Entrou no apartamento sentindo-se curado da loucura que o acometera. Seguiu até o quarto de Harry e abriu o armário. Começou a retirar as suas roupas, empilhando-as sobre a cama. Tirou do maleiro sua bolsa de viagem e, cuidadosamente, foi colocando nela as suas coisas, deixando de fora apenas o que precisaria usar até a manhã seguinte. Quando terminou de guardar e fechar tudo, sentiu um princípio de inquietação, mas forçou-se a lembrar de quem era. Por pura falta do que fazer tomou um banho demorado, e depois de terminar, começou a preparar sua cama na sala. Estava no meio desse processo quando ouviu o barulho das chaves na porta.
Virou-se e viu Harry parado, olhando-o com uma expressão de quem acabara de sofrer um nocaute. Sentiu um solavanco no estômago, seguido do tão conhecido calor que se espalhava pelo seu peito. Aproximou-se dele lentamente, e quando estava bem próximo viu que seu rosto estava molhado de lágrimas. Não pensou no que fazia, quando percebeu estava abraçado a ele, sem se importar com a possibilidade de ser arremessado longe.
Mas Harry não o afastou, ao contrário, retribuiu o abraço e apoiou a cabeça no ombro do loiro, soluçando contida e silenciosamente. Por instinto Draco o apertou mais contra si e sentiu o puro e nobre sangue Black/Malfoy ferver de emoção em suas veias, enquanto acariciava os cabelos e a nuca do moreno, a um só tempo consolando e estimulando seu desabafo.
YAH-BOUT: Espero que você tenha gostado do mimo que o Harry deu ao loirinho. Eu sei que foi pouquinho perto do que ele merece, mas paciência, vai. Estamos chegando lá. Obrigada pelo carinho. Beijos.
LADY BOGARD: Tomara que você tenha gostado desse capítulo, as coisas se suavizaram um pouco e daqui pra frente tendem a ...bem, eu não vou dizer. =^^= Estou super feliz e muito agradecida por você estar acompanhando. Beijinhos.
