*As partes Sublinhadas são palavras que o Draquinho riscou, já que diário algum não possui esses erros básicos ;3


21 de Fevereiro de 1996

Querido Diário,

Hoje mais cedo fui conversar com A.¹, minha ex. Sempre fiquei com peso na consciência, sabe? De como nosso namoro terminou, que eu a enganei e tudo mais.

Foi patético no começo, entretanto, acabou indo tudo bem, eu acho? Bom, vou explicar melhor...

Demorei muito tempo pra tomar essa decisão. Demorei semanas refletindo sobre, até que um dia eu a vi com suas amigas, fui e a chamei. A. ficou um pouco em choque e suas amigas ficaram como se fossem me atacar. Porém, mantive minha pose firme, não podia mostrar que aquela situação me abalava, certo?

Enfim, ela acabou me seguindo, mesmo com as amigas relutantes. Fomos a um lugar privado. Mal conseguia perceber como ela estava se sentindo, porque, por Merlin, eu estava demasiadamente nervoso. Minhas mãos tremiam como nunca. Eu planejava contar tudo, e na hora eu não sabia se seria capaz...

Tentei falar, mas minha voz oscilava. Respirei fundo e tentei parecer forte, em vão. Minha voz parecia tão trêmula que chegava a ser patético. Nem sabia por onde começar. Na minha cabeça havia uma eloquente história, porém não saia...

Fechei meus olhos e sussurrei humilhado "Eu acho que sou gay.". Eu tinha vergonha. Vergonha de quem eu era. Porque eu sabia que jamais poderia ser feliz por causa dessa parte de mim. Vergonha porque minha família me rejeitaria caso não lhes desse netos de meu sangue. Vergonha porque eu não sou corajoso o suficiente para me amar.

Meu rosto ardia. Meu corpo estremecia. Minha respiração falhava. Estava perdido como uma criança, indefeso e vulnerável, então não me atrevi a abrir os olhos, pois enquanto eles estivessem fechados, poderia ser tudo um sonho ruim. Mas não era e eu soube quando senti os braços de A. me envolvendo, tão docemente quanto me lembrava.

Eu fui fraco, pois eu chorei. Eu chorei tanto. Solucei toda minha mágoa e expus minha angústia nos ombros da minha ex. E ela apenas acariciava meus cabelos, beijando minhas têmporas. Não sei por quanto tempo ela me confortou, contudo, para mim, pareceu uma eternidade. Um infinito de lágrimas que nunca ousei chorar todos esses anos.

Quando todas se secaram, atrevi-me encará-la. Seu sorriso era gentil e eu me senti mais leve. Ela afagou meus cabelos e comentou que sempre suspeitou, por isso jamais ficou realmente brava. Eu via certa dúvida em seu olhar, mas acho que não queria me deixar pior. Então eu me expliquei. Ela merecia ao menos isso.

Descrevi para ela que na época, ainda não sabia direito, que estava confuso. Nunca havia me relacionado com ninguém antes, tampouco havia gostado de alguém. Ela era bonita e pensei "Por que não?". Entretanto, mesmo que nossas personalidades combinassem, eu não sentia nada por ela... Nada sexual. E era extremamente frustrante, porque eu queria.

Passei muito tempo depois refletindo sobre isso. Jamais tive coragem de me assumir, pois tinha vergonha de mim. Mas agora, o que importava era que A. era uma das melhores pessoas que eu conheci e merecia uma desculpa apropriada. E eu pedi, finalmente.

Disse-lhe também que se fosse com ela, valia a pena tentar. A. gargalhou como nunca. "Se você é gay, não tem como virar hétero.", revelou. Agora eu sabia, mas, na época fazia muito sentido me esforçar.

A. complementou agradecendo que não deu certo, não estaria feliz em um relacionamento falso como o que estávamos. Ela queria que eu fosse feliz e eu não seria fingindo ser quem eu não sou. Isso é algo a se considerar, levando em conta como eu estou miserável. Apesar de que ela não sabe nem um terço da minha história. Ao menos nesse aspecto, estou um pouco melhor.

Anunciou que não aceitaria minhas desculpas, não tinha o que desculpar. Não era minha culpa eu ser gay. O que vivemos foi algo bom para ela, uma boa experiência. Deu um tapa em meu rosto e depois o beijou, rindo. Explicou que era por não ter sido honesto antes. Óbvio que ela entenderia. Ela sempre suspeitou. Na época não enxergava isso, mas após o término, reparou e ficou feliz por eu estar mais confortável com minha sexualidade a cada dia que se passava.

Eu sorri porque nunca havia percebido que estava me aceitando com o tempo.

Abracei-a. Sentia-me tão aliviado após esse diálogo. A. fitou-me e disse com seu tom mandão, que sempre usava quando namorávamos, para que eu parasse de usar tanto a cabeça e apenas vivesse. Pois eu era o meu único inimigo. Segurou minha mão num silencioso pedido de amizade, que eu retribui com um sorriso.

Papeamos algumas banalidades depois. Como ela estava nas aulas, suas matérias favoritas, se estava namorando alguém (que por acaso é W.¹ fui ver quem era e fiquei surpreso ao saber que era lufano e ainda half-blood², mas fico feliz que, talvez os preconceitos da sociedade pure-blood² estejam mudando). Eu também contei sobre minhas aulas, os testes que já estou tendo para o O.W.L.³ e como tem uma grande pressão em nós (até H.¹ teve várias crises de choro e falta de ar por causa disso, chegou até a desmaiar algumas vezes. Rolou boatos de que está com síndrome de pânico e que tem saído cada vez menos do dormitório, sinto por ela), e também minhas ambições. Contei como queria ser um curandeiro e ela achou fantástico.

Depois de mais um tempo jogando conversa fora, nos despedimos. Sorri como há tempos não sorria. Senti como se tivesse uma nova amiga.

Bom, estou com sono, diário, já vou indo dormir. No entanto, estou realmente feliz que deu tudo certo. Até amanhã, querido diário.

-º-

Harry terminou de ler a página com uma pontada de ciúmes. Talvez porque ele queria ter uma conversa tão franca com o escritor. Entretanto, não podia deixar de se sentir feliz que ele estava finalmente se sentindo bem e se aceitando aos poucos.

Fechou o diário e pegou suas anotações. Não importava o quanto revisava, não fazia ideia de quem era. Não tinha coragem de pedir ajuda a Hermione e violar a privacidade do escritor e tampouco de perguntar a Lupin porque, de certa forma, sentia-se traído por ele não lhe contar que estava namorando. Estava chateado com seu tio de consideração e não queria encará-lo de forma pessoal tão cedo.

Inglebee (R) - 5º ano

Samuels (R) - 5º ano

Malfoy (S) - 5º ano

Crabbe(S) - 5º ano

6. Greg Goyle (S) - 5º ano

Todos já haviam namorado e, francamente, não sabia o que suas ex-namoradas faziam atualmente, Harry não era tão à toa assim. Acariciou a página de forma frustrada.

Sabia que a cada folha que lia do caderno, sentia coisas. Coisas que não são comuns para homens héteros sentirem, e isso punha em cheque toda sua sexualidade. No entanto, a maior confusão para Potter era: como ele podia estar se apaixonando por alguém que não conhecia pessoalmente?


¹. A: Astoria, para quem não se lembra...

∟Wayne Hopkins, um aluno da Hufflepuff (Lufa-Lufa) que tem a mesma idade do Dray.

∟Hannah Abbot, uma aluna da Hufflepuff (lufa-lufa) que tem a mesma idade do Dray, que é canônico que teve crises de pânico na época dos testes.

². Half-blood é o equivalente a ter sangue mestiço (um dos pais é bruxo e o outro muggle).

∟ Pure-blood é o equivalente a ser sangue puro, ambos os pais serem bruxos.

³. O.W.L. é a sigla para Ordinary Wizarding Level (mais conhecido no BR como N.O.M.), que é um teste específico realizado em Hogwarts pelos alunos do quinto ano, administrado pela Autoridade dos Exames Bruxos. A pontuação feita pelo estudante determina se vai ou não continuar a cursar determinadas disciplinas nos próximos anos. E certas carreiras requerem que certas matérias, então para que o aluno passe no teste que realizarão no sétimo ano (N.E.W.T – mais conhecido no BR como N.I.E.M.), precisam passar em O.W.L.