Harry despertou na manhã seguinte com a conhecida sensação de boca seca e amarga. Sentia suas têmporas latejando e pensou em ir até a cozinha pegar água para conseguir engolir os comprimidos trouxas que, na gaveta de seu criado-mudo, já faziam parte de sua rotina. Mas ir até a cozinha significava ver Malfoy, e essa era a parte ruim. O grifinório suspirou longamente e prometeu a si mesmo parar de beber. Tinha se comportado de maneira idiota na véspera, se expondo como uma garotinha frágil diante de Draco. Sentiu uma onda de vergonha que fez seu rosto queimar. Ridículo. Draco devia ter rido muito, aliás, deveria estar rindo até agora.
Esse pensamento o fez lembrar de Rony e quase o ouviu dizendo que Malfoy podia até ter mudado em algumas coisas, mas ainda mantinha sua essência original. O que o amigo diria se soubesse daquilo? Droga, Potter, como você foi fazer uma idiotice dessas? Sentou-se na beirada da cama e respirou fundo. Não deveria ter cedido ao impulso de beber, mas tinha sido difícil demais romper definitivamente com Gina. E Draco, ele tinha parecido tão amigo, tinha feito com que se sentisse tão amparado que Harry acabara dizendo a ele coisas que jamais teria coragem de compartilhar nem mesmo com Rony. O moreno reviu-se abraçado ao loiro, chorando como uma criancinha e dizendo a ele... Merda! Jogou-se para trás com um grunhido de raiva, caindo de braços abertos sobre a cama.
Draco acordou e a primeira coisa que fez foi sorrir, involuntária e incontrolavelmente. Fechou de novo os olhos para saborear a sensação de empolgação que o tomava ao se lembrar da noite passada. Tinha tocado Potter, tinha abraçado, acalentado, acariciado seus cabelos, sua nuca, tinha apertado o moreno em seus braços e sentido muito de perto o cheiro de sua pele. Sob o cheiro da bebida, é claro, mas ainda assim, lembrava-se exatamente da sensação maravilhosa de mergulhar seu rosto no pescoço do outro enquanto ele chorava em seu ombro. Draco ainda podia sentir a umidade quente de suas lágrimas e a sensação do corpo sacudido por soluços pressionando o seu. O loiro suspirou. Teria sido fácil demais envolver Potter com sensualidade, especialmente depois que ele dissera que estava morto sexualmente, que Voldemort, ao morrer, levara uma parte dele consigo. Draco teria conseguido provar ao moreno o contrário, era hábil o bastante para isso, mas sabia que depois Harry se afastaria para sempre, e não era isso o que o loiro queria.
Lembrou-se dos seus planos de deixar o apartamento e riu de si mesmo. De que adiantaria se afastar? Aquilo já estava dentro dele, era um fato. Fugir não ia resolver o problema, só o faria mais infeliz. A sensação de ter Potter em seus braços tinha sido única, e tão intensa que o loiro compreendeu que desejara isso a vida toda. Por isso tinha se contido, sabia que não devia se precipitar. Merlin, que sacrifício manter o controle e não beijar aquela boca molhada de lágrimas, acaricia-lo e transar com ele até fazer com que se sentisse o homem mais viril e gostoso do planeta! Draco fechou os olhos e respirou fortemente, depois se levantou de um salto e seguiu para o banheiro. Não seria bom que Potter o visse no estado em que se encontrava.
Harry tinha finalmente se levantado e estava diante da geladeira aberta, divagando. Que imbecilidade! Estava furioso consigo mesmo. Aquilo era muito pessoal, era um assunto só seu, não compartilhara com os amigos, nem com os medibruxos que acompanharam sua recuperação. Era sua intimidade, sua vida, e agora, Malfoy sabia de tudo. Harry pegou a garrafa de água e bateu a porta da geladeira com força. Ouviu o barulho da porta do banheiro se abrindo e em instantes Draco saía, ainda vestindo pijamas.
—Bom dia...— Ele sorria, parecendo tranquilo e despreocupado. Harry não respondeu, ao invés disso jogou os comprimidos na boca e bebeu um gole de água. Draco, ao ver que não teria resposta, simplesmente se virou e foi dobrar seus lençóis. Harry o observou durante algum tempo, depois se aproximou de onde o loiro estava.
—Eu quero falar com você sobre ontem à noite.
Draco apertou os lábios com força, depois respirou fortemente. Devia ter pensado na possibilidade de Harry se sentir humilhado pela confidência da véspera, aliás era incrível que isso sequer tivesse passado pela sua mente, sabia o quão orgulhoso o moreno era. Encarou-o.
—Pode falar. — Apesar de tenso, conseguiu dar um tom de tranquilidade à sua voz.
—O que eu fiz ontem foi ridículo. Eu estava chateado, bebi e perdi o controle. — Olhou para o loiro à espera de alguma reação como um sorriso irônico, ou algo do tipo, mas Draco simplesmente o olhava de volta, com uma expressão absolutamente neutra no rosto.
—Na minha opinião não aconteceu nada demais ontem, Potter. Você só desabafou, isso é normal. Acontece, simplesmente.
Harry deu uma risadinha curta e irônica. — Parece fácil, quando é com outra pessoa, não é mesmo?
Draco sentiu que começava a ficar difícil manter a calma, o que diabos Harry estava querendo, afinal? Culpá-lo pelo seu porre? O loiro não queria discutir, tinha acordado se sentindo bem e queria se manter assim. Inspirou profundamente antes de responder, e estava muito sério quando o fez.
—Essas coisas nunca são fáceis, eu sei disso por que já passei por situações parecidas, algumas das quais você testemunhou. Eu não acho que você tenha se sentido bem quando me viu chorando no banheiro da Murta, então talvez você devesse considerar a possibilidade de não ter sido tão divertido para mim o que aconteceu ontem.
Draco soube que tinha atingido seu objetivo quando o outro o olhou muito rápido e em seguida baixou a cabeça, sem graça. Depois andou até o sofá e se jogou nele, apoiando a cabeça no encosto e fechando os olhos. Suas pernas estavam entreabertas, largadas de qualquer maneira, e como o tecido de seu pijama era leve, Draco podia visualizar o contorno dos músculos das coxas e do volume entre elas. Desviou o olhar e foi se sentar na outra ponta do sofá, onde o panorama era menos interessante.
Potter, alheio à tempestade que provocava no loiro, abriu os olhos e voltou-se para ele.
—Parece que eu estou me especializando em fazer idiotices.
—E qual é a novidade? — Draco respondeu no seu velho tom desdenhoso, mas mantendo um meio-sorriso nos lábios.
Harry o olhou sorrindo em resposta, e a tensão se quebrou.
—Eu só gostaria que as coisas fossem mais fáceis... — O moreno estava visivelmente mais relaxado. O loiro concordou com um movimento de cabeça.
—Sabe, eu era louco pela Gina. Era difícil para mim manter o controle quando estávamos juntos, e foi muito estranho isso tudo simplesmente desaparecer de uma hora para outra.
Draco ergueu uma das sobrancelhas. —Talvez o que você sentia por ela tenha simplesmente acabado. As coisas mudam.
Harry tomou um gole de sua garrafa antes de responder.
—Não se trata só de Gina. Eu não me interesso por mais ninguém.
—Eu penso que isso deve ser normal, você está atravessando um momento diferente de tudo o que já viveu e saiu muito abalado da guerra. Todos nós saímos. Talvez, se você tentasse com outra pessoa, com alguém que não o conheça, que não saiba que você é um grande herói...
Draco marcou bem as duas últimas palavras e Harry riu, depois olhou para algum ponto à sua frente.
—Eu já procurei outras garotas, mas não consegui sentir interesse por nenhuma.
O loiro apertou os lábios e depois falou no tom bem casual.
—E garotos?
Harry deu uma risada alta, depois encarou Draco.
—Isso é uma piada, não é?
—Claro que não. — O loiro sustentou seu olhar. — Isso é muito comum, a maioria de nós já fez ao menos uma vez.
—Não eu! Eu sei que as coisas são diferentes no mundo bruxo, eu via acontecer em Hogwarts o tempo todo, mas eu nunca me senti atraído por outro garoto.
Draco sorriu de leve. — Também não é a minha preferência, mas eu não acho ruim. O sexo é até mais interessante e mais frequente, por que um garoto pode compreender melhor o corpo e os desejos de outro garoto. Garotas em geral se envolvem emocionalmente e complicam bastante a relação.
—Você está falando de sexo por sexo?
—Sim. Você não pensa em se apaixonar ou se casar toda vez que sente vontade de transar, não é mesmo?
Harry riu, depois deixou escapar um longo suspiro.
—Ultimamente eu nem tenho pensado nisso.
—Eu acho que você está sob o impacto de tudo o que aconteceu. Sua vida não deve ter sido fácil depois da morte dos seus pais, e talvez a última batalha tenha simplesmente sido a gota d'água que fez tudo transbordar.
—Talvez. — Harry suspirou novamente e voltou a fitar o vazio. Draco o observou atentamente, sentindo de novo uma vontade quase irresistível de se aproximar e cobri-lo de beijos e carícias. Suspirou também.
—Isso vai passar. Fale com alguém a respeito, ou simplesmente dê um tempo.
O moreno o olhou e depois riu. — Bem, eu estou falando com você, não estou? Merlin, mal dá para acreditar que estamos tendo essa conversa.
Draco também riu. — Que isso sirva de lição a você, Potter. O inimaginável hoje pode ser o seu destino amanhã.
Harry se levantou do sofá, ainda rindo.
—Draco Malfoy, filósofo e psicanalista. Talvez eu devesse preparar o café da manhã como pagamento pelos seus serviços.
—Grande ideia, Potter. — Com um sorriso nos lábios Draco voltou a dobrar suas cobertas. Harry seguiu para a cozinha e começou a preparar o café. Enquanto o fazia pensava nas palavras do loiro. Talvez ele tivesse razão, talvez a pressão que sofrera ao longo de toda sua vida tivesse finalmente rompido alguma coisa dentro dele. Ele também desejava que Draco estivesse certo ao dizer que tudo ia passar. Pensou em Gina com pesar. Tinha feito planos de dividir sua vida com ela, tinha imaginado que a amaria para sempre. Ele a amava, mas da mesma forma como amava Rony e Mione. Pensou em sua falta de desejo e na sugestão ridícula de Draco. Riu consigo mesmo. Sabia que no mundo bruxo a questão da sexualidade era vista de uma maneira bem natural, e que eles consideravam uma indelicadeza formar uma opinião sobre alguém baseada em algo tão íntimo quanto sua opção sexual. Dessa forma, todos eram livres para se relacionar com quem desejassem, sem nenhum risco de receber rótulos ou de sofrer qualque rtipo de discriminação por isso. Harry sabia sobre Dumbledore, Shacklebolt, Minerva, entre outros, e Rony lhe contara que Bill tinha tido um namorado quando estudava em Hogwarts. Como ele, muitos outros garotos, depois de viver experiências homossexuais, acabavam se casando e vivendo felizes com suas esposas. Ainda assim, a ideia de beijar alguém que tivesse um pomo-de-adão não atraía Harry. Definitivamente, isso não era para ele.
Aquela tinha sido uma manhã agitada no Ministério de Magia. A equipe de aurores comandada por Moody, da qual faziam parte Rony e Hermione, tinha finalmente conseguido localizar e desativar o último QG comensal que dirigia as ações contra bruxos e trouxas. Com a cabeça decepada, a organização estava finalmente desfeita. Esperava-se desse ponto em diante uma diminuição drástica dos ataques, em ações individuais e bem menos nocivas. Isso era algo a ser comemorado, mas Moddy e Lupin, seu braço direito, não tinham tempo para isso. Estavam às voltas com o interrogatório dos dezoito presos que só seguiriam para Azkaban depois que cada informação que possuíam fosse arrancada deles. Alguns dos aurores tinham sofrido ferimentos mais sérios, mas a maioria passara pelo Saint Mungus apenas para avaliação, tendo sido dispensada em seguida.
Assim, sem pessoal suficiente para lidar com o número grande de presos, a equipe fixa do Ministério se desdobrava para conseguir cuidar de tudo. Por isso foi com semblante carregado que Moody repassou a Lupin a ordem que recebera da assessoria do ministro.
—Trazer Malfoy para cá para que ele possa tentar reconhecer entre os presos os seus sequestradores? Hoje, em meio a todo esse caos?
—Exatamente. É o que o ministro quer, então é o que faremos. — O tom de Moody era cortante. Lupin apertou os lábios e depois assentiu.
—Você deve dizer a ele que em alguns dias poderá voltar para casa com seus pais.
—E por que isso agora? Nós sabemos perfeitamente que os presos de hoje não estão por trás dos ataques aos Malfoy.
—Os relatórios de segurança reportam que Harry não passa no bar trouxa há três dias.
A expressão de Lupin se suavizou. — Isso é realmente muito bom.
—O ministro também acha, especialmente por vislumbrar o fim iminente de uma operação dispendiosa para os cofres do ministério.
Lupin riu ao notar o semblante carregado do outro bruxo.
—A essa altura nós já deveríamos estar habituados, não é mesmo?
—É, deveríamos. —Seguiram pelo corredor, Moody na direção da sala de interrogatórios, Lupin rumo ao elevador.
Deitado em sua cama, Draco pensava nos acontecimentos do dia. Tinha passado boa parte dele no Ministério da Magia, olhando para os comensais capturados sem reconhecer qualquer um deles. Também tinha visto seus pais, e esse tinha sido o melhor momento. Costumava passar meses sem vê-los quando estava em Hogwarts, mas jamais sentira tanto sua falta como agora, afastado deles há apenas um mês. Narcissa e Lucius tinham tentado transmitir ao filho uma impressão de tranquilidade, mas Draco conhecia-os bem demais para acreditar que não estivessem deprimidos pelo confinamento na sala adaptada para abriga-los, dentro do prédio do ministério. Especialmente sua mãe, acostumada a se mover em amplos espaços, acostumada aos mimos de que Lucius a cercara a vida toda. Por isso, metade de Draco se alegrara ao ouvir de Lupin que em poucos dias estariam de volta à mansão Malfoy. A outra metade, no entanto, estava em agonia desde esse momento. Suspirou. Potter. Como arrancar o herói desse lugar profundo e incômodo onde ele fora se alojar dentro de si? Draco não sabia, não tinha a menor ideia do que fazer. Em sua agonia, virava de um lado a outro na cama quando ouviu o barulho das chaves, e pelo tempo que a porta levou para ser aberta, soube que Potter voltara a beber.
Harry entrou e trancou a porta, vindo em seguida na direção de Draco.
—Acordado, Malfoy? — Sorriu, antes de sentar na cama, fazendo o colchão balançar e sacudir Draco, que se sentou também.
—Eu estive pensando, Malfoy...Eu acho...acho que eu vou sentir a sua falta ...quando você for...
Draco sorriu. —Eu também vou sentir a sua, Potter.
Então Harry o abraçou desajeitadamente e fez aquilo outra vez, colou sua testa à do loiro, que fechou os olhos momentaneamente. Quando os reabriu encontrou as esmeraldas cintilantes fixas em seu rosto, e viu o que ele estava sorrindo daquele jeito delicioso. O pulso do loiro se acelerou, um pensamento louco correu por sua mente como um flash. Não teve tempo para refreá-lo, nem pensou nas consequências do seu ato. Simples e loucamente, arriscou tudo.
—Eu quero você, Potter.
Então, moveu-se para o lado e empurrou Harry, que caiu de costas sobre o colchão, parecendo ainda não ter entendido o que acontecia. Draco não lhe deu tempo para isso, mergulhou sobre sua boca e o beijou com voracidade, enquanto sua mão descia até a virilha do moreno, acariciando-o por sobre a calça. Não sabia o que aconteceria, não queria saber, tudo o que desejava era saborear aqueles lábios e acaricia-lo loucamente. Quando sentiu que o volume de Harry aumentava sob sua mão, Draco não pode conter um sorriso enorme de triunfo. Afastou-se e bruscamente, com mãos trêmulas, desabotoou a calça do moreno, que o olhava ainda sob o impacto do espanto. Quando viu, liberto e ereto, aquele membro bem formado, lindo e pulsante, não se conteve. Empunhou-o com gentileza e o envolveu com sua boca quente. Ouviu o gemido de Harry e sentiu o movimento de seus quadris, enquanto o herói se ajeitava melhor e levava a mão à cabeça do loiro, mantendo-o próximo de si.
Oi, pessoal! Aqui está o sexto capítulo, o último dos que eu tinha escritos. Daqui para frente talvez eu não consiga postar semanalmente, como tenho feito, mas garanto que não devo passar de quinze dias para atualizar, ok?
Beijos, obrigada, e por favor, comentem...
Julia: Como foi bom ouvir sua opinião a respeito da fic. Não importa quanto tempo você levou para comentar, o que importa é que você fez isso! Obrigada, de verdade, os comentários ajudam a estimular a criatividade a são um termômetro do andamento da história. Espero que você continue lendo e gostando, e sempre que quiser, sinta-se à vontade para opinar. Beijos.
luana potter: Hahaha... Ainda bem que você não desistiu. Eu sei que está demorando para as coisas acontecerem, mas é que quando eu iniciei a fic, fiz um Harry tão deprê que depois tive muita dificuldade para conseguir coloca-lo onde eu quero. Um enorme passo foi dado nesse capítulo, né? Por favor, não desista, e me diga o que você achou, ok? Beijos.
Lady Bogard: Como sempre, seus comentários são fabulosos e me deixam feliz e doidinha para levar os dois logo aos fogos de artifício. Conto com sua opinião para me orientar para o próximo capítulo, ok? Muuuitos beijos!
Deh Isaacs: Deh, obrigada. Adorei seu comentário, e quero que saiba que pretendo caprichar no Lucius quando ele aparecer. Não vai ser uma participação muito constante, mas ainda assim vai deixar marcas na história. Além disso, o Lucius que você gosta se parece bastante com a minha construção dele para essa fic. Continue lendo. Beijos.
Siremele - aka Mione Lupin: Hahaha... Confesso que eu tirei uma cena de banho do Draco desse capítulo por causa do seu comentário, mas como eu adoro imaginar o loirinho ensaboado debaixo do chuveiro, você pode apostar que ainda deve aparecer alguma cena dele assim. Obrigada, você é muito fofa! Beijinhos.
