DIGA NÃO AO CYBERBULLYING
Remus Lupin observava os relatórios à sua frente e não conseguia se decidir sobre o que deveria fazer nesse momento. Os custos da "Operação Aubrey" eram altos, mas apesar disso não havia qualquer pressão no sentido de se conter esses gastos. O Ministro lhe dera carta branca para agir e sequer lhe cobrava resultados, o que era bastante incomum.
Isso deixava o lobisomem numa posição desconfortável, afinal, não lhe parecera inicialmente tão difícil localizar um grupo pequeno, liderado por um bruxo que perdera o controle sobre seus atos. A população, que conhecia parte dos fatos, estava atenta e tentava ajudar. No entanto, as buscas vinham se mostrando infrutíferas, apesar das pistas que surgiam o tempo todo.
A preocupação de Lupin não tinha relação apenas com as finanças do Ministério, sobrecarregadas pelo custeio do Campeonato de Quadribol. Ele também não se sentia satisfeito por expor seus aurores a essa corrida louca pelo mundo, atrás de pistas que ao final não resultavam em nada.
O lobisomem pensava em Alastor e tentava imaginar o que ele faria se ainda ocupasse seu posto. Era difícil não se sentir inseguro em algumas ocasiões, e Lupin não deixava de pensar que, por mais que o amigo tivesse sido surpreendido e morto dentro da própria casa, tinha sido sempre muito mais competente e intuitivo do que ele próprio.
Enfim, a responsabilidade estava sobre os seus ombros agora, e por mais que lhe parecesse pesada em alguns momentos, Lupin sabia que não havia ninguém que pudesse cuidar disso com o mesmo interesse que ele tinha, e a esse pensamento lembrou-se de Harry. Especialmente depois que Teddy nascera o lobisomem se sentia responsável pelo filho de James. Considerava seu dever, apesar de Harry já ser um adulto, ajuda-lo e protegê-lo, da mesma forma que, caso algo lhe acontecesse ou à Nympha, gostaria que fizessem com seu filho.
Quando Harry o procurou e falou claramente sobre sua relação com o álcool Lupin soube que essa questão, a mais preocupante de todas, estava resolvida. Vê-lo admitir não só o problema, mas também que não seria capaz de lidar com ele sem a ajuda dos amigos tinha sido uma grande alegria. Só o que faltava agora era que ele definisse sua vida pessoal, mas para isso não havia pressa. Bom observador, mesmo sem jamais ter ouvido dele uma única palavra sobre o assunto, Lupin sabia que esse era o campo em que a vida de Harry estava tumultuada, e que havia uma grande chance de ele fazer para a sua vida uma opção diferente da que realmente desejava. Enfim, não podia fazer nada a esse respeito, a não ser torcer para que, quando chegasse o momento, ele escolhesse com sabedoria o seu caminho.
Mas agora não era hora de pensar em nenhuma dessas coisas. Era o dia em que o Campeonato de Quadribol seria oficialmente apresentado ao público, e era nisso que deveria se concentrar. Ouviu uma leve batida na porta antes que um dos assessores do Ministro entrasse para fazerem, juntos, a última conferência do esquema de segurança do evento.
—Se Angelina confirmar sua participação completaremos os dois times! Wow!
Harry e Hermione riram diante empolgação de Rony, que pulara socando o ar ao concluir sua frase. Seria mesmo bom se o tão sonhado jogo, planejado por um grupo de ex-estudantes de Hogwarts, acontecesse. Harry mal podia se lembrar da última vez em que disputara uma partida de quadribol.
—Ela sabe que na próxima semana Gina estará viajando para jogar pelas Harpias?
Hermione deu uma olhada através do vidro da porta, que refletia a imagem dos três, vestidos formalmente. Vinham de Grimmauld Place, onde tinham se encontrado para chegarem juntos à festa.
—Angelina? Quadribol? Ela sabe sobre cada partida entre amigos realizada ao redor do mundo, Hermione!
Rony deu uma risada e um tapinha no ombro de Harry, que riu em resposta. A verdade é que desde que a palavra quadribol tinha sido mencionada, seu pensamento voara para Hogwarts e o levara a Draco. Aliás, praticamente qualquer coisa era capaz de provocar nele lembranças do loiro. A voz de Hermione o trouxe de volta à realidade.
—E lá estão eles...
Do outro lado da porta de vidro, como mariposas atraídas pela luz, repórteres e fotógrafos se amontoavam e eram contidos por agentes de segurança, que formavam com seus corpos uma barreira, criando um caminho para que as celebridades presentes à festa pudessem entrar no salão. Harry sentiu o velho calafrio ao vê-los reunidos como num enxame pronto para o ataque. Sentiu a mão de Hermione apertando a sua, enquanto o segurança abria as portas e o ar era preenchido pelo som do alvoroço dos repórteres. Respirou fundo, enquanto ouvia Rony dizer num tom baixo.
—Apenas sorria e siga em frente, e amanhã você estará lindo na primeira página de todos os jornais.
Rindo, os três avançaram pelo hall, sob a luz dos flashes que pipocavam incessantemente. Harry ouvia seu nome ser chamado de todas as direções e olhava em volta, sorrindo e acenando, ignorando as perguntas que lhe faziam. A imprensa teria o seu momento, logo após os discursos, e até lá ele não precisaria se preocupar com ela. Foi com alívio que transpôs a porta do salão, deixando atrás de si a nuvem de repórteres.
Requinte e bom gosto estavam presentes na decoração do salão, que já estava cheio. Cada mesa, preparada para receber doze convidados, estava disposta seguindo a orientação do departamento em que Harry trabalhava. A principal delas, na qual o Ministro, que chegaria minutos antes de discursar, se sentaria, e onde estariam ele próprio, Lupin, Shakclebolt e alguns dos patrocinadores do evento, era o alvo principal da vigilância.
Próxima a ela ficava a mesa ocupada por Leach e funcionários do seu departamento, além do restante dos patrocinadores. Era lá que Draco se sentaria, assim como Blaise Zabini, por isso Harry evitou olhar na direção dela ao entrar. Uma mesa tinha sido reservada para a imprensa, e outras sete para os demais convidados.
Seguiu em direção ao lugar que ocuparia, separando-se de Rony e Mione, que foram para a mesa onde Arthur, Molly e Gina já se encontravam. Harry os cumprimentou com um aceno de mão, e se viu de repente cercado de gente que tinha deixado seus lugares para vir cumprimenta-lo. Por que era assim tão importante para as pessoas tocar nele, falar com ele? Harry não compreendia, por mais que tentasse. Ainda não tinha se acostumado a esse assédio voraz, e em seu íntimo intuía que, provavelmente, jamais se acostumaria.
Conseguiu afinal livrar-se de todos e chegar ao seu lugar, para só então se atrever a voltar a cabeça na direção da mesa vizinha. Sentiu uma espécie de choque percorrer seu corpo ao encontrar um par de olhos azul-cinza, fixos nos seus. Draco estava, como todos os presentes, vestido formalmente, e Harry não pôde deixar de pensar que jamais seria capaz de usar qualquer coisa que o fizesse parecer tão elegante, tão natural, tão...
O pensamento não chegou a se formular, a mão de Blaise pousou suavemente sobre o ombro do loiro e isso fez com que Harry se sentisse incrivelmente mal. Desviou o olhar, a tempo de assistir à entrada de Emily Scrimgeour, que vinha sorridente em direção à sua mesa. Enquanto se erguia para recebê-la, Harry pensou que teria que providenciar uma acompanhante para o próximo evento, ou ficaria cada vez mais difícil desfazer a impressão de que havia algo entre a sobrinha do Ministro e ele.
—Olhe.
O toque em seu ombro e o alerta de Blaise fizeram com que Draco voltasse a cabeça na direção em que o amigo olhava. A vadia Scrimgeour, usando saltos altíssimos e um vestido justo de tafetá azul, seguia bamboleante e sorridente em direção a Harry. Draco suspirou.
—Você não é o único incomodado aqui.
Um discretíssimo aceno de cabeça de Blaise conduziu o olhar do loiro à mesa onde os Weasley se encontravam. A ex-namorada de Harry parecia hipnotizada; olhava fixamente para a mesa onde o herói galante afastava a cadeira para que a princesa Scrimgeour se sentasse. Draco desviou o olhar e permaneceu em silêncio. Sabia que teria que passar pelo menos mais duas miseráveis horas nessa festa, até que o Ministro chegasse para discursar, tirar suas fotos, falar com a imprensa, e essa perspectiva o desanimava por completo.
Draco sentiu-se feliz ao ver Leach, que segundo o cerimonial abriria os discursos, dirigir-se ao palco montado diante das mesas. Quanto mais rápido tudo começasse, mas rápido acabaria. Mas por mais que tentasse se fixar no que acontecia no palco, era para a mesa de Harry que a atenção do loiro estava voltada. Poderia dizer exatamente quantas vezes ele sorrira, quantas vezes se erguera para um cumprimento, além de tudo o que ele comera e bebera.
Blaise foi chamado ao palco, e assim que Draco terminou de assistir ao discurso do amigo, resolveu sair um pouco do salão para descansar da cerimônia longa e entediante. Seguiu pelo corredor que levava aos banheiros, e ao sair de lá viu a escada que dava acesso ao andar de baixo, onde estavam os materiais de suporte do evento. A porta de acesso a essa escada deveria estar trancada, por isso ele resolveu descer e verificar se alguém estava lá, ou se simplesmente tinham esquecido a porta aberta. Não encontrou ninguém no andar de baixo, e viu que já não havia material algum na sala destinada a estoca-lo.
—Onde está Zabini?
Draco estremeceu ao ouvir a voz. Voltou-se e sentiu a aceleração do seu coração ao ver Harry parado na porta, olhando para ele.
—Eu não sei, ele não estava na mesa quando eu saí.
Harry o encarou por alguns instantes e veio se aproximando, enquanto falava. Nesse intervalo Draco registrou que o cabelo dele tinha crescido alguns centímetros, que ele tinha um pequeníssimo corte no queixo, provavelmente de se barbear, e que de perto ele parecia absurdamente irresistível.
—Eu sei, eu vi que ele saiu pouco antes de você. Vocês resolveram procurar um lugar reservado, certo?
Draco o olhou por alguns instantes, sem conseguir compreender o sentido daquelas palavras. Então percebeu o que Harry insinuava.
—Blaise e eu?
Sorriu, divertido. Harry ainda o encarava, muito sério.
—Sim, você e seu namorado, amante, ou qualquer que seja o termo que vocês usem para designar sua relação.
—Amizade, Harry . Esse é o termo que nós usamos para designar nossa relação.
Viu o herói rir, um riso curto e seco.
—Oh, naturalmente. Mas isso não interessa. O que importa é que você saiba que, por muito excitante que tenha sido a ideia de ficar com ele numa sala vazia durante a festa, não vai acontecer. Vocês terão que procurar outro lugar para transar.
—Você ficou louco, Harry, ou andou bebendo? Blaise e eu? De onde você tirou essa ideia?
No exato instante em que fechou a boca Draco se arrependeu por mencionar a bebida. Harry o encarava, muito sério.
—Eu não bebo mais, Malfoy. Não que isso interesse a você, naturalmente.
—Naturalmente. Da mesma forma que minha vida particular não é assunto seu.
Mais uma vez arrependeu-se por ceder ao impulso de trocar palavras ríspidas com Harry. Há quanto tempo não se falavam? Respirou fortemente, sentindo o coração bombeando o sangue com violência, e percebendo que raciocinar nessas circunstâncias era algo bastante complicado.
—Sua vida privada não, mas o seu desrespeito é assunto não só meu como de todos os presentes.
—Desrespeito? Sobre o que, exatamente, você está falando, Harry?
Harry riu, irônico.
—O que você faz aqui, sozinho nessa sala vazia? Pensando na vida? Zabini deve ter uma casa, não? Ou transar lá já não é tão emocionante?
Draco balançou a cabeça, incrédulo. Começava a perceber que estava lidando com uma real e inesperada crise de ciúmes de Harry James Potter.
—Não seja tolo, Harry. Eu só saí um pouco, estava cansado de todos aqueles discursos. Blaise e eu...
Interrompeu-se, sem conseguir conter o riso. Harry, irritado, aproximou-se de uma vez e o empurrou.
—Ei!
Draco sentiu suas costas se chocando contra a parede. Teria protestado com mais veemência se Harry não estivesse tão ao seu alcance, se o cheiro dele não penetrasse pelas suas narinas, deixando-o louco de vontade de matar as saudades que sentia. Mas o que imobilizava o loiro era, principalmente, a felicidade por ver o herói morto de ciúmes.
—Você não precisa mentir para mim, Draco. Eu sei exatamente do que você gosta, e sei também que não sou o único que pode te oferecer o que você quer. Ontem fui eu, hoje é Zabini, amanhã será outro qualquer, certo?
Draco nunca tinha imaginado que um dia veria Harry perder a cabeça dessa maneira. Era tão bom que o loiro desconsiderou a ofensa contida nas palavras dele. O herói tinha uma expressão estranha, a fisionomia crispada num ricto de deboche. Seus rostos estavam muito próximos, e o loiro, acuado contra a parede, estava preso entre os braços esticados dele.
—Eu não vou repetir tudo aquilo que você já sabe, Harry.
O outro riu, sarcástico.
—Eu não sei de nada, Draco. Eu acreditei que soubesse, acreditei que você sentisse algo por mim, mas descobri que eu estava apenas bancando o idiota.
Mesmo essa postura agressiva não conseguia provocar no loiro nada além de uma vontade quase incontrolável de rir. Harry sentia ciúmes, e nada no mundo poderia ser melhor do que isso. Conteve-se a custo, e o encarou.
—Você sabe exatamente o que eu sinto, e também que está em suas mãos decidir o que acontecerá. Eu estou pronto, Harry, e caso tenha se esquecido, disposto a te aceitar da maneira que for mais conveniente para você.
Os olhos esmeralda luziram. Draco viu o conflito estampado neles e na tensão que agora contraía a fisionomia de Harry.
—Eu já disse que não existe essa possibilidade. Eu posso controlar a minha vida, Draco, e também vou aprender a controlar isso que eu sinto por você, pode acreditar.
Draco apenas fixou as pupilas esmeralda. Sim, ele acreditava, aliás, não tinha a menor dúvida de que Harry seria capaz de condenar a ambos ao inferno em nome da "normalidade" que tanto desejava para sua vida. Sua empolgação pela demonstração de ciúmes começou a desaparecer.
—Não existe qualquer razão válida para isso, Harry. Você é livre, eu também sou. Você me quer, da mesma forma que eu quero você.
—Tudo o que você quer é se divertir, Malfoy, e por mais que eu esteja com raiva por você estar trepando com Zabini, no fundo sei que foi para coisas como essa que você nasceu. Futilidade, sexo descompromissado, arrogância, esse é o seu mundo. Não valeria a pena me envolver com você, mesmo que eu pudesse fazer isso. Tudo o que eu quero é me esquecer da sua existência.
Draco balançou lentamente a cabeça. De tudo o que Harry dissera o que parecia pulsar em neon era a frase "mesmo que eu pudesse".
—Acredito que você vá conseguir, você sempre consegue o que quer. — Encarou Harry, ciente de que ele poderia notar a repentina frieza em seus olhos. — Acho melhor voltarmos lá para cima.
Harry continuou imóvel, olhando-o. De repente, riu.
—Claro, Zabini está à sua espera. Melhor não fazê-lo esperar, não é?
—Exato, eu não quero fazê-lo esperar. Você me permite?
O loiro apontou para os braços que o aprisionavam. Harry permaneceu imóvel, perfurando-o com um olhar homicida.
—Claro que permito, corra para o seu amante. Só não ouse mais dizer qualquer coisa sobre seus sentimentos. Aliás, deve ter sido bem divertido conseguir quebrar a minha resistência, não é mesmo? — Um sorriso cínico se desenhou nos lábios dele, enquanto os cintilantes olhos esmeralda perfuravam Draco. —Sexo foi tudo o que você sempre quis, e agora eu posso ver que não era exatamente de mim que você gostava.
Nesse momento Draco compreendeu tudo. Enxergou com uma clareza assustadora o jogo que ambos vinham fazendo. Harry o queria, mas nunca dava o passo que faltava em sua direção; ficava sempre à espera de uma situação que lhe permitisse justificar-se consigo próprio mais tarde. O loiro percebeu que vinha fazendo sua parte nesse jogo, e soube nesse instante como tudo terminaria. Soube que diria o que ele precisava ouvir, que rastejaria até conseguir convencê-lo dos seus sentimentos, e que depois eles transariam rapidamente ali mesmo, naquela sala vazia. No entanto, como se tivesse repentinamente se desligado de todas as emoções, compreendeu que assim que Harry descarregasse sexualmente sua raiva e se visse livre dos ciúmes, tudo voltaria a ser como antes. Ele jamais se permitiria viver o que sentia, e a não ser por trepadas esporádicas e com sabor de despedida, nunca se deixaria realmente envolver. O loiro encarou os olhos esmeralda.
—Você está certo, Harry. Eu gosto mesmo dele, gosto do tamanho, da espessura e do cheiro, da forma e da cor, gosto do sabor. Gosto quando você me revira sobre a cama e o enfia em mim em posições variadas.
Levou a mão ao meio das pernas de Harry e tocou-lhe o membro. O herói estremeceu e gemeu de leve. Draco continuou falando em um tom baixo, quase sussurrado, enquanto o acariciava.
—Eu gosto de alternar beijos entre ele e a sua boca, eu gosto dele dentro da minha boca, gosto quando você o coloca até o fundo da minha garganta, você sabe disso.
Fez uma pausa, observando a respiração acelerada de Harry e a rigidez do seu membro sob as calças. Então, com um movimento brusco, afastou os braços que o aprisionavam. Deu um passo que o deixou colado ao herói e mordeu levemente sua boca, enquanto lhe desabotoava as calças. Harry aproveitou para puxa-lo para um beijo furioso, e trocaram de posição. Nesse momento era o herói quem estava contra a parede, enquanto Draco voltava a lhe acariciar o membro, agora liberto. Os olhos de Harry brilhavam e seus lábios estavam entreabertos. Ofegava de desejo, todo ele era ansiedade e súplica. O loiro voltou a falar, no mesmo tom.
—Mas ele não é tudo o que eu quero, eu preciso de você, da sua presença, preciso de demonstrações de que você se importa comigo. Ver você regularmente, ainda que na clandestinidade, passar um tempo ao seu lado antes de você ir dormir com sua mulher, isso eu poderia suportar, Harry. Mas saber o que você sente por mim e pensar que você é capaz de abrir mão disso por preconceito me faz perder o tesão, por isso nós não transaremos mais. Se você queria o fim da nossa relação, pode comemorar. Ela acaba aqui, e como quem está rompendo sou eu, você pode apostar que dessa vez é definitivo. Não me procure mais, limite-se a falar comigo quando o assunto for trabalho, e mesmo assim, faça isso apenas se não houver alternativas.
Interrompeu a carícia que fazia, enquanto observava a surpresa estampada nos olhos do herói.
—Draco...
Harry fez um movimento para tentar retê-lo, mas o loiro se esquivou, caminhando em direção à porta.
—Você vai me deixar nesse estado?
A voz do herói o alcançou quando ele estava a dois passos de deixar a sala. Draco sentiu uma raiva tão intensa que por um momento foi como se estivesse de volta aos tempos de Hogwarts, quando ele e Harry não passavam de inimigos que se detestavam. Sentiu-se capaz, como naqueles tempos, de lançar sobre ele uma maldição imperdoável. No entanto, percebeu-se repentinamente capaz de dominar não só a raiva, como também o amor doentio que sentia por ele.
—Chame a Scrimgeour, ou outra putinha qualquer para te aliviar.
Então se voltou e saiu sem olhar para trás. Chegou ao andar de cima e, ignorando Leach, protocolo, Ministro e os próprios pais, que estavam sentados numa das mesas ao fundo, acenou para Blaise em despedida e deixou o salão.
Quando Lucius e Narcissa retornaram a Wiltshire, cerca de uma hora mais tarde, Draco esperava por eles no escritório. Sem dar a eles a chance de lhe perguntar qualquer coisa, o loiro os encarou.
—Quero que você procure Greengrass e peça a ele permissão para marcarmos o meu noivado com Astoria o mais breve possível, pai. —Voltou-se para Narcissa, alheio à expressão de espanto de ambos. —Minha noiva vai precisar de um anel, quero sua ajuda para escolher o mais adequado.
Seguiram-se alguns instantes de silêncio, em que Lucius e Narcissa o encararam com olhares perscrutadores. Draco esperava que o pai não o desapontasse, e ao invés de perguntar-lhe se tinha certeza do que queria, compreendesse que tinha diante de si um adulto, um verdadeiro Malfoy. Não se decepcionou.
—Amanhã sua mãe e eu trataremos de tudo, meu filho, não se preocupe.
—Parabéns, meu filho.
Recebeu o beijo da mãe, que retribuiu, e depois de desejar boa noite a ambos, deixou o escritório levando consigo a lembrança do brilho de orgulho nos olhos dos pais, e a certeza de que, naquele instante, voltavam a ser um clã.
