Grimmauld Place, nº 12. De lá Sirius tinha saído para enfrentar o mundo quando era jovem; de lá saíra para enfrentar a morte, anos depois. A casa velha, corroída, povoada de lembranças amargas esperava por Harry com um bônus: Kreacher. O desdém do elfo, presente em cada um dos seus gestos e palavras, entediava o herói. Depois de todas as mudanças operadas ao seu redor, deparar-se com alguém que ainda se mantinha preso às tolices de um passado equivocado era cansativo. Pensou em Draco e no quanto seria bom se ele estivesse por perto para ajuda-lo a lidar com o velho elfo. Sentiu um doloroso incômodo e suspirou fortemente para afastar a sensação. Se o rompimento tinha sido sua própria escolha, não cabia agora lamentar a ausência do loiro.

Ouviu um ruído leve e voltou-se, com a sensação de que veria Hermione parada, com os braços cruzados e um ar de censura, lendo seus pensamentos como se eles estivessem expostos numa legenda. Era mesmo ela; mostrava ao elfo onde colocar a caixa cheia de coisas trazidas do apartamento, parecendo muito concentrada nessa tarefa. Ela ainda estava aborrecida por causa de Emily Scrimgeour, e, com tantos acontecimentos se precipitando, Harry não tivera oportunidade de explicar-lhe que saíra com a sobrinha do Ministro apenas por amizade, e que não pretendia fazer isso outra vez devido à repercussão do fato. Tinha imaginado que poderiam conversar nessa manhã de domingo, enquanto ela o ajudava com a mudança, mas ainda não havia surgido uma oportunidade para isso. Sentia falta do calor da amiga, dos seus cuidados e até mesmo das suas intromissões.

—Bem, essa foi a última caixa.

Harry sorriu enquanto se aproximava dela.

—Vamos fazer um intervalo, vou pedir chá para nós.

—Desculpe-me, Harry, mas não poderei ficar mais. Tenho que me encontrar com o corretor, parece que ele descobriu uma casa do jeito que Rony e eu estamos procurando.

—Isso é muito bom, Hermione. Quer que eu vá com você?

Ela sorriu levemente, enquanto vestia o casaco.

—Não é preciso, Harry, há muito que fazer por aqui. Vejo você amanhã no trabalho.

Então, sem dizer mais nada ela se foi, deixando Harry sozinho com o elfo, os fantasmas de Grimmauld Place e a ausência de Draco.


Os dias estavam sendo difíceis para o loiro. Em casa tinham percebido seu abatimento e adivinhado a razão dele. Mas, ao contrário do que esperava, Lucius sequer mencionara o nome dos Greengrass durante aquela semana. Talvez isso se devesse a uma decisão dele próprio, em respeito aos sentimentos do filho, mas Draco intuía que tinha sido sua mãe a responsável pela trégua na batalha pelo seu noivado com Astoria.

Ir para a cama pensando em Harry, sonhar com ele, acordar e lembrar-se dele antes mesmo de abrir os olhos; passar todo o dia ciente de que apenas seis andares os separavam, e desejar, mesmo odiando-se por isso, vê-lo. Essa era essa a rotina de Draco; andar pelo ministério era uma agonia, não só pela possibilidade de encontrar o herói, mas também por ver pessoas ligadas a ele o tempo todo. Não havia muitas chances de conseguir esquecê-lo dessa forma.

No entanto, o loiro estava se esforçando para isso. A confirmação dos sentimentos de Harry não só não o aliviara como o deixara ainda mais dolorido e frustrado. Não o queria por seu heroísmo e força, nem por ele ser a lenda viva do mundo bruxo; queria-o como ele era, com toda sua limitação e fraqueza, com seu alcoolismo. Queria o homem por trás do herói, sabia o quanto precisavam um do outro. Poderia perdoar a falta de coragem, poderia compreender o desejo dele de fazer tudo como as outras pessoas faziam. Mas quando Harry não podia enxergar que eles eram diferentes dos demais, que tinham nascido para ser assim, e que, entre Sectumsempras e salvações, suas vidas se entrelaçavam estranhamente desde o início, Draco se perguntava se já não seria tempo de se livrar dessa obsessão.

Apesar de o ministério estar impregnado pela presença do herói, ainda era lá que o loiro conseguia preencher sua mente com outros pensamentos. Para sua sorte o departamento em que trabalhava estava, a pedido do Ministro, elaborando um campeonato de quadribol com o intuito de dar à população algo com que se distrair.

Draco fazia parte da equipe que atuava junto aos possíveis patrocinadores do evento. Já conhecia de longa data a maioria deles, por pertencer à elite do mundo bruxo. Convencê-los a investir seus galeões no campeonato era uma das suas principais tarefas, e ele se entregava a esse trabalho com prazer.

Entre os candidatos estava o amigo de infância Blaise Zabini. Ele era o proprietário, juntamente com a mãe, da marca mais consumida de cerveja amanteigada do mundo bruxo, mas apesar disso jamais se envolvera com o patrocínio de eventos de qualquer natureza. Draco tentava convencê-lo a participar, e para isso vinha mantendo contato frequente com ele.

Blaise não tinha, como Draco e sua família, mudado sua postura em relação ao governo. Embora alegasse não ser um separatista, defendia a tese de que a miscigenação acabaria por condenar a raça bruxa ao extermínio, acusando o Ministro de adotar uma postura que estimulava irresponsavelmente a união entre bruxos e trouxas. Assim, ele fazia parte de uma espécie de fraternidade, à qual se referia como O Clube. Esse grupo, que começara a se reunir logo após o fim da guerra, promovia reuniões frequentes onde jovens bruxos de sangue puro se encontravam e se divertiam. Havia festas, torneios de xadrez, concursos variados, com o único objetivo de estreitar relações entre os puros de sangue e fazer com que todos se conhecessem e mantivessem contato.

Zabini vinha tentando convencer Draco a ir aos encontros há algum tempo, mas o loiro, pela delicada posição em que sua família se encontrava depois da guerra, optara por se manter afastado. Agora, quando se via em posição de negociar, Blaise usava a possibilidade do seu patrocínio como moeda de troca. Consideraria a proposta de Draco, desde que ele participasse de algumas das reuniões do Clube.

—Nosso movimento é social, não político, Draco. Não é como se eu estivesse convidando você para uma reunião de comensais da morte.

O loiro, depois de conversar com seu pai, decidiu que participar de algumas poucas reuniões não afetaria a imagem dos Malfoy, uma vez que um dos assessores do Ministro fazia parte da fraternidade. Além do mais, faria isso por causa do trabalho, embora também fosse uma maneira de ocupar sua mente para impedir seu pensamento de voar para Potter. Assim, disse a Blaise que iria à próxima reunião, na noite seguinte.


Depois da primeira noite em Grimmauld Place Harry tinha se sentido tão perdido como se um pedaço seu tivesse sido deixado para trás, junto com o pequeno apartamento. Ao final do expediente viu-se adiando o momento de ir para a nova casa. Procurou por Lupin e ofereceu-se para trabalhar até mais tarde.

Queria falar com Hermione, não suportava mais o distanciamento dela, mas sabia que nessa noite ela iria olhar outra casa. Então trabalhou durante algumas horas, e quando imaginou que ela já deveria ter voltado, despediu-se de Lupin e seguiu para a casa da amiga. Sentia-se inseguro, não queria sucumbir ao desconforto e voltar a fazer idiotices. A última conversa com Draco martelava em sua mente, e mais do que nunca Harry soube que era hora de compartilhar seus problemas com alguém, ou correria o risco de tentar afogá-los em álcool.

Teve que esperar pela amiga por algum tempo, e quando ela chegou surpreendeu-se por encontrá-lo ali. Seu olhar atento o sondava, e Harry percebeu que ela se preocupava com ele. Isso o animou, fazendo-o reunir toda a sua coragem.

—Eu sei que você está decepcionada comigo, Hermione, mas hoje eu preciso muito estar com alguém que apenas me estenda a mão, sem julgamentos.

Ela o olhou e sorriu levemente, enquanto abria a porta.

—Você veio ao lugar certo. Entre.

Conversaram até muito tarde. Harry contou a ela tudo o que vinha acontecendo desde que recebera alta do hospital; falou sobre a bebida, sobre Draco, sobre sua decisão de abrir mão do loiro e sobre as razões que tinha para isso. Quando finalmente terminou, sentiu como se o peso de uma vida tivesse sido retirado dos seus ombros.

—Oh, Harry, eu sinto vontade de matar você por ter feito isso a si mesmo. Como você pode passar por tudo sozinho, quando nós estávamos tão perto de você?

Harry apenas sorriu, sem saber o que responder. Era disso que andara precisando, da solidariedade que via nos olhos dela, do amparo proporcionado pelo toque caloroso em sua mão.

—Nós vamos superar isso, Harry. Você vai ver, tudo vai ficar bem. Rony e eu... — Ela fez uma pausa breve e o encarou. — Você vai contar a ele, não vai?

Harry piscou antes de responder.

—Sobre a bebida, sim, mas não de imediato. Ele tem viajado com frequência, e eu não quero que faça isso preocupado comigo.

Hermione balançou a cabeça.

—Acho que você tem razão. Só não vejo porque não falar com ele sobre tudo. Somos adultos agora, Rony também amadureceu. Ele vai compreender, Harry.

Harry riu.

—Rony, compreender que eu esteja gostando do Malfoy? Será que estamos falando do mesmo Rony?

Hermione também riu.

—Certo, não será assim tão fácil, mas ele acabará aceitando isso com o tempo. Vocês são como irmãos, Harry, tudo o que ele quer é te ver feliz.

Harry suspirou.

—Hermione, Draco e eu não ficaremos juntos, ele vai viver a vida dele, eu a minha. Tudo o que eu preciso é esquecer, e isso vai acontecer, cedo ou tarde. Eu não vejo sentido em contar a Rony, isso só iria deixá-lo chateado.

Foi a vez de Hermione suspirar.

—Se você tem certeza de que não vai ficar com Draco, não há nada que eu possa fazer além de lamentar. E acho mesmo bom que essa história com a Scrimgeour termine. Não que eu tenha qualquer coisa contra ela, simplesmente não acho correto que vocês fiquem se encontrando dessa forma. Você é o herói do mundo bruxo, ela é a sobrinha do Ministro da Magia. As pessoas podem criar expectativas e fantasiar sobre isso, inclusive ela própria, ou o tio. —Ela fez uma pausa. — E concordo com Draco quando ele diz que não faz sentido vocês estarem separados.

Harry a encarou.

—Eu já decidi, Hermione, as coisas vão ficar como estão. E agora eu vou deixar você dormir um pouco, é tarde.

—Ok, se é o que você quer, eu só posso aceitar. Mas não acredite que eu vou deixar você sair a essa hora. Vou trazer cobertores e você vai dormir no sofá. E nem pense em recusar.

Ele riu.

—Ok, farei o sacrifício de passar essa noite longe de Kreacher e dormirei aqui.

Rindo, Hermione se levantou e foi buscar as cobertas. Ajeitou tudo com cuidados maternais, afofando os travesseiros e dizendo mais uma vez que, se ele tivesse fome, a comida estava na cozinha, e se precisasse de algo era só chamar por ela. Cercado de cuidados, ele não pode deixar de pensar que Rony tivera muita sorte. Beijou a amiga na testa antes que ela fosse se deitar, e em seguida aninhou-se entre os cobertores, sentindo-se leve como há muito não acontecia.


Draco terminou de subir as escadas que levavam à entrada imponente da casa. Estava numa das propriedades dos Zabini, onde a família costumava passar o verão quando o pai de Blaise ainda vivia. O loiro sabia da existência do local, mas nunca tinha estado lá porque a família já não a frequentava há muitos anos. Por essa razão tinha sido emprestada por Blaise para sediar O Clube.

Logo ao chegar pode ver representantes das mais nobres e antigas famílias do mundo bruxo espalhados pelo enorme salão, conversando em pequenos e animados grupos. Blaise o viu chegar e aproximou-se com um sorriso de satisfação no rosto. Depois de um afetuoso cumprimento, conduziu Draco ao meio do salão, e pedindo silêncio a todos, anunciou que naquela noite havia entre eles dois visitantes que, embora já fossem conhecidos de todos, fariam, como de praxe, um pequeno discurso de apresentação. Draco riu de leve e falou num tom que só Blaise pode ouvir.

—Devo contar a eles o motivo real da minha presença aqui nessa noite?

Blaise, rindo também, respondeu no mesmo tom.

—Creio que isso não será necessário.

Então Zabini estendeu o braço e Draco olhou na direção em que ele acenava para ver Astoria Greengrass sair de um canto da sala e caminhar em direção a eles. O loiro olhou para o amigo, que disse rapidamente, antes que a garota se aproximasse.

—Não foi minha ideia, Draco.

—Eu não imaginei que fosse.

Lucius Malfoy, pensou o loiro. Seu bom e velho pai, que jamais deixava de aproveitar uma oportunidade. Draco se sentiu um tolo por ter imaginado que ele o pouparia da pressão em respeito à sua dor; Lucius apenas mudara de tática. Apesar da irritação pelo pequeno golpe aplicado pelo pai, foi um sorridente e aparentemente tranquilo Draco Malfoy quem recebeu Astoria, e ao lado dela fez seu discurso de apresentação diante dos sócios.

Apesar de estarem entre conhecidos, Astoria e Draco acabaram passando toda a noite juntos, pelo fato de serem os únicos novatos na reunião. Blaise, talvez por solidariedade ao loiro, esteve com eles durante a maior parte do tempo. Falaram sobre diversos assuntos, sobre as reuniões, sobre Hogwarts, mas em momento algum o noivado foi mencionado.

Excetuando-se o fato de que eventos desse tipo pareciam ao Draco do pós-guerra extremamente fúteis, a reunião tinha sido até agradável. Blaise, que sabia tudo sobre a vida pessoal do loiro, salvou-o no único momento embaraçoso da noite, oferecendo-se para acompanhar Astoria até sua casa quando a garota anunciou que precisava ir embora.

Era nisso que Draco pensava ao chegar em Wiltshire. Apesar do horário, sabia que ainda encontraria o pai em seu escritório, e foi para lá que se dirigiu, depois de recusar a refeição oferecida pelo elfo. Bateu levemente na porta e entrou antes mesmo que Lucius o autorizasse a fazer isso. De sua cadeira, o pai o olhou e sorriu.

—Então, como foi a reunião?

—Exatamente como você planejou. Encontrei Astoria Greengrass e passamos a noite toda conversando.

O tom de Draco era frio, mas seu pai pareceu não notar isso.

—Que bom saber disso, Draco. Diga-me, vocês trataram de algo relacionado ao noivado?

Draco sentiu que seus olhos faiscavam ao encarar o pai.

—Não, e nem faremos isso, por mais que você crie situações para nos jogar nos braços um do outro.

Lucius Malfoy esteve observando o filho em silêncio por alguns instantes, depois ergueu uma das sobrancelhas e sorriu secamente.

—Você deveria me agradecer por isso, Draco. Tenho tentado fazer com que as coisas se resolvam de maneira agradável para todos. Eu diria que a sua situação é bem diferente da minha. Meu pai apenas me comunicou que eu ficaria noivo de uma das Black, e eu só soube que seria com sua mãe dias antes do pedido oficial.

—Os tempos mudaram, pai, ninguém mais faz as coisas dessa forma. As pessoas exercem o seu direito de escolha, e é isso o que eu quero fazer.

Viu o pai se erguer da cadeira e dar a volta à mesa, parando ao seu lado.

—Eu não lhe negaria isso, meu filho. Se não é com Astoria Greengrass, com quem você deseja se unir?

O tom de Lucius era desafiador, e Draco soube que não concluiriam essa conversa de maneira agradável. Ergueu-se também e encarou o pai.

— Com Harry Potter.

—Oh, Potter. Todos e todas o querem, meu filho, mas parece que, desafortunadamente, ele não quer você. Escolha outra pessoa, de preferência alguém com quem você tenha alguma chance.

Draco viu uma centelha de ironia brilhando nos olhos do pai, e também a determinação na sua expressão. Ia rebater, dizer que Potter o queria sim, apenas não podia aceitar esse fato, mas percebeu que isso soaria ridículo. Apertou os lábios enquanto sentia a velha dor tomando espaço dentro do seu peito. Não conseguiu responder, simplesmente deu as costas ao pai e caminhou em direção à porta. Já estava com a mão na maçaneta quando a voz de Lucius, num tom frio, o alcançou.

—Para mim não seria desagradável fazer a sua vontade, Draco, mas tudo indica que Potter fez outra escolha. Nós temos um nome a zelar, o futuro da nossa família está em suas mãos. Não perca o foco.

Nesse momento Draco percebeu que não poderia resistir à persistência do pai. Não tinha mais forças ou razões para isso, e soube que em breve cederia ao seu desejo.


Havia muito trabalho a ser feito naqueles dias. Tanto quanto os outros aurores, Harry se interessava pessoalmente pela captura de Bertram Aubrey, o assassino de Alastor. Estava sendo montada uma intrincada teia, que ultrapassava as fronteiras da Inglaterra, com a intenção de localizar e prender o ex-auror. Rony, que tinha viajado para investigar uma pista, voltara sem novidades, e já se preparava para deixar o país novamente atrás do rastro de Aubrey.

As atenções da equipe de segurança estavam divididas entre a captura do assassino e o campeonato de quadribol, que aconteceria dentro de poucos meses. O Ministro queria que cada partida fosse uma festa, e assim, atraísse bastante gente. Do ponto de vista da segurança isso era um problema, quanto maior o fluxo de pessoas maior a possibilidade de alguém conseguir se infiltrar nos estádios. Por isso o esquema para o evento estava sendo montado aos poucos, à medida que o Departamento de Esportes e Jogos Mágicos ia confirmando os locais onde as partidas aconteceriam. Esse trabalho interligava os departamentos de Harry e Draco, e o herói se sentia incomodado por isso, especialmente quando recebia algum relatório feito pelo loiro. Nessas ocasiões tinha que se policiar para não se perder na contemplação da letra bem feita, da assinatura elegante, do nome que fazia seu coração disparar. Sabia que se cheirasse o papel sentiria o perfume dele, e tinha que se controlar para não fazer isso.

Pequenos detalhes de sua vida tinham sido alterados. Incomodar-se pela forma com que Rony se referia a Draco era um deles. Sempre que algo fazia com que se lembrasse do loiro, Rony tinha uma piadinha ou um comentário maldoso na ponta da língua, e o herói se perguntava se o amigo estaria mais agressivo nos últimos tempos, ou se as coisas já eram assim antes e ele apenas não notava. Teve que admitir que tudo o que tinha relação com Draco agora o atingia, e que, provavelmente, Rony estava agindo como sempre o fizera. A diferença era que agora Harry não só percebia como se importava, e isso ameaçava se tornar um problema. Hermione já tinha notado, e quando o noivo dizia alguma coisa sobre Draco ela logo o repreendia, e depois, quando tinha oportunidade de estar sozinha com Harry, pedia a ele que não desse importância ao ruivo.

Cercado da presença de Draco por todos os lados, Harry evitava andar pelos corredores, especialmente nos momentos em que a maior parte dos funcionários estava chegando ou saindo do prédio. Quando tinha que ir a algum lugar, escolhia cuidadosamente o momento. Como nessa tarde, em que precisou ir até o sexto andar e deixou para fazer isso logo após o horário de almoço, quando os corredores estariam vazios. Entrou no elevador, e quando a porta já estava se fechando reabriu subitamente. Foi como se um alarme disparasse dentro do herói, e só o que ele pensou foi espero que não seja ele. No instante seguinte viu Draco materializado à sua frente, parecendo tão surpreso e perturbado quanto ele próprio. Blaise Zabini surgiu de repente ao lado do loiro e eles entraram juntos no elevador. Os três se cumprimentaram, um tanto secamente, e Harry se lembrou da última vez em que tinham se encontrado, no dia da festa do ministério e da morte de Moody. Aquela também tinha sido a última noite em que ele e o loiro estiveram juntos.

Em meio ao silêncio carregado de tensão, Harry tentava controlar suas emoções, o que era difícil com Draco tão próximo. Viu quando Blaise colocou a mão sobre o ombro dele e desviou rapidamente o olhar, percebendo que aquilo o incomodara. O elevador chegou ao segundo andar e a porta se abriu. Lucius Malfoy entrou, e depois de cumprimentar a todos e apertar o botão correspondente ao andar em que trabalhava, dirigiu-se a Zabini.

—Eu soube que você participará de uma reunião para definir os termos do patrocínio, Blaise. Parabéns pelo bom negócio!

—É cedo para me cumprimentar, Sr. Malfoy. Eu ainda não me decidi sobre isso.

Harry viu Lucius sorrir.

—A mim parece um bom negócio. Temos conversado bastante sobre esse assunto em casa, e Draco conseguiu me convencer.

Draco sorriu levemente; Harry notou que ele mantinha a cabeça baixa o tempo todo. Zabini riu.

—Ele tem se esforçado para fazer o mesmo comigo, mas eu já disse que não é com trabalho regular que ele conseguirá isso. As chances de ele me convencer são bem maiores depois do expediente, se é que o senhor me entende.

Os três riram, e Harry foi tomado por uma sensação de incrível desconforto. Zabini e Draco, juntos? Não seria algo surpreendente, pelo menos não tanto quanto o fato de Lucius saber e parecer aprovar. Harry se lembrava de Draco ter dito que o pai estava ansioso por uma aliança com os Greengrass. Talvez Zabini também servisse, era um sangue-puro tão rico e esnobe quanto os Malfoy. Harry sentiu uma pontada de decepção mesclada à raiva, e mal ouviu quando Lucius se despediu ao sair. Então era assim? Num momento Draco lhe fazia juras de amor e no outro estava de caso com Zabini? Sentiu-se um perfeito idiota por ter se deixado envolver pelo loiro, por ter acreditado nos sentimentos dele. Aproximou-se da porta de modo que eles ficassem às suas costas, agora eram apenas os três no elevador. Não queria vê-los nem ouvir o que diziam, só queria sair dali o quanto antes. Assim que as portas se abriram no sexto andar ele deixou o elevador sem sequer se despedir.


A família Malfoy vinha lentamente mudando sua imagem perante a sociedade bruxa, e muitos dos que antes os rejeitavam pela aliança com Voldemort começavam a vê-los como grandes bruxos do bem. Era a isso que Draco atribuía a paciência dos Greengrass, afinal, não faltavam a eles opções de casamento para Astoria. No entanto, ainda esperavam por ele.

Se os Greengrass demonstravam paciência, o mesmo não acontecia com Lucius. Depois da última conversa sobre o noivado, não se passara um dia sem que ele cobrasse de Draco uma decisão sobre a garota. Se o loiro analisasse friamente a situação veria que não havia mais motivos para adiar o compromisso, mas no fundo ainda alimentava uma esperança louca de que Harry decidisse assumir o que sentia por ele.

Não que houvesse qualquer indício de que isso fosse acontecer. Ao contrário, nos últimos dias o loiro sequer o vira. Era apenas uma esperança vã, e por mais que tivesse consciência disso, Draco simplesmente não conseguia arrancá-la de dentro de si. Aceitar ficar noivo equivaleria a desistir de Harry, e ele não estava pronto para isso. A prova tinha sido o encontro no elevador. Apesar de tentar não se perturbar pela presença dele, o loiro sentira seu coração martelar com tanta força que não sabia como ele não arrebentara.

Continuava a frequentar as reuniões com Zabini e frequentemente encontrava Astoria. Olhar para ela tinha o poder de fazer com que pensasse em Harry por associação de ideias, e isso tornava muito incômodos para ele os momentos em que passava no clube. Blaise sabia disso, e Draco teve certeza de que foi essa a razão que o fez, finalmente, decidir-se a patrocinar o campeonato.

Dessa forma Draco pode fechar com chave de ouro sua participação na fase de negociação com os patrocinadores. Os galeões dos Zabini estavam na mira do ministério desde o início, e todos sabiam que sem a atuação do loiro o negócio não teria sido fechado. Lucius, orgulhoso, se pavoneava pelos elogios recebidos pelo filho, enquanto Draco não conseguia deixar de pensar que trocaria todo esse reconhecimento por um pequeno espaço na vida de Harry.


—Tudo isso é ridículo. Zabini só vai patrocinar esse evento porque está dormindo com Draco.

Hermione fez uma expressão que mesclava ironia e espanto.

—Eu acho que temos alguém com ciúmes por aqui...

Harry riu alto, tentando parecer sarcástico.

—Eu? Por mim Draco pode transar com todos os caras que ele quiser, Hermione. Isso não me interessa. Eu só não gosto de ver as pessoas elogiando o bom trabalho dele, quando tudo o que ele fez para convencer Zabini foi... Bem, você sabe o que eu quero dizer.

Ela o encarou, agora séria. Estavam esperando por Rony, que tinha ido à sala de Lupin, para depois seguirem para a Toca, para a comemoração da entrada de Gina no time das Harpias.

—Eu sei exatamente o que você quer dizer, Harry, e isso me parece não só ridículo como também injusto. Não foi apenas Zabini que Draco conseguiu convencer, ontem mesmo ouvi Leach dizendo que ele é o responsável pela maior parte dos contratos de patrocínio do campeonato.

Harry sabia que ela estava certa, sabia que estava se roendo de ciúmes e por isso sentia necessidade de ofender o loiro, de diminuí-lo aos olhos do mundo. Olhou para Hermione com sensação de que, mais uma vez, ela lia seus pensamentos. Suspirou pesadamente, vencido.

—Eu sei disso. Ele fez um bom trabalho, eu concordo. Mas ele está dormindo com Zabini.

Hermione cruzou os braços e o encarou.

—E se estiver, Harry? Isso não deveria ser tão importante, afinal, você o mandou embora. Você não tem o direito de sentir ciúmes nem de ofendê-lo por ele estar com outra pessoa.

—Eu não estou com ciúmes, Hermione. Só acho que ele não foi sincero. Numa noite estava apaixonado, tudo o que ele queria era ficar comigo; na manhã seguinte já estava dormindo com Zabini. Parece que ele não gostava tanto assim de mim...

Viu Hermione rolar os olhos, impaciente.

—Harry, quantas vezes você o rejeitou? Ou você achou que ele ficaria eternamente à espera de uma decisão sua? Se ele está seguindo outro caminho, ótimo. Não era isso o que você queria?

Sim, era isso o que ele queria. Quando disse a Draco que eles não ficariam juntos sabia que a vida do loiro seguiria outra direção. Só não tinha imaginado que essa direção conduziria a Blaise Zabini. Quando começara o relacionamento entre eles? Era difícil pensar nos dois juntos sem imaginar que já havia algo antes. Sentia-se tolo, sentia-se usado, e tudo o que queria era esquecer que havia no mundo alguém chamado Draco Malfoy.

—Era exatamente isso o que eu queria, Hermione.

—Que bom! Então não reclame, e pare de agir como se você estivesse sendo traído.

Harry ia contestar, dizer que ela estava louca por pensar que ele se sentia traído, mas Rony entrou de repente na sala.

—Ok, pessoal, vamos ter que pegar Nympha e Teddy em casa, Remus só vai para a Toca mais tarde. Acho bom irmos depressa, vocês conhecem a minha mãe...

Harry, tentando disfarçar sua irritação, voltou-se para o amigo.

—Nós já estamos prontos, só estávamos esperando por você.

Deixaram juntos a sala dos aurores. Como se não bastasse o fato de estar indo para a casa de Gina, Harry sabia que também teria que suportar por toda a noite a detestável expressão de triunfo de Hermione. Suspirou. Essa prometia ser uma longa noite.


Pessoal, desculpe pela demora em publicar esse capítulo. Prometo que isso não acontecerá mais, ok? Beijos!