Draco aprendera muito nos últimos dois anos de sua vida, e embora ainda não passasse dos vinte, tinha experimentado mais coisas do que muitos homens com o dobro da sua idade, ao longo de toda a existência. Era natural que isso ocorresse quando se participava de uma guerra, onde a precipitação dos acontecimentos podia fazer alguém passar da infância à velhice em apenas algumas semanas.
Ele descobrira muito sobre si e sobre os seus, compreendera melhor o mundo, aprendera a separar utopia de realidade, delírio de possibilidades concretas. Sentia que trazia em si conhecimento e segurança para seguir até o final de sua vida, sem se deixar influenciar por ideais tolos. Aprendera a observar, ponderar e só então agir.
Estava amadurecido o suficiente para saber que a vida era uma incógnita, e que tudo podia mudar de um momento para o outro; nada era definitivo. Ou quase nada. Harry era uma das suas poucas certezas, a importância dele em sua vida era um fato incontestável; tinha sido assim desde a sua infância.
Gostaria de ter compreendido seus sentimentos quando ainda estava em Hogwarts. Quantas coisas terríveis não teriam sido evitadas se ele tivesse percebido a tempo que quis Harry ao seu lado desde a primeira vez em que o viu? Sabia que não adiantava ficar conjeturando sobre os acontecimentos do passado, nada mudaria por mais que pensasse, ou desejasse ter feito tudo diferente. Ainda assim, não podia se impedir de imaginar que as coisas poderiam ser muito diferentes entre eles hoje.
Draco não era tolo, sabia que o herói do mundo bruxo estava mais envolvido do que queria admitir. O loiro era esperto o bastante para compreender que seu grande adversário era o próprio Harry, com seu preconceito, sua vergonha de assumir para si próprio que estava envolvido com outro homem. Ele estava, Draco sentia isso. Por mais que Harry precisasse mascarar os próprios sentimentos, por mais que precisasse acreditar que era só sexo o que o os unia, o loiro sabia que o conquistava um pouco a cada dia. Precisava ter paciência, tinha apenas que conseguir sobreviver com as migalhas de amor que recebia dele.
O quanto cedera e ainda cederia por Harry? Tudo, ele pensou em resposta à própria pergunta. Abriria mão da arrogância, se tivesse lhe restado alguma depois de todas as coisas pelas quais passara, abriria mão do orgulho pela sua linhagem, abriria mão de qualquer coisa para tê-lo ao seu lado. As migalhas pelas quais precisava implorar eram hoje a melhor parte da sua vida, e por mais que isso soasse indigno, tudo que ele desejava era manter as coisas assim. Aos poucos, sabia que envolvia Harry. Acreditava nisso com toda a sua convicção, era o que lhe dava forças para prosseguir. Por sua mente não passava qualquer outra possibilidade de vida que não fosse ao lado dele, por isso tentaria sempre, tentaria até conseguir, ainda que para isso tivesse que enfrentar sua família e todo o mundo bruxo.
Estava agora diante da porta de entrada, apenas encostada, do apartamento 701. Empurrou-a e entrou. Ele estava parado no meio da sala e Draco sentiu o velho solavanco no estômago ao encarar os olhos verdes. Fechou a porta e caminhou lentamente até ele. Merlin, como o queria!
Harry podia sentir o fluxo do sangue em suas veias se acelerando aos poucos. Sentiu medo do desejo que Draco despertava nele, medo de perder o controle sobre si e seus sentimentos. Estava cansado de ter a vida guiada por acontecimentos incontroláveis, queria ter domínio sobre ela, queria experimentar calmamente tudo o que lhe era devido e que ele jamais tinha podido usufruir. Para isso precisava manter-se no controle e, principalmente, precisava afastar Draco.
No entanto, como poderia fazer isso quando a paixão do loiro era tamanha e o encantava? Como resistir às carícias, àquela boca deliciosa que o sugava como se precisasse dele para sobreviver? Draco se entregava sem nenhuma reserva, e isso tornava Harry incapaz de tomar as atitudes certas. Recostado à parede da sala, com a camisa desabotoada, as calças caídas aos seus pés e Draco ajoelhado diante dele, não conseguia pensar em nada além do que estava acontecendo ali. Quando muito, podia prever que passaria mais uma noite louca ao lado do loiro, e que transariam enquanto lhes restassem forças.
A festa continuava animada, embora já fosse bem tarde. Um sucesso, um ponto importante para o Ministro, cuja popularidade andava ligeiramente abalada pelos esporádicos incidentes envolvendo ex-comensais. Tudo o que os bruxos queriam era conseguir esquecer que Voldemort existira, e para isso não havia nada melhor do que uma festa grandiosa. Os convidados glamurosos estampariam as manchetes de todos os jornais do dia seguinte, para alegria da população, que olhando as fotos poderia se iludir com a falsa impressão de que era parte de tudo aquilo.
Alastor Moody pensava nessas coisas todas enquanto se despedia de Remus e Nymphadora, que ainda ficariam mais um pouco fazendo companhia a Molly, Arthur e os demais Weasley. Bastou olhar nos olhos de Lupin para Alastor entender que o lobisomem estivera pensando a mesma coisa que ele. Trabalhavam juntos há tempo demais, conheciam-se muito bem, e eram capazes de se comunicar através de uma simples troca de olhares.
Enquanto se afastava Moddy pensou que no dia seguinte teria uma conversa com o amigo. Ele ainda era jovem, tinha uma bela esposa e um filho pequeno. O melhor que poderia fazer seria afastar-se dos bastidores da política e preservar algum encanto, para não terminar como ele, totalmente destituído de fé na humanidade. Sim, faria isso no dia seguinte, e seria logo pela manhã.
Ao sair lá fora ele sentiu uma leve inquietação, que o fez pensar nos tempos em que vivia aterrado ao pressentir perigo vindo de todas as direções. Estava velho e cansado, essa era a explicação para sua sensação dessa noite. Bastou um olhar em volta para se certificar de que tudo continuava sob controle, os homens da vigilância faziam o seu trabalho e a segurança estava garantida. Suspirou. Talvez ele também devesse pensar em se afastar de tudo e aproveitar o tempo que lhe restava de vida em paz. Talvez devesse, realmente, mas sabia que não o faria. Por mais tentadora que a ideia fosse, não seria capaz de deixar seu posto. Morreria trabalhando, esse era o seu destino.
Aparatou bem no meio da sua sala de estar, ansioso por trocar as roupas de festa pelo seu velho roupão e saborear uma xícara de chá antes de ir para a cama. Afrouxou o nó da gravata e deu um passo em direção ao quarto. Então parou, petrificado. A rajada verde o atingiu antes mesmo que seu cérebro pudesse emitir o comando para sacar sua varinha. Quando desabou sem vida sobre o tapete da sala, era apenas um velho homem cujo destino se cumprira.
O mundo estava para desmoronar outra vez, Harry sentia isso na pele. De um momento para o outro tudo tinha se tornado irreal. Não era certo que Moody tivesse sobrevivido à guerra, ajudado a vencê-la para morrer dessa forma, ao sair de uma festa em que se comemorava exatamente a retomada da ordem no mundo bruxo.
Os bruxos cobravam do Ministro a captura dos últimos comensais. O que todos pensavam é que eles não deveriam poder resistir ao aparato montado para prendê-los, se eram poucos e estavam desorganizados. Então, o que faltava para que fossem descobertos e enviados para Azkaban? O golpe tinha sido duro, o Ministério estava em polvorosa. Se um funcionário do alto escalão tinha sido surpreendido dentro da própria casa, quem estaria seguro? Essas eram as questões que perturbavam a vida da maioria das pessoas, mas para Harry tudo estava sendo muito mais difícil. A morte de Alastor lhe trouxera recordações amargas e também o reencontro com a dor. Ver Lupin arrasado, saber que não haveria nada que pudesse dizer para aliviar o que ele sentia, também o deixava perdido.
Harry só ficara sabendo da morte de Alastor na manhã seguinte, ao chegar para o trabalho. Além do choque e da dor, sentiu culpa ao pensar no que fazia na hora em que o bruxo estava morrendo. Podia ser tolice, afinal, ele certamente não era a única pessoa que fazia sexo naquele momento, mas ainda assim sentiu-se mal. Para agravar o quadro, a preocupação geral com a sua segurança tinha aumentado. Harry sentia-se irritado com isso, não gostava de ser tratado como uma relíquia. Sabia que corria riscos, mas acreditava que eram os mesmos que os demais corriam. O discurso sobre o que representava para o mundo bruxo só o aborrecia, e ele chegou a discutir com Rony e Mione quando os dois foram ao seu apartamento depois do enterro, dispostos a levá-lo com eles ainda que contra a sua vontade. Molly e Arthur também tinham ido vê-lo, e ao final Harry estava tão cansado de argumentar que começava a considerar a possibilidade de mudar-se para Grimmauld Place, apenas para por um fim ao cerco dos amigos.
Precisava manter as coisas sob controle, não queria que a depressão se instalasse outra vez e o empurrasse em direção à bebida. Harry tinha plena consciência de que carregaria esse problema para o resto da vida, por isso estava realmente determinado a evitar situações que pudessem colocá-lo em risco. Seria capaz de viver em Grimmauld Place sem se deixar sufocar pelas lembranças da Ordem, de Sirius e Dumbledore? Considerava a possibilidade de tentar, mas sentia vontade de falar com alguém sobre isso. Não podia dizer nada sobre como se sentia a Rony e Mione sem mencionar seu problema com a bebida, e realmente não queria compartilhar isso ainda. Sem querer pensou em Draco, e surpreendeu-se ao pensar que ele era a única pessoa com quem poderia falar livremente sobre o assunto. Não só esse, mas vários outros.
Harry fechou os olhos e suspirou fortemente. Tinha dito ao loiro ao se despedirem pela manhã que não se veriam mais, sob nenhuma circunstância. A vida era realmente muito estranha, concluiu Harry James Potter ao apagar a luz do quarto e se enfiar sob os lençóis, enquanto pensava no quanto gostaria que Draco estivesse com ele nesse momento.
Seria decretado luto oficial pela morte de Moody, e não haveria expediente normal no Ministério da Magia nesse dia que se iniciava. Ainda era madrugada, o corpo tinha acabado de ser removido, e Lupin, que assistira à operação, estava agora diante da porta do gabinete do Ministro. Apesar do horário, o lobisomem sabia que ele estava lá dentro. Bateu e esperou durante alguns instantes. Quando ela se abriu, um dos assessores surgiu diante dele e, pela sua expressão, Lupin imaginou que estavam esperando por ele.
Ao entrar viu o Ministro deixar a cadeira que ocupava e vir caminhando em sua direção, com uma expressão hospitaleira estampada no rosto.
—Remus, meu amigo, como é bom ver você.
—Por que Moody morreu?
Seu tom foi seco, mas o Ministro, hábil no trato com as pessoas, respondeu com um sorriso e um gesto gentil, oferecendo a cadeira diante de sua mesa ao lobisomem, que ignorou tanto o sorriso quanto a oferta.
—Nós todos sabemos que não há ex-comensais perseguindo pessoas, que tudo isso não passou de uma armação para envolver Harry em uma causa e resgatá-lo do alcoolismo. Sabemos que Bertram Aubrey, nosso colega de trabalho e ex-auror, foi quem realizou o atentado à mansão Malfoy, atentado este que por um erro de cálculo quase terminou em tragédia. Sabemos também que foi ele quem sequestrou Draco e o manteve preso, assim como também sabemos que ele fez tudo isso cumprindo suas ordens, senhor Ministro. Devo entender que o senhor ordenou que Aubrey matasse Alastor Moody?
—Claro que não, Remus, meu amigo, eu...
—Eu não sou seu amigo, eu sou... Ou melhor,eu fui apenas um funcionário do ministério, estou aqui justamente para apresentar meu pedido de demissão.
—Não faça isso, por favor. Tudo não passou de uma grande tragédia, que eu tentei evitar a todo custo. Eu imploro, me ouça antes de tomar decisões precipitadas...
Algo no tom do Ministro fez com que a convicção de Lupin se abalasse. Tinha vindo preparado para não ouvir explicações tolas, pronto para qualquer eventualidade, inclusive sair do gabinete direto para Azkaban. Estava desapontado até a alma, cheio de rancor pelo sistema cruel que dispunha das pessoas como se fossem peças de um jogo de xadrez. Despedira-se de sua mulher e de seu filho em tom de adeus, e sabia que nesse exato momento Nympha estava em casa entregue ao desespero, esperando ansiosa por notícias. Agora, diante do Ministro e de sua aparente aflição, Lupin já não estava certo de que não poderia haver uma explicação para o que tinha acontecido. O ministro percebeu sua hesitação e aproveitou-se disso para falar.
—Nós entramos em desacordo com Aubrey, já faz alguns dias. Moody estava ciente disso, era ele quem estava encarregado de resolver a situação. Aubrey enlouqueceu, exigindo para si e para seus colaboradores benefícios e cargos que nós não poderíamos conceder-lhes sem cometer injustiças para com outros funcionários ou desorganizar o sistema. Tentamos negociar, oferecemos dinheiro, outras vantagens, mas ele não quis nos ouvir. Ameaçou levar a história sobre os falsos comensais aos jornais, e nós optamos por não nos curvar à sua chantagem. Então ele ficou furioso e simplesmente desapareceu, depois de dizer que faria com que nós nos arrependêssemos. E agora isso...
O Ministro abriu os braços, em sinal de impotência. O cérebro de Lupin trabalhava em um ritmo vertiginoso, mas ainda assim ele não conseguia assimilar o absurdo da situação. Tudo tinha começado errado, caminhado errado e, como era de se prever, terminado errado. Ele tinha sido contra desde sempre que se manipulasse dessa forma tanto a vida de Harry quanto as dos Malfoy, mas apesar de protestar em todas as ocasiões em que teve oportunidade, não tinha sido ouvido. E agora, tinham o resultado. Sentiu um grande cansaço se abater sobre ele, e só o que lhe veio à mente foi que não queria mais fazer parte disso.
—Essa armadilha idiota não passou de um grande tiro saído pela culatra, não é mesmo? Sua reeleição provavelmente foi comprometida por esse episódio, e eu creio que o seu objetivo ao armar toda essa encenação era conseguir outro mandato. Bem, o senhor o perdeu e Moody está morto; não houve lucro para ninguém no final.
Lupin mantinha seus olhos fixos no Ministro, e viu as maçãs do rosto dele se tingirem de vermelho.
—Foi uma má ideia, eu admito. E há sim, interesse de minha parte em ser reeleito, mas isso não significa que eu não me importe com o destino do mundo bruxo, ou que eu seja capaz de colocar acima dele os meus interesses pessoais. E é justamente por isso que eu lhe peço, não só que continue conosco, mas que assuma o posto de Alastor Moody.
Lupin balançou lentamente a cabeça, sem acreditar no que ouvia.
—Eu não posso mais tomar parte nisso, não depois do que aconteceu com Alastor. Foi uma morte vã, resultado de uma ação impensada, e eu não...
O Ministro o interrompeu.
—Eu prometo que você jamais precisará fazer qualquer coisa que vá contra os seus ideais. Ao contrário, poderá usar do seu bom senso para nos ajudar a manter as coisas em ordem e cuidar do nosso povo.
Lupin piscou, surpreso. Então, perguntou num tom firme.
—Minhas opiniões seriam consideradas nos momentos de decisão?
—Sim, seriam. Eu lhe digo que desse momento em diante não haverá mais manipulações, e repito que você jamais será induzido a agir contra os seus princípios. Aubrey ainda está lá fora, e precisaremos nos unir para capturá-lo. Você sabe a que tipo de informações ele teve acesso, e o quanto isso o torna perigoso.
Sim, Lupin sabia. Aubrey poderia atingir facilmente qualquer um deles, inclusive Harry e o próprio Ministro. Seria preciso reestruturar toda a segurança, trocar feitiços de proteção, refazer todo o trabalho ao qual Moody dedicara os últimos anos de sua vida. O que, aliás, já deveria estar sendo feito desde que começaram os problemas com o ex-auror. Mais um erro cometido, ao que parecia. Lupin balançou lentamente a cabeça e viu a expectativa no rosto do Ministro.
—Então, você aceita a oferta?
—Será exatamente como o senhor disse?
—Você tem a minha palavra.
—Nesse caso, eu aceito.
Era um final totalmente diferente do que ele ou Nympha teriam podido imaginar, e Lupin não estava certo de ter feito a escolha adequada. No entanto, não seria capaz de se afastar de tudo e simplesmente deixar o problema para que outros resolvessem, sabendo que pessoas a quem queria bem poderiam ser os próximos alvos do ex-auror. Apertou a mão que o Ministro estendia e foi cumprimentado também pelos assessores presentes. Era hora de ir para casa tranquilizar sua esposa e tentar dormir algumas horas para suportar o dia que viria. Já estava na porta quando se voltou.
—Qual era o cargo que Aubrey pretendia?
Viu Rufus Scrimgeour sorrir antes de responder.
—Ministro da Magia.
O lobisomem sorriu levemente, e então deixou o gabinete.
Se havia algo que não se podia negar era que Lucius Malfoy era um homem esperto e conhecia o bem mundo em que vivia. Ele tinha dito a Draco, ao saber sobre a morte de Moody, que isso acabaria se tornando um acontecimento favorável a eles. Haveria o remanejamento de pessoas para suprir a falta do velho Olho-Tonto, e embora houvessem inúmeros candidatos à vaga que surgiria, era grande a probabilidade de ser ele o escolhido.
Por essa razão, desde a hora em que chegara em casa, Draco ouvia o pai explanar sobre as pessoas de quem ele deveria se aproximar no velório e funeral, aos quais os Malfoy compareceriam, naturalmente.
Por mais que não se sentisse disposto depois da conversa que tivera com Harry, Draco tentava assimilar as informações do pai. Também queria esse cargo, por razões puramente pessoais. Precisava de proximidade e o trabalho no ministério lhe propiciaria oportunidades que dificilmente teria para estar ao lado de Harry em outras circunstâncias. Agora valia estabelecer uma estratégia, não queria impor sua presença de maneira a causar incômodo a ele, mas também não estava em seus planos aceitar passivamente o fim da relação que sequer tinham começado.
Viu Harry de longe em várias ocasiões ao longo daquele dia, e em todas elas desejou poder se aproximar e oferecer a ele algum tipo de conforto. O clima era de tristeza e indignação, e Draco se perguntou se a dor de Harry não o faria buscar consolo na bebida. Assim, passou todo o dia inquieto, impedido de se aproximar dele, e desejando ardentemente que ele conseguisse suportar mais essa perda.
Assim que Moody foi enterrado os Malfoy deixaram o cemitério. Draco sentia uma opressão indescritível, tinha visto Harry chorar como uma criança no momento em que o caixão baixou à sepultura. Sentiu-se partir por dentro, precisou fazer um esforço sobre-humano para não ir até lá e envolvê-lo em seus braços, levá-lo dali e cuidar dele até que tudo se acalmasse. Sentiu-se grato ao ver Lupin, que também chorava muito, afastar-se da esposa e dos amigos que o consolavam para abraçar Harry e confortá-lo.
Só se deu conta de que deveria estar traindo todas as suas emoções ao observar Harry quando seus olhos encontraram os de Hermione Granger. Sobressaltou-se e cumprimentou-a com um seco aceno de cabeça, que ela respondeu com um sorriso que lhe pareceu não só compreensivo como cúmplice, impressão que durou apenas um segundo. É claro que jamais teria a simpatia da Granger, afinal, ela era noiva do Weasley e deveria pensar exatamente como ele.
Deitado em sua cama, ainda vestido e calçado, Draco tentava imaginar o que Harry estaria fazendo nesse momento. Tinha visto quando ele saiu do cemitério com a Granger e o Weasley, e desde esse momento lutava contra a horrível sensação de ter sido excluído da festa. Só queria estar onde ele estivesse, nenhum outro lugar parecia interessante, nem mesmo seu quarto amplo, confortável e cheio de artigos de luxo. Trocaria tudo pela minúscula suíte do apartamento dele, pelas refeições feitas num nicho na cozinha, pela cama do herói.
As lembranças da última noite estavam vívidas em sua memória, bastava fechar os olhos para sentir o peso de Harry sobre o seu corpo, sentir-se revirado na cama por ele, ter suas pernas erguidas, passadas por sobre os ombros dele, senti-lo dentro de si. Loucas lembranças, isso era tudo o que ele tinha. Mergulhado nelas, assustou-se quando ouviu leves batidas na porta. Levantou-se para abrir e viu sua mãe. Ela trazia um recado de Lucius, que esperava por ele na biblioteca. Ia perguntar por que ela viera pessoalmente, ao invés de mandar um elfo trazer o recado, quando ela sorriu e acariciou suavemente seu rosto.
—Kingsley Shacklebolt está com seu pai lá embaixo. Parabéns, querido, pelo seu novo emprego no Ministério da Magia.
N/A: Pessoal, quero me desculpar pela demora em publicar esse capítulo. Eu travei por causa do desenrolar da situação política da fic; quando eu comecei a escrever, há cinco anos, eu provavelmente sabia o que eu ia fazer. O problema foi que eu esqueci tudo, e tive que replotar. Desculpem se não tiver ficado bom, aliás, eu sei que não ficou, mas já que vocês leram até aqui, continuem, tá quase terminando.
Beijos!
