V

Enquanto Mairen se via às voltas com a apresentação que precisaria fazer a Fëanor e ao resto da família, Moriel foi até a casa de seus pais e de repente viu a Mairon consolando a um Melkor ainda sob os efeitos da ressaca. O vala negro se encontrava com a cabeça encostada no colo do consorte, ainda se lamentando.

- Minha filha com um elda!

- Acalme-se, meu amor. Não é tão ruim assim...

- É péssimo! Acho que nunca vou me acostumar... e ainda mais um noldo! Filho de Fëanor! Oh, Mairon!

- Com licença...

Moriel, como sempre respeitoso, pediu licença antes de entrar à presença de ambos. Melkor levantou a cabeça do colo de Mairon, olhou ao filho de relance e fez um gesto de desdém.

- Entre, meu filho. Já não fará mais diferença mesmo!

- Desculpe, meu pai, mas por que está assim?

- É a porcaria do elda! Por que sua irmã tinha de fazer isso comigo, hein?

- Meu pai, ela está bem com ele. Tanto que já até mesmo adentrou a residência dos Curufinwë a fim de se fazer conhecer e-

- O QUE?! A minha filha na casa daquele crápula?!

"Apenas isso para fazer a Melkor levantar de sua prostração", pensou Moriel sem nada dizer.

Mairon interveio:

- Meu bem, se ela vai se casar com ele, é bom até que venha a conhecer a casa de seus futuros sogros...

- Hunf! Se um daqueles eldar idiotas fizerem mal à minha menina, eu volto a ter masmorras mesmo em Valinor! E vou cortar os dedos deles, e vou esmigalhar seus ossos e...

Enquanto o vala negro se debatia nas ideias de tortura, Mairon tomou ao filho mais velho e o levou até um canto para falar discretamente, sem o consorte perceber:

- Meu filho, por que não vai até a casa dos Curufinwë a fim de acompanhar a sua irmã? Assim pelo menos seu pai sossega mais ao saber que ela está acompanhada do irmão...

- Eu?! Mas eu não suporto aos eldar, assim como Melkor!

- Faça isso pela sua irmã e pela sanidade do seu pai, sim?

Sem querer contrariar a Mairon, o qual sempre amara e respeitara mais ainda do que a Melkor, Moriel assentiu e se dirigiu para a casa dos eldar. Ao bater na porta, foi recebido por Nerdanel, a qual não parecia estar com uma cara lá muito boa...

- Você é o irmão mais velho de Mairen?

Soturno, o filho mais velho dos Bauglir apenas assentiu que "sim" com a cabeça.

- Ainda bem. Chegou em boa hora.

"Pelo visto, a coisa aqui não anda muito boa", pensou Moriel, mas nada disse. Apenas cumprimentou respeitosamente a elda e entrou logo em seguida.

Lá, na sala de estar, viu a Fëanor, Maedhros, os gêmeos Amrod e Amras e Mairen, a qual não se mostrava intimidada perante tantos eldar, os quais foram inimigos de seu pai um dia, e de maneira ferrenha.

- Então, minha filha - dizia Fëanor a ela, e Moriel não conseguiu depreender se era de forma sarcástica ou carinhosa - Seu pai continua fascinado por joias?

- Ah, sim. Mas agora ele somente fica com aquelas que já possuía. Ele não rouba mais!

- É, porque acho que nunca mais conseguirei criar algo parecido com as silmarili...

- Não tem problema! Ele nem fala mais nelas!

- E o Anel do seu outro pai? Ou seria da sua mãe? Mairon ainda fala nele?

- Também nem liga. Acredite, senhor Fëanor, hoje em dia eles só querem cuidar em paz da família!

- E o que foi que você viu no meu filho, afinal?

- Ora, senhor Fëanor... o senhor melhor do que ninguém conhece as qualidades de seu filho!

- Sim, mas as qualidades a um pai são diferentes do que a uma mulher, pois não?

- Maedhros não é de se jogar fora. Então por que perguntar o que vi nele?

- É que ele é justamente um dos antigos inimigos de seu pai... por que se envolver justamente com ele?

Antes mesmo de Mairen poder responder, Moriel entrou na conversa e se apresentou:

- Com licença.

Mairen se espantou ao ver o irmão chegar, mas Fëanor não deu mostras de se intimidar ou mesmo se surpreender.

- Olá! Se não me engano você é o irmão de Mairen, não? Sinta-se à vontade em minha residência.

Ainda calado, Moriel tomou assento ao lado da irmã e observou o ambiente a fim de ver o que aconteceria logo em seguida. Amrod e Amras confrontaram o olhar com o dele, enquanto Maedhros parecia fingir que ele não estava na sala. Já Fëanor sorriu, tomou mais um gole de seu hidromel e em seguida retomou a palavra.

- Como eu ia dizendo... Seu pai e meu filho eram inimigos. Por que se envolver justamente com ele?

- Maedhros era inimigo de meu pai, não meu. De qualquer maneira, nem mesmo hoje vocês são mais inimigos!

- É verdade. Mas dentre muitas coisas, não esperava que justamente a filha de Melkor fosse vir a ser minha nora...

Nerdanel se colocou no meio da conversa e os interrompeu.

- Por que não bebemos mais um pouco de hidromel e falamos sobre a vinda do bebê? Qual a sua preferência, Mairen? Menino ou menina?

- Ah... não sei. Ainda não parei para pensar nisso.

- Pois pense! Se não me engano, esta será a primeira criança híbrida de maia e elda desde Lúthien.

- E a tonta ainda se casou com um humano depois... - deixou escapar Moriel, o qual gostava menos ainda dos edain que dos eldar.

- Ora, era só o que faltava! - declarou Fëanor - Se meu filho se casasse com uma humana, nem sei o que faria... pobre Thingol!

Moriel interveio mais uma vez:

- Meu pai também não está contente de minha irmã vir a se casar com um elda e teve de se segurar muito pra não fazer uma bobagem...

Nerdanel, vendo que a coisa ia ficar feia de novo, interrompeu tudo antes que Fëanor pudesse responder.

- Já escolheram o nome da criança?

Mairen respondeu:

- Ainda não. Tem alguma ideia, Nelyo?

Maedhros se encontrava no mais absoluto silêncio, sem saber o que refutar. Sentia a tensão no ar e só desejava que aquelas visitas de protocolo acabassem de uma vez. Caso contrário estouraria outra guerra em breve... mas decidiu responder para não passar por mal educado.

- Não tenho. Creio que deveríamos esperar a gestação se adiantar mais um pouco, sim?

A conversa continuou, com mais hidromel, "farpas" trocadas entre Fëanor e Mairen ou Moriel... e Nerdanel sempre tentando acalmar as coisas. Os gêmeos Amrod e Amras pareciam apenas observar aos maiar caso eles explodissem contra os eldar ali dentro mesmo. Mas felizmente as coisas não passaram de pequenas provocações verbais.

Na hora de ir embora, Mairen se despediu dos Curufinwë e de Maedhros, enquanto Fëanor e Nerdanel deliberavam sobre a visita:

- Até que não é tão má, para filha do Melkor.

- Ela de fato não é má. Mas sinto também que não deve ser provocada, caso contrário pode se voltar contra os demais de maneira terrível.

- Será que Melkor acha mesmo um absurdo a filha dele ficar com um elda?

- Eu não duvidaria nada. Mas a maioria das pessoas também não acharia uma maravilha se unir à prole de Melkor!

E assim foram deliberando, ao passo em que Mairen seguia o caminho em silêncio ao lado de Moriel. O mesmo teve a coragem de proferir apenas uma frase:

- Bom, pelo menos o elda não fica falando de sexo à mesa como nosso pai fez!

Mairen sorriu.

- Sim, e também não estava tão bêbado. Pobre papai! Quando será que vai se aperceber de que os eldar já não precisam mais ser seus inimigos?

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

Demorou mas saiu! No próximo capítulo, os preparativos para o casamento - duplo por sinal, de Mairen/Maedhros e Moriel/Lossiel.

(Quando "M" nessa parada rsssss!)

Beijos a todos e todas!