IV

Assim que levantou, Melkor tomou um banho e se vestiu - consciente ou inconscientemente - de maneira mais sombria que o comum. Mairon quando o viu até estranhou.

- Que é isso, Melkor?

- Ahn... já me vesti pra receber aquele... elda lá! Mas veja bem, meu amor, acho que vou pegar um vinho pra eu beber! Quer dividir comigo?

Vendo o vala tão resoluto em já cedo tomar algo - provavelmente pra escapar da ideia do elda, mas enfim - Mairon não viu muita opção a não ser acompanhá-lo. E lá foram eles beber, porém na prática quem mais bebeu foi Melkor- levando a maior parte da garrafa antes mesmo de Mairon poder tomar mais do que alguns goles.

- Aí, Mairon! Vou pegar outra garrafa lá na adega...

- Vai beber demais!

- Eu sou um vala, oras! Meu "fána" provavelmente vai aguentar tudo, você vai ver!

Logo, lá estavam ambos os ainur bebendo outra vez - ou melhor, Melkor bebendo e Mairon olhando - e Meren entrou na sala. Quando viu aquilo, balançou a cabeça e disse:

- Depois reclamam que eu fumo demais...

E saiu do recinto. Mairon obviamente reparou e falou com o consorte.

- Melkor, que loucura! Como que eu vou ter força moral pra falar dos cachimbos do Meren depois de você beber desse jeito?

Já meio tonto, fosse pela raiva do elda fosse por qualquer outra razão, Melkor replicou da seguinte maneira:

- Ah, a casa é minha, quem manda aqui sou eu! Ele se quiser que se mude pra outro lugar!

Nada restou ao maia senão balançar a cabeça diante das declarações do consorte.

OoOoOoOoOoOoO

Algumas horas após isso, Maedhros chegou à casa dos sogros. Como sabia que o vala tinha certo receio em relação a si, ele se vestiu modestamente e decidiu se comportar de maneira educada e sóbria. Porém, assim que viu a Melkor reparou que o ambiente estava tudo, menos sóbrio.

Àquela altura, o vala negro já estava bastante alterado, rindo um sorriso frouxo e bebendo ainda da mesma taça que começara mais cedo.

- Ei, Mairon! O elda já chegou, olha aí!

Mairon, mais uma vez, somente balançou a cabeça. Algum tempo depois, chegaram Moriel e Lossiel, Meren (sem o cachimbo, temporariamente), Mairen e Maedhros, e é claro o casal de ainur - Melkor e Mairon.

Todos ficaram em silêncio, porém Melkor já meio "alto" extravasou seus pensamentos e começou a falar:

- Todo mundo quieto hoje? Vamos, vamos, alguém precisa agitar isso daqui! E aí Lossiel, como anda esse bebê?

Sorrindo de maneira tímida, ela disse afinal:

- Creio que está bem... ainda é pequenininho, não reage muito, mas não creio haver problemas...

- Ah, claro que não! Ele tem uma boa mãezinha, não é mesmo?

Não era segredo a ninguém que Lossiel, ao contrário do elda, era uma nora bem aceita e até mesmo louvada por Melkor. Por isso todos já esperavam os elogios. No entanto, logo começou a falar bobagem:

- Moriel, ouvi falar aí que vocês só fizeram sexo duas vezes no último ano. Sério mesmo? E foi em uma delas que Lossiel engravidou? Oh, Moriel! Duas vezes não me preenchem nem numa noite!

Mairon olhou com reprovação para o consorte, mas ele não parecia estar constrangido ou intimidado por isso.

Moriel simplesmente deu de ombros e Lossiel sorriu timidamente outra vez. Enquanto o vala continuou:

- Ehn, Moriel! Qual o seu problema? A moça é bonita, a moça é legal... transa com ela de vez em quando! Não deve ser tão difícil! Senão ela te deixa, já te falei! Ao passo que Mairon e eu... né, Mairon? Ontem a gente até fez umas coisas novas... tipo, sabia que ele me comeu ontem?

A essa altura do campeonato, todos estavam de olhos arregalados - até Maedhros que tentava disfarçar. Mairon sabiamente pegou o marido e o levou até a adega, não sem ele sair resmungando:

- Ei, Mairon, espera aí! Deixa eu ficar lá!

Por algum tempo, os remanescentes ficaram sentados na mesa se olhando, mas logo Mairon trouxe alguns petiscos para que comessem - mesmo que a maioria fosse ainu e não precisasse comer, podiam fazê-lo para se distrair caso quisessem - sorriu amarelo mais uma vez e saiu de cena para provavelmente cuidar de um Melkor ainda bêbado que provavelmente deveria estar em algum lugar dentro da residência.

Após comerem mais um pouco, eles repararam que Melkor demorou pra voltar, assim como Mairon. Quando o vala voltou, acompanhado do consorte, estava um pouco mais sóbrio, mas enfim.

Beliscou um pouco da comida que havia na mesa mas não ficou muito tempo em silêncio. Até abrir a boca:

- Ei elda, venha cá. Já que já comeu a minha filha e tal, por que você não ensina pro Moriel que ele tem que comer a namorada dele de vez em quando?

Já sem paciência, Mairon tirou a Melkor da sala novamente - ao que ele saiu resmungando ("Mas eu não fiz nada de errado! Se eu interajo com o elda tenho problema, se rechaço tenho problema? Faz favor!"), enquanto todos na sala se olharam com sorriso amarelo outra vez. Meren foi o primeiro a sair da sala.

- Vou fumar lá fora.

Não demorou muito para que Moriel também pensasse em partir com Lossiel. Só sobraram Mairen e Maedhros na sala, quando... de repente, ouviram Melkor, com a voz ainda meio engrolada, falar a Mairon:

- Aí, Mairon, aquilo de ontem foi uma exceção! Hoje você volta a ser a minha puta, está me ouvindo?

Mairen, exasperada, tomou da mão do namorado e saiu porta afora também, deixando os pais "enfim sós". Apenas quando chegaram na residência dos Curufinwë (ou seja, a casa de Fëanor e de sua família) foi que a maia enfim conseguiu dizer algo.

- Não ligue pro meu pai. Ele... ainda está se acostumando com a ideia de eu me relacionar com um elda.

- Está tudo bem. É melhor agora do que na época em que ele me mantinha numa masmorra, não?

Mairen sorriu de leve, mas em seguida sua expressão se tornou carregada.

- Bem, mas naquela época ele era o Morgoth Bauglir. Ele era o sinistro inimigo do mundo. Hoje ele está reabilitado em Valinor - ao menos em teoria. Qual a dificuldade de papai de se comportar de maneira decente na frente de seus parentes?

- Está tudo bem. É a natureza dele e eu compreendo.

- Ainda bem que compreende!

Sorrindo, ambos ensaiaram a um breve beijo na boca, mas antes que tal carícia pudesse se aprofundar, Fëanor foi à porta e os interpelou.

- Ora ora, então meu filho saiu vivo mais uma vez da casa dos Bauglir.

Mairen o reverenciou, um tanto quanto envergonhada ainda.

- Senhor Fëanor, eu jamais deixaria que algum mal acontecesse a Maedhros em minha casa.

- Está tudo bem, filha! Creio que seu pai hoje em dia deve estar um pouco melhor. Mas então, não gostaria de entrar para conversar um pouco com seus futuros cunhados e com sua futura sogra? Eu prometo, nenhum de nós morde - embora pareça de vez em quando...

Mairen sorriu e aceitou o convite de bom grado. O que ela não sabia era que a conversa na casa dos Curufinwë poderia tomar um rumo ainda mais perigoso que em sua própria casa...

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

Então, né... não podia ser muito diferente o encontro com o sogrão! Rsssss! Só falando besteira o tempo todo! Quanto vinho será necessário para embebedar a um vala do porte de Melkor?

No próximo capítulo, vamos ver como Mairen se sai com os noldor.