A garota entregou a Draco o saco de papel com os sanduíches e os dois copos descartáveis; fez menção de dar a ele o troco, que o loiro recusou com um sorriso. Ela sorriu em resposta e colocou a gorjeta no decote, olhando-o de forma insinuante ao fazê-lo.

Draco surpreendeu-se, mas então se lembrou do dia em que estivera no café, logo após se mudar para o apartamento de Harry. Naquela ocasião chegara a considerar a possibilidade de sair com a garçonete trouxa para aliviar sua tensão. Era estranho pensar nisso agora e constatar como sua vida tinha mudado de forma drástica, em tão pouco tempo.

Enquanto andava em direção ao prédio trouxa, imaginava que Harry talvez não fosse querer recebê-lo. Tinha sido estranho o momento em que Noah Leach*, seu chefe no Departamento de Jogos e Esportes Mágicos, depois de passar boa parte da manhã rodando com ele pelo Ministério, o fizera entrar na sala em que Harry trabalhava e comunicara a todos que Draco era o mais novo funcionário do departamento que chefiava. A expressão do herói demonstrara surpresa e desagrado, e o loiro intuiu que naquele instante ele se sentiu acuado.

Por isso viera procurá-lo depois do trabalho, para dizer que não o importunaria nem o colocaria em qualquer tipo de situação embaraçosa, e que jamais misturaria assuntos pessoais com profissionais. E, é claro, também para vê-lo a sós. A química entre eles era tão forte que havia uma grande chance dessa visita resultar em mais uma preciosa migalha de amor.

Enquanto o porteiro anunciava sua presença, o loiro pensava que se havia um lugar no mundo onde se sentia em casa era esse prédio trouxa. O pensamento lhe pareceu tão absurdo que ele sorriu. O porteiro, depois de olhá-lo sem entender aquele súbito sorriso dirigido ao nada, autorizou-o a subir.

Quando o elevador abriu as portas no sétimo andar, Harry esperava por ele, muito sério. Equilibrando os copos de café e o saco com os sanduíches, Draco compreendeu que sua visita não seria longa.

—Ei!

—Ei. — O tom de Harry era frio. Ele fez uma pequena pausa, encarando Draco de uma forma que fez com que o loiro se sentisse extremamente desconfortável. —Eu tenho um compromisso, você devia ter avisado que viria.

—Desculpe, eu só pensei em passar e dizer a você que não é preciso ficar preocupado, o fato de eu estar trabalhando no Ministério não significa que eu vá te perseguir, ou te perturbar de alguma forma. Você sabe...

As palavras, que ele ensaiara mentalmente várias vezes, saíram atropeladas e soaram tolas, afinal, ele não contava em dizê-las assim, ainda dentro do elevador, segurando os copos que queimavam suas mãos. Harry não pareceu impressionado, apenas olhou-o com uma expressão de grande cansaço. O loiro sentiu um aperto fino no peito.

—Eu conto com isso. O ministério está mergulhado no caos e eu não gostaria de ter que deixar meu trabalho nesse momento, apenas por sua causa.

Sem saber o que responder, Draco balançou a cabeça. Ainda tentou pensar em algo que pudesse dizer para reverter a situação, mas não encontrou nada que julgasse capaz de vencer a fria determinação que via nos olhos esmeralda. Harry simplesmente não o queria por perto.

—Como eu disse, você não precisa se preocupar. Eu vou indo, agora. — Estendeu na direção dele o saco de papel e os copos. — Eu trouxe isso. — Ia dizer "para nós", mas desistiu.

Harry ficou imóvel durante alguns segundos olhando para o pacote, e Draco chegou a imaginar que ele fosse recusar, mas então ele agradeceu num tom quase inaudível e pegou os copos e os sanduíches, evitando olhar para o loiro ao fazê-lo. Quando percebeu que ele não diria mais nada, Draco apertou o botão correspondente ao andar térreo. Recuou até que suas costas tocassem o fundo do elevador, sem deixar de olhar para o herói, que finalmente levantou a cabeça e enfrentou seu olhar.

—Eu sinto muito. — O loiro o ouviu murmurar um segundo antes que a porta do elevador se fechasse.


—Você realmente não vai me dizer nada, não é?

Harry, que estivera com o pensamento distante, estremeceu e encarou Hermione, mas os olhos dela pareciam tão perscrutadores que, incomodado, ele desviou os seus.

—O que você quer que eu diga?

A garota suspirou, colocando sobre a mesinha o copo que segurava.

—Sabe, Harry, eu estou cansada de fingir que não percebo o quão diferente você está. Nós costumávamos dividir tudo, e eu quase podia adivinhar seus pensamentos. —Ela fez uma pausa — Na verdade, eu ainda posso fazer isso. O que torna tudo estranho é saber que você não quer mais compartilhar sua vida comigo e com Rony.

Harry se sentiu congelar. Não acreditava que a conversa tomava o rumo que ele vinha temendo há tempos. Não, isso não podia estar acontecendo justo nessa droga de dia, depois de todo o clima de desconforto no trabalho, tanto pela morte de Moody quanto pela descoberta sobre a contratação de Draco.

Draco. Mais uma vez reviu o brilho anormal dos olhos cinzentos e a decepção estampada no rosto do loiro, ao se despedirem há pouco. Tudo já estava ruim o suficiente, não havia a necessidade de que mais nada desse errado nesse dia. Tentando parecer impassível, encarou a amiga.

—Eu não sei sobre o que você está falando, Hermione, e não acho que hoje seja um bom dia para essa conversa...

—Eu sei que há algo acontecendo, e que, seja lá o que for, tem relação com Draco Malfoy. A verdade é que eu faço uma boa ideia do que seja, mas me entristece ter descoberto por mim mesma, ao invés de saber por você.

Harry piscou várias vezes, depois desviou o olhar. Como poderia negar? Ela era Hermione Granger, e a única coisa surpreendente ali era que essa conversa não tivesse acontecido antes. Sem saber o que dizer, não respondeu, desejando apenas que ela percebesse que tudo o que ele queria era ficar sozinho. Por sua mente passou como num flash a imagem de cubos de gelo caindo num copo, e quase pode sentir o cheiro do scotch.

—Me desculpe por colocar as coisas dessa forma, Harry, mas eu vi Draco saindo do prédio quando eu cheguei. Ele tinha os olhos vermelhos, e quando subi encontrei você calado, pensativo. Eu não quero invadir sua privacidade, mas há coisas que simplesmente não passam despercebidas.

A imagem de Draco indo embora voltou à mente de Harry. Por que tudo precisava ser tão difícil? Encarou Hermione.

—Se você não quer invadir a minha privacidade, o melhor que pode fazer é parar com esse assunto agora mesmo.

Seu tom foi um pouco mais seco do que ele gostaria. Hermione o olhou por alguns instantes, e Harry sustentou seu olhar. Não queria falar sobre Draco e não falaria, fosse com ela ou qualquer outra pessoa. Ela apertou os lábios e balançou a cabeça.

—Está bem, eu vou parar, mas saiba que tudo o que eu quero é te ver feliz; independente da pessoa que você escolher, eu estarei sempre por perto, te apoiando.

Ele se levantou e recolheu os copos sobre a mesinha, levando-os em seguida para a cozinha. Sentiu-se grato por ela não o seguir; falar com Hermione sobre Draco seria o mesmo que concretizar a presença dele em sua vida, e isso Harry não faria. Quando retornou à sala encontrou-a com um pequeno mostruário aberto sobre o sofá.

—Eu trouxe isso para você dar uma olhada, queria a sua opinião sobre esses tecidos. Rony e eu decidimos que, já que nossos padrinhos vão usar roupas iguais, é justo que seja algo que agrade a todos.

Harry se sentiu culpado pela segunda vez nesse dia. Tinha magoado Draco, agora fazia o mesmo com Hermione. Era uma sensação ruim, mas não havia outra opção. Sentou-se no sofá, e antes de olhar os tecidos segurou a mão dela.

—Eu não faço a menor ideia de quem será a minha noiva, ou mesmo se um dia eu terei uma, mas a minha madrinha eu já escolhi.

Era um lembrete da importância dela em sua vida, e um pedido velado de desculpas por não poder compartilhar o que vivia nesse momento. Quando Hermione o olhou de volta e sorriu, Harry soube que, mais uma vez, tinha sido compreendido e perdoado.


A vida aos poucos voltava ao normal, era o que pensava Nymphadora Lupin enquanto apagava a luz do quarto do filho, que acabara de dormir. Seguiu para a cozinha e começou a preparar a refeição que, mais uma vez, faria sozinha. Se antes Remus chegava tarde do trabalho, agora havia ocasiões em que nem voltava para casa.

Apesar de se preocupar o tempo todo com o marido e de sentir muito a falta dele, Nympha estava orgulhosa. Em pouco mais de um mês ele tinha conseguido restabelecer a ordem e as pessoas já não se sentiam tão inseguras. Bertam Aubrey, o traidor e assassino de Moody, ainda não tinha sido localizado, mas todos esperavam que isso acontecesse em breve. Parte da verdade tinha sido levada ao conhecimento do público, que sabia, por exemplo, que o ex-auror era quem vinha passando informações confidenciais aos seguidores de Voldemort, e que estava envolvido no assassinato de Alastor.

No geral as coisas estavam mais tranquilas, a população voltava lentamente a se sentir confiante e tudo caminhava para a estabilidade. De Hogwarts continuava chegando, mês após mês, a poção que amenizava o sofrimento de Remus durante a lua cheia. Teddy crescia forte e saudável, e fora as saudades dos que tinham partido e a falta que sentia de ter o marido por perto, Nymphadora Lupin não tinha nada do que se queixar.

Sabia que Remus estava se esforçando para reparar os danos causados pelos erros políticos cometidos no passado, e que muitas coisas já tinham sido mudadas, entre elas, a maneira como cuidavam da segurança de Harry. Não havia mais relatórios invasivos sobre sua intimidade, embora a vigilância continuasse a ser feita. A diferença era que o herói agora não só estava ciente disso como concordava com essa medida. Depois que Remus conversara longamente com ele, decidira inclusive voltar a viver em Grimmauld Place, para facilitar as coisas para todos. Nympha, orgulhosa, não pode conter um sorriso. Seu marido mostrava ao mundo que o diálogo ainda era o caminho mais curto para o entendimento.


Draco vivia um momento de reencontro com a velha melancolia e depressão dos tempos de escola. Era surpreendente para o loiro constatar que passara grande parte de sua vida sofrendo por Harry. Por sua cabeça passavam velhas imagens do tempo em que vinha para casa, nas férias, e a lembrança de como tudo lhe parecia desbotado e desanimador. O retorno à Hogwarts, ao contrário, era cheio de expectativa e ansiedade pela disputa com seu rival. Só hoje Draco se dava conta de que desde aquele tempo já precisava de Harry para se sentir vivo.

No ministério eles se viam com frequencia, encontravam-se o tempo todo pelos corredores e no elevador, mas também como nos velhos tempos, Harry estava fora do seu alcance.

Nunca mais estiveram a sós, e quando se viam no trabalho, após uma rápida troca de cumprimentos ignoravam-se imediatamente. Ainda assim Draco adorava quando o acaso fazia o herói cruzar seu caminho. Nessas ocasiões seu coração martelava com tanta força que ele tinha certeza de que todos podiam ouvi-lo. No entanto, em respeito ao acordo, agia como se fossem meros conhecidos. Tinha dito que não o procuraria e vinha cumprindo sua promessa, apesar da enorme falta que ele lhe fazia.

Dentro do Ministério da Magia as coisas se passavam exatamente com em qualquer outro lugar onde houvessem pessoas reunidas. As conversas corriam, as notícias chegavam, e assim o loiro tinha ficado sabendo que Harry andava saindo com garotas aleatórias. Não havia um nome, nem uma segunda vez com qualquer uma delas, e isso amenizava um pouco a dor dos ciúmes.

O herói estava realmente tentando seguir outro caminho, e Draco não sabia o que fazer. A possibilidade de se casar com a Greengrass já não lhe parecia tão remota, embora nem por isso fosse menos angustiante. Ao menos seu pai não o estava pressionando, mas Draco sabia que quando ele começasse não teria forças para resistir por muito tempo, afinal, não recebia mais as migalhas que antes o sustentavam. A cada manhã saía para o trabalho cheio de expectativas, pensando que teria pela frente um longo dia onde tudo poderia acontecer. Mas, invariavelmente, terminava sua noite diante do espelho, perguntando a si próprio quando admitiria sua derrota.

A resposta chegou em duas etapas, a primeira quando, no burburinho das conversinhas de escritório, soube que Harry estava saindo com uma nova garota, que dessa vez não só tinha um nome como também um tio, chamado Rufus Scrimgeour. Draco sabia perfeitamente que isso poderia não significar nada, mas ao mesmo tempo compreendia que se Harry buscava um brinquedinho descartável dificilmente o procuraria na família do Ministro da Magia.

Ainda estava sob o impacto da amarga novidade quando ouviu que o herói ia deixar a Londres trouxa e se mudar para Grimmauld Place. Foi nesse instante que ele compreendeu que tudo tinha realmente acabado.


Nada como o tempo para colocar em seu devido lugar as emoções desorganizadas. Harry sabia disso por experiência própria, e apostava que dessa vez não seria diferente. Estava sofrendo, sentia a falta de Draco, sentia a falta do álcool, e encarava os dois da mesma forma, como desafios a serem vencidos.

Ele só esperava que pudesse ser um pouco mais fácil livrar-se disso tudo. Harry imaginava que se estivesse vendo Draco não estaria sentindo tanta vontade de beber; só não tinha cedido a essa vontade por suspeitar que, bêbado, cairia facilmente em tentação e procuraria o loiro. Sonhava com ele, tanto dormindo quanto acordado, e preocupava-se com ele o tempo todo nesses tempos de instabilidade. Só não queria vê-lo mais, ou melhor, não desejava querer isso.

Apesar de estar mergulhado no trabalho, era difícil saber que Draco estava tão próximo, tão ao seu alcance. O loiro estava cumprindo sua promessa, e Harry não tivera qualquer razão para se sentir incomodado por ele.

Se durante o dia era mais fácil preencher sua mente com outras ideias, à noite, ao chegar ao pequeno apartamento, as lembranças o assaltavam. Para escapar delas começou a andar a esmo pelas ruas de Londres. Assistir a um filme, olhar vitrines, simplesmente caminhar, qualquer coisa que o distraísse valia. Numa noite, na fila do cinema, percebeu que uma garota o olhava. Olhou-a de volta e sorriu, mais por reflexo do que por qualquer outra razão. Ela se animou, e ele, ainda um pouco perdido, se deu conta de que, sem contar a prostituta dos dedos cheios de anéis, sua última vez com uma garota tinha sido com Gina. Talvez essa fosse a resposta, o reencontro com as formas e os encantos femininos. Talvez fosse apenas isso o que faltasse para exorcizar Draco definitivamente de sua vida.

Começou então sua maratona de corpos curvilíneos e cabeças ocas. No início a futilidade delas pareceu divertida, mas logo Harry estava cansado da falta de conteúdo das suas acompanhantes. Na cama as coisas fluíam melhor, especialmente se a garota fosse liberal. Ainda assim, não era a mesma coisa do que quando estava com Draco, nem seria jamais, ele teve que admitir ao lembrar-se da paixão com que o loiro se entregava a ele. Quando, ao final de algumas semanas, percebeu que comparava cada uma das suas acompanhantes com Draco, e que masturbar-se pensando nele era tão ou mais interessante do que se envolver com uma estranha a cada noite, compreendeu que aquilo não iria funcionar.

Desse minuto em diante foi tomado por uma inquietação terrível, agravada pelo fato de saber que Hermione o sondava o tempo inteiro. Ela nunca mais mencionara Draco depois daquela vez, mas parecia a Harry que ela podia acessar seus pensamentos, e no fundo deles, sempre havia o loiro. Por isso, quando olhava para amiga, ainda que não estivesse fazendo isso, acabava pensando nele. Teve medo de enlouquecer, andou irritadiço durante alguns dias, até a noite em que Lupin entrou em sua sala ao final do expediente e o convidou para jantar em sua casa.

Foi lá que Harry encontrou a solução para o seu problema. Era daquilo que ele precisava, do calor, da comunhão e cumplicidade de uma família. As horas que passou com os Lupin fizeram com que ele percebesse que estivera buscando na agitação do mundo o que só a tranquilidade de um lar poderia lhe proporcionar. A vida real era outra, baseada em sentimentos diferentes, e com objetivos claros, tais como sobrevivência e perpetuação. Tudo isso passava muito longe das loucas experiências sensoriais que vivera com Draco, e que, agora ele sabia, vinha buscando nas garotas com quem saía.

Gostaria de poder compartilhar isso com alguém, mas não se sentiu confortável em fazer isso com Lupin. Hermione não concordaria com ele, e falar com Rony estava fora de questão. O amigo, que participava de uma missão fora da Inglaterra, andava as voltas com as mudanças da própria vida. Rony era um homem digno, merecia a sorte de amar e ser amado por Hermione. Eles seriam felizes, Harry sabia disso, ambos mereciam essa felicidade. Ao contrário dele próprio, que só o que fazia era trafegar pela contramão da vida. Era tempo de tudo isso terminar. Se a paz e a dignidade não viessem espontaneamente para sua vida, Harry as construiria com as próprias mãos.

Conheceu Emily Scrimgeour** no ministério; achou-a agradável e fisicamente interessante, mas assim que virou as costas não voltou a pensar nela. Encontrou-a pela segunda vez numa festa, e nessa ocasião descobriu que ela era divertida. O terceiro e último encontro casual foi num jantar na casa do Ministro. Soube que ela sonhava em se casar e ter filhos, que o achava atraente, e que estava disponível. Convidou-a para jantar, deixando claro que sairiam como amigos, e no dia do encontro, para sua surpresa, não se entediou. Conversaram bastante, jantaram, e ao final despediram-se sem promessas nem expectativas.

Surpreendeu-se no dia seguinte com a repercussão do fato. Ele não sabia como as pessoas tinham descoberto sobre o jantar, mas ouviu piadinhas pelos corredores e teve que suportar o estranho mutismo de Hermione. Ela não quebrou seu silêncio nem mesmo quando soube que ele resolvera deixar o apartamento trouxa. No fim do dia, quando a maior parte das pessoas já havia saído, Harry a procurou para dizer que começaria a empacotar suas coisas nessa noite, e perguntar se ela não poderia ajudá-lo. Sem olhar para ele, Hermione respondeu, num tom frio, que tinha um compromisso. Em seguida pegou sua bolsa, despediu-se e saiu.

Harry ficou perplexo com a atitude da amiga. Pensou em ir atrás dela e tentar conversar, mas decidiu que seria melhor fazer isso na manhã seguinte, só por precaução. Hermione andava nervosa com todas as decisões sobre o casamento, e Harry sabia que ela também sentia falta de Rony.

A sala já estava quase vazia, e ele preparava-se para ir embora quando Draco surgiu de repente na porta. Aparições súbitas do loiro tinham o poder de descontrolar o herói, que para disfarçar seu nervosismo, começou a organizar alguns papéis sobre a escrivaninha mais próxima. Draco se aproximou e parou a dois passos dele.

—Eu preciso falar com você.

Ainda lutando para não demonstrar sua agitação, Harry olhou para o loiro.

—É algo relacionado ao trabalho, ou falaremos sobre quebras de acordo?

Viu Draco sorrir como costumava fazer nos velhos tempos, um riso de canto, curto e irônico. O loiro olhou-o bem dentro dos olhos antes de responder.

—Se você quiser poderemos falar sobre isso também.

Harry, que já tinha recuperado o controle, apenas balançou a cabeça. Os últimos funcionários despediam-se e deixavam a sala, de modo que quando indicou uma cadeira para Draco, estavam sozinhos. O loiro recusou e continuou de pé, olhando para ele. Harry suspirou. Já imaginava sobre o que ele queria falar e, estranhamente, não se sentia irritado por isso. Talvez isso se devesse ao fato de ele ter refletido bastante nos últimos tempos; por mais que essa conversa fosse uma quebra do acordo feito entre eles, Harry não podia negar que o loiro tinha direito a ela.

—Diga...

—Eu só queria entender as razões que levam você a agir dessa maneira, Harry. Eu não sou cego, eu sei que você também sente alguma coisa por mim, e sei que não se trata só de sexo.

Não, Harry já sabia desde algum tempo que não se tratava só de sexo.

—Não é só sexo. Eu tenho sentido muito a sua falta, em diversas ocasiões. Sinto falta do tempo em nós morávamos juntos, e com frequencia me pego pensando em algo que eu gostaria de compartilhar com você.

Draco passou lentamente a língua pelos lábios, e Harry percebeu que ele lutava para controlar a emoção causada pelas suas palavras.

—Nesse caso, por que nós não estamos juntos?

Os olhos azul-cinza estavam fixos nos seus, interrogativos. Harry engoliu em seco.

—Há coisas de que eu necessito, coisas que talvez você não compreenda. Para você é tudo muito fácil, Draco. Você sempre teve o seu lugar no mundo, e pessoas que cuidaram de você, enquanto eu nunca tive nada que me pertencesse realmente; tudo o que eu possuo é emprestado ou cedido. Eu nunca tive uma família de verdade, e preciso muito disso. Fui criado por gente que não me queria por perto, entrei em uma guerra quando ainda era criança. Eu não posso sair de toda essa confusão e escolher continuar a viver na anormalidade. Quero uma esposa, quero ver a barriga dela crescendo com meu filho dentro, quero reconhecer nele os meus traços misturados aos da minha esposa, quero dar a ele o nome do meu pai. Uma família normal, Draco. Eu quero apenas o que a maioria das pessoas, inclusive você, tem, e por esse motivo não consegue avaliar como é ruim não ter. Para que eu me sinta uma pessoa normal, preciso levar uma vida como a que meus pais, ou os seus, levaram. Não suporto mais ser apontado, não quero mais marcas que me coloquem em evidência como uma aberração. Eu superei a custo a cicatriz, Voldemort, a profecia, e agora que tudo isso acabou, só desejo me misturar à multidão e desaparecer em meio a ela.

Draco permaneceu em silêncio por algum tempo antes de responder.

—Eu entendo, sinceramente, e não espero que você abra mão disso por mim. Mas há algumas opções que você poderia considerar, e o que você quiser fazer, eu aceitarei. Se nós não pudermos ficar juntos oficialmente, eu não vou me importar. Se você precisar sair com garotas para manter uma fachada de heterossexualidade, eu saberei lidar com isso. Se quiser se envolver seriamente com alguém, eu serei capaz de suportar. Faça o que você precisar, Harry, case-se, tenha o seu James. Apenas não me afaste, eu preciso ver você com alguma regularidade. É só isso o que eu peço...

As últimas palavras, pronunciadas com a voz embargada de quem tenta conter o choro, atingiram Harry como um coice. O intenso brilho dos olhos de Draco provocou no moreno uma onda de carinho tão grande que ele precisou fazer um esforço enorme para não puxar o loiro e o beijar até que toda a dor daquele momento passasse. Nesse instante se deu conta da intensidade dos seus sentimentos por ele, e teve certeza de que felicidade era algo que, definitivamente, não tinha sido previsto para a sua vida.

—Isso não seria justo com nenhum de nós...

Se fizesse algum sentido agradecer pelo amor que ele lhe dedicava, se isso fosse aliviar o sofrimento de Draco, Harry teria agradecido cem vezes. Mas gratidão não era o que o loiro queria, provavelmente só o magoaria mais. Desejou ser capaz de desafiar o mundo para ficar com ele, mas sabia que preferiria enfrentar Voldemort outra vez a fazer isso. O loiro levou algum tempo para responder, e quando o fez parecia ter conseguido controlar sua emoção.

—Ok. É a sua vida, e você é quem decide. Só tente ser um pouco mais esperto do que você tem sido. A maioria das vadias que você tem fodido só te quer pelo seu status. Case-se com a Weasley, Harry, e aproveite para contar a ela e aos seus amigos que você é um alcoólatra. Você vai precisar da ajuda deles para lidar com isso.

Harry engoliu em seco. Eram verdades duras, saídas da boca de alguém magoado, mas nem por isso deixavam de expressar carinho. Era Draco Malfoy sendo Draco Malfoy, inconformado com uma decisão que para ele não fazia sentido, e foi isso o que Harry considerou. Sentiu vontade de abraçá-lo, de levá-lo para o seu apartamento. Era a sua vez de desejar loucamente uma noite de despedida, mas não ousou dizer nada, por saber que não tinha esse direito.

Assim, em silêncio, viu Draco fazer meia volta e deixar a sala.


* Inventei o nome, segundo a Wikipédia não há registros de quem seja o chefe desse departamento depois de Ludo Bagman.

**Inventei esse também! :D


Lu Potter - kkk... Obrigada por comentar! Eu também achei o capítulo passado muito pesadão, mas eu precisava mostrar esse lado da história. Acho que você também não deve ter gostado muito desse, mas enfim, não desanime, tem umas coisinhas legais para acontecer no próximo! :D

Beijos!