Hazel
Capítulo VII
Escrito por Nevilla F.
Severus caminhava em silêncio ao lado de Longbottom. O rapaz estava parecia particularmente cabisbaixo. O professor sabia que a falta de conversa deixava o aluno incomodado. Ou talvez estivesse cabisbaixo pela dor da perda da avó. Ou talvez a simples grosseria do professor poderia ter deixado o rapaz ainda mais desanimado.
Snape respirou fundo. Mentalmente, prometeu se controlar, tentar ser menos agressivo com o garoto. Afinal, não havia o chamado para sair para deixa-lo mais deprimido.
Severus olhou para o céu e viu que as nuvens cinzas avançavam. Ia chover brevemente, mas isso não era exatamente uma novidade quando se vivia na Inglaterra. Além disso, ele não gostava de falar sobre o tempo. Dois homens passaram por eles, ambos vestindo vermelho.
"Nós já estamos chegando", anunciou o óbvio.
Longbottom olhou para ele. Snape notou que o rapaz estava esperando com ansiedade pela conversa.
"Você vem em Manchester muitas vezes?", indagou Longbottom.
"Algumas."
"Vem desde quando era mais jovem?"
"Sim."
"Seu pai te trazia?"
"Sim."
Longbottom franziu as sobrancelhas.
"Estou te aborrecendo com as minhas perguntas?"
"Você não me aborrece, menino", respondeu Severus com sinceridade. Ambos seguiam andando por ruas, cada vez mais repletas de torcedores, em direção ao estádio.
"Parece que não gosta de conversar comigo", retrucou Longbottom.
"É raro alguém com sua idade me fazer tantas perguntas. Não posso dizer que estou acostumado a ter longas conversas com jovens."
"Então eu estou te incomodando?"
Severus respirou fundo, tentando se acalmar. Não queria ser rude, de novo.
"Se você me incomodasse ou me aborrecesse, eu não te convidaria para sair comigo."
"Ah", fez o rapaz e pela visão periférica viu que ele corava.
"Afinal, por que está fazendo tantas perguntas? Está tentando me analisar?"
"Sim", respondeu.
Severus parou e olhou para ele.
"Você é transparente demais."
"Sim... É horrível. Todo mundo consegue me ler só com as minhas expressões faciais."
Snape deu um meio sorriso enquanto eles voltavam a andar. Nunca em sua vida, nem quando era adolescente, ele fora transparente dessa forma. Provavelmente, por conta disso achava Longbottom fascinante. O bruxo resolveu provocar o jovem de novo. Conseguiria fazê-lo corar uma segunda vez em poucos minutos?
"É o seu maior charme."
Longbottom corou com mais intensidade.
Severus ainda mantinha um sorriso torto quando comentou seu pensamento em voz alta:
"Você fica ruborizado muito facilmente."
"Só você é capaz de ter esse efeito em mim."
Snape parou de sorrir de imediato. Não esperava por uma resposta mordaz. Longbottom ainda teve a audácia de continuar falando.
"Você sabe porque tem esse efeito em mim. Eu te amo."
"Longbottom", rosnou.
"Desculpe. Sei que é ruim ouvir declarações quando você não sente nada pela pessoa. Contudo, eu sinto uma alegria grande ao falar meu sentimento diretamente para você."
Severus realmente não sabia como responder. Queria retrucar alguma coisa. Gostaria de dizer para Longbottom que sentia algo por ele. Mas não sabia expressar em palavras. Felizmente, havia uma distração perfeita. Eles haviam chegado ao estádio. O majestoso Old Trafford estava em frente a eles.
"Chegamos."
Snape viu Longbottom se admirar com a grandiosidade do local. Os olhos do rapaz brilhavam de alegria. Severus quase sorriu. Era bom ver a feição do rapaz alegre.
"Vamos entrar. Nosso portão é por ali."
Os dois já estavam acomodados no Old Trafford. O estádio por dentro era ainda mais bonito. As cadeiras vermelhas e o campo gigantesco com certeza causavam fascínio a qualquer um, mesmo se não gostasse de futebol. Snape conseguia sentir essa excitação em Longbottom. Só isso o deixava animado por tê-lo convidado para o jogo.
"Quer uma cerveja?", perguntou Snape.
O garoto demorou um pouco para responder.
"Não. Eu prefiro não beber álcool."
Severus sorriu debochadamente e por um segundo pensou em sugerir que ele bebesse leite.
"Refrigerante? Um suco, talvez?"
"Refrigerante seria ótimo."
Snape assentiu com a cabeça e se levantou. Depois seguiu até as lanchonetes. Ao olhar para trás ele reparou que as poucas moças que estavam no estádio olhavam para Longbottom. Até as meninas que estavam ao lado de seus namorados encaravam o rapaz. Severus sentiu um sentimento esquisito ao notar isso. Sentimento que erroneamente ele achou que fosse uma profunda irritação.
O bruxo tinha a impressão de que o garoto não tinha ideia de como era bonito. Como se atraído por seus pensamentos, Longbottom virou a cabeça e olhou para ele. Quando os olhares se encontraram, Severus perdeu o fôlego. Longbottom era inebriantemente bonito. Snape piscou e praticamente correu até a primeira lanchonete que viu.
Severus voltou com as bebidas e sentou-se ao lado do rapaz. Entregou o refrigerante para Longbottom e depois bebeu sua cerveja.
"Como está se sentindo, Longbottom?"
"Menos pior. O passar dos dias deixa as coisas menos pior."
Snape bebericou a cerveja novamente.
"Agradeço tudo que está fazendo por mim. Obrigado por disponibilizar seu tempo comigo."
Severus ergueu uma sobrancelha.
"Acha mesmo que sou tão digno assim? Talvez eu só quisesse companhia para assistir o jogo. Com alguém que realmente apreciasse uma bela partida e fosse torcedor do United."
Snape pensou que assim desconversaria sobre suas reais intenções, mas a feição resignada de Longbottom dizia que ele sabia.
Neville quase sorriu com a fala do seu professor. Snape realmente não gostava que as pessoas soubessem o quê ele tinha de melhor. O rapaz tinha certeza que o homem tinha coração e podia até se preocupar com ele. Afinal, o convite para o jogo era apenas uma desculpa para distrair Longbottom de sua dor. O jovem tinha certeza disso. Era por isso que tinha agradecido Snape. Estava sendo muito prazeroso passar aquele tempo com seu amor platônico.
Longbottom olhou para ele e seus olhos se encontraram novamente. Ele sentia um prazer quase físico com o contato. Durante todo seu tempo em Hogwarts, as poucas vezes que olhou Snape nos olhos viu desprezo e raiva. Hoje ele não via isso. Severus não o desprezava e isso era uma grande vitória. Além disso, outra vitória era o fato do professor sempre ser o primeiro a desfazer o contato visual.
"Algum problema?", questionou Severus.
"Nenhum. Apenas gosto dos seus olhos."
"Beba seu refrigerante", desconversou.
Neville quase sorriu. Era uma frase boba. Mas era suficiente para Longbottom saber e sentir que amava Snape. Ele viu a mão do professor no próprio colo e sentiu vontade de toca-la. Gostaria de sentir o calor do bruxo. Todavia, ele sabia que não era possível. Ainda, pensou com malícia.
Severus se levantou e puxou Longbottom para deixa-lo de pé também. Em poucos segundos todos no estádio estavam levantados. Neville não entendeu até que a multidão explodiu com gritos e vivas. Os times estavam entrando no campo.
O jogo ocorreu agradavelmente. Com emoção e muitos gols. Termino para o United. Uma vitória digna na opinião de Severus. Neville concordou. O jogo havia sido o máximo, mas outras coisas tinham sido muito melhores. Em muitos momentos do jogo, quando a torcida entoava cantos estimulando o time ou xingando o rival, Snape colocava os lábios próximos da orelha de Neville para falar o canto. Nesses momentos maravilhosos, Longbottom fechava as mãos e sentia a excitação correr por seu corpo. A boca de Severus estava tão perto dele.
"Foi mágico", concluiu Neville ao final da partida.
Snape também parecia particularmente satisfeito. Longbottom sabia que o professor era mau perdedor. Se o United tivesse perdido, o humor dele estaria horrível. Por isso, estava muito grato com seu time pela vitória. Mas, principalmente, pelos cantos da torcidas que foram sussurrados em seu ouvido.
"Sim, foi. Cinco gols", falou Snape com evidente excitação.
Neville achava engraçado ver seu professor de Poções empolgado com o jogo muggle. Não apenas empolgado, Severus havia pulado para comemorar os gols, cantado e até xingado os rivais. Definitivamente havia sido divertido. Longbottom nunca tinha visto Snape tão humano como hoje.
"Foi realmente divertido, Snape. Obrigado por ter me chamado."
Os olhos de Severus ainda brilhavam por conta do jogo.
"Eu que agradeço por ter me feito companhia, Longbottom. Você trouxe sorte para o United."
Neville relaxou os lábios, mas não sorriu. Ainda não conseguia sorrir apesar de sua alma estar mais leve e tranquila.
"Vamos, Longbottom. Podemos voltar para a casa no lugar onde chegamos."
Os dois bruxos andaram em silêncio entre os torcedores do United e Liverpool. Dessa vez o silêncio era diferente. Não era um silêncio pesado e constrangedor, era apenas silêncio.
Neville estava ansioso pelo toque de Snape em seu braço quando os bruxos aparatassem. A mão do bruxo era firme e seu aperto inflexível. Contudo, enquanto caminhava um pensamento horrível que estava martelando Neville há um tempo voltou com força. Havia um específico sentimento que Longbottom não desejava que o professor sentisse por ele. Nunca.
Quando os dois já estavam bem próximos do local da aparatação e não havia ninguém por perto, Longbottom respirou fundo e teve coragem de perguntar:
"Você sente pena de mim?"
Snape havia prometido não se irritar. Pensou que nada pudesse atrapalhar seu humor após a vitória do seu time em um clássico de cinco gols. Todavia, a pergunta de Longbottom o irritou. Voltando ao assunto sobre pena?
"Eu já te respondi isso, Longbottom. Não sinto pena de ninguém."
O garoto ficou em silêncio uns segundos e logo depois perguntou rapidamente:
"Posso te chamar pelo primeiro nome?"
"Não."
"Você quer me chamar pelo primeiro nome?", questionou Longbottom e havia insegurança em sua voz.
"Não."
Longbottom ficou visivelmente deprimido, seus ombros caíram e ele diminuiu alguns centímetros.
"Isso é importante para você, menino?", perguntou Snape e sua voz já estava sem traços de irritação.
"Sim."
"Por que?"
"Seria um indicativo de que estamos nos tornando amigos."
"Você acha isso? Que estamos nos tornando amigos?"
"Eu achei que sim. Me enganei?"
"Não temos nada em comum, Longbottom. Sou vinte anos mais velho que você. Não sei nem que assuntos podemos conversar. Além disso, tem esse seu pequeno problema em relação a mim."
"Problema?"
"Qual era sua intenção ao se declarar para mim?"
"Você não me deu opção. Ia me forçar a tomar Veritaserum! Eu planejava ser seu amigo antes de falar sobre os meus sentimentos."
"Por isso é importante para você sermos amigos? Faz parte do seu plano de conquista?", questionou com maldade calculada. Severus se deliciou ao ver o rapaz corando.
"Não... Bem... Eu... Eu..."
"Eu te deixo nervoso?", indagou com seu timbre usual suave e cínico.
"M-muito."
"Esse nervosismo é porque você é apaixonado por mim?"
"Sim..."
"Sabe, Longbottom, ceder as minhas memórias a Potter foi um dos piores erros que cometi na vida. Depois da batalha de Hogwarts recebi diversas cartas e propostas amorosas de tolas e até tolos. Eles ignoraram tudo o quê eu era antes e passaram a me ver como uma espécie de homem romântico. Só veem o bruxo que foi apaixonado pela amiga de infância. Esqueceram que eu sou Slytherin e fui Comensal da Morte por mais de vinte anos. Você não tem noção de como é irritante tolerar esses cabeças-ocas."
"Foi apaixonado pela amiga de infância? Não é mais?"
"De tudo que eu falei, você focou apenas isso?"
"É o que me interessa. Todo o resto eu já sei. Eu me recordo do que vivi em suas aulas."
"E ainda assim me diz essas sandices?"
"Não são sandices. Eu realmente amo você."
A irritação de Severus alcançou um nível máximo com a sinceridade explícita do rapaz.
"Me ama?", perguntou bastante irritado. Snape puxou a varinha e avançou violentamente contra Longbottom. Apontando a varinha para o rapaz, o conduziu até o beco vazio onde haviam aparatado. "Agora você vai arcar com as consequências das suas palavras!"
Os olhos hazel se arregalaram de surpresa e o rosto redondo do rapaz ficou pálido. Severus sorriu enviesado. Conhecia aquela reação muito bem. Medo.
Ainda com um sorriso maldoso, Snape empurrou Longbottom em direção a parede mais próxima. O rapaz deu passos para trás, se afastando do professor. Severus foi se aproximando devagar. Olhava para Longbottom com malícia. Depois, ainda lentamente, colocou a varinha no pescoço de Longbottom.
"Sente medo de mim, garoto? Depois de todos esses anos?"
"Não é medo."
Severus observou os olhos do rapaz, as pupilas dilatadas. Um sinal evidente de medo ou excitação. Snape não esperava por essa reação. Por isso resolveu atacar Longbottom com palavras.
"Você tem ideia do que é ir para a cama com um Comensal da Morte?", questionou com agressividade.
"Estou pronto para isso."
"Está? Quer testar?", perguntou e não esperou uma resposta. Com um movimento de varinha fez Longbottom girar 180°, deixando o rapaz de frente para a parede. Em seguida, Severus colou o próprio corpo nas costas do ex-aluno. Ao fazer isso ouviu Longbottom gemer. Gemer!
Severus fechou os olhos, derrotado. Ele se afastou, envergonhado. Sua intenção era fazer o garoto assumir que ainda tinha medo dele, por isso, não podia amá-lo. Pelo visto, se enganara. Ninguém gemeria daquela forma para um homem que sente medo. Snape foi bombardeado fisicamente com a verdade. O garoto gostava dele.
"Lamento, Longbottom. Eu...", Severus não sabia nem como se desculpar por seus atos.
O rapaz se virou em direção a ele, as pupilas dilatadas, o rosto avermelhado. Sinais evidentes da excitação que sentia.
"Lamento", repetiu Severus. "Eu não tinha o direito de..."
Longbottom colocou um dedo nos lábios de Snape, fazendo-o calar-se. Severus se indignou por um segundo, pois no segundo seguinte o dedo de Longbottom foi substituído por seus lábios.
Passada a surpresa, Snape fechou os olhos e se deixou levar. Neville tinha os lábios macios, o gosto de refrigerante de laranja e sabia beijar. Severus impôs seu ritmo, controlando o beijo. Após muito tempo, Snape parou de beijá-lo.
Severus sentia a respiração de Neville contra sua boca. Os dois ofegavam. O olhar que Snape recebia de Longbottom era impagável. O rapaz o olhava com nítida avidez e excitação.
"Mais...", gemeu Neville.
Dessa vez foi Snape que avançou até Longbottom. O gemido dele mais parecia uma ordem. Ordem que o professor estava muito disposto a atender. Eles se beijaram mais uma vez. Severus estava ficando excitado. Neville gemia e, devassamente, se esfregava contra sua virilha.
Snape gemeu alto. Sabia onde aquilo iria terminar se eles continuassem se beijando. Mas não era o momento. Não era apropriado. Com um autocontrole hercúleo, Severus segurou gentilmente os ombros de Neville e o afastou.
O professor deu alguns passos para trás, achava melhor ficar longe de Longbottom. Porém, olhar os lábios vermelhos e inchados e os olhos hazel claramente famintos não ajudava em nada a ideia de se manter distante.
"É melhor pararmos por aqui", falou Severus.
"Por que?
"Longbottom, eu estou dizendo que é melhor pararmos agora", ordenou e Neville ia argumentar quando as palavras seguintes escaparam dos lábios de Snape: "Podemos continuar depois."
"Quando?"
"Depois."
"Eu preciso de uma data específica."
"Semana que vem."
"Mas...", Neville parecia desolado com a ideia de ficar tanto tempo longe dele. Severus queria voltar a beijá-lo só para tirar a feição de tristeza de seu rosto, contudo não o fez. "Essa semana é Natal. Podemos nos ver antes."
"Não, menino. Eu tenho trabalho e você tem seu treinamento no ministério."
A cabeça do rapaz parecia ferver de ideias.
"Onde vai passar o Natal? Me comprometi com os Weasley de passar o Natal na Toca. Posso levar um acompanhante. Quer ir comigo?"
Severus abriu um sorriso de escárnio.
"Você é muito bonito, Longbottom, mas sua beleza não é suficiente para me fazer entrar no ninho de Gryffindors ruivos."
"Mas..."
"Vamos nos encontrar novamente na próxima semana", falou com seu timbre de quem não aceita negociações. "Aí chegaremos até o fim."
Longbottom sorriu e parecia nem ter se dado conta disso. Severus deu um sorriso enviesado. Depois foi até Neville, beijou rapidamente seu rosto.
"Te vejo na próxima semana", disse Snape e em seguida desaparatou.
Continua?
Notas da autora: Gente, vou ser rápida. Desculpa a demora! Obrigada por continuarem acompanhando Hazel. Torçam pelos nossos meninos! Agora a coisa esquenta de vez! ; )
E, mais importante, DEIXEM SEU REVIEW! É bom saber que tem alguém lendo. É bom saber o que vocês estão pensando sobre a fic. Ok? Aliás, ideias são sempre bem vindas! O que vocês acham que devia acontecer?
Novamente, obrigada!
Por fim, esse capítulo fica dedicado a uma amiga querida, Izzy! Obrigada pelas muitas mensagens estimulantes e divertidas! : D
