—Eu nunca te excluiria da minha vida, Rony, e é impossível que você não saiba disso. Eu fiz essa opção justamente para preservar a nossa amizade, o nosso convívio.

Rony não respondeu. Puxou uma cadeira, e com um suspiro cansado, desabou sobre ela. Ainda estavam na sala dos aurores, vazia àquela hora. Tinham passado a última meia hora conversando; Hermione, sentada próxima a eles, acompanhara tudo em silêncio, e se mantinha assim.

Harry não sabia mais o que dizer. Contara tudo a Rony, e agora se sentia angustiado vendo o amigo calado, fitando o nada. A mágoa e a decepção estampadas no rosto dele faziam com que se sentisse pequeno e desprezível. De repente o ruivo falou, quebrando o pesado silêncio que os envolvia.

—Há alguns meses eu ouvi uma conversa entre minha mãe e Nympha, na cozinha da Toca. Elas estavam olhando Teddy brincar, e comentaram que costumavam imaginar você com a idade dele, aprendendo essas coisas que as crianças bem pequenas aprendem, sem ter ninguém por perto disposto a se alegrar com as suas conquistas, ou enxugar suas lágrimas e te consolar se as coisas dessem errado. — O ruivo fez uma pausa e olhou para Harry — Deve ter sido mesmo uma porcaria de vida, Harry, mas agora tudo passou. Você cresceu, é um adulto. Desde os onze anos você convive com outras pessoas, com gente que te respeita, com gente que te ama. Tente imaginar, Harry, como eu me sinto quando ouço você dizer que fez essa opção para preservar a nossa amizade. Quando foi que eu te pedi para fazer isso? Em que momento você entendeu que deveria pagar um preço pelo convívio comigo e com minha família? Nós não somos os Dursley, Harry.

Harry abriu e em seguida fechou a boca, sem conseguir pensar em algo coerente para responder ao amigo. Viu Rony se levantar da cadeira e se aproximar, viu Hermione seguir o noivo com um olhar brilhante de lágrimas contidas.

—Você tinha onze anos quando olhou no espelho de Ojesed. O que você acha que veria hoje, se voltasse a olhar para ele?

Harry piscou, surpreso com a pergunta. Para ele aquele espelho estava eternamente ligado à imagem que guardava, vívida, em sua memória: ele, James e Lily, uma família; a sua família. O que veria se o olhasse hoje? A voz de Rony interrompeu seus pensamentos.

—Veja bem, eu não estou dizendo que adoraria ver você com o Malfoy. Eu detesto aquele cara de doninha, você sabe disso. O que eu quero dizer é que você deve pensar bem antes de decidir sua vida com base nos seus anseios de criança. E, principalmente, Harry, eu queria que você tentasse imaginar como nós, as pessoas que amam você, nos sentiríamos sabendo que você abriu mão de algo que o faria feliz apenas para preservar a nossa amizade. Talvez, Harry, você devesse também reavaliar seu conceito de "amizade".

Todas as respostas que ocorriam a Harry pareciam tolas, ocas. Passou a língua pelos lábios, enquanto balançava lentamente a cabeça, enfrentando o olhar do amigo. Rony se voltou para Hermione.

—Eu vou andar um pouco por aí. Fique com ele.

O ruivo levou a mão ao rosto da garota e fez uma leve carícia com o polegar. Hermione cobriu a mão do noivo com a dela e a acariciou suavemente. Olhando os dois, Harry percebeu que eles precisavam muito um do outro naquela noite, e só não estariam juntos por sua causa. Sentiu-se terrivelmente constrangido.

—Vocês podem ir embora juntos, eu vou ficar bem.

Rony voltou a cabeça e olhou rapidamente em sua direção. Depois o ruivo se inclinou e beijou os lábios da noiva, saindo em seguida, sem responder ou sequer demonstrar ter ouvido suas palavras.

Viu Hermione se levantar e vir em sua direção, sorrindo tranquila, como se tudo estivesse bem. Harry se sentiu um perfeito idiota. Sabia que tanto ela quanto Rony temiam que ele fosse beber, e sendo honesto consigo mesmo, teve que admitir que isso era o que provavelmente faria, assim que se visse sozinho. Hermione o pegou pela mão e o puxou em direção à porta.

—Vamos andando, tem uma torta-monstro de chocolate esperando por nós em minha casa.

Enquanto a seguia como um autômato, Harry pensou que era uma felicidade que seus pais, Dumbledore e Sirius não pudessem ver o que ele se tornara. A vergonha o inundava, a ponto de quase sufocá-lo.


Aquele estava sendo um dia de merda. Não que Draco tivesse imaginado que seria simples tirar Harry de sua vida, ele sabia que não seria. Só não contava que a vontade de jogar tudo para o alto e se contentar com as migalhas fosse bater tão forte, ou tão cedo. Seria muito fácil ir atrás do herói e dizer, mais uma vez, que aceitava qualquer coisa que ele pudesse lhe oferecer; seria muito fácil saciar seu desejo pela boca, pelos toques dele em seu corpo, por um daqueles sorrisos que tanto amava. Isso aplacaria as suas dores, curaria todos os seus males, mas Draco também sabia que essa felicidade seria fugaz.

Não poderia dividir Harry com outra pessoa, percebera isso naquela festa, assistindo ao assédio da Scrimgeour. O herói jamais o assumiria, por necessitar seguir o modelo tradicionalista de família para se sentir integrado ao mundo. Essa relação, se recomeçasse, estava fadada a terminar rápido e de forma dolorosa. Sendo assim, melhor evitar sofrimento maior no futuro, deixando tudo morrer agora, quando podia contar com a cumplicidade e a compreensão de Astoria. Draco estava certo de que conseguiria superar tudo, só precisava parar de pensar em Harry dizendo que sentia sua falta, e apagar de sua mente aquela visão da sala do arquivo, do herói quebrado, perplexo e frágil. Mergulhou no trabalho, e quando finalmente deixou o Ministério e chegou em casa, sentiu-se seguro.

—Eu gosto daqui.

Draco se aproximou da noiva, que sorria levemente. O jantar terminara há pouco, e ele a trouxera para conhecer seu quarto, um dos melhores da mansão.

—Há outros, e você deve ver todos antes de escolher. Se quiser, pode trazer sua mãe ou Daphne para ajudarem você a se decidir.

A garota concordou com um gesto de cabeça, e Draco se adiantou um passo e a trouxe para perto, enlaçando sua cintura. Inclinou-se e beijou-a, sentindo que ela se acomodava em seus braços. Os momentos de intimidade entre eles vinham se tornando, a um só tempo, mais naturais e mais ousados, e ele hoje precisava desesperadamente de um pouco mais de contato, de algo que pudesse amenizar a lembrança de Harry na sala de arquivo. Sem deixar de beijá-la, moveu-se em direção à cama.

Astoria se deixou guiar docilmente e não se opôs quando Draco a empurrou com gentileza, fazendo com que ela se sentasse, e em seguida deitasse de costas na cama. Ele se acomodou ao lado dela e retomou o beijo interrompido, movendo a mão em direção ao seio esquerdo da garota. Depois de acariciá-lo por algum tempo, deixou-o, percorrendo a lateral do corpo dela até chegar à barra da saia. Enfiou a mão por baixo e acariciou as pernas nuas, sentindo a respiração da noiva se acelerar. Astoria parecia confortável com a situação, Draco sentia os dedos dela tocando suavemente sua nuca. Interpretou isso como um sinal de que poderia avançar mais e abriu a blusa dela, deixando livres os seios médios e firmes, enquanto sentia que a excitação o dominava.

Astoria estava corada e tinha os olhos fechados; Draco se perguntou se ela estaria imaginando as mãos e os lábios do outro em seus seios, mas o pensamento não o incomodou. Eram parceiros que construíam, lentamente, uma relação que um dia viria a ser tão sólida e afetuosa quanto as dos pais de ambos.

Redobrou seus cuidados para que ela se sentisse bem, estimulado pelos mamilos eriçados e pelos arrepios que percorriam a pele da garota. Quando seus dedos, após vencerem o cós da saia e o elástico da calcinha, se esgueiraram em direção ao púbis, sentiu o corpo dela se retesar. Ia continuar, mas a mão de Astoria pousou em seu pulso, forçando-o a parar. Draco a encarou e encontrou um par de olhos aflitos.

—Seus pais...

O loiro sorriu, tranquilizador.

—Ninguém virá nos perturbar, não se preocupe.

Ela ainda parecia tensa. Draco a beijou e tentou mais uma vez avançar com a carícia, mas voltou a sentir a pressão da mão em seu pulso. Encarou-a.

—Você não quer? Não se sente pronta?

—Não se trata de não querer. Eu disse a você, sou sua noiva, serei sua esposa e estou pronta para tudo o que isso significa. Eu só não imaginava que fosse acontecer hoje. Pode parecer tolo, mas garotas costumam fantasiar sobre a primeira vez.

—Primeira vez? Você quer dizer primeira vez comigo, certo?

Ela pareceu levemente embaraçada ao responder.

—Não, eu quero dizer a minha primeira vez.

Draco ficou paralisado por alguns segundos, encarando-a com um ar perplexo, mas em seguida se recompôs.

—Eu sinto muito, Astoria, eu realmente não podia imaginar. Você me disse que amava alguém, e eu pensei que vocês... É natural que se tenha intimidade quando há um envolvimento emocional.

—Eu queria, mas ele não se sentiu confortável diante das circunstâncias.

Astoria o encarava com olhos brilhantes, e Draco se perguntou se ela estaria lutando para conter as lágrimas. Ergueu-se da cama e estendeu as mãos para ela.

—Venha.

Com sua ajuda, ela se levantou. De pé diante dela, Draco ajudou-a a recompor suas roupas.

—Saiba que eu não me importaria se você não chegasse virgem à nossa noite de núpcias. Eu quero dizer com isso que, caso você queira fazer da sua primeira vez algo memorável, eu serei capaz de compreender. Eu acho válido que você tenha essa lembrança para guardar, se desejar.

Astoria o olhou, muito séria.

—Eu não preciso de mais lembranças, tudo o que eu quero é que você me ajude a esquecer. Eu não chegarei virgem à nossa noite de núpcias, Draco, mas minha primeira vez será com você. Eu quero que aconteça o mais depressa possível; só não gostaria que fosse aqui, com os seus pais lá embaixo. Espero que você compreenda.

O loiro a olhou e balançou lentamente a cabeça. Astoria era mais do que ele tinha esperado, em vários aspectos. Era digna de respeito pela força que demonstrava, digna de usar seu nome e gerar seu filho. Além disso, precisava dele, da mesma forma que ele dela; eram dois náufragos tentando sobreviver. Sentiu uma onda de carinho envolvê-lo, e soube que não estava tão distante o dia em que a amaria. De sua parte, faria o que fosse preciso para que isso acontecesse, inclusive deixar seu emprego no Ministério para se manter afastado de Harry. Depositou um beijo leve na testa da moça.

—Nós nos encontraremos amanhã, às oito.

Sorrindo, ela concordou. Draco sorriu também, depois pegou-a pela mão.

—Venha, vou levar você para casa agora.


Havia uma pequena aglomeração de pessoas junto à porta do elevador. Para evitar o tumulto Draco sempre chegava ao trabalho mais cedo, mas naquela manhã um pequeno acidente na hora de se barbear tinha feito com que se atrasasse, e agora estava bem no meio do burburinho, escondendo seu descontentamento sob a máscara habitual de inexpressividade. O pai, ao seu lado, lia as manchetes da primeira página do jornal. As áreas de circulação do Ministério eram áreas de risco para Draco, mas nem a possibilidade de um encontro indesejado com Harry seria capaz de fazer o loiro entrar num cubículo lotado, onde corria o risco de ser comprimido e pisoteado. Por isso, quando o elevador chegou, ele recuou um passo, permitindo que os presentes entrassem, no que foi imitado por Lucius. O elevador partiu, para retornar algum tempo depois. Só então entraram.

O andar em que Draco trabalhava era um dos últimos, por isso ele se posicionou ao fundo, enquanto Lucius, que desceria antes, estava próximo à porta. Havia bastante gente, mas não o suficiente para tornar a subida desagradável. O fato de não ter visto Harry, que trabalhava no térreo, reduzia a quase zero as chances de encontrá-lo antes de chegar à sua sala. Isso era ótimo, mas começar o dia em meio a tanta tensão era complicado, e o loiro se viu pensando novamente em deixar o emprego. Mal concluíra sua reflexão quando o elevador parou no próximo andar, e assim que as portas se abriram viu Harry entrar, como se tivesse se materializado diretamente dos seus pensamentos.

Despreparado para o encontro, Draco sentiu um baque profundo, e só foi capaz de baixar os olhos para evitar o confronto com os dele. Ouviu cumprimentos ao redor e percebeu o movimento de acomodação dos que estavam no elevador, para que o herói pudesse entrar. A cada volta enlouquecida do sangue em suas veias, o loiro se convencia de que não só deveria deixar seu trabalho, como tinha que fazer isso o mais rápido possível. Com o olhar fixo nos bicos dos próprios sapatos, lutava contra a sensação nítida de que seu coração pulsava dentro dos ouvidos quando viu os tênis de Potter, bem diante dos seus pés.

—Bom dia, Draco. Eu estava indo falar com você.

Usando todo o seu autocontrole, Draco ergueu os olhos. Encontrou os de Harry, e percebeu que ameaçava cair por terra toda a estrutura que, com muito esforço, construíra dentro de si para conter o furor dos seus sentimentos por ele. Merda, Potter! Sentiu a raiva se avolumar em seu peito. Até quando Harry pretendia foder seu parco equilíbrio? Do que precisava para se manter afastado? Sentiu vontade de irritar o herói, de destruir aquela fachada de perfeição que ele ostentava, fazendo-o passar por um grande constrangimento diante de todos os que estavam naquele maldito elevador. Encarou-o, respondendo com impaciência.

—O que você quer de mim agora, Potter?

Harry respirou fundo, depois respondeu num tom firme.

—Uma nova oportunidade.

Draco piscou, surpreendido pela resposta inesperada. O burburinho no elevador cessara, todos prestavam atenção à conversa. O loiro sentiu seu coração martelar ainda mais furiosamente.

—Eu não sei se eu compreendi bem. Sobre o que, exatamente, você está falando?

Harry se adiantou um passo, ficando tão próximo que eles quase se tocaram.

—Sobre o nosso relacionamento, sobre o fato de eu ter desperdiçado nosso tempo agindo como um idiota, sobre o meu arrependimento em relação a isso, e sobre minha intenção de assumir que você é a pessoa que eu quero ter do meu lado.

Draco precisou fazer um tremendo esforço para se manter calmo, enquanto ouvia o murmúrio de surpresa dos bruxos que se aglomeravam ao seu redor. Essa manifestação invasiva o teria irritado em outras circunstâncias, mas na atual não o incomodava minimamente. Não havia dúvida, Harry estava mesmo dizendo tudo aquilo, diante de todos. E não, isso não era uma fantasia louca, era real. Percebeu que sorria, e que Harry fazia o mesmo, olhando-o bem dentro dos olhos, tão próximo, tão lindo, e, finalmente, tão seu! Durante alguns segundos estiveram assim, olhando-se em silêncio e sorrindo. Era a paz que voltava ao mundo, era o mundo que voltava ao seu lugar. Era a certeza de que não poderia haver nada, nem mesmo um mergulho num lago após a travessia de um deserto, ou o calor das chamas de uma lareira numa noite gelada de inverno, capaz de superar sua sensação nesse instante. Era puro alívio.

Harry se moveu, e Draco se sentiu envolvido pelos seus braços. Apertou-o também, fortemente, sem conseguir pensar em nada além da boca do herói que se aproximava da sua, entreabrindo-se lentamente no trajeto. Mergulhou nela, sem se importar com as exclamações de espanto e os gritinhos excitados que ecoavam ao seu redor. Não havia nada no mundo além daquele beijo, o melhor, o mais delicioso de toda a sua vida.

Quando terminou eles voltaram a se olhar, silenciosos e sorridentes. Perdido dentro daquelas esmeraldas cintilantes, Draco ouviu um pigarro. Olhou e viu o pai, que mantinha aberta a porta do elevador enquanto o observava. Bastou isso para a imagem de Astoria se formar na mente do loiro, que sentiu de imediato o sorriso se desfazer em seu rosto. Diante dele, Harry franziu o cenho.

—O que houve?

—Nada, é só um assunto que eu preciso resolver.

—Astoria Greengrass?

Draco fez que sim com a cabeça. Parte dele lamentava o rompimento do pacto de sobrevivência feito com a garota. Aprendera, apesar do pouco tempo que passaram juntos, a vê-la como uma amiga, e queria que ela ficasse bem. Viu que Harry o olhava, parecendo inseguro. Sorriu, tranquilizador, e beijou levemente os lábios dele.

—Eu vou agora mesmo falar com ela. Quero que ela saiba por mim.

Harry suspirou.

—Isso é muito justo. Eu lamento, Draco, ter deixado as coisas chegarem a esse ponto.

—Não lamente, vai ficar tudo bem.

—Enquanto você fala com ela eu procurarei Greengrass. Não demore, Draco. As notícias voam, literalmente. — Era a voz de Lucius, tão impessoal quanto soaria se ele estivesse tratando do cancelamento da assinatura de um jornal.

—Obrigado, pai. Eu vou avisar Leach e irei em seguida.

Após um aceno seco de cabeça, Lucius deixou o elevador. Harry, que se voltara ao ouvi-lo, encarou Draco.

—Isso criará algum problema entre você e seu pai?

—Não, está tudo bem. Não se preocupe. — Draco sorriu de leve. As portas se fecharam e o elevador continuou sua subida. O loiro levou a mão ao peito de Harry e o acariciou. Era oficialmente o seu homem agora, poderia fazer isso o quanto quisesse. Viu-o abrir um enorme sorriso e envolvê-lo outra vez em seus braços.

—O que causou sua repentina mudança de atitude?—O loiro perguntou , curioso.

O sorriso de Harry se contorceu até se tornar uma careta estranha. Ele suspirou ruidosamente.

—É uma longa e embaraçosa história. Falaremos sobre isso à noite, em Grimmauld Place.

—Grimmauld Place? — Draco o olhou com um sorrisinho safado, que fez Harry rir.

—Grimmauld Place. Você será meu prisioneiro por alguns dias.

Draco riu, sentindo o fluxo do sangue acelerar em suas veias. Seu corpo reagia perigosamente à proximidade de Harry, aos braços dele à sua volta. Ainda havia algumas pessoas no elevador, e o loiro se sentiu grato por isso. Se estivessem a sós o clima fatalmente os conduziria a, no mínimo, um belo amasso para matar as saudades. Mas havia Astoria, e a essa altura a novidade bombástica já deveria estar correndo pelo Ministério.

O elevador chegou finalmente ao andar do Departamento de Jogos e Esportes Mágicos. O loiro beijou levemente os lábios do herói, que o apertou com força.

—Vejo você mais tarde. —Draco falou bem próximo ao ouvido dele.

—Estarei esperando, ansioso — Ao responder, Harry sorriu daquele jeito que o deixava sem fôlego. Com um suspiro, Draco se desvencilhou do abraço e deixou o elevador. Já estava do lado de fora quando Harry, segurando a porta, o chamou. Voltou-se para ele.

—Nada de beijos de despedida, e muito menos de ereções, ok?

A frase, dita num tom que só ele poderia ouvir, fez Draco rir.

—Vá trabalhar, Potter, e libere o elevador para que as pessoas possam fazer o mesmo.

Viu Harry rindo enquanto a porta se fechava, depois seguiu para sua sala. Quem disse que a vida não era perfeita?


Remus Lupin tinha diante de si uma pilha de relatórios. Tinha acabado de vir do gabinete do Ministro, com quem estivera reunido para a avaliação semanal das atividades dos aurores. A falta de progressos no caso Aubrey parecia incomodar muito mais a ele do que a Scrimgeour. "Ele vai aparecer, vamos continuar com os trabalhos", dissera o Ministro, ao final da reunião.

Lupin já passara noites em claro analisando detalhadamente o caso, já o discutira com sua equipe, com o Ministro e seus assessores, já pensara e repensara, mas nada disso adiantara. Era estranho que não tivessem encontrado nenhum rastro de uso de magia, nenhuma pista dos deslocamentos do ex-auror, nem de compras feitas por ele, que também precisava se alimentar, já que nenhum bruxo era capaz de conjurar comida. Toda a população sabia que ele estava sendo caçado, todos conheciam seu rosto através dos cartazes colocados em pontos estratégicos de cada vilarejo existente, por mais distante que fosse.

Ele poderia estar vivendo disfarçado, usando a poção polissuco, mas fugitivos, especialmente quando perdiam o controle, e esse era o caso de Aubrey, sempre acabavam por chamar a atenção de alguém pelo seu comportamento atípico. Não, havia algo que não fazia sentido nessa história, e essa ideia agora atormentava o lobisomem com frequência. Era como se faltasse um elo da corrente, uma peça do quebra-cabeça.

Fora isso o mundo bruxo vivia um momento bastante tranquilo, sem maiores complicações do que as leves transgressões de rotina, mas o Campeonato de Quadribol, que começaria em breve, era uma promessa de alteração desse panorama. Esperava-se que esse evento estivesse na mira do ex-auror; Lupin chegava a desejar que ele tentasse alguma coisa. Um forte esquema de segurança tinha sido idealizado para o evento, e as chances de captura do assassino de Moody, caso aparecesse, eram grandes.

Era nisso que o lobisomem pensava quando ouviu uma leve batida na porta, que se abriu em seguida para a entrada de Kingsley Shacklebolt. Depois dos cumprimentos, o bruxo se sentou diante de Lupin e entregou a ele um envelope.

—O Ministro aprovou as novas regras do Campeonato, e eu trouxe para você ver. Os locais e as datas dos jogos também já estão determinados, assim como a estrutura de cada turno. Falta apenas o sorteio dos times para a montagem dos grupos, e então tudo estará pronto. Leach marcará uma reunião para tratar dos detalhes, mas eu achei que você gostaria de ir dando uma olhada nessa papelada.

Lupin sorriu e agradeceu. Estranhou um pouco o fato de Kingsley, que passava a maior parte dos seus dias bastante ocupado, ter vindo à sua sala apenas para lhe entregar um documento. Abriu o envelope e relanceou os olhos sobre os papéis, guardando-os em seguida. Depois voltou sua atenção para o bruxo.

—Você quer beber alguma coisa, um chá, café?

—Não, não, obrigado, Remus. Eu já estou de saída, minha agenda hoje está lotada. Eu só vim mesmo para entregar isso. Ah, você soube da novidade? Harry e o Malfoy são namorados agora.

—Como?

Lupin não pôde conter a exclamação de espanto. Sabia que havia um forte sentimento entre Harry e Draco, mas tudo indicava, até aquele momento, que eles seguiriam caminhos opostos na vida. Shacklebolt sorriu.

—É, a notícia surpreendeu a todos. Parecia certa a união entre o Malfoy e a Greengrass, e muita gente, inclusive eu e o Ministro, apostava que Harry se casaria com Emily Scrimgeour. No entanto...

Lupin balançou lentamente a cabeça. Compreendia agora a presença do bruxo, que era o mais cotado para se tornar o próximo Ministro da Magia, em sua sala.

—Harry foi privado de muitas coisas desde que nasceu, Kingsley. Eu, sinceramente, gostei de saber que ele teve coragem de assumir o que sente por Draco, que, por sinal, vem demonstrando ser alguém digno do respeito e admiração de todos.

Kingsley ergueu as sobrancelhas.

—Eu gosto muito do Harry, você sabe. A vida dele foi marcada por aquela profecia, ele já nasceu um mito. Ele pode, e eu acredito que o fará, influenciar toda uma geração; jovens bruxos do mundo inteiro, não apenas da Inglaterra, querem ser como Harry Potter. Para nós do Ministério, que tentamos reconstruir esse mundo, se ele se casasse com Gina ou Emily e tivesse muitos filhos, seria perfeito, até porque nossa população vem sofrendo uma redução drástica com o passar dos anos. Mas como amigo, penso que ele deve escolher quem o faça feliz. Não seria justo que qualquer pessoa se opusesse a isso, não depois de tudo o que ele passou, de tudo o que fez por nós. Eu espero que as coisas corram bem para ele. Aliás, acredito que correrão, afinal, ele tem ótimos amigos por perto, e isso sempre ajuda, não é?

Lupin piscou. Não era íntimo de Kingsley, por isso não estava certo do significado de suas palavras. Aquilo poderia ser uma mensagem cifrada, um aviso de que a escolha de Harry desagradara ao alto escalão, ou então uma sondagem para tentar descobrir se estaria propenso a ajudá-los a pressionar o garoto. O convívio com Shacklebolt ao longo dos últimos anos e o conhecimento de sua orientação sexual conduziram Lupin à escolha da primeira opção. Sorrindo levemente, encarou o bruxo.

—Harry tem mesmo muitos amigos, todos dispostos a ficar ao lado dele em qualquer circunstância, e eu me incluo nesse grupo com satisfação.

Kingsley também sorriu, balançando a cabeça em concordância.

—Bem, eu preciso ir agora. Vejo você depois, Remus. Tenha um bom dia.

Lupin mal teve tempo para responder, e Kingsley já deixava a sala. Pegou o envelope sobre a mesa e o abriu novamente. Tornou a deixá-lo de lado, e seu pensamento voou para Harry. Era uma felicidade que ele tivesse conseguido reunir coragem para assumir seus sentimentos. Apostava que, ao lado de Draco, ele se tornaria forte o bastante para superar sua tendência à melancolia e depressão, velhas conhecidas do lobisomem. Assim como Nympha e Teddy tinham chegado para exorcizar seus demônios pessoais, Lupin sabia que Draco também conseguiria exorcizar os de Harry. Torceu para que o Ministro da Magia conseguisse se lembrar que Harry era um cidadão do mundo bruxo, e não uma propriedade do Governo. Caso ele não fosse capaz de fazer isso, não faltaria quem o ajudasse a refrescar sua memória.


—É deprimente pensar que eu tenho uma dívida de gratidão para com o Weasley.

Harry riu, depois se aproximou de Draco e parou diante dele. Estavam no quarto que o herói ocupava em Grimmauld Place.

—Não sofra tanto por isso. Quando eu falei com Rony hoje cedo sobre os meus planos em relação a você, ouvi que isso lhe facilitaria a missão de infernizar sua vida.

Draco riu.

—Aquele pobretão da cabeça vermelha não me intimida.

Harry deu mais um passo e envolveu a cintura do loiro, trazendo-o para perto. Depois falou, sua boca quase tocando o ouvido dele.

—Talvez devesse. Quando nós conhecemos Tonks ela odiava o próprio nome, e mais ainda o diminutivo "Nympha". Assim que Rony e os gêmeos souberam disso, começaram o que eles definiram como "terapia de choque", e eu defino como bullying. Hoje todos a chamam de Nympha, inclusive Lupin, e ela não se importa mais.

Sentiu Draco rindo em seus braços e o apertou com mais força.

—Ela não contava com o apoio de Kreacher.

Foi a vez de Harry sentir o hálito morno do loiro contra sua pele, o que lhe provocou um arrepio por todo o corpo. Rindo das palavras dele, reviu as mesuras exageradas e a alegria do antipático elfo ao saber que, desse momento em diante, Draco passaria muito do seu tempo na "mui nobre e antiga casa dos Black".

A boca do loiro, agora colada em sua pele, passeava pela linha do seu pescoço e o enlouquecia. Desceu as duas mãos pelas costas dele até chegar às nadegas, que apertou, buscando-o até que seus corpos se tocassem, até sentir ereção contra ereção. Com um rebolado lento friccionou seu membro no de Draco, ouvindo-o gemer baixinho.

—Eu quero você dentro de mim. —Era a voz do loiro, sussurrada, enlouquecedora, fazendo com que o resto do mundo desaparecesse em um segundo.

Grimmauld Place, nº 12. De lá Sirius tinha saído para enfrentar o mundo quando era jovem; de lá saíra para enfrentar a morte, anos depois. A casa velha, corroída, povoada de lembranças amargas, abrigava nessa noite as três pessoas mais felizes do planeta.


luana potter: Ei, lu, que bom ver você outra vez! Eu não vou dizer nada sobre o final, né...haha! Espere só mais um pouquinho e você vai saber tudo, tá? Sobre o pega, eu ia fazer um lemmonzinho no fim desse capítulo, mas como ele ficou meio grande eu não quis cansar vocês. Prometo algo bem hot para o próximo, ok? Obrigada por ler a fic e voltar a comentar, isso me estimula um monte. Beijos!

crisro: Lindo foi seu comentário, eu adorei! Harry filha da p***a matando todo mundo de raiva, né? Mas ele teve o que merecia, e eu espero que isso tenha lavado a sua alma também kkkk! Sobre o Ron, eu tenho paixão por ele, e gostaria de ter conseguido passar a personalidade dele como eu imagino, um grande cara, tão acostumado a não se destacar entre os irmãos que segue pela vida misturado à multidão, só se mostrando de verdade para os poucos privilegiados que compartilham sua intimidade. Obrigada pelo comentário, mil beijos!