N/A: Ei, pessoal! Em primeiro lugar quero pedir mil desculpas a todos pela demora, eu já tinha esse capítulo bem adiantado, mas aquelas coisinhas chatas que aconteceram me desanimaram um pouco, e logo em seguida minha vida pessoal entrou no ritmo de um furacão, com um milhão de coisas para fazer e tempo nenhum disponível. Agora tá mais tranquilo, terminei o capítulo e já estou fazendo o próximo, que não demorará muito. Eu sei, sou aquela que promete e nunca cumpre, mas acho que vale a intenção, e a minha é publicar o próximo em, no máximo, duas semanas. Obrigada pelo carinho e pela paciência. Um caminhão de beijos!


Harry abriu os olhos sentindo-se estranho, mas não conseguiu de imediato compreender a razão disso. Então, de uma só vez, os acontecimentos da véspera inundaram sua mente. Draco. Rememorou cada segundo do pequeno espaço de tempo que tinham passado juntos, e as palavras que trocaram. Todas as sensações da noite voltaram à sua mente. Frustração, irritabilidade pelo contato sexual não concluído; incredulidade e insegurança ao voltar para o salão e não ver mais o loiro; incômodo pelo assédio nada discreto da Scrimgeour, que praticamente o arrastara no fim da festa para uma reuniãozinha na casa do Ministro; constrangimento, ao se dar conta de que os olhos de Gina o buscavam com frequência ao longo de toda a noite. E, finalmente, abandono, ao perceber que Hermione, a única pessoa no mundo com quem poderia falar livremente sobre como se sentia, estava em pleno "clima" com o noivo, trocando beijos em público, o que era bastante incomum. Os dois vinham passando muito tempo separados por causa das missões de Rony, e por mais abafado que Harry estivesse se sentindo, procurar a amiga para uma conversa nesse momento não era uma opção.

Ao final da reunião tinha voltado para casa sozinho, e rolara na cama por muito tempo antes de conseguir dormir. Agora, ao despertar, não se sentia melhor. Parecia incrível que tivesse desejado por tanto tempo que a situação entre Draco e ele tivesse um fim, e agora, quando isso realmente acontecia, só conseguisse sentir desconforto. Teve que admitir que tudo era fácil quando dependia apenas dele próprio. Escorraçara o loiro de sua vida inúmeras vezes, mas sempre ciente de que bastaria estalar os dedos para tê-lo de volta, caso mudasse de ideia. Se tinha convicção de que o afastamento seria o melhor para ambos, por que a sensação de chumbo pesando sobre seus ombros? O olhar do loiro, desiludido e determinado, não deixava dúvidas: ele finalmente desistira.

Harry suspirou pesadamente. Teria um longo e solitário sábado pela frente, e um jogo de quadribol, pelo qual não sentia qualquer entusiasmo, na manhã de domingo. A única pessoa que desejava ver nesse momento era Hermione, mas não podia culpá-la por estar ocupada vivendo a própria vida. Além disso, o que diria a ela? O que esperava que ela respondesse? Se queria voltar a se sentir bem, só havia uma coisa a ser feita. Mas Harry não faria isso, não procuraria Draco, sabia que não teria coragem de assumir esse relacionamento. Melhor então aprender a viver sem ele. Ou então esperar, ouviu uma vozinha vinda do fundo de sua mente, que Draco não conseguisse manter sua palavra e voltasse. Para ser escorraçado outra vez, e mais uma, e outra? A voz agora soava como a de Hermione.

De um salto Harry deixou a cama. Melhor tratar de preencher esse dia com alguma coisa, como uma vistoria completa nos cômodos que ainda não visitara no seu retorno a Grimmauld Place, na companhia nada agradável do elfo que o detestava. Assim, além de ocupar seu tempo e sua mente, talvez acabasse por se familiarizar com o local e deixasse de se sentir um visitante indesejado na casa que lhe pertencia.


Draco terminou de se vestir e deu uma última conferida no visual. O espelho lhe devolveu a imagem de um jovem príncipe, impecável.

—Você é ainda mais belo e elegante do que eu sonhei um dia, meu filho.

As palavras da mãe arrancaram um sorriso muito leve do loiro, que se voltou para ela. Narcissa trazia nas mãos uma caixa de veludo entreaberta, onde cintilavam um colar e um par de brincos cravejados de diamantes e rubis.

—O que você acha desses? Foram feitos para a bisavó de seu pai, então tem antiguidade o bastante para que sua noiva se orgulhe de usá-los. Ainda assim são delicados, uma jovem não se sentirá uma matrona com eles. Eu mesma os teria usado, mas nunca apreciei muito os rubis; eles ficam excessivamente duros em minha pele. A de Astoria me parece perfeita para eles.

Draco ampliou seu sorriso, enquanto concordava com um movimento de cabeça. Sabia que sua mãe não precisava de qualquer palpite seu, mas por delicadeza o incluía no processo de seleção do presente de casamento de Astoria; as jóias da família pertenciam a ela, e somente após sua morte passariam para ele e sua esposa. Beijou-a no rosto.

—São perfeitos, como tudo o que você escolhe.

Viu a mãe sorrir, satisfeita.

—Creio que devemos ir agora. Seu pai está esperando por nós lá embaixo.

Era a hora. Draco sentiu nesse instante toda a solenidade do momento; não se tratava apenas de um jantar com os Greengrass numa noite de sábado. Era bem mais do que isso. Era o primeiro passo para o resto de sua vida sem Harry. Sim, Draco pensava nele, e sabia que ainda faria isso durante muito tempo. No entanto, intuía que, como um tecido que se desbota, o sentimento perderia intensidade até se tornar apenas uma lembrança pálida, daquelas que arrancam sorrisos indecifráveis de velhinhos em bancos de praça. Balançou a cabeça para espantar o pensamento patético e caminhou até a porta, abrindo-a para que Narcissa passasse.

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—Você está bem aqui? Se estiver com frio nós podemos entrar.

Viu Astoria balançar a cabeça em negativa e sorrir, antes de voltar a observar as águas escuras do pequeno lago, que refletiam a luz do luar. Ainda que não tivesse se dado conta disso, Draco inconscientemente esperara encontrar sua noiva deslumbrada pela oficialização do compromisso. Ao contrário, ela parecia contida, bem diferente da garota espontânea e de olhos brilhantes que ele deixara aos cuidados de Blaise para correr atrás de Harry, naquela noite que ele agora mal podia situar no tempo.

—Acho que a intenção do seu pai foi nos deixar a sós para conversarmos, quando sugeriu que você me mostrasse a fonte...

Astoria sorriu novamente.

—E também de conversar a sós com os seus pais, para acertar os detalhes do nosso... —ela fez uma pequena pausa— ...do nosso casamento.

Draco a olhou durante alguns instantes.

—Voce não parece muito feliz com essa ideia.

Ela o encarou de volta.

—Você também não parecia nem um pouco ansioso por isso.

—Eu não estava. — Draco admitiu, desviando o olhar. A surpresa por constatar que não era recebido com prazer fazia com que se sentisse um tanto confuso e levemente inseguro. Mudar seus planos nesse momento tornaria tudo muito mais difícil. Suspirou, encarando Astoria.

—Podemos entrar e dizer a eles que não faremos isso.

Sentiu o toque da mão da garota em seu braço.

—Sabe, Draco, as coisas aconteceramm de uma maneira muito estranha. Quando meu pai me perguntou o que eu achava da ideia de me casar com você, eu fiquei encantada. Seu pai aprovou a ideia, e eu fiquei radiante. Mas o tempo foi passando, e você não vinha nunca oficializar nosso noivado. Eu não sou tola, imaginei logo você deveria estar envolvido com outra pessoa.

—Eu não vou falar sobre esse assunto. —Draco respondeu num tom seco.

—Não é preciso. — A voz de Astoria soou num fio.— Mas eu sei que você só está aqui agora porque perdeu todas as esperanças de ficar com a outra, seja ela quem for. Quero que você saiba que eu não acho isso ofensivo, nem humilhante. Sei que coisas assim simplesmente acontecem, e devo dizer que, da mesma forma que aconteceu com você, também aconteceu comigo. Eu me envolvi com alguém enquanto esperava por você.

Draco apertou os lábios e balançou lentamente a cabeça, olhando para ela.

—Eu compreendo. Só não vejo a razão de vocês não terem nos avisado, permitindo que eu e meus pais viéssemos trazendo um anel de noivado e jóias da família para dar a você.

—Não, você não compreendeu, Draco. Meus pais não sabem nada sobre isso. Eles nunca souberam, nem saberão, porque essa pessoa... Bem, não é alguém com quem eu possa me casar.

—Por que não?

—Isso não importa. Não podemos, simplesmente. Ele não pode.

A história da minha vida, pensou Draco. Encarou Astoria.

—Mesmo que nosso compromisso seja desfeito?

—Ele não ficaria comigo mesmo assim. Nosso rompimento só resultaria para mim numa união com alguém menos importante e... —Astoria sorriu— provavelmente menos interessante do que você.

Sorrindo também, Draco balançou novamente a cabeça.

—Isso quer dizer que nós seguiremos com o plano original?

—Sim, seguiremos. Ontem, conversando com minha mãe e com Daphne sobre estrelas, me ocorreu até um nome que poderíamos dar ao nosso filho. Eu pensei em Scorpius, e elas gostaram. — Astoria sorriu, parecendo levemente envergonhada.

Draco estendeu a mão e tocou a dela. Intuiu que ela estava, como ele, pronta para deixar para trás as expectativas românticas e começar uma nova vida. Saber que não era o único a ter o coração partido fez com que ele se sentisse solidário e cúmplice. Esses sentimentos eram, segundo Narcissa, a verdadeira base para a formação de uma família, ao contrário de amor e paixão. Aproximou-se dela.

—Eu posso beijar você?

—Você é o meu noivo, tem todo o direito de fazer isso. —Ela sorriu, e Draco vislumbrou uma ponta de melancolia em seu sorriso. Sabia que seria terrível para ambos no início, mas também estava certo de que conseguiriam. Aproximou-se dela e enlaçou sua cintura, trazendo-a mais para perto. Então beijou-a, e mesmo sentindo algo que se aproximava da agonia por não ser o cheiro de Harry que sentia, nem seus músculos e ossos largos de homem, Draco não achou o beijo desagradável. Quando terminaram e se olharam nos olhos, ele soube que nascia ali uma amizade verdadeira. Estendeu o braço, que Astoria enlaçou. Enquanto seguiam em direção a casa ele disse, casualmente.

— Scorpius soa bem. Eu gostei.


Estava totalmente fora de forma, Harry constatou durante o jogo amistoso daquela manhã de domingo. Bem que tinha tentado impressionar Teddy, que estava na arquibancada com os pais, mas dominar a vassoura e fazer as manobras necessárias para tentar capturar o pomo, conforme tinha prometido ao garotinho, parecia muito mais difícil do que ele se lembrava. Seu time acabou perdendo, mas ninguém se importou com isso. Muitos dos presentes não se viam há anos, e o heroi, que a princípio não se entusiasmara com o encontro por causa de Gina, acabara se empolgando por rever os companheiros do tempo de escola, embora sentisse durante todo o tempo que faltava alguma coisa, faltava alguém.

Quando a partida terminou um grupo numeroso seguiu para a Toca, onde Molly e Arthur esperavam por eles com um almoço festivo. Contrariando suas expectativas, Harry estava se divertindo, apesar de que, de tempos em tempos, a lembrança do olhar e das palavras de Draco o assaltasse e o fizesse sentir um estranho desconforto. Gina, distraída com os amigos que não via há tempos, não o olhara nem uma vez da forma como fizera na festa. Ao longo do dia concluiu que talvez estivesse começando a se curar do desencanto que o levara a se exilar do mundo e viver como um eremita na Londres trouxa. Ou talvez o prazer que sentia ao se ver cercado de calor humano e alegria fosse uma consequência do seu convívio com Kreacher, o distante e desdenhoso elfo que era sua única companhia em Grimmauld Place. Qualquer que fosse a razão, era melhor estar ali, em meio a toda aquela confusão, do que sozinho com seus pensamentos.

Havia mais pessoas presentes do que a cozinha dos Weasley podia comportar, por isso o almoço estava sendo servido no jardim, onde os convidados se distribuiam pelas mesas espalhadas. Harry ainda não tivera oportunidade de falar com Hermione, mas sentia-se um pouco melhor. Seus temores da véspera tinham se amenizado. Sabia que Draco o amava, e que ninguém deixava de amar assim, de um momento para o outro. Por mais chateado que o loiro estivesse, acabaria voltando atrás em sua decisão, era no que Harry apostava.

Tinha pensado muito sobre esse envolvimento, e por mais que não quisesse manter com o loiro uma relação regular, sabia que era incapaz de resistir completamente a ele. Não lutaria mais contra isso, finalmente admitira para si próprio que não tinhas forças para essa batalha. Mas apostava que, a qualquer momento, a garota certa surgiria em sua vida, trazendo sentido para todas as coisas, e então seria fácil se desvincular definitivamente dessa relação. Era isso, não tinha que se preocupar, bastava esperar que as coisas se resolvessem.

Falava com Luna e Neville quando viu que Rony, que estava sentado com os gêmeos, Angelina, Hermione e Gina, acenava, chamando-o. Ao se aproximar notou que todos riam, divertidos, enquanto Hermione, que mantinha a cabeça baixa, permanecia séria, ocupada em fazer furinhos com o garfo no pedaço de torta que havia em seu prato. Sacudindo um jornal, Rony falou antes mesmo que ele terminasse se chegar à mesa.

—Nós queremos saber por que você não disse nada sobre o noivado do seu grande amigo, Harry. Por que é claro que você foi convidado, certo?

Com excessão de Hermione, todos riram, e Harry, com aquele sorriso idiota de quem está sendo alvo de uma brincadeira que ainda não compreendeu bem, olhava de um para outro, esperando que lhe dissessem o que estava acontecendo. Rony continuou.

—Você não quis compartilhar a novidade com os amigos, hein Harry. Teve medo que nós quiséssemos ir com você à festa? Você sente vergonha de nós, Harry?

—Isso não tem graça, Rony. — Hermione encarou o noivo, muito séria, mas, contrariando suas palavras, todos riam do que ele tinha dito. Rony então estendeu o jornal para Harry.

—Está aí, na coluna social. Leia, é sobre o seu amigo Malfoy. Ele e Astoria Greengrass "oficializarão hoje seu noivado num jantar íntimo, do qual tomarão parte apenas as famílias de ambos e os amigos mais próximos". —Ele fez uma voz afetada enquanto repetia parte da nota do jornal. — Amigos próximos, Harry. Esse é o seu grupo, não?

Sob o impacto da notícia, que o atingiu como um soco no estômago, Harry sequer percebeu que o sorriso murchava em seu rosto. Pegou o jornal e leu a notícia, uma notinha no canto da página, que anunciava o noivado de Draco. Hermione se levantou, e depois de jogar o guardanapo sobre a mesa, saiu pisando duro. Isso desviou a atenção de todos, e Harry teve tempo para se recompor. Rony chamou pela noiva, mas ela sequer se voltou para olhar. Harry colocou o jornal sobre a mesa e, lembrando-se que tinha que entrar no clima e responder alguma coisa, forçou-se a sorrir.

—Meu convite deve ter se extraviado. Eu vou procurar Hermione, daqui a pouco volto com ela.

Saiu, deixando Gina e Angelina iniciando uma conversa sobre quadribol, e Rony, com cara de poucos amigos, ouvindo as piadas dos irmãos sobre a reação de sua noiva. Viu Hermione do outro lado da Toca, sentada no banco onde ele e Gina tinham rompido definitivamente, há algum tempo. Caminhou até lá e jogou-se ao lado da amiga, que suspirou.

—Rony às vezes se comporta como se ainda fosse um adolescente, e nem sempre eu tenho a paciência necessária para lidar com isso.

Harry sorriu.

—Ele é assim mesmo. Foi só uma brincadeira, não foi por mal.

Hermione o encarou.

—Você está bem?

Harry suspirou pesadamente.

—Eu me sinto estranho, como se alguém tivesse virado meu mundo de cabeça para baixo.

Sentiu a mão de Hermione envolvendo a sua.

—Eu disse a Rony que hoje precisava ir para casa sozinha, para organizar algumas coisas. Eu percebi que você e Draco estiveram juntos na festa, e quando li sobre o noivado no jornal, imaginei que você poderia querer conversar.

Harry a encarou, sorrindo.

—Sabia que com você por perto a vida fica bem mais fácil?

Hermione riu também.

—Eu sempre soube disso. E acho que agora nós devemos voltar e ficar com os nossos amigos. Mais tarde conversaremos, com calma.

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Harry estava encostado à janela , no final do corredor. Era cedo, não havia quase ninguém no ministério, mas esse era o horário em que Draco costumava chegar. Não teve que esperar muito; ouviu o barulho do elevador, e instantes depois lá estava ele, de cabelos úmidos, resplandecente e perfumado, caminhando ao lado de Noah Leach. O coração de Harry saltou, no mesmo instante em que ele percebeu o levíssimo sobressalto do loiro, que se recompôs num segundo. Sim, Draco ainda o amava, e nesse momento Harry se sentiu um perfeito idiota por ter imaginado o contrário. Percebeu que sorria, e que não podia desviar seus olhos dos dele.

—Ei! — Em seguida se voltou para o chefe de Draco— Bom dia, Leach.

—Bom dia, Potter. Você estava à minha espera?

—Na verdade eu esperava por Draco.—Harry disse rapidamente ao ver que o loiro, que respondera ao seu cumprimento com um aceno seco de cabeça, preparava-se para entrar na sala. Leach meneou a cabeça e, antes de abrir a porta do escritório, deu um tapinha amigável no ombro de herói e acenou em despedida. Draco, parado desde que ouvira o que Harry dissera, encarou-o.

—O que você quer?

Harry já esperava por uma recepção fria. Apesar de Draco parecer uma estátua de gelo, não se intimidou.

—Nós precisamos conversar.

Sem responder, Draco virou as costas e seguiu pelo corredor. Harry foi atrás dele até chegarem a uma porta, que o loiro abriu, entrando na sala. Harry o seguiu e se viu numa saleta onde funcionava o arquivo do Departamento de Jogos e Esportes Mágicos.

—Eu não tenho muito tempo, então é melhor você começar logo.

—Ok. Em primeiro lugar, eu li sobre o seu noivado e, para ser honesto, não entendi a razão de você ter feito isso.

—Noivado é uma cerimônia ritual, Potter. Normalmente precede uma outra cerimônia, chamada casamento. Como me casarei em breve, achei que seria adequado ficar noivo primeiro.

Harry riu.

—Eu conheço perfeitamente esses rituais, Draco. A questão é que, há muito pouco tempo, você queria algo bem diferente de se casar com Astoria Greengrass.

—As coisas mudam.

—Muitas coisas mudam sim, e bem rápido. Mas sentimentos não são assim, e eu sei bem quais são os seus sentimentos por mim.

Draco se aproximou, e quando respondeu, o fez com rispidez.

—Meus sentimentos estão em último lugar na minha lista atual de prioridades, Potter. Se você não tem nada de novo a acrescentar ao seu lenga-lenga habitual, não há qualquer razão para termos essa conversa.

—Acontece que eu tenho algo novo a acrescentar, Draco. —Harry se adiantou um passo, olhando bem dentro dos olhos do loiro.—Eu decidi aceitar a sua proposta. Eu concordo em ver você com alguma regularidade, como você queria há menos de quarenta e oito horas atrás.

Os lábios de Draco se distenderam num sorriso irônico.

—Quarenta e oito horas horas é tempo suficiente para uma pessoa nascer, morrer ou mudar de ideia; não sabia disso, Potter? Mas, relaxe, seu tempo não foi de todo perdido; embora eu não me interesse mais, gostei de ouvir que você aceitou a proposta. Foi bom saber que você é capaz de trair para satisfazer sua luxúria.

Harry balançou a cabeça, incrédulo.

—Que droga é essa que você está dizendo, Draco? Foi você quem fez a proposta, tudo o que eu fiz foi vir até aqui e dizer que eu aceito.

—Droga? Droga é que eu não tenha me dado conta de certas coisas antes. Eu fiz a proposta, em meio ao meu desespero, quando eu ainda era capaz de fazer qualquer coisa para manter você ao meu lado. Mas você recusou, alegando que isso feriria seus princípios. Àquela altura eu já não tinha mais princípios, nem autoestima. Eu estava disposto a rastejar, a abrir mão da minha dignidade para ter você, Potter. Não foi suficiente, você me chutou em nome da sua carência familiar, da vontade de agradar aos seus amigos, me chutou em nome do seu preconceito, embora o sexo você nunca tenha rejeitado. Agora, aí está você, disposto a "me ver com alguma regularidade", ciente de que eu estou noivo, sem se importar com seus preciosos princípios. Qual a diferença? O fato de ser Astoria, e não SUA noiva ou esposa a traída? Não precisa responder, eu o faço por você. O fato é que você ainda vê a mim e ao meu círculo como escória. E o pior é que quase me fez acreditar nisso.—Draco o encarava com um olhar feroz— Você quase me destruiu, Potter, mas eu percebi a tempo que era o meu pai quem tinha razão. Não vale a pena ser o brinquedo sexual de ninguém, nem mesmo seu, grande herói.

As últimas palavras foram cuspidas com um desprezo que chocou Harry. Não sabia o que dizer, não podia imaginar que Draco se sentisse assim.

—Eu sinto muito, Draco. Eu não pensei realmente que você interpretaria isso como menosprezo a você, a Astoria. Eu peço desculpas, não foi minha intenção. É só que eu...eu sinto a sua falta.

Draco o olhou com uma frieza tão grande que o herói se sentiu desconfortável.

— Você não sente minha falta, você sente falta do sexo, Harry. Eu sei, eu sou melhor na cama do que qualquer outra pessoa com quem você tenha se deitado, mas, infelizmente para você, acabou. Supere. Arranje alguém para trepar, de preferência ainda hoje. Você não deve ter qualquer dificuldade para conseguir isso.

Incapaz de reagir, Harry viu Draco se virar e seguir em direção à porta. Queria poder convencê-lo de que estava errado, mas não conseguia pensar em nada. A verdade é que não tinha mesmo dado ao loiro nenhum sinal, ou tomado qualquer atitude que mostrasse que não era só sexo o que queria dele. Só tinha a sua palavra, e isso não convenceria Draco. O loiro abriu a porta, e antes de sair, voltou-se mais uma vez para ele.

—Não pense que meu noivado é uma farsa. No momento Astoria e eu somos apenas amigos, mas ontem eu a beijei, eu a acariciei, e, se você quer saber, tive uma bela ereção. Isso me mostrou que é apenas uma questão de tempo nós dois estarmos entrosados e satisfeitos com o nosso casamento. Por isso, não me perturbe mais com as suas necessidades sexuais, Potter.

Em seguida saiu, deixando Harry com a sensação de que estava absolutamente só num mundo inóspito.


—Eu sei que foi minha culpa. Eu tive muita dificuldade para entender e aceitar meus sentimentos por Draco, e não podia sequer pensar em assumi-los. Eu e você viemos de um mundo onde a palavra "gay" é frequentemente usada como ofensa pela maioria das pessoas. Ainda que eu já esteja vivendo entre os bruxos por quase o mesmo tempo em que vivi entre os trouxas, não é fácil me encaixar dentro de um rótulo e me tornar algo que me foi apresentado como inapropriado. Além disso, o fato de ter acontecido justo com ele, entre tantas pessoas no mundo, também complicou as coisas. Toda a minha experiência de vida no mundo bruxo está relacionada ao combate às coisas que Draco representa; ele estava certo em tudo o que disse, afinal.

A expressão de Hermione era de puro desalento. Era fim de expediente, estavam sozinhos na sala à espera de Rony, que, como fazia ao final de todas as tardes, tinha ido ao escritório de Lupin levar os relatórios diários dos aurores.

—Eu sinto muito, Harry.

Harry mantinha a cabeça baixa. Não sabia o que fazer para seguir com sua vida desse ponto em diante, e, por mais que lutasse contra a imagem, sua mente era constantemente bombardeada pela visão de um copo com cubos de gelo sendo lentamente submersos em scotch. Queria o esquecimento, precisava de anestesia.

—Talvez nem tudo esteja perdido, Harry. Talvez ainda haja uma maneira de fazer Draco mudar de ideia. Vocês se amam, e nenhum dos dois pode negar isso.

Uma risada alta preencheu o ambiente. Sobressaltados, Harry e Hermione se viraram para a porta e viram Rony entrando na sala. Ele tentava falar, mas tinha dificuldades em conter o riso. Quando conseguiu encarou os dois, que o olhavam com expressão de espanto.

—Eu vinha chegando, e lá de fora tive a impressão de ter ouvido Hermione dizer que você e o cara de doninha estão apaixonados... —O ruivo recomeçou a rir, enquanto Harry e Hermione, congelados, trocavam um rápido e apavorado olhar.

—Vocês não ouviram o que eu disse? Tive a impressão de ouvir que Harry e o Malfoy se amam, e como essa é, sem dúvida, a piada do século, por que nenhum de vocês está rindo?

Harry passou a língua pelos lábios, tão tenso que não podia sequer balbuciar. Hermione chegou a abrir a boca para responder, mas Rony, que agora já não ria, falou antes dela, dirigindo-se a Harry.

—Ou será que o que eu ouvi tem relação com o fato de você ter passado os últimos meses aos cochichos com Hermione pelos cantos, e de ter praticamente me excluído da sua vida?


P.S: Quero agradecer a todos que manifestaram seu apoio naquele momento em que eu me sentia sem chão, e dizer que vocês foram fundamentais para que eu conseguisse superar o que aconteceu. Eu fiquei super bem, e agradeço a vocês por isso, do fundo do coração.


ayaa: Morri com seu comentário, peço desculpas pela demora em atualizar. Espero que você tenha gostado desse capítulo, e quero pedir que continue lendo. Tá acabando, meeesmo...haha. Obrigada por seu apoio, você está certíssima: coisas e pessoas que não são legais devem ser simplesmente ignorados, e eu segui seu conselho. Beijos!

S. R. Malfoy: Muito feliz pelo seu comentário, juro! E a solução para os mistérios vem aí, continue lendo e fazendo suas conjeturas, porque tô amando ler! Não posso dizer nada sobre o final, né haha ... Espero que tenha gostado do capítulo, e obrigada por acompanhar a fic, agora tá pertinho do fim. Beijos!

Mateus: Desculpe pela demora, Mateus. Você pediu mais, tá aí. Espero que tenha gostado. Obrigada pelo comentário e por ler a fic. Beijos!