Draco Malfoy estava de volta ao lugar onde nascera. Crescera sob os cuidados de seus pais, cercado de elfos para atenderem prontamente o menor dos seus desejos, cercado de brinquedos, cercado de amiguinhos, todos eles filhos de casais amigos de Lucius e Narcissa. Revezavam-se brincando na casa de um e outro, e assim cresceram formando um restrito grupo, todos bem nascidos, todos compartilhando as mesmas ideias.

Quando pensava nisso antes, parecia a Draco que tinha tido muita sorte por viver assim. Mas depois que foi para a escola, percebeu que a vida era feita de mais coisas do que ele conhecia, e que era preciso saber barganhar, saber perder, aceitar as diferenças e rever conceitos. Tudo o que ele não tinha feito. E se tivesse se aproximado de Harry Potter sem a intenção de usar sua fama e importância para se distinguir entre os seus iguais? E se tivesse aceitado o convívio com a Granger sem se importar com sua origem, ou com Weasley sem desdenhar de sua pobreza e de seus ideais de boa convivência com os trouxas? E se?

Se tivesse feito isso não seria Draco Malfoy, e esse era exatamente quem ele era. O filho único e mimado de Lucius e Narcissa, nascido para garantir no mundo a linhagem dos Malfoy. Isso é o que ele era, nada mais. Diante do espelho da sala de jantar, olhava para seus olhos inchados e avermelhados pelo choro. Era hora de parar, de esquecer tudo, de cuidar de si e dos seus. Que se danasse Potter, o herói beberrão, que se danasse tudo.

Ele tinha combinado com os pais que não faria contato com ninguém até a volta deles para casa, no dia seguinte. Passou o dia checando o estado geral das coisas, queria que eles encontrassem cada objeto como tinham deixado. Não teve muito trabalho, os elfos tinham mantido a casa impecável, o jardim bem cuidado e os pavões de seu pai bem alimentados e saudáveis. Draco refez feitiços anti-aparatação, checou as entradas da mansão, bloqueou todas as lareiras para acessos via Flu. Em seu quarto, também estava tudo em ordem. Então, por que a sensação de que não estava no lugar certo? Por que se sentia angustiado e aflito, como se esse não fosse o seu quarto e nem essa a sua casa? Olhou ao seu redor, deixando seus olhos passearem das cortinas de tecido caro ao tapete precioso. Uma cama alta e imponente, lençóis macios de cetim, um armário cheio de roupas caras, isso era o que as pessoas passavam a vida tentando adquirir. Tinha tudo o que queria, tudo o que todas as pessoas no mundo inteiro queriam. Suspirou. A verdade é que trocaria tudo isso pelo micro apartamento onde ele tinha que se revezar com Potter na limpeza do chão e do banheiro. Fechou os olhos e a dor o tomou novamente. Não tentou se conter, deixou as lágrimas correrem livremente por seu rosto, estava em sua casa, em seu mundo, aqui podia ser ele mesmo e chorar o quanto sentisse vontade, sem disfarces.

Jantou sozinho na enorme mesa de madeira trabalhada. Depois seguiu para a biblioteca e tentou ler, mas seu pensamento se desviava do livro o tempo todo. Então subiu para seu quarto e foi para a cama. Mas bastou encostar a cabeça no travesseiro para seu pensamento voar para Potter. Onde estaria a essa hora? Olhou o relógio sobre o criado e constatou que ele deveria estar assistindo aula. Então um pensamento lhe ocorreu. E se ele bebesse naquela noite? E se se sentisse arrependido? E se o procurasse? Draco sentiu seu coração acelerar a essa ideia. O que faria?

Não, ele decidiu, não queria mais isso. Levantou-se e chamou o elfo, que atendeu, prontamente. Deu ordens a ele para não receber ninguém na casa, especialmente se aparentasse estar embriagado. O elfo assentiu e deixou o quarto, e Draco voltou para a cama. Angustiado, não conseguia tirar os olhos do relógio. Se ele viesse ia perder seu tempo, Draco estava decidido, não o atenderia. Que desaparatasse de volta bêbado, mesmo que estrunchasse e se partisse em pedaços. Ele seria bem capaz de fazer isso, o irresponsável. Draco agora tinha certeza de que ele viria. Virava de um lado a outro na cama, numa agitação crescente. Via Potter chegando, sendo barrado, e depois indo embora naquele estado lastimável, correndo todos os riscos do mundo. Levantou-se de um salto e gritou pelo elfo. Mudou as ordens, ele deveria deixar Potter entrar e acomodá-lo num dos quartos de hóspedes, mas não precisava chamar por Draco, por que ele não iria falar com o herói. Bem, deveria chama-lo sim, mas só para que ele ficasse sabendo que o outro viera. Apenas para isso.

Voltou para a cama, mas não conseguia dormir. Tinha os olhos grudados no relógio e os ouvidos atentos aos ruídos de fora. Ouviu algo que julgou serem passos e chamou pelo elfo outra vez. Conferiram, não havia ninguém no portão. E assim foi por quase toda a madrugada. Quando finalmente Draco entendeu que Harry não viria, já eram quase cinco da manhã. Vencido pelo sono e pela decepção, foi finalmente dormir, liberando o pobre elfo para fazer o mesmo.

Foi acordado pouco mais de três horas depois, pelo mesmo elfo que passara a madrugada ao seu lado conferindo o portão.

—Meu senhor Malfoy, ele está aqui, ele chegou...

Draco abriu os olhos e viu a expressão assustada do elfo. Sentia-se confuso, seus olhos ardiam como se estivessem cheios de areia.

—Quem? Meu pai?

—Harry Potter, meu senhor, Harry Potter. Ele chegou e está esperando lá embaixo...

Draco deu um pulo da cama. Potter! Por um instante não soube o que fazer, então correu para o banheiro e se olhou ao espelho. Tinha olheiras fundas, seus olhos estavam inchados pelo choro da véspera e vermelhos pela falta de sono. Potter tinha que vir justo nessa hora? Maldito idiota!

Harry aparatou diante do imponente portão de ferro com a horrível sensação de que não podia respirar. Era sempre assim, a aparatação, tão natural para a maioria dos bruxos, nele produzia um efeito esmagador. Levou alguns instantes para se recompor, então transpôs o portão, esperando que a qualquer momento algo fosse surgir e bloquear seu caminho. Surpreso, andou até a entrada principal sem ser interceptado, e isso o inquietou. O que Malfoy estava pensando? Será que não tinha se preocupado em guardar a entrada da casa, ele que estava sendo caçado por comensais? Nesse ponto um pensamento lhe ocorreu. E se tivesse acontecido algo a ele? Com passadas largas alcançou a porta e ia bater quando ela se abriu. À sua frente, um pequeno e esfarrapado elfo se desmanchou em sorrisos e mesuras.

—Harry Potter, entre, Harry Potter. Meu senhor Malfoy mandou levar Harry Potter para a sala. Venha...

Harry respirou, aliviado. Malfoy devia tê-lo visto chegando, por isso não o tinham interceptado. Seguiu o elfo sentindo seus pés afundarem no tapete felpudo que cobria o chão de pedra. Era estranhamente desconfortável estar ali, mesmo depois da guerra terminada. Harry não podia evitar a sensação de que ia, espontaneamente, ao encontro de inimigos, estando só e desarmado. O fato é que, por mais que os Malfoy fossem aliados, todos sabiam que eles tinham mudado de lado por que essa tinha sido a sua única opção. Harry se sentou na ponta do confortável sofá que o elfo indicou e ficou observando-o enquanto ele saía para chamar Draco.

Passaram-se longos minutos durante os quais ele estivera examinando a sala de visitas ostensivamente decorada. A riqueza dos donos da casa transparecia em cada mínimo detalhe, e Harry riu consigo mesmo ao tentar imaginar o que Draco deveria ter achado do seu pequeno apartamento. Então ouviu um ruído muito leve à sua direita e ergueu-se do sofá. Draco se aproximava lentamente, e a poucos passos dele, parou.

—Potter... — O loiro limpou a garganta. — Antes de perguntar o que faz em minha casa vinte e quatro horas após ter me expulsado da sua, há algo que eu preciso saber. Eu falo com seu ego ou seu alter ego?

Harry piscou, confuso, demorando alguns segundos para compreender o que ele tinha dito. Então abriu um largo sorriso e caminhou em sua direção.

—Só há um Harry. Este aqui. — Parou a centímetros de distância do loiro com os braços abertos, ainda sorrindo. Draco o olhava de volta, muito sério, e Harry percebeu seus olhos avermelhados e uma sombra escura por baixo deles. Seu sorriso morreu em seu rosto.

—Eu sinto muito, Malfoy. Eu realmente agi como um idiota, culpando você por aquilo...

Aquilo? — O tom de Draco era irônico. — Você não me disse que uma vez Dumbledore o ensinou a dar sempre o nome certo às coisas? Aquilo foi sexo, e um bom sexo, diga-se de passagem, feito por mim e seu alter ego no meu colchão inflável trouxa.

Harry apertou os lábios enquanto encarava o loiro. Já esperava ser recebido com animosidade, sabia que ele se sentia ofendido. Respirou fundo antes de falar.

—Você tem razão, em parte. Aquilo foi sexo, e foi, sim, muito bom. Mas não havia nenhum alter ego, era apenas eu, acovardado, usando a bebida como escudo. Me desculpe, Draco. Eu agi como um perfeito idiota.

—Só para esclarecer as coisas, Potter... — Draco frisou bem seu sobrenome. — Você agiu como um perfeito idiota quando nós transamos ou quando você me expulsou na manhã seguinte?

Harry não pode evitar um sorriso. Desviou os olhos, depois voltou a encarar o loiro. Viu que ele sorria levemente e percebeu, surpreso, que estivera tentando fazê-lo rir desde que chegara. Apertou os lábios e fixou os olhos azul-cinza.

—Quando eu o expulsei, na manhã seguinte.

Draco não disse nada, apenas manteve seus olhos fixos nos de Harry por algum tempo. Então, falou.

—Então você veio admitir isso e se desculpar, certo?

—É, é isso. Eu vim dizer que se você quiser, pode voltar para minha casa e ficar lá o tempo que quiser.

Draco deu uma risada curta e baixa.

—Isso não vai ser possível, Potter. Meus pais estão a caminho, como você já deve saber, e é aqui que vamos ficar, nós três. Mas eu agradeço a sua oferta.

Harry apenas balançou a cabeça, e Draco continuou.

—Suas desculpas estão aceitas. Agora você pode voltar para o seu mundo com a consciência tranquila por ter, mais uma vez, agido como um verdadeiro herói.

Harry o encarou.

—Eu sei como você se sente, e realmente lamento, mas não há nada que eu possa fazer para mudar o que eu fiz. Eu queria dizer que durante o tempo em que você esteve morando em minha casa eu realmente aprendi a te ver com outros olhos. Eu sou grato a você por ter me feito enxergar coisas sobre mim mesmo que eu não via, como por exemplo, minha relação errada com a bebida. Também sou grato por você ter aberto meus olhos para a minha depressão, e por ter ... — Fez uma pausa e passou a língua pelos lábios. — E por ter me mostrado que não havia nada errado comigo... você sabe... — Concluiu, levemente constrangido.

—É, eu sei... Isso é bom, Potter. No final, o sacrifício que você teve que fazer ao me acolher foi recompensado, não é mesmo? — Draco falou num tom estranho.

—Draco, eu não sei mais o que posso dizer. Realmente, eu não gostava muito de você e não fiquei feliz quando soube que você ia para lá, mas tudo mudou. Eu agora vejo você com carinho, como um amigo...

—Acontece que eu não sou seu amigo, Potter, e nunca serei! — Draco o interrompeu raivosamente. Harry foi surpreendido pelas palavras do loiro e apenas balançou a cabeça, enquanto fitava os olhos cinzentos. Draco fechou os olhos e respirou fortemente.

—Eu não o vejo como um amigo, Potter, embora isso não signifique que eu não goste de você, ou que eu deseje que você se mantenha distante.

Mantinha o olhar fixo nos olhos de Harry, e este piscou, confuso.

—Eu não estou certo de ter entendido bem o que você disse.

—Claro que não... — Draco sorriu levemente. Suspirou profundamente antes de prosseguir.

—Eu estou apaixonado por você, Potter. Isso soou claro o bastante para o seu entendimento, ou ainda há alguma dúvida?

Em seguida moveu-se lentamente, e Harry, ainda sob o choque da revelação, mal teve tempo para pensar. Quando percebeu, seus corpos se tocavam suavemente e Draco o envolvia num abraço leve. Instintivamente moveu-se para acomoda-lo melhor em seus braços e sentiu o rosto dele mergulhado em seu pescoço, provocando um arrepio que percorreu sua espinha. Sentia os movimentos suaves que Draco fazia com o rosto, roçando a ponta do nariz e a boca na pele de seu pescoço, beijando-o levemente enquanto suas mãos acariciavam suas costas e nuca. Aconteceu naturalmente, suas bocas se buscaram, e quando Draco entreabriu os lábios para receber a língua de Harry, o moreno soube o que era um beijo perfeito. Não havia desencontros, apenas o encaixe exato de lábios e línguas, que foi se intensificando aos poucos. Estavam agarrados agora e começavam a se buscar com sofreguidão, quando o elfo irrompeu pela sala numa agitação enorme. Os dois se separaram bruscamente, enquanto o pequeno e esfarrapado ser atravessava a sala rumo ao hall.

—Minha senhora chegou, minha senhora Malfoy voltou para casa!

Draco partiu atrás do elfo e Harry fez o mesmo. Ainda estava zonzo com os acontecimentos e sentiu-se pior ao perceber que a 'interação' com Draco tinha resultado numa ereção que, definitivamente, não poderia ter acontecido num momento pior. Já passando pela porta que levava ao hall, ajeitou o volume em suas calças para que ficasse menos perceptível, e fez isso bem a tempo. Do meio do hall, cercados por elfos e malas, os donos da casa, acompanhados por Remus Lupin, o encaravam, surpresos pela sua presença ali.


Lena: Você tem toda razão, tava difícil de 'acontecer'... hahaha

Quanto à armadilha, bem, não vou falar nadinha sobre isso... rs.

Agora, eu queria dizer, em relação ao que você comentou, que infelizmente não sei o que é ANTS, mas já adoro! Sério, os comentários são tão importantes para quem escreve, e tão poucas pessoas parecem saber disso!

Esse é um assunto que eu gostaria de mencionar por algum outro canal, mas a única maneira que tenho para me comunicar com você é essa, então, a resposta à sua review virou um testamento... rs.

Olha o que diz a Mila B (antes, Shaala - .net/u/2019155/ ) sobre reviews no primeiro capítulo da tradução (leiam, é fodástica!) de CROSSING INTO CHAOS - .net/s/7097706/1/

"Segundo, eu quero, sim, que vocês comentem. É uma coisa que vem me chateando muito no fandom de DG, que o pessoal daqui raramente comenta as fics, e não entende que com esse comportamento apenas afasta, aos poucos, as pessoas que gostam de escrever com o ship. Acho que todo mundo que acompanha o FF há mais tempo nota como cada vez menos gente escreve DG. São vocês leitores que estimulam as pessoas a continuarem escrevendo, é o seu retorno, o seu carinho que mantêm isso funcionando. E se você não comenta, você é o culpado pelo marasmo que isto está se tornando. É duro de "ouvir", mas é a verdade. Então, vamos mudar isso e incentivar os ficwriters que ainda não desistiram! Não falo só quanto ao que eu escrevo, mas quanto a tudo que vocês lêem!"

Concordo com ela em gênero, número e grau, não só sobre DG, mas em relação a todos os outros casais. Por isso agradeço a você pela disposição de pegar uma fic em andamento, ler e comentar um a um os capítulos. Continue assim, e que outras pessoas sigam seu exemplo.

Mil beijos!

Clarita

Deh Isaacs: Tadinho do Draco, né? Eu tenho feito muita maldade com ele, mas espero que ainda assim você esteja se divertindo. E o Lupin, de bobo não tem nada... rs.

Você viu, né, no próximo capítulo seu Lucius vai dar o ar da graça, então não deixe de ler!

Beijinhos.

Siremele - aka Mione Lupin: Hahaha... você merecia o Draco inteirinho, Mionezita!

E você viu, né, eu não resisti e dei um toquezinho de sexualidade aos dois, tanto o Shakle quanto a Minerva parecem assexuados nos livros...

Mil beijos, linda.

Julia: Ah, foi mesmo bom fazer o Draco partir para a ação e 'desencantar' o Harry.

Deu no que deu, mas como você mesma disse, o moreno se arrependeu sim... rs.

Obrigada por acompanhar a fic.

Bjokas.

Lady Bogard: Hahaha... eu amo seus comentários, você é perfeita!

Espero que tenha gostado do capítulo, agora já estamos chegando na reta final...

Conto com você, como sempre!

Beijos, fofa.