Hazel
Capítulo III
Escrito por Nevilla F.
No dia seguinte, Severus saiu uma hora mais cedo do trabalho para ir até o metrô. Já na plataforma, ele enfeitiçou a si mesmo com um feitiço de desilusão modificado. Esse feitiço permitiria que ele ficasse por até três horas camuflado, tempo muito superior aos outros feitiços de desilusão.
Em seguida, Snape aguardou na plataforma. Ele tinha certeza que Longbottom iria aparecer para mais um "encontro casual". O professor já tinha totalmente abandonado a ideia de que Longbottom tivesse um namorado lobisomem. A poção Wolfsbane havia sido apenas um pretexto para a aproximação.
Longbottom claramente tinha outras intenções, provavelmente maléficas. Porém o sorriso do rapaz ao identifica-lo no dia anterior não saía da mente de Severus. Fazia muitos anos que ninguém sorria para ele daquela forma. Lily sorria assim, Regulus as vezes também sorria para ele; porém, o sorriso de Longbottom parecia mais sincero e intenso. Snape se irritou consigo mesmo com esse pensamento. Provavelmente o garoto havia enfeitiçado o próprio sorriso de alguma forma. Ele havia consertado os dentes com feitiços. Por que não enfeitiçar o sorriso para ver como o odioso professor reagiria?
Maldito garoto! Longbottom devia pensar que com sua beleza seria capaz de conquistar qualquer um, até o professor. Ora, ele receberia um bela lição!, pensou Severus. Mesmo que custasse sua liberdade, Snape torturaria Longbottom se descobrisse que ele estava zombando dele.
Contudo... Podia não ser uma brincadeira. Talvez Longbottom realmente gostasse dele. Snape rosnou com o pensamento. Com as mãos fechadas em punho, ele podia socar alguém. Não havia a menor chance de Neville Longbottom sentir algo bom por ele. Corrigindo, não havia a menor chance de qualquer um de seus alunos, das casas que não Slytherin, ter sentimentos bons por ele. Não era possível! Até porque Longbottom foi tão tripudiado em Hogwarts quanto Potter.
Severus se sentiu levemente mal ao fazer essa comparação. Potter ao menos tinha um motivo para ser maltratado, sempre tão insolente e desrespeitoso. Por outro lado, Longbottom nunca foi como Potter. Costumava não ter habilidade nenhuma em Poções, porém sempre foi respeitoso. Talvez Snape devesse ter sido menos carrasco com Longbottom. Mas na maioria das vezes, Severus simplesmente atacava Longbottom para irritar Potter.
Longbottom, mesmo sem os olhos hazel, só por ser um herói de guerra poderia ter quem quisesse. Qualquer um. Talvez exatamente por isso ele estivesse interessado em Severus, pelo fato do professor ser inacessível. Era uma explicação plausível. Longbottom deve ter feito uma aposta com Potter e os amiguinhos alegando ser capaz de conquistar o professor. Isso explicava o interesse de Longbottom nele, os encontros no metrô, as aulas e os convites. Sim, era isso!
O lado emocional de Severus estava convencido com a ideia, contudo a parte racional protestava. Snape já havia concluído que Longbottom era um rapaz íntegro, então como o garoto seria capaz de fazer uma aposta desse tipo? Longbottom parecia ser incapaz de brincar com os sentimentos dos outros dessa forma. Afinal, ele era um honrado Gryffindor. E somente os piores Gryffindors, como James Potter e Sirius Black, eram capazes de brincar com os sentimentos alheios.
Como se estivesse sido atraído pelos pensamentos de Severus, Longbottom apareceu na estação. O rapaz caminhava pelos muggles como se estivesse procurando alguém. Em seguida, olhou a hora no relógio e parou de olhar em volta. Snape franziu a testa sem entender e também verificou as horas. O professor então entendeu porquê o rapaz parou de procurar, ainda estava muito cedo. Severus costumava chegar a estação somente trinta minutos mais tarde.
Ainda olhando para Longbottom, Snape acompanhou o rapaz se sentar nas cadeiras da estação. Ainda observando Longbottom, o professor viu o menino puxar um livro da mochila e em seguida começar a folheá-lo com atenção.
Mesmo sabendo que era ariscado estar próximo, Snape se aproximou de Longbottom. O livro de Poções do rapaz mostrava o modo de preparo da poção Felix Felicis. Os lábios de Severus se repuxaram em um sorriso de escárnio. Jamais pediria uma poção tão imbecil para ele produzir, mesmo sendo difícil de ser executada.
Snape reparou que o rapaz escrevia anotações nas páginas do livro, como ele próprio fazia. Ele tentava ler uma das anotações quando a cabeça de Longbottom se ergueu e olhou diretamente para ele. Severus cambaleou dois passos para trás e por pouco não trombou com uma mulher que corria apressada em direção ao metrô. O Comensal da Morte jamais admitiria, contudo, o olhar direto de Longbottom o deixou perturbado. Os olhos daquele rapaz também foram capazes de despertar outras reações, que Severus oprimiu com maestria. Longbottom desviou o olhar e observou a plataforma, que estava vazia no momento. As portas do metrô se fecharam e o trem avançou.
Severus se aproximou de novo enquanto Longbottom bocejava. Haviam olheiras no rosto do rapaz e ele aparentava sono. Contudo, apesar do cansaço de Longbottom, seu cabelo castanho claro estava arrepiado e o perfume tão forte que o álcool podia queimar o nariz dos mais sensíveis. Suas roupas pareciam favorecer mais beleza. Ele havia deliberadamente se arrumado para vir a estação de metrô. Longbottom tinha se arrumado para encontrar com Snape.
Aquilo atingiu Severus de uma forma não esperada. Longbottom parecia tão atraente, tão sexy e tão desejável... Snape não resistiria a ele. Ao contrário, Severus sentiu o desejo sexual percorrer seu corpo como há décadas não acontecia. Sua respiração acelerou e seu coração parecia que ia explodir com o esforço de tantas batidas. Snape fechou as mãos em punho e se afastou do garoto, da estação de metrô. Sem se dar conta, ele começou a correr para longe do ex-aluno. Somente quando estava já estava na rua, ele parou.
Tentando pensar racionalmente, Snape não precisava continuar na estação. Era óbvio que Longbottom tinha ido até ali para esperar por ele. O garoto não tinha pego o metrô e ficou sentando consultando as horas. Sua hipótese havia se confirmado. Os encontros nunca haviam sido casuais, Longbottom ia até lá para encontra-lo propositalmente.
Porém, o quê explicava o forte desejo sexual que Snape estava sentindo por seu aluno?
-X-
No dia depois, Severus comprou um carro. Ele nunca mais usaria o metrô. Não desejava encontrar Longbottom. Isso porque ele não queria nunca mais sentir desejo por um garoto de dezenove anos. Aliás, um garoto que provavelmente estava tentando brincando com ele. Ou pior, um garoto com muitos problemas, caso Longbottom realmente sentisse sentimentos bons pelo professor.
Os dias seguintes passaram insossos para o professor. A lua cheia chegou e, previsivelmente, Longbottom não enviou uma carta pedindo a poção Wolfsbane ou nada do tipo. Portanto, restavam apenas duas hipóteses para serem testadas, apesar do lado direito do cérebro do professor, o lado racional, apontar apenas para uma. A teoria que Severus simplesmente não podia aceitar.
Contudo, o bruxo já havia achado a solução para todos os problemas no dia da aula. A poção que Longbottom iria finalizar lhe daria todas as respostas. Snape só precisava manipular o rapaz, por isso, enviou uma carta para ele pedindo que trouxesse o sapo de estimação para a aula.
-X-
No apartamento de Bill Weasley em Londres, ele e sua irmã conversavam sobre o professor de Poções.
"Papai me disse o local exato onde Snape trabalha. Os muggles chamam de farmácia", disse Bill.
"Melhor deixar ele quieto, Bill. Neville não vai gostar se você fizer algo contra ele."
"Eu só pesquisei isso porque Neville comentou que Snape não está mais aparecendo no metrô. Ele achou que havia acontecido algo ruim com Snape."
"E aconteceu algo a Snape?"
"Não. Pedi para Percy verificar para mim. Aparentemente o desgraçado só está evitando Neville."
Ginny não escondeu seu desapontamento com a resposta.
"Maninha, você realmente acreditou que esse monstro fosse capaz de sentir alguma coisa por Neville? Ele é incapaz de ter sentimentos. Neville não tem a menor chance."
"Ainda assim você instruiu Neville sobre como agir na presença de Snape. Falou para ele não usar Oclumência porque isso seria suspeito. Para quê fez isso, então?"
Os olhos azuis de Bill brilharam.
"Eu não podia negar qualquer ajuda a Neville."
"Por isso também foi com ele à Azkaban? Ele te pediu?"
"Sim. Foi ótimo ter ido lá e ouvido o que Malfoy disse. Ele realmente conseguiu me deixar intrigado."
"Malfoy te deixou intrigado? Com relação ao que?"
"Regulus Black. Eu quero ver com meus próprios olhos como Snape reage ao antigo amante."
"Como vai fazer isso? Snape não vai responder nada que você perguntar."
"Com figurinhas de sapo de chocolate", falou Bill e colocou várias figurinhas com a foto de Regulus Black em cima da mesa. Essas figurinhas só existiam porque Harry providenciou figurinhas para todos que colaboraram na luta contra Voldemort, o que incluía Regulus Black. "Foi para isso que pedi o endereço do emprego muggle de Snape. Quero confrontá-lo."
"Vai contar isso para Neville?"
"Talvez. Malfoy disse que a morte de Regulus afetou Snape. Não acredito nisso. Nada afeta aquele homem. Eu vi enquanto estávamos na Ordem da Fênix. Eu quero ter certeza que nada afete ele."
Ginny sorriu com astúcia.
"Você deseja que Snape não se afete com nada, incluindo quando Neville se declarar para ele."
"Ele não irá se afetar, Ginny, tenho certeza. Não quero nem que ele toque em Neville. Espero que Snape seja tão cruel com Neville, que ele irá correr dele."
"Para você poder consolar Neville? Você está sendo egoísta."
"Por Merlin, Ginny! Prefere ver Neville com Snape do que comigo?"
Ginny ficou pensativa por alguns segundos, depois respondeu:
"Você não está apaixonado por Neville, Bill. Acho que você só ficou interessado para poder competir com Snape por Neville. Eu desejo que Neville seja feliz, com quem for."
"Está torcendo por Snape, então?", indagou com traços de irritação na sua voz.
"É exatamente disso que se trata. Você está tratando os sentimentos de Neville como se fossem o prêmio de uma competição. Isso não me agrada. Apesar de todos os inúmeros defeitos do Snape, ele nunca faria isso com Neville."
Bill sorriu com desdém.
"Snape nunca aceitará Neville, diferente de mim."
"Talvez. Mas vou repetir o que falei para Neville, se existe alguém capaz de despertar os sentimentos de Snape, esse alguém é ele. E se Neville conseguir tal fato, então sim, eu torcerei por Snape."
"Vai perder, maninha", disse Bill com soberba. Mas no fundo, ele não iria admitir que a irmã caçula, onze anos mais nova, poderia ter razão. Bill gostava de competir, o que era normal quando tinha uma família cheia de irmãos. Por isso ele se empenhou para ser monitor chefe e obter notas perfeitas. Talvez ele havia se tornado viciado em competição. Por isso competia pela atenção e sentimentos de Neville. Mas isso não era errado! Snape era um dos bruxos mais nojentos e repulsivos que existiam. Ele simplesmente não merecia Neville! E Bill realmente gostava do rapaz. Ele era muito agradável, um bom amigo. Certo?
Talvez Ginny tivesse razão. Bill estava separado há meses, porém só se interessou em Neville quando a irmã comentou que o rapaz tinha uma queda por Snape. Mas não daria o braço a torcer. Não agora que já tinha entrado na competição e tinha grande chance de ganhar.
"Quer ir comigo ver Snape? Irei até a farmácia amanhã."
"Não, Bill. Eu estou torcendo por Snape", zombou Ginny.
-X-
"Senhorita Ward, quem é o paciente que deseja ver o farmacêutico?", questionou Snape com sua acidez usual para a recepcionista da farmácia.
A moça nem precisou indicar quem era. Bill Weasley com suas roupas pretas características de roqueiro e brinco de dente de dragão não passava despercebido. O professor sorriu enviesado ao identificar o "paciente".
"Ah! Senhor Weasley! O que deseja aqui em uma farmácia? Está precisando de medicamentos para disfunção erétil?", perguntou com escárnio.
"Eu tenho que dizer, professor, branco não é sua cor. Está parecendo um poltergaist", zombou de volta. Severus Snape usando jaleco branco e cabelos presos era uma imagem demasiada incomum.
"O que veio fazer aqui, menino?"
"Bem, eu...", disse e deixou cair diversas figurinhas de sapo de chocolate. Todas ilustradas com a foto de Regulus Black. Bill não olhou para o chão ou para as figurinhas, ele observava Snape. Bill quase riu abertamente quando viu a feição de Snape se alterar. O homem ficou pálido, se assemelhando ainda mais a um poltergaist, quando identificou o ex-amante.
"O que significa isso, Weasley?", questionou com a voz mais baixa e letal.
"Deixei cair algumas figurinhas da minha coleção. Eu tenho muitas figurinhas de Regulus Black. Você o conheceu, Snape?"
Severus respirou lentamente, tentando não demonstrar a sua irritação. O professor já havia entendido que, de alguma forma, Weasley havia descoberto sobre seu passado, e tinha ido até o seu local de trabalho apenas para atormentá-lo.
"Saia daqui, garoto!", ordenou com profundo desprezo.
"Você não respondeu a minha pergunta, professor. Conheceu Regulus Black?", insistiu de forma impertinente.
Snape rangeu os dentes. A raiva atingindo outro patamar. Como Weasley tinha a audácia de falar de Regulus? Justo Regulus, o bruxo que havia aceitado Severus mesmo com o coração partido. O rapaz que o aceitou mesmo sabendo que Severus nunca iria amá-lo. Regulus o aceitou mesmo com todos os problemas e defeitos. E Regulus havia lutado contra Voldemort antes mesmo de Severus. Weasley, com sua boca indigna, não falaria de Regulus.
"Saia já daqui, Weasley! E fique avisado que se você se sentir tentado a voltar no meu local de trabalho novamente, eu te enfeitiçarei."
"O que foi, Snape? Esqueceu a sua máscara de indiferença em casa hoje?"
Severus virou as costas e deixou o rapaz. Sua paciência havia estourado. Caso continuasse ouvindo besteiras a respeito do seu antigo amante, iria puxar a varinha e iniciar um duelo com Weasley.
"Está fugindo, Snape? É o que os Slytherins melhor fazem."
Weasley o estava chamando de covarde?, pensou furioso. Severus se virou devagar na direção do rapaz. Puxando sua varinha, Snape perguntou:
"Quer resolver isso agora, garoto?", perguntou enfatizando a última palavra.
Severus observou os olhos azuis gelados de Weasley cintilarem ao ver a sua varinha. Parecia que o ex-aluno tinha ido até ali disposto a duelar com ele. Com sua visão periférica, o professor também viu a senhorita Ward, um aborto designado pelo Ministério da Magia a vigiá-lo na farmácia, se remexer com inquietação.
Com um sorriso que mostrava extremo desdém, Bill indagou:
"Podendo utilizar apenas três feitiços, você acha que pode me vencer em um duelo?"
"Garoto, eu acabo com você com um único feitiço. Conheço as suas habilidades como bruxo, já que fui seu professor, e posso afirmar que você não é grande coisa."
A atendente da farmácia, senhorita Ward resolveu intervir. A moça correu de trás do balcão até os bruxos.
"Senhor Snape, você não pode fazer isso!"
O tom imperativo da moça irritou profundamente o Comensal da Morte. Severus girou nos calcanhares em direção a garota.
"Eu posso e vou duelar com esse menino", falou e com um feitiço não verbal nocauteou a mulher. A moça desmaiou e Snape a amparou para que não caísse no chão. O bruxo a deixou dormindo recostada na parede.
O sorriso enviesado de Weasley se ampliou.
"Só te restaram dois feitiços, Snape. Vou te provar que os alunos superam os professores, em especial os péssimos professores."
"Irei repetir, menino, vou te derrotar com um único feitiço."
"Você tem a arrogância inata dos Slytherins, mas admiro a sua coragem."
"Se incomoda de duelar aqui?"
"Qualquer lugar está bom."
"Precisamos apenas firmar um acordo antes. Eu não pretendo fazer bagunça nesse recinto, contudo, espero que caso você quebre ou desorganize algo, você se disponha a restaurar as coisas. Visto a minha limitação de feitiços."
"Farei isso."
Severus assentiu e se afastou alguns passos. O bruxo foi em direção a porta da farmácia e virou a plaquinha que ficava pendurada no vidro, mostrando o letreiro Fechado em direção a rua. Assim, não seriam interrompidos por nenhum muggle. Snape já havia utilizado feitiços na farmácia anteriormente, porém seria a primeira vez que ele duelaria. Todavia, como ele já havia enfeitiçado a garota e nada ocorreu, ele imaginava que não haveria maiores problemas com o uso de mais alguns feitiços. Mas caso ele fosse notificado por uso magia em lugar impróprio, culparia o filho do vice-ministro. Afinal, o rapaz havia vindo até o seu ambiente de trabalho apenas para perturbá-lo.
A recepção da farmácia era pequena, mas tinha espaço suficiente para eles fazerem um pequeno duelo. Severus iria derrotar o pretensioso Gryffindor rapidamente. Ninguém insultaria Regulus na sua frente. E, principalmente, ninguém viria perturbá-lo no seu emprego. Weasley aprenderia uma lição.
"Pronto, garoto?", perguntou Severus em frente ao rapaz, mas do lado oposto da recepção.
"Sempre", respondeu com um sorriso soberbo.
Snape sorriu enviesado. O Comensal da Morte estava mais que estimulado a tirar o sorriso da cara do Gryffindor. Severus se inclinou em uma breve reverência, que foi acompanhada pela reverência de Weasley. Logo em seguida, da varinha de Weasley voaram diversos feitiços em sua direção. Na opinião do professor usar vários feitiços de uma só vez era a atitude de um covarde. Contudo, Severus estava preparado e esperando por isso. Havia lutado contra covardes a vida inteira. O bruxo usou um feitiço em si mesmo que funcionava como um poderoso escudo, bloqueando todos os feitiços temporariamente. Por ser um feitiço poderoso, durava menos de um minuto. Porém, era tempo suficiente para Severus derrotar Weasley. Uma vez protegido, estava na hora de Severus provocar.
"Está apelando, Weasley."
"Como se protegeu de todos os meus feitiços?", perguntou irritado.
"Você precisa aceitar que eu sou um bruxo mais talentoso que você, menino."
"Está usando algum feitiço escudo? Não pode se proteger para sempre!"
"Veja e aprenda, menino."
Os olhos azuis reluziram de ódio. Era nítido que William Weasley detestava ser chamado de menino. Talvez por isso Weasley lançou dezenas de feitiços nãos verbais em Severus. O professor sentia apenas um leve impacto físico dos feitiços em sua proteção, sem receber as azarações. O Comensal da Morte tinha ciência de que seu feitiço escudo não aguentaria mais muito tempo. Portanto, era hora de agir. Assim que sentiu o último feitiço contra a sua barreira, Snape balançou a varinha de forma elegante e lançou um feitiço de autoria própria no ex-aluno.
Assim que recebeu o feitiço, Weasley soltou a varinha, o corpo parecia ter se solidificado. Os olhos azuis se arregalaram enquanto uma forte descarga elétrica percorria seu corpo. O rapaz caiu no chão com o corpo tremendo, como se tivesse tendo uma convulsão. Apesar da dor que devia estar sentindo, William Weasley lançou um olhar de puro ódio para Severus.
"Está doendo, Weasley? Tente relaxar. Você está recebendo um choque. Me inspirei para criar esse feitiço nas armas não letais que os muggle usam."
Depois de poucos segundos, Weasley parou de tremer.
"Ganhei o duelo, menino. No fim, você não está pronto para superar o professor", zombou.
-X-
Enquanto Weasley se recompunha e a senhorita Ward recobrava a consciência, Arthur Weasley e dois aurores apareceram na farmácia. O vice-ministro olhou com profunda reprovação para o filho ao identifica-lo. Arthur falou que foi até o local porque haviam sido lançados mais de vinte feitiços na farmácia e eles tinham ido verificar se estava tudo em ordem. Para surpresa de Severus, o próprio William Weasley assumiu que foi ele que lançou os feitiços e tudo tinha sido sua culpa. O garoto só não mencionou que havia perdido o duelo contra o professor. Por isso, quando questionado pelo pai o motivo dos feitiços, o rapaz desconversou. Falou que iria embora, a não ser que estivesse sendo intimado a dar um depoimento. Arthur não parecia feliz com a atitude do filho, mas o liberou por não ter tido vítimas.
Antes de deixar que o rapaz fosse embora, Severus não iria perder a oportunidade para uma última alfinetada.
"Você deixou as suas figurinhas aqui, menino. Faça-me o favor recolhê-las."
Severus recebeu um novo olhar de ódio do rapaz que pegou as figurinhas no chão e deixou a farmácia sem dizer uma palavra.
"Está tudo bem, Severus?", perguntou cordialmente Arthur Weasley.
"Em perfeita ordem, vice-ministro."
"Bill veio te enfeitiçar. Quer prestar alguma queixa?"
"Nenhuma. Tenho certeza que seu filho não virá aqui novamente", acrescentou um sorriso maldoso.
Arthur assentiu e indicou para os aurores que esperassem por ele lá fora. Quando os bruxos saíram, Arthur questionou:
"Há quanto tempo está nessa função, trabalhando como muggle?"
"Vai fazer um ano."
"Vou entrar em contato com você posteriormente, Severus. Tenho em mente um novo emprego para você."
"Vai me mandar lecionar Química para crianças muggle, vice-ministro?"
Arthur sorriu amigavelmente.
"Não. Será bem mais emocionante do que isso."
"Eu mal posso esperar", disse com deboche acentuado.
"Passar bem, Severus, senhorita Ward", falou e foi embora.
Assim que o vice-ministro deixou a farmácia, Snape se virou na direção da recepcionista.
"Agradeço a sua descrição. Lamento pelo feitiço."
"Foi ele quem veio perturbá-lo, senhor. Não foi sua culpa."
Severus assentiu e se dirigiu para a salinha de manipulação. Pensando mais sensatamente, Snape não sabia explicar suas ações. Ele raramente se deixava levar pela adrenalina, tomando decisões precipitadas, como puxar a varinha e iniciar um duelo. Contudo, ver Regulus naquelas figurinhas o perturbou. Ele viu seu passado sendo remexido por um Weasley. O garoto tinha ido até ali somente para provoca-lo. De alguma forma, Weasley havia descoberto sobre o seu passado amoroso. Essa invasão pessoal acabou perturbando o professor.
Snape nunca amou Regulus, mas o rapaz era capaz de sentir amor pelos dois. Severus realmente se sentiu amado por Black. Por isso, ficou furioso com a provocação. Parecia que Weasley estava zombando de seu antigo amante, o que era inadmissível.
Além disso, havia outro detalhe que Severus reprimia. Ele se lembrava de como William Weasley olhava para Longbottom. Havia uma cobiça desenfreada nos olhos azuis. Mas isso não tinha nada a ver com ele! Longbottom e Weasley podiam ser namorados e isso não diz respeito a ele. Contudo... Será que Severus resolveu enfrentar Weasley só por Regulus? Ou havia sido por Regulus e Longbottom?
-X-
"Entre, Longbottom", ordenou Severus ao receber o rapaz em sua casa para a aula. O bruxo esboçou um meio sorriso ao reparar que o Longbottom não sorria, como sempre fazia quando se encontravam. Talvez a saudades do contato visual com Longbottom também tenha facilitado o meio sorriso do Comensal da Morte. Snape adorava os olhos hazel.
"Oi, Snape. Obrigado por me receber", disse e entrou na sala.
"Trouxe seu sapo? Vamos precisar de uma cobaia hoje", disse e tentou utilizar Legilimência sem varinha no rapaz. Novamente, encontrou a mente de Longbottom protegida pela Oclumência.
"Eu trouxe Trevor", respondeu e mostrou a gaiola que carregava na mão direita.
Severus fechou a porta e em seguida aguardou enquanto Longbottom retirava o sobretudo cinza para que ele guardasse. O professor evitou ficar olhando o rapaz enquanto ele retirava a roupa. Snape não podia negar que Longbottom havia se tornado um homem atraente. Mas depois do episódio no metrô, quando sentiu desejo sexual pelo ex-aluno, ele preferia manter uma distância.
"Aqui", falou Longbottom entregando o seu sobretudo para o bruxo.
"Lembra-se do cômodo que usamos na última vez? Vá até lá e me espere", mandou Severus, que se dirigiu ao armário sob as escadas. Segurando a peça de roupa, ele precisou fazer um esforço hercúleo para não aspirar o cheiro do perfume de Longbottom que vinha do sobretudo.
Após deixar a roupa do rapaz no armário, Severus seguiu lentamente para o seu pequeno laboratório. Ele queria que Longbottom ficasse um tempo a sós no cômodo. Quando Snape entrou no recinto, seus olhos brilharam de satisfação ao notar que Longbottom folheava com nítido interesse um dos livros de Herbologia que ele havia deixado na bancada propositalmente.
"São para você."
Longbottom deixou o livro cair ao ouvir a voz do professor.
"Desculpe, eu..."
"Eu te assustei? Duvido muito. Heróis como você não se assuntam, não é mesmo?"
"Eu ia dizer que eu sou desastrado", murmurou enquanto se agachava para apanhar o livro no chão.
"Longbottom, eu sei disso há mais de sete anos", zombou. "Esse livro que você deixou cair e os demais foram os meus livros de Herbologia na época que eu estudei em Hogwarts. Obviamente são antigos e provavelmente ultrapassados, mas eu estou dando-os para você."
Severus viu que Longbottom quase deixou o livro cair, de novo, com a sua declaração. Os olhos hazel estavam arregalados em surpresa ao dizer:
"Eu não posso aceitá-los, Snape."
"Você ficará com eles. É para você se lembrar do quanto gosta de Herbologia. Aliás, Herbologia combina muito mais com você do que Poções."
"Mas são seus!"
"Da última vez que você veio aqui, você me trouxe um livro. Estou apenas retribuindo a gentileza. Até porque esses livros não me servem mais. Não sinto o menor interesse em Herbologia. E como eu disse, acho que você precisa recordar os seus reais interesses."
"Mas..."
"Sãos seus, Longbottom", falou em tom imperativo. "Se você não os quiser, irei queimá-los na lareira."
"Eu fico com eles", disse em tom indignado.
"Ótimo."
"Obrigado, Snape!", agradeceu com um sorriso. Os olhos hazel cintilaram de alegria.
Severus ficou desconcertado com o sorriso do rapaz, por isso, tratou rapidamente de desviar o olhar e mudar de assunto.
"Hoje você não fará uma poção, irá termina-la. Eu comecei a Veritaserum e preciso que você a finalize. Acredito que você deva conhecer bem essa poção já que é um futuro auror", disse e ficou alguns segundos observando a reação do rapaz. Ele viu Longbottom engolir em seco, enquanto ao mesmo tempo, sua pele se tornava mais pálida. Após apreciar sadicamente essa visão, Severus continuou falando: "Eu iniciei a primeira parte da poção. Seu teste será avaliar se a poção está pronta para começar a parte final. Acredito que você saiba que essa segunda parte é a mais complicada de se concluir. Pode me dizer o por quê?"
"Quando a poção não é finalizada corretamente se torna um potente veneno."
"Vejo que eu consegui colocar ao menos a teoria na sua cabeça", disse maldoso. "Então você é capaz de entender porque eu pedi para você trazer uma cobaia. Contudo, você como Gryffindor, terá coragem de expor seu animalzinho de estimação ao veneno? Lembro que em Hogwarts era sempre Granger que salvava o seu sapo ao te ajudar a corrigir as poções desastrosas que você fazia."
Severus observou Longbottom enquanto o rapaz olhava para o sapo dentro da gaiola. O garoto disse:
"Eu não produzirei um veneno. Terminarei a poção corretamente e eu mesmo experimentarei, se você quiser. Porém, existem outras formas de verificar se a poção foi produzida de forma correta além da ingestão."
Os lábios de Severus tremeram em um meio sorriso de satisfação. Até Longbottom, um rapaz relativamente ingênuo, entendeu que tinha sido manipulado pelo professor. A real intenção do homem era induzi-lo a ingerir a poção.
"Eu sempre verifico a eficácia dessa poção através da ingestão. Se não aceita a minha forma de conduzir seu treinamento, procure outro tutor."
"Eu aceito."
Dessa vez, Snape realmente sorriu enviesado com a resposta.
"Tenho os ingredientes que vai precisar em meu armário. Guarde os livros que eu te dei em sua mochila e providencie um livro de poções. Pode começar."
-X-
Neville pegou um livro de Poções grosso de dentro da mochila e o colocou em cima da bancada. Antes de fechar a mochila, olhou novamente para os livros que Snape lhe dera. Os presentes haviam sido uma surpresa muito agradável. Ele fechou a mochila e olhou para o professor. O homem estava em frente a ele, o analisando. Severus colocou uma caixa de papelão cheia de velas na bancada e continuou olhando para Neville.
Longbottom sabia o que tinha que fazer. Ele pegou sua varinha e, através de feitiços insonoros, içou as velas da caixa até o teto e as acendeu; logo depois com outro feitiço, fechou as cortinas. Não obteve nada como agradecimento, a feição de Severus nem se alterou. O homem continuou de pé, o encarando.
Certo. Estar sendo observado daquela maneira mexia seriamente com os nervos do rapaz. Em geral era por conta do olhar gélido de Snape em sala de aula que ele perdia a confiança e a poção desandava. O professor o deixava nervoso, e Neville tinha ciência de que quando ele ficava nervoso tudo de ruim acontecia. Ele começava a derrubar objetos, esquecer ingredientes e instruções, e ficava incapaz de se concentrar no que estava fazendo. Mas esse tipo de nervosismo gerado pelo olhar do professor havia ficado no passado. Não havia?
Longbottom engoliu em seco. Depois, tentando não transparecer a sua agitação, perguntou:
"Posso começar?"
"Já devia ter começado."
Neville assentiu, depois abriu o livro e procurou no índice em qual página estava a poção Veritaserum. Após encontrar a página, ele olhou novamente para o homem de preto. Severus não havia se mexido um centímetro, a feição impenetrável. De pé, o bruxo continuava a estuda-lo com o olhar. Longbottom baixou o olhar rapidamente e se odiou ao fazer isso. Fugir do olhar de Snape era algo que fazia quando ele era um menino. Ele não podia mais fazer isso. Slytherins, em especial Severus, podiam farejar o medo.
Neville voltou sua atenção ao livro, onde leu três vezes sobre os métodos para determinar se a primeira parte da poção Veritaserum havia sido preparada corretamente. O teste para detectar consistia em pegar uma alíquota da poção e adicionar uma gota de solução de Pfaffia; caso a mistura soltasse vapores verdes significava que estava pronta. Em seu estojo de ingredientes ele tinha solução de Pfaffia, por isso pegou sua mochila e retirou de lá o estojo de ingredientes.
Calmamente pegou uma amostra do caldeirão e adicionou em um frasco de vidro menor, depois adicionou uma gota da solução de Pfaffia. Concentrado, Neville não reparou que Snape havia se aproximado e estava parado as suas costas, olhando sobre seu ombro.
"O que está fazendo?"
A voz de Severus tão próxima do seu ouvido perturbou tanto Longbottom que ele deixou o frasco cair na bancada, espatifando o vidro.
"Por Merlin, garoto! Você é extremamente desastrado."
Neville tremia de excitação desenfreada, apesar de sua demonstração de incompetência. Severus Snape estava atrás dele! Perto o suficiente para sentir o calor do corpo do homem e sentir a respiração do professor em sua nuca. Longbottom não se atrevia a virar e encarar os olhos negros. Ele poderia se descontrolar e beijá-lo. Provavelmente depois seria morto pelo Comensal da Morte, mas morreria feliz. E justamente por isso continuou olhando para frente, em direção ao vidro quebrado.
"Desculpe. Eu vou consertar."
Longbottom sentiu Severus sair de trás dele, já que o homem fez questão de roçar nele enquanto se afastava. Neville viu o bruxo parar em frente a ele, o olhando com o rosto impassível.
O rapaz pegou a varinha e consertou o frasco. Depois pegou uma nova alíquota da poção e adicionou a solução de Pfaffia. A mistura exalou vapores verdes. Neville sorriu e olhou para Snape, como se buscasse apoio. Porém, a expressão do bruxo não dizia nada.
Após alguns segundos de silêncio desconfortável, a voz irritada de Severus indagou:
"O que está esperando para continuar?"
Longbottom se sentiu corar. Após uma longa respiração profunda a fim de se acalmar, Neville leu e releu a lista de ingredientes duas vezes. Depois se dirigiu até o armário para pegar o que precisava para dar continuidade a poção. Ele tentou ignorar o olhar pesado que recebia. Ele separou alguns frascos e os levou para a bancada. Longbottom voltou para o armário para selecionar mais alguns ingredientes. Ele pegou um frasco para ler o rótulo que estava parcialmente ilegível. A voz suave de Severus o sobressaltou:
"Você realmente precisa de pó de Confrei?"
A mão de Neville suada foi incapaz de segurar o frasco, que escapou de seus dedos. O vidro só não se espatifou no chão porque Severus o fez flutuar com um feitiço insonoro.
"Tsc, tsc... Quebrar os frascos dos ingredientes não te impedirá de fazê-la. Eu tenho mais em estoque. Por isso, me faça o favor de não quebrar nada."
Longbottom pegou o frasco que flutuava e o colocou na bancada. Ainda totalmente vermelho de vergonha, olhou para o professor.
"Eu não tive a intenção de quebrar nada. E eu não teria deixado cair se você não tivesse falado."
"Então a culpa é minha?", perguntou com a voz cheia de deboche.
"Não... Eu só...", Neville se interrompeu. Não teria coragem de falar que estava nervoso porque o bruxo estava com o olhar fixo nele. Nem diria que a voz de Severus o fazia estremecer. "Por que não se senta?"
"Estou na minha casa, rapaz. Quer me dar ordens aqui?"
Neville ficou atônito, então se deu conta que essa era a intenção de Snape. O Comensal da Morte queria perturbá-lo e distraí-lo para atrapalhar o preparo da poção. Mas por quê? Será que Snape quer que eu tome um veneno?, pensou com tristeza.
"Desculpe. Não foi minha intenção", falou e continuou separando os ingredientes no armário. Após selecionar tudo, voltou para a bancada. Ele viu Severus dar alguns passos, ficando mais próximo dele.
Neville resolveu provocá-lo também. Enquanto separava algumas pétalas de Passiflora para fatiar, perguntou:
"Como tem voltado para a casa esses dias, Snape? Faz um tempo que não o encontro no metrô."
"Eu não devo satisfações aos meus alunos", respondeu secamente.
A resposta quase fez Neville cortar o próprio dedo. Ele fechou os olhos e ordenou a si mesmo que se acalmasse. Olhando para as folhas coloridas que fatiava, ele optou ser audacioso com a réplica.
"Não, não deve. Mas pensei que já tínhamos superado essa coisa de professor-aluno. Achei que podíamos tentar algo como amizade, visto que já estamos até trocando presentes."
"Está enganado, Longbottom. Continuamos com a mesma relação professor-aluno."
Neville ergueu a cabeça para olhar para Severus, apesar de sua declaração tê-lo machucado.
"Poderíamos mudar isso, basta você permitir."
"Eu não quero e te aconselho a agilizar o preparo dessa poção se quiser termina-la ainda hoje."
Longbottom sentiu outro soco com a secura do homem. Se recompondo rapidamente, ele resolveu focar na poção. Severus ficaria em pé olhando para ele, isso era um fato que não podia mudar. Portanto, teria que se acostumar. Ok, vou ignorá-lo. Com isso em mente, Neville se concentrou apenas na poção.
Longbottom conseguir ir bem no preparo da poção até que Snape perguntava algo, ou fazia algum comentário. Mas o pior era quando o professor passava atrás dele para espionar o que estava fazendo. A aproximação de Severus, a respiração do bruxo em sua pele fazia Neville tremer e essas reações não eram causadas por medo ou nervosismo.
-X-
Apesar de Snape ter se empenhado para ver Longbottom falhar, o bruxo não obteve sucesso. O rapaz conseguiu terminar as partes mais complicadas da poção e bastava adicionar o último ingrediente para finalizá-la. Insatisfeito, Severus resolveu ser mais direto.
"O que apostou com Potter?"
Infelizmente, Longbottom não reagiu como Snape queria. A maior qualidade do rapaz na opinião do professor era sua transparência, o fato de lê-lo ser muito fácil. Contudo, a única reação que Longbottom demonstrou com a pergunta foi confusão.
"Eu não entendi a sua pergunta", retrucou após adicionar o último ingrediente a poção.
"Apostou algo com ele", insistiu. "Eu sei. O que foi? O que você tem que provar para ele?"
"Te garanto que não fiz apostas com ninguém", respondeu com veracidade inquestionável. Isso fez Severus mudar sua estratégia.
"No nosso primeiro encontro no metrô eu notei que Potter te incentivava a fazer algo. O que era? Com certeza era relacionado a mim."
Severus viu Longbottom ficar levemente pálido. Bingo! Uma reação!
"Eu... Eu não sei do que você está falando."
Snape sorriu com maldade, pois a voz de Longbottom tremeu, indicando a mentira.
"Ao menos você tem qualidades que Potter não tem. Você é um péssimo mentiroso, Longbottom. Me responda com honestidade, o que Potter queria que você fizesse?"
Longbottom agitou o caldeirão precisas sete vezes antes de erguer o rosto da poção que fervia.
"O que Harry queria que eu fizesse naquele dia, eu já fiz. Eu te convidei para a nossa confraternização e pedi a sua ajuda com a poção."
A resposta parecia verdadeira. O que irritou ainda mais Severus.
"Potter me livrou da prisão, mas eu sei que ele me odeia. Por que ele iria querer que eu saísse com vocês?"
Severus viu Longbottom ficar mais pálido. O aluno acenou com a varinha, fazendo o fogo que aquecia o caldeirão desaparecer. A poção estava pronta basicamente. Só precisava que o líquido esfriasse para que pudesse ser ingerida. E Snape sabia que a poção havia sido finalizada com perfeição porque a poção estava incolor e inodora.
"Bem... Isso... Eu prefiro não dizer", retrucou Longbottom.
"Qual era a intenção? Vocês queriam zombar de mim, igual ao grupinho do pai de Potter?"
"Não! Obviamente essa nunca foi a minha intenção ou a de Harry."
"Você está zombando de mim, Longbottom. Eu sei!"
"Em nenhum momento da minha vida eu zombei de você", afirmou com convicção, o que Severus deliberadamente ignorou. O professor preferiu atacar o rapaz.
"Vou perguntar pela última vez antes de força-lo a tomar esse caldeirão inteiro de Veritaserum. O que você quer comigo? Por que esse interesse em Poções? Confesse logo que veio aqui zombar de mim!"
"Eu não vim zombar de você!"
Severus, furioso, enfiou a mão em concha no caldeirão fervente para pegar um punhado de poção. Depois avançou furiosamente na direção de Longbottom.
"Beba isso! Beba!"
"Eu te amo!", berrou Longbottom ao notar que Severus estava desequilibrado. O jovem bruxo parecia não querer se declarar sob efeito da poção da verdade, por isso assumiu antes de ser forçado a beber. "Eu te amo! É por isso que estou aqui. Foi por isso que te procurei. Essa é a razão do meu interesse em Poções", falou e abriu a mente para Snape invadi-la.
Caso Severus estivesse menos descontrolado teria percebido que era a primeira vez que Longbottom não usava Oclumência contra ele. O Comensal da Morte parecia atordoado, não esperava ouvir aquelas palavras. A parte racional do seu cérebro tinha acertado. Longbottom tinha sentimentos por ele.
"Sua mão", falou Longbottom. "Você deve ter se queimado. Deixa-me olhar..."
Snape sentiu vagamente um desconforto em sua mão, que parecia anestesia depois de ter sido escaldada em poção fervente. O líquido quente já havia escorrido por entre seus dedos até o chão.
"Eu sabia que estava brincando comigo", disse Severus após se recuperar do atordoamento. Porém, parecia ainda não acreditar na declaração do rapaz.
"Nunca brinquei com você, Snape. Apenas usei como pretexto o aprendizado da poção para me aproximar de você. Eu queria te provar que não era mais o menininho bobo. Queria que você soubesse que eu me tornei um bruxo com habilidades... Só assim para você me olhar, me ver de verdade."
"A aposta era essa? Você dizer essas besteiras para mim?"
"Não existe aposta! Por que você acha que tenho impedido seu acesso a meus pensamentos desde que nós encontramos? Não queria que você descobrisse meus sentimentos assim, invadindo minha mente. Mas agora que eu já me declarei, não vejo problema em você usar Legilimência contra mim. Vá em frente, não irei bloquear seu acesso."
Severus invadiu a mente de Longbottom utilizando o feitiço verbal para potencializar o efeito da Legilimência. O Comensal da Morte, mesmo limitado com relação a sentimentos, conseguiu sentir todos os intensos e poderosos sentimentos do rapaz. Longbottom era tão profundo que o professor foi capaz de sentir o amor e a admiração que Longbottom nutria por ele. Aquilo era demais! Snape não conseguia suportar todo aquele amor, e principalmente as infantis fantasias que Longbottom imaginava com relação a ele.
Longbottom não havia mentido, era realmente apaixonado por Severus. O homem não saberia como continuar aquela conversa ou até como lidar com um adolescente apaixonado por ele. Por isso, optou por manda-lo embora.
"É melhor você ir, Longbottom."
Severus viu a tristeza encher os olhos hazel do garoto, isso quase gerou uma fisgada dolorosa em seu coração. Quase.
Longbottom suplicou:
"Gostaria de ficar mais um tempo com você. Não podemos conversar?"
"Insisto que você deve ir embora, menino."
"Vamos beber um chá? Café? Vodca? Por favor!", implorou, quase choroso. "Converse comigo."
"Longbottom, saia da minha casa!", ordenou em seu clássico tom letal. Um tom que deixava claro que Snape não estava disposto a discutir. Contudo, seu coração ficou comprimido ao ver que Longbottom iria chorar a qualquer momento com a sua frieza.
Severus observou enquanto Longbottom piscava. Ele tinha certeza que o rapaz iria chorar e se encolher, porém não o fez. Longbottom se recompôs, endireitou sua postura e olhou para ele com uma valentia exagerada, como se estivesse encarando o Lorde das Trevas.
"Antes, eu vou dizer abertamente mais uma vez, eu te amo! Eu te amo muito!", disse e pegou a gaiola com Trevor e a mochila, em seguida saiu correndo do laboratório.
Severus se sentiu um monstro ao ver o rapaz correr dele. Mas como ele devia agir? Deveria dizer ao Longbottom que adorava seus olhos? Que admirava a sua paixão? Ou ainda que sentia um forte desejo sexual por ele?
Por Merlin! O rapaz poderia ser seu filho. Assim como Lily e James Potter, Severus foi colega de Alice e Frank Longbottom em Hogwarts. Os Longbottom foram dois excepcionais aurores. Eles nunca aceitariam que seu único filho tivesse um relacionamento homossexual com um Comensal da Morte. Snape lamentou profundamente que os pais de Neville não tivessem condições de aconselhar o filho. Amaldiçoou Bellatrix por isso.
Snape caminhou até a janela, abriu a cortina e viu Longbottom saindo da casa. O rapaz olhou para cima e seus olhos se encontraram. Severus se arrepiou com a intensidade do olhar hazel. O homem se afastou e fechou a cortina. Ele nunca admitiria que a cada vez que Longbottom disse que o amava e foram quatro vezes, seu coração acelerou. Ele também nunca admitiria que ao entrar na mente do rapaz, descobriu que também sentia algo pelo ex-aluno, além do desejo sexual. E principalmente, nunca admitiria, nem sob a pior das torturas, que adoraria ter realizado uma das fantasias infantis de Longbottom, que começavam com um beijo e terminava com os dois em sua cama.
Continua?
-X-
Notas da autora: Primeiro, como sempre, agradeço os reviews, os pedidos de atualização e todo carinho recebido. Muito obrigada! É extremamente estimulante saber que estão gostando dessa história.
Em segundo, desculpa pela demora em atualizar. Mas vejam bem, cada capítulo dessa fanfic tem cerca de 15-18 páginas no Word. Então, é natural que se demore para escrever, corrigir, revisar e principalmente, demora até que eu fique contente com o que eu mesma escrevi. Por isso, espero que vocês entendam. Tem que gente que faz atualização todo mês, mas com capítulos pequenos. Eu levo cerca de dois meses para atualizar, mas escrevo capítulos com no mínimo 15 páginas no Word. Compreensão, por favor.
Então... Tenho um pedido para fazer: quero ideias para os próximos capítulos. Muitas ideias! Por favor, digam o que acham que deve acontecer com o Neville, Snape, Bill e até o Lucius. O que vocês acham? O que vocês queriam ler sobre eles? Digam no review, por favor! : )
Por fim, quebrei a promessa que havia feito na última atualização. Não adicionei o 'drama' nesse capítulo, porque ele ficaria muuuito longo. Mas prometo que já no início do Capítulo IV, teremos drama. *risada má ao fundo* ; )
Enfim, novamente agradeço os reviews. Eles me deixam muito contente! É por conta dos reviews que estou atualizando o mais rápido que eu consigo. Portanto, tratem de continuar comentando para que as atualizações saiam em alta velocidade. Quanto mais comentários, mais rápida a continuação.
Até o próximo capítulo! ; *
22/8/16
