Hazel
Capítulo VI
Escrito por Nevilla F.
Após minutos preciosos de conversa, Severus se levantou da cadeira. Neville fitou o homem de pé. O professor vestia apenas preto. Calça, camisa e suéter preto. Longbottom ficava encantando em como a cor preta favorecia o bruxo. Na sua concepção, Severus Snape era o bruxo mais atraente do universo. Os olhos negros, os lábios finos, o nariz adunco e grande, os cabelos muito pretos. Neville queria poder tocar em seu professor.
"Já está tarde", a voz suave de Severus tirou o rapaz de seus pensamentos delirantes. "Você precisa dormir, Longbottom. Acredito que amanhã deva se sentir menos pior."
Snape já estava indo?, pensou com tristeza. Neville consultou rapidamente o relógio. Haviam conversado por uma hora aproximadamente. Longbottom ainda não estava pronto para deixa-lo ir. Aliás, nunca estaria.
"Não... Espere. Está com fome? Quer jantar?"
"Não."
"Mas...", protestou Neville.
Snape lançou um olhar duro e inflexível na direção do rapaz.
"Nós nos veremos na próxima semana, Longbottom."
Pelo timbre autoritário do professor, Neville sabia que não haveria negociação. Por isso não haveria outra coisa a fazer, somente agradecer.
"Obrigado por ter vindo."
Snape simplesmente meneou a cabeça em resposta.
"Te acompanho até a porta", disse Neville se levantando.
Enquanto os dois seguiam até a sala de estar, Neville sentia verdadeira necessidade de fazer uma última pergunta. Tinha pavor da resposta, mas precisava saber. Após respirar fundo, perguntou olhando para o chão:
"Você veio aqui por pena? Sentiu pena de mim?"
"Eu não sinto pena de ninguém, menino."
Neville olhou para o professor. O homem mantinha o rosto impassível e inflexível. Não parecia estar mentindo. Mas mesmo se estivesse, o rapaz não teria como saber.
"Você não precisa da pena de ninguém, Longbottom", disse Snape. "Você combateu Voldemort pessoalmente e sobreviveu. Qualquer bruxo digno desse feito não merece pena."
Neville assentiu com a cabeça. Ele observava o professor e ele parecia muito sincero. Os dois voltaram a caminhar até a porta. Longbottom pegou o casaco de Snape e entregou para o bruxo.
"Então...", falou o rapaz sem jeito, sem saber o que falar.
"Você vai sobreviver, Longbottom. Se você não desistir, nós nos vemos na próxima semana."
"Nós vamos nos encontrar", disse com firmeza.
Neville viu os lábios do homem suavizarem, como um esboço de sorriso.
"Adeus, Longbottom! Boa noite!"
"Boa noite!"
O rapaz ficou na porta, olhando o bruxo se distanciar. A tristeza pela partida de Snape ia diminuindo enquanto Longbottom percebia que o professor havia ido até ali por ele. Para ficar um tempo com ele. Para convidá-lo para sair na semana seguinte. Ah, sim. O mundo não era tão mais cinza quanto parecia.
No dia seguinte a visita, Neville se sentia anestesiado. Ainda lamentava e sofria profundamente a morte da avó, mas a dor excruciante havia diminuído. Snape havia feito um milagre. A conversa de ontem tinha feito Longbottom renascer. O rapaz sentia esperança de que os dias seguintes seriam melhores. Obviamente ainda era incapaz de sorrir e sentir alegria, mas podia imaginar que no futuro seria capaz de rir novamente.
Neville sentia-se tão esperançoso que queria compartilhar o encontro de ontem com suas amigas. Ginny e Hermione haviam xingado muito Snape. Longbottom queria provar para as amigas que ele não era tão ruim quanto parecia.
O dia de domingo estava mais agradável do que o dia anterior, como Snape falou que seria. Talvez Neville ainda estivesse encantado com a presença do professor em sua casa ou talvez a presença energética de Ginny e Hermione ajudassem. O mundo parecia conspirar para tudo parecer melhor.
"Senhorita Ward, estou indo almoçar", falou Severus para a recepcionista enquanto entrava na recepção da farmácia. Ele avistou duas jovens bruxas ali e sorriu enviesado.
"Aparentemente a minha farmácia está virando um point para os meus ex-alunos. Acho que vou começar a cobrar as visitas. Vamos ficar ricos, não concorda, senhorita Ward?"
A moça corou e Severus viu através da visão periférica ela guardar rapidamente pequenos pedaços de papel. Sem conseguir encará-lo, ela constatou o óbvio.
"Essas jovens vieram vê-lo, senhor."
"Péssima hora, senhoritas. É meu horário de almoço. Eu volto daqui há uma hora."
Severus se dirigiu para fora da farmácia, mas a menina Weasley se posicionou na frente dele.
"É de seu interesse, Snape. Hermione?"
"Olá, professor!", falou Granger com um sorriso forçado. Em seguida assumiu um ar profissional e anunciou: "Eu vim em nome do ministério da magia, em especial da seção de controle de transportes mágicos."
"Eu ainda não solicitei nada do seu departamento. Aliás, você está estagiando nesse setor? Por que não está na seção de execução de leis? Pensei que quisesse lutar pelos menos favorecidos."
"A finalidade do estágio é descobrirmos nossas afinidades, por isso, é recomendável passar por todos os departamentos e setores do ministério. Mas o senhor tem razão. Eu tenho um interesse especial pelo setor de legislação."
"Faça algo concreto pelos nascidos muggle."
Granger sorriu com afeição para ele.
"Eu pretendo, professor. Agora", ela pausou e abriu a pasta e retirou um pergaminho. "Eu vim liberar a sua aparatação."
"O que disse?", indagou Snape. Ele trincou as mandíbulas. Sabia que havia o dedo de Longbottom nisso.
"Neville tem especial interesse na sua liberação", falou Weasley como se tivesse lido o pensamento de Severus.
Snape olhou para Weasley de um jeito indecifrável. Porém antes de retrucar, Granger pediu:
"Assine aqui, por favor. É apenas um termo de compromisso. Não haverá limitações. Você terá sua aparatação normal."
"Tem limite de distância?"
"Não, senhor", respondeu a moça.
"Outros países?", testou Severus.
"Pode aparatar sem problemas."
Severus meneou a cabeça. Granger colocou o pergaminho e uma pena em cima do balcão. Snape se aproximou do balcão e começou a ler rapidamente o termo.
Granger parecia muito indignada ao perguntar:
"O senhor está lendo? Não confia em minha palavra?"
"Conheço suas habilidades, menina. Eu sei que é capaz de fazer um estrago enfeitiçando um pergaminho."
Severus ergueu a cabeça e viu as moças trocando olhares de descrença. Era um hábito sádico provocar seus ex-alunos. O bruxo então tirou sua varinha do bolso e lançou um feitiço não verbal no pergaminho a fim de descobrir se havia algo escondido nele.
Snape sorriu enviesado ao ouviu Granger arfar de indignação.
"Se o senhor já parou de verificar, pode, por favor, assinar o termo?", pediu a moça.
Com a feição dissimulada ele falou:
"Mais um feitiço para confirmar que não há nada de errado."
"O que acha que tem nesse pergaminho? Um termo de compromisso para você se comportar bem com Neville?", perguntou Weasley com ironia.
"O que eu faço com Longbottom não é problema seu, mocinha", disse e havia irritação em sua voz.
"É sim, Snape. Neville é meu melhor amigo. Não vou admitir que faça mal a ele."
Severus percebeu que o assunto Longbottom o desestabilizava a ponto dele demonstrar irritação em sua fala. Porém isso não se repetiria. Adquirindo a feição impassível ele respondeu.
"Então sugiro que mande seu amigo se afastar de mim."
"Ou você poderia não fazer mal a ele. Você não é tudo isso que aparenta."
Snape não retrucou. Ele assinou o pergaminho e o entregou para Granger.
"Obrigado, senhorita Granger. Agradeça a Longbottom também, Weasley. Volto logo, senhorita Ward!", disse e saiu da farmácia aparatando.
"Ele continua desagradável", comentou Hermione enquanto caminhava junto com Ginny para longe da farmácia.
"Sim. Acredito que ele será assim para sempre. Mas ao menos ele foi ver Neville. Talvez Snape não seja imune a ele."
"Hoje em dia ninguém é imune a Neville. Ele foi eleito por diversas revistas o herói de guerra mais bonito. Só espero que Snape não esteja sendo gentil com Neville por conta da beleza."
"Acredito que não. Hoje eu consigo ver algo de bom em Snape apesar de tudo. Você reparou quando eu falei sobre Neville? A voz dele sempre tão apática ou debochada parecia diferente. Neville parece afetar Snape de alguma forma."
"Sim, eu concordo", falou Hermione pensativa.
"Você reparou na recepcionista?", questionou Ginny.
"A moça não é bruxa. Mas nos pediu para assinar suas figurinhas de sapo de chocolate. Ela deve ser um aborto. Com certeza é filha de bruxos."
"Então ela está ali para vistoriar Snape, não é?"
"Sim, está. Mas Snape não precisa de muita vistoria, se não teriam colocado um bruxo na farmácia. Eu sei que Draco está vistoriado de perto por um bruxo do ministério em seu emprego."
As duas riram.
"Draco deve estar sofrendo muito tendo que atuar como guia turístico para os muggle", comentou Ginny.
As duas voltaram a rir.
"Ao menos é melhor do que ficar em Azkaban. Fui até lá por conta do estágio no ministério. É um local horrível mesmo sem os dementadores", disse Hermione.
"Acho que Azkaban ou o mundo muggle devem fazê-lo sofrer da mesma forma. Ele também tem restrição de feitiços?"
"A restrição dele é total após o incidente no trabalho. Ele puxou a varinha para um muggle. Só não o enfeitiçou porque o bruxo que o acompanha não permitiu."
"Vendo por esse ângulo, Snape tem muitos benefícios, não?"
"Bem... A aparatação só foi permitida porque Neville sugeriu e o senhor Weasley autorizou. Mas ele se comporta melhor do que Draco. O senhor Weasley parece ter planos para Snape. Ele me disse que quer oferecer um trabalho no ministério da magia para Snape."
"Qual trabalho?", indagou Ginny, muito curiosa.
"Não sei. Ele não me contou."
"Vou perguntar para o meu pai."
Hermione e Ginny continuaram discutindo sobre Neville e Snape. Ambas pareciam mais favoráveis ao professor apesar de terem muitas ressalvas.
"Olá, Longbottom!", saudou Snape alguns dias depois. Ambos bruxos estavam na entrada da casa do rapaz.
O rapaz não sorriu, mas seus olhos reluziam ao olhar para Severus.
"Oi, Snape!"
"Eu tenho que te agradecer por ter solicitado a Granger a minha aparatação."
"Não foi nada", disse o garoto ruborizado.
"Você está devidamente vestido", aprovou o professor olhando para a camisa vermelha do Manchester United. "De qualquer forma, eu te comprei uma camisa", disse entregando outra camisa do United, não vermelha, mas branca.
"Obrigado! Vou trocar, então."
"Não precisa fazer isso, menino."
"Faço questão. Entre. Vou trocar de roupa rapidamente."
Severus entrou na casa do rapaz e sentou-se novamente na poltrona próxima a lareira. Enquanto o bruxo observava as fotos de Longbottom, seu olhar se fixou em Alice e Frank Longbottom. Os dois haviam estudado com ele em sua época de escola. Nunca havia falado com nenhum dos dois, mas ao menos Frank não era da turma de Potter e dos amigos. E agora ele estava... Severus parou para pensar. O que eu exatamente estou fazendo com Longbottom? Nada demais, refletiu. Era apenas um convite para se distraírem um pouco. Fazer o rapaz pensar em outra coisa que não fosse o falecimento da avó. Sem malícia alguma. Ah, claro, pensou sarcasticamente. Eu convido com frequência meus alunos para sair. O próximo será Potter.
"Vamos?", chamou Longbottom, tirando Severus de seus pensamentos.
Snape olhou para ele. Ele se odiou por isso, mas, ao fitar o rapaz, Severus observou como Longbottom havia ficado bonito. Realmente bonito. Ele se levantou e esperou que seu rosto não demonstrasse nada.
"Você já aparatou em Manchester, Longbottom?"
"Não", disse meio incerto.
Sentindo a falta de certeza do rapaz, Severus se esforçou para não usar Legilimência contra ele. Mas o bruxo sabia que havia algo de errado na resposta. Longbottom não estava dizendo tudo. Mas a última vez que Snape usou Legilimência contra Longbottom foi desastrosa. Algumas imagens intensas haviam se fixado na mente de Severus, como beijos e carícias. E havia aquele sentimento intenso demais que Longbottom sentia. Amor.
"Podemos aparatar juntos. Você se incomoda?"
"Nenhum pouco", disse o rapaz.
"Vou segurar seu braço e aparatamos juntos. Ok?", perguntou e sua voz estava com leve tom de embaraço. Por que?, ele perguntou com raiva de si mesmo. "Pronto?"
"Sim."
Severus não admitiria seu nervosismo nem sob a pior das torturas. Mas estava nervoso porque iria tocar em Longbottom. Certificando que seu rosto estava indecifrável, ele segurou o braço do rapaz. Longbottom era mais firme do que imaginava. Snape conseguia sentir a dureza do músculo. Ignorando isso, ele se concentrou em Manchester, em um lugar específico. Uns segundos depois eles aparataram em um beco vazio familiar a Severus.
Assim que aparataram, Snape soltou o braço de Longbottom e se apoiou no murro do edifício mais próximo. Severus sentia certo enjoo por aparatar longa distância.
"Não gosta de aparatar?", indagou o rapaz.
Snape inspirou lentamente, ao mesmo tempo sentia o enjoo ir diminuindo. Ele olhou para Longbottom, que parecia não ter sofrido danos.
"Comecei a gostar. Depois de ter ficado quase um ano sem aparatar, senti falta da facilidade de locomoção. Mas não é meu meio de transporte favorito."
"Prefere voar?", perguntou e havia uma leve provocação em sua voz.
"Sim", respondeu com um meio sorriso presunçoso.
"Você poderia me mostrar um dia desses. Deve ser muito legal."
"Não, não poderia. Estou proibido de fazer feitiços das trevas."
"Por enquanto. De quanto é sua pena?"
"Seis anos."
Longbottom parecia refletir sobre as palavras do professor.
"Eu preferiria que você não pedisse favores a seus amigos para mim", disse Snape com certa hostilidade. Longbottom corou violentamente e Severus continuou falando.
"Eu agradeço por estar aparatando, mas honestamente não gosto de pensar que estou devendo favores a você, a Granger ou qualquer um de seus amiguinhos."
"Desculpe."
"Não é para se desculpar. Eu já te agradeci pela gentileza, mas gostaria que não se repetisse."
"Mas é muito injusto você ter restrição de feitiços!"
Severus olhou duramente para Longbottom.
"Você se recorda que eu fui Comensal da Morte? Lembra-se de como eu dirigi Hogwarts? Você viveu um bom tempo na Sala Precisa por minha causa."
"Sim, mas..."
"Conheço a achar que você é mais um desses bruxos ignorantes. Um ato de amor não desfaz todas as escolhas que eu fiz. Eu escolhi ser Comensal da Morte, matei Dumbledore e torturei inúmeras crianças dentro de Hogwarts. Eu devia estar na prisão. Só não estou em Azkaban porque o santo Potter é amado demais por todos. O testemunho dele no meu julgamento foi crucial para terem me dado essa pena leve."
Longbottom ficou cabisbaixo. Severus se sentiu mal, mas nada disse. Afinal, ele só havia falado a verdade.
"Vamos andando", disse Snape.
Os dois voltaram a caminhar.
"Eu não consigo... Eu não consigo ser imparcial com você. Quero tudo de melhor para você porque... Porque tenho sentimentos muito fortes por você. Por isso não consigo achar certo você não poder usar seus poderes livremente."
Severus optou por ignorar as palavras do rapaz. Contudo, ele sentia seu coração pulsando mais rapidamente com as declarações de Longbottom.
"O estádio é aqui perto. Uns dez minutos caminhando."
Snape se sentiu extremamente insensível, mas ele não sabia como agir com Longbottom. O silêncio se tornou pesado entre eles enquanto caminhavam pelas ruas. Mentalmente, Severus queria retomar uma conversa, mas direcionar em uma direção que não envolvesse sentimentos. Quando chegassem ao estádio, Snape voltaria a falar com o rapaz.
Continua?
Comentários da autora: Demorei, mas postei! : )
Vocês devem ter percebido que esse capítulo, em relação aos outros, foi menor. Mas a ideia é justamente essa. Capítulos menores e publicados em menor tempo. Vocês preferem assim, não é?
Contudo, confesso que não queria parar o capítulo desse jeito. Eu queria finalizar o capítulo com outro momento, porém demandaria mais tempo para escrever. E eu já estava bem inquieta e afoita para fazer uma atualização dessa fic.
Mas vamos ao que interessa! A opinião de vocês! O que vocês acharam do capítulo? O Snape está melhor com o Neville, não? E as interações Ginny x Snape? Eu adoro escrevê-las! Aliás, sou muito fã de confrontos. ; )
Enfim... Prometo que o próximo capítulo será mais interessante, se é que vocês me entendem.
Gente eu sei que a relação deles está devagar, mas eu sempre imaginei que seria assim, ainda mais se tratando de Snape. Todavia, prometo que quando o contato físico começar, será difícil frear.
Também quero pedir para vocês não desistirem da fic! A atualização demora? Sim, demora. Mas sempre terá atualização, ok? E os reviews, em especial os grandes e cheios de sugestões para a fic, incentivam muito a atualização ser mais rápida. Por isso, eu imploro para vocês deixarem o review! Pleeeeeeease! : D
Fico por aqui aguardando o review de vocês. Até a próxima! ; *
