Draco chegou ao lago. Sabia que tinha passado das vinte horas porque o sol estava quase se pondo por completo, mas não tinha certeza, o horário de verão confundia sua cabeça. O clima já estava menos quente do que quando estavam de férias. Uma brisa gelada envolveu seu corpo e agradeceu por estar de capa.
Podia ver as folhas das árvores do lago secando. Seria triste se já não soubesse que daqui alguns meses, renasceriam como fênix. Colocou a mão nos bolsos, tentando não pensar no frio que sentia na barriga e nas pernas trêmulas. Procurou pela companhia que marcara o encontro, receoso.
Viu alguém sentado embaixo de uma árvore majestosamente imponente. Seu torso estava recostado em seu grosso tronco e a respiração de Draco falhou por alguns instantes. Cogitou sair correndo, ou se esconder até ele ir embora. Contudo, algo fez com que suas pernas se aproximassem da pessoa que estava descansando tranquilamente. A cada passo que dava, Draco esquecia-se de respirar.
Draco não sabia o que falar ou como agir. Apesar de o outro ter se aberto através de uma carta, não gostava de se sentir tão vulnerável às pessoas... E ele estava mais do que vulnerável perto dele.
Aproximou-se do garoto de cabelos negros. Agachou-se para poder vê-lo melhor. Seus óculos refletiam a imagem de Draco, mas ainda dava para ver que seus olhos estavam fechados. Seus cabelos, sempre negros, estavam rebeles e com as pontas apontando para todos os lados. Ele podia pentear os cabelos, pensou Draco com um sorriso a escapar de seus lábios.
Draco estava tão atento observando as feições do outro que se assustou ao ponto de cair de bunda quando ele abriu os olhos, mostrando suas íris verdes, tão intensas quanto à grama que os cercava. Atordoado, olhou para ele com uma expressão acanhada. Foi quando ouviu a gargalhada do outro, direcionada para ele. Apesar de sentir-se feliz por ter feito o outro rir, não sabia se ele estava rindo com ele ou dele.
— Cale a boca, Potter — ordenou juntando todo o desprezo que tinha para que não soasse tão cheio de dúvidas e expectativas.
— Desculpe, Malfoy. Mas fala a verdade, foi engraçado. O grande Draco Malfoy caindo de bunda — disse tentando conter a risada, em vão.
— Se for para rir de mim, vou embora então — falou, levantando-se e girando o corpo para partir. Contudo, uma mão segurou a sua e seu rosto nunca queimou tanto quanto naquele momento.
— Desculpa, desculpa, agora eu parei... sério. Sente-se ao meu lado... — pediu Harry, apertando a mão do outro, puxando-o delicadamente para baixo. Draco se deixou levar pelos movimentos de Harry, apenas torcendo para que não esteja corado.
Sentados lado a lado, a cabeça de ambos estavam a mil. Fazia quase cinco minutos que o silêncio pairava constrangedoramente entre eles. Draco com sua expressão fria e Harry visivelmente pensativo.
Harry dispôs-se a observar Draco. Ele parecia tão confiante, cheio de orgulho e certezas. Por um segundo, duvidou que ele pudesse ser o escritor. Porque ele era sensível, adorável e nobre. Coisas que nunca se encaixariam em Draco, pela perspectiva de Harry. Desviou o olhar para o chão
— Então... primeiro eu queria pedir desculpas por ter lido seu diário — começou Harry, tentando evitar olhar para o outro. — Não tinha nenhum nome e eu achei que eram anotações quando o peguei. Depois pensei que fosse de algum ex-aluno. Só depois de um tempo que eu percebi que era de alguém que ainda estudava em Hogwarts... — falou, tentando ganhar confiança enquanto discursava. — Eu invadi sua privacidade, então... Desculpa! — Fixou seu olhar em Draco, com os olhos cheios de arrependimento. Entretanto, ficou surpreso como o outro parecia tão tranquilo.
— Do que você está falando, Potter? — cuspiu as palavras, tentando mascarar todo o constrangimento. Draco não sabia porque estava falando aquilo, talvez seja por não querer que pensasse que era tão fraco quanto aparentava no diário. Quer dizer, finalmente ele estava falando com seu amado, mas não conseguia ser verdadeiro. Xingou até seu décimo antepassado por ser tão idiota.
— Estou falando do seu diário, oras...
— Eu não tenho diário, Potter... Que coisa infantil e muggle¹ de se ter... — comentou com as sobrancelhas franzidas e com um ar de superioridade.
— Ok, fingindo que eu acredito que o diário não é seu... Por que está aqui? — perguntou Harry.
— Porque eu estava tendo um ótimo jantar quando recebi uma carta sua se abrindo de maneira patética.
— Como você sabia que era minha, se aquele diário não era seu? — questionou com um sorriso presunçoso, como se tivesse encurralado aquela maldita doninha.
— Potter, me poupe... É famoso, órfão, namorou uma tal de G. que agora namora uma corvinal, único que sobreviveu a maldição da morte, assinou como "H.P.". Por Merlin, eu não sou idiota igual seu amiguinho sardento — disse, olhando pela primeira vez para Harry e com um sorriso presunçoso.
— Talvez eu não tenha sido tão sutil como eu imaginei... Mas o que você ter recebido a carta tem a ver com você estar aqui? — perguntou derrotado. Entrara no joguinho dele, mas queria apenas ter uma conversa honesta.
Draco abriu e fechou a boca diversas vezes. Estava sem resposta. Não sabia que desculpa dar. Sentiu suas orelhas queimarem e virou o rosto.
— Não é da sua conta, Potter. — Tentou esconder ao máximo a vergonha de ter sido descoberto. Harry vira o outro corado. Sorriu vitorioso.
— Então o diário é seu... — acusou.
— Cala a boca — exigiu.
— Por que estava mentindo, Malfoy? Não tem nada demais isso... — começou, porém foi interrompido com um grito.
— Cala a boca! — Levantou-se. Não ficaria ali para ser humilhado daquela forma. Claro que na carta dizia muitas coisas que fizeram seu coração bater mil vezes mais rápido, mas poderia ser muito bem uma pegadinha de mau gosto dos grifinórios babacas.
— Malfoy, pare... — Segurou sua mão de novo, dessa vez com mais força. Apesar de ele ter sido grosso, Harry não podia evitar pensar que era muito adorável essa reação. Levantou-se também, aproximando-se de Draco e tocando seu rosto com a mão livre. — Eu falei sério, na carta... — O rosto de Draco ficou completamente vermelho e Harry sorriu.
— Eu só... eu só... — sussurrou, constrangido —... eu só não quero que você pense que eu sou fraco. Por causa de tudo que você leu. Eu aguentei tudo muito bem até agora, obrigado.
— Eu sei... Você é uma das pessoas mais fortes que eu conheço. Sofrer tudo aquilo e ainda aguentar calado? Você é incrível. — Subiu as mãos para os cabelos de Draco, e Harry ficou surpreso por eles serem tão macios.
— É muito estranho você ser tão gentil comigo. Por favor, pare. — Seu estômago revirava-se e não sabia o que era respirar.
— Eu acho que você não está acostumado com a gentileza, isso sim, Malfoy. — Sorriu com orgulho de estar deixando o outro tão à sua mercê.
— Cala a boca, Potter, eu estou falando sério. — Afastou-se, voltando a sentar embaixo da árvore. Harry estava confuso, mas sentou-se ao seu lado.
Então veio algo em mente que Harry não havia pensado. E se Malfoy tivesse o superado e só veio o encontrar para dar um fora nele? Afinal a última página que lera era ele dizendo que havia desistido. Sentiu um aperto no peito e manteve seu olhar no grande lago a sua frente.
— Desculpe, eu fiquei tão preso nos meus sentimentos que me esqueci dos seus.
— Potter, eu não preciso que você aja como um cachorrinho apaixonado, por Merlin... Não sou tão carente e desesperado assim.
— Eu só... não sei o que fazer... Eu realmente gosto de você... — confessou, sentindo-se abrasar todo.
— Você é tão idiota, Potter. Não tem como se apaixonar por alguém que nunca tenha visto. Fora que você me odeia. Pare de ser tão contraditório. Não me admira que você seja tão ruim em Poções.
— Eu não sou ruim em Poções, eu passei nela no O.W.L.¹, não tenho culpa que o Professor Snape me odeia — defendeu-se.
— Você passou em Poções? Aposto que colou. Provavelmente da Sangue-ruim — acusou com um sorriso esnobe que logo se desmanchou ao receber um soco.
— Eu estudei pra caralho para passar... Diferente de você que é o preferido do Snape, sempre sendo privilegiado — gritou Harry, em cima de Draco e segurando a gola de sua camisa.
— Isso é inveja porque eu sou bom. Nunca fui favorecido pelo Snape. Eu estudo de verdade, diferente de você que está sempre distraído e conversando nas aulas — acusou, cuspindo o sangue que saíra do machucado que o soco fez em sua boca.
— Realmente, não tem como você ser dono do diário. Devo ter me confundido. Você é um cuzão de merda egoísta. — Soltou Draco, afastando-se dele. — Não tem como um cara mimado como você ter sofrido em casa, aposto que sempre ganhou tudo dos pais.
O sangue de Draco ferveu. Quem ele era pra saber o tanto que eu sofri? Pulou em cima de Harry, deferindo um soco bem dado no nariz e segurando a enorme vontade de chorar.
— Quem você pensa que é pra falar assim de mim? Da minha família? Do meu sofrimento? Hein? Você é um boçal, cérebro de hipogrifo — gritou com a voz embargada e algumas lágrimas escapando de seus olhos. — Seu merda, não me admira que você seja tão sozinho, ninguém gosta de você, só da sua fama. — Naquele ponto, palavras vazias saindo de sua boca.
Harry sentiu-se culpado por ter provocado aquela reação nele. Seu nariz estava vermelho, seus olhos fechados e lágrimas grossas saindo deles. Os dedos de Draco seguravam tão forte as vestes do outro que a ponta de seus dedos estavam brancas. Harry levou suas mãos para a nuca de Draco, puxando-o para perto de si, numa tentativa de abraço.
— Eu não quero — disse Draco. — Eu não quero, eu não quero, eu não quero — repetiu num sussurro, mas se deixando abraçar por Harry. Por mais que quisesse negar, seus braços eram quentes e confortáveis, e ele nunca se sentiu tão seguro.
Ficaram assim até o sol se pôr completamente e a meia lua se esconder sob o céu nublado. Harry acariciava os cabelos de Draco, que pranteava em silêncio. Chorou todas as mágoas, as tristezas, os sentimentos guardados. Compartilhou esse momento triste com quem menos esperava e foi bom. Draco acomodou-se melhor no peitoral de Harry.
— Potter? — chamou com a voz mais firme. Harry apenas murmurou em resposta. — Se você estava lendo meu diário, como não me procurou antes? Quer dizer, eu sei que você fez uma lista e tudo mais, mas sempre achei que era bem óbvio que era eu o dono e que eu estava apaixonado por você — disse casualmente, porém, ao notar que havia dito que o amava, corrigiu-se bruscamente. — Quer dizer, que eu sinto algo por você. Algo fraco e besta, claro. — Sorriu nervosamente. Harry quis apertar Draco ainda mais contra si, mas controlou-se.
— Bom... Eu achei que você gostava do Alexander William. Afinal, ele foi nosso Seeker² até eu entrar no meu terceiro ano. Ele só saiu porque queria focar nos estudos, então pra mim fazia todo o sentido... Ainda mais porque ele é grifinório, tem cabelos negros e olhos verdes, se é que aquilo poderia ser chamado de olhos verdes. — Riu. — Sobre sua identidade, confesso que muitas coisas eu deixei passar e, pensando agora, faz muito sentido ser você. Mas teve outras que realmente me confundiram... Como você ter namorado um lufano... Achei que os sonserinos eram um grupo exclusivo e fechado.
— Primeiramente... Eca, William. Você já viu a cara estranha dele? Fora que ele nem poderia ser considerado um Seeker. Não me admira que vocês só perdiam enquanto ele jogava no time... Em segundo lugar, a Hufflepuff³ é a única casa que nos damos bem. O resto meio que acha que somos todos maus, então nunca querem se misturar conosco² — explicou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Nunca reparei nisso.
— Mas é claro que não, sempre esteve ocupado com coisas bestas... Sem ofensa — retrucou Draco com a voz entediada.
— Você gosta dos muggles, então? — perguntou curioso, porque se lembrou de uma página que lera onde o autor filosofava sobre o ódio besta que os pure-bloods¹ tem contra os muggles.
— Potter, não viaje também. Não é como se eu gostasse deles. Eu só não entendo porque odeiam os bruxos que tem o sangue deles. Você mesmo, por exemplo, não é pure-blood, mas derrotou o bruxo mais poderoso do mundo...
— Dumbledore é o bruxo mais poderoso... — cortou Harry com a boca amarga.
— Você entendeu o que eu quis dizer, Potter. Bruxo das trevas, tanto faz. O que eu quero dizer é que nesses meus anos em Hogwarts, eu vi que o sangue não influencia em nada na magia... Pelo menos por agora né, quem sabe no futuro ela seja realmente extinta por causa da miscigenação, como dizem meus pais.
— Como eu poderia adivinhar que era você? Eu nunca conheci esse seu lado, Malfoy — constatou indignado.
— Ninguém conhece esse meu lado, porque eu não posso mostrá-lo.
— Faz sentido...
— Você sabe que eu já me descrevi no diário, certo? — Harry o olhou estupefato — Por que eu não estou surpreso de você não ter prestado atenção?
— Hey, eu prestei atenção... Sabia que você era pure-blood, jogava Quidditch³, não era da Hufflepuff, é filho único, ano passado estava no quinto ano e que você quer ser um curandeiro. — Draco sentiu o rosto corar. Então Potter estava mesmo tentando descobrir quem eu era?
— Mas eu falei meu sobrenome... e seu nome — insistiu.
— Acho que não cheguei nessa parte... de você ter falado seu sobrenome. A última coisa que eu li foi sobre nossa briga... Foi a primeira vez que você escreveu meu nome mesmo. Se teve outras, eu não sei.
— Ainda te acho muito lerdo por não ter notado — disse soltando um riso natural, pegando Harry de surpresa.
— Não sabia que você conseguia rir, Malfoy — caçoou, afastando uns fios que caiam sobre seus olhos azuis.
— Vai se foder, eu sei rir. Eu só rio perto de pessoas especiais para mim — justificou-se, fazendo Harry sorrir ainda mais.
— Então eu sou especial para você? — perguntou sentindo seu peito abrasar.
— Cala a boca, Potter — rosnou, completamente sem jeito e envergonhado.
— Sabe, você fica muito adorável assim, mostrando-se agressivo, mas na verdade está morrendo de vergonha.
— Vai se foder, Potter — xingou, levantando-se rispidamente e sentando-se longe de Harry.
— Desculpe por mexer com a sua cabeça — pediu, não parecendo arrependido. — É que eu nunca vi esse seu lado e eu gosto dele. — confessou, sentando-se.
— Eu não tenho culpa que você causa essa merda de efeito em mim — acusou, fitando-o intensamente.
— E eu não tenho culpa que eu não consigo me livrar desses sentimentos que eu tenho por você — sussurrou, quase que hipnotizado por seus olhos intensos.
— É só que... é tão surreal isso pra mim.
— O que você acha então de começarmos devagar... Afinal, isso tudo começou de maneira bem inusitada, não acha?
— Eu iria adorar... — Sorriu. O coração de Harry falhou ao se deparar com essa cena. Nunca imaginaria que um sorriso poderia ser tão bonito. Sua garganta secou e ele perdeu o ar. — Sabe, Potter... você também fica fofinho quando está com vergonha — elogiou, fazendo Harry corar absurdamente.
— Cala a boca, Malfoy — vociferou, virando o rosto. Ao ver essa cena, Draco riu, aproximando-se dele.
— Mas é sério, se você quiser, eu adoraria começar algo... devagar, claro — sussurrou, admirando Harry e mordendo nervosamente o lábio inferior. Harry voltou a olhar para Draco e seu estômago ardia. Estava tão nervoso quanto no dia em que se inscreveu para o time de Quidditch.
— Eu quero Malfoy... eu quero — murmurou e levou sua mão para a de Draco, entrelaçando-as.
Num gesto espontâneo, Draco aproximou-se desajeitadamente de Harry, encostando suas bocas em um selinho rápido e desastrado. Harry o olhou atônito com o gesto, mas Draco apenas gargalhou. Estava feliz. Finalmente sentia-se verdadeiramente feliz depois de tanto sofrimento.
— Pode me chamar de Draco, maldito — pediu. Apesar das palavras serem hostis, não havia nada disso nele. Harry sorriu e beijou-o, como desejara fazer a muito tempo atrás.
¹. Muggle: a tradução brasileira é "trouxa"
Pure-blood: a tradução brasileira é "sangue puro"
². Seeker: a tradução brasileira é "apanhador"
∟ considerações: Sim, Alexander William é canon, masss... Não tem nenhum indicio da aparência dele... Então eu quis brincar com as possibilidades de ele ter as mesmas características de Harry (mas não parecido).
∟ considerações 2: eu sempre vi a Slytherin (Sonserina) como uma casa "Não me rele, não me toque". Mas aí, eu li em algum lugar que as melhores amizades seriam entre os sonserinos e lufanos. Desde então eu aderi essa ideia...
³. Quidditch: a tradução brasileira é "Quadribol"
∟ Hufflepuff: a tradução brasileira é "Lufa-lufa"
E esse é o ultimo capítulo
Mas calma que teremos um epílogo super amorzinho pra termos mais interações entre o Harry e o Draco e, quem sabe, o futuro deles? Hmmm.. lendo para saber :v
Bom, eu vou fazer textão sim de agradecimento, mas vou deixar pra fazer no epílogo, afinal, temos mais uma postagem
