Até agora: Depois de um difícil dia cheio de imprevistos e alguma convivência pacífica, Draco perdeu o controle e finalmente beijou Harry, mas o moreno não reagiu muito bem.

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SERPENTES E LEÕES

Mestiços eram o mesmo que nada. Mestiços eram lixo, eram a vergonha de um Castelo da elite. E lá havia quatro mestiços.

O primeiro fora Erick, o amante de Lucien e, por isso, aceito. Aquele que era imune a dor e a morte.

O segundo fora Maxxcy, o filho de Andrey. Uma pessoa brincalhona demais, cruel e sádica ao extremo. Fingia amar com devoção para apunhalar pelas costas. Mas Chikage e Erick confiavam nele.

A terceira fora Lédi, a menina que se auto excluía do "grupo dos mestiços". Não gostava de ninguém e ninguém gostava dela.

O quarto era Chikage, o menino com rosto de anjo e poderes de demônio.

Quatro malditos mestiços que não enxergavam seu lugar e se atreviam a superar vários puro-sangue.

Não surpreendia que o fim destes por tantos fosse desejado.

Capítulo 10 – Difícil amanhã

Muitas pessoas, quando estão na pior, se irritam ao ver outras alegres e querem que o mundo sofra junto delas. Lucius Malfoy era assim. Quando estava mal-humorado, de mal com o mundo ou simplesmente irritado, queria o mundo inteiro infeliz e carrancudo, como ele. Não suportava a companhia de pessoas alegres e sorridentes e qualquer coisa o irritava ainda mais. E apesar de ter puxado muitas coisas do pai, essa não era uma delas. Draco não ligava que os pássaros cantassem e muito menos tinha que contar até 10 para não azará-los, não ligava para esses "irritantes animaizinhos com penas", nem amaldiçoava todos os passarinhos e suas canções. A alegria alheia não o incomodava, mesmo que seu dia estivesse cinza e gelado (apesar de que o gelado em muito se devia a própria neve e ao frio de dezembro).

Isso era uma sorte, principalmente agora que convivia tanto com Chikage e que o dia estava particularmente negro para ele.

Mas não via Chikage desde antes do jantar do dia anterior. Nem podia negar que só o fato de acordar num outro dia já era uma benção, um sinal que o fatídico dia anterior acabara de vez. Acordar havia sido melhor do que deitar. O que não fazia seu dia ser mais claro, mas pelo menos não era mais o dia de ontem, o dia no qual beijara Harry Potter.

Ele podia não estar amaldiçoando passarinhos, mas não ia sair daquela cama tão cedo. Não ia mesmo. Quem sabe não saísse de lá nunca mais?

Fechou os olhos e tentou voltar a dormir, ansioso por esquecer o dia anterior, desejoso de esquecer o sabor dos lábios do moreno e sua expressão de nojo e ódio. Cobriu a cabeça com o travesseiro e fechou fortemente os olhos, segurando firmemente a dor que lhe invadia. Na noite anterior, dormira de puro cansaço, mas agora que acordara o sono não parecia querer voltar e tudo o que queria era se desligar da sua maldita realidade. Dormir para sempre parecia até uma boa ideia!

Mas quanto mais tempo passava, mais acordava e mais lembranças retornavam. Lembranças que feriam. A única vantagem em tudo isso (e isso porque tinha que achar uma vantagem nisso tudo) era que a dor junto somado ao ódio do moreno, haviam feito com que dormisse um sono pesado e sem sonhos. Não sabia o que faria se ainda por cima tivesse sonhado com Potter de novo.

Estava se sentindo um animal ferido, caçado, machucado, e tudo por sua própria burrice. Por que fizera algo tão estúpido como beijar Harry? Por que não se contentara com seus próprios sonhos? E como seria a partir de agora? Ficaria com as sombras que haviam restado? Pequenas coisas que os olhos verdes não haviam destruído? Tantos anos esperando para ser notado, sonhando, e tudo se mostrara exatamente como sabia que aconteceria, mas teimava em imaginar o contrário: acabado. Por que deixara sua mente ir tão longe assim? Por que se dera ao luxo de sonhar, quando sabia que nada restaria após isso? Agora entendia bem o significado da expressão "quebrado". Finalmente havia sido completamente quebrado, sem pai, sem paz, sem nada.

O que sobrara, afinal? Um coração vidrado numa causa perdida, coisa que sempre soubera ser. Por que nem agora seu maldito coração aceitava que tudo chegara ao fim? Sem esperanças. Por que se apertava daquela forma em seu peito? O machucava tanto! Mesmo assim, não derramou as lágrimas que pareciam querer sair a força. Por que Potter já havia lhe roubado seu coração, seus sonhos, seu pai, sua sanidade e agora não roubaria também suas lágrimas. Se recusava a também chorar por causa do moreno. Mesmo que sua voz estivesse quebrada, mesmo que seus olhos parecessem querer transbordar, não cederia a isso. Ele não teria isso também arrancado de si.

Ficou ali, deitado como se estivesse se escondendo do mundo, até o cessar do movimento no dormitório, até o início das aulas. O bom de não ser mais tão importante entre seus colegas como era antes estava no fato de ninguém ligar mais para ele. Não sabia o que faria se alguém tivesse aparecido para chamá-lo (o que achou que aconteceria, pois duas vezes a porta se abriu e fechou, vezes em que o quarto parecia vazio). Mas não saiu da cama até as 9:30h, quando já não aguentava mais ficar deitado e a ideia de que passar tanto tempo escondido entre as cobertas, de pijama e sem comer muito o assemelhava a uma menina idiota de coração partido. Seu coração podia sim estar partido, mas ele não agiria como uma menina. Podia ser gay, mas ainda era Draco Malfoy e ainda tinha um resto de orgulho próprio.

Levantou-se a muito custo e se dirigiu ao banheiro, tomar um banho poderia lhe dar algum animo para fazer algo, fosse o que fosse, contanto que não ficasse mais ali. Mas um banho não era uma boa ideia se levasse em conta com quem estivera no seu último. A água quente tocando sua pele, ao invés de ajudar, só fazia lembrar da forçada convivência que tivera com Potter e que destruíra tudo. E se tinha aguentado Harry no chuveiro a um metro de distância, por que não tinha aguentado só um pouco mais?

Burro, estúpido, inconsequente.

Era isso que era.

Terminou o banho rápido, não aguentaria ficar ali muito tempo, isso poderia lhe despertar ainda mais lembranças e outros sentimentos que a depressão estava afastando e que definitivamente não queria ter.

Já estava jogando algumas coisas na mochila quando viu sobre seu criado-mudo uma bandeja pequena, sobre ela um prato com torradas e geleia, um pedaço de bolo de laranja e um copo de chocolate quente. Mas quando... quem...?

"Que pergunta idiota, você está virando um imbecil, Draco" - disse para si mesmo, se aproximando. Era claro que sabia quem havia feito aquilo, não era nem sequer difícil saber. Apenas duas pessoas se preocupavam assim com ele, uma era uma menina altamente cuty (mesmo que não quisesse que ninguém soubesse disso) e nunca teria montado uma bandeja tão masculina, sem nenhum enfeite, e o outro era um rapaz que realmente parecia se importar com ele. Não era nem um pouco difícil de adivinhar. Mas também não era necessário adivinhar, Chikage havia deixado uma identificação, um pequeno cartão, escrito com sua caligrafia fina e puxada para a direita, simples, mas bonita.

Bom dia, Draco.

Trouxe alguma coisa para você, achei que estaria com fome. Fiz um feitiço para manter o chocolate quente, pois está um frio danado. Acredita que a neve finalmente começou para valer? Se continuar assim, daqui a pouco andarei como um pinguim, de tanta roupa! Agasalhe-se bem, ou até o fim da semana estarei te visitando na ala hospitalar.

Te vejo no almoço?

Chikage

PS: não se preocupe com as aulas, depois te empresto minhas anotações

PS2: peguei seu trabalho de Transfiguração, aquele que era para hoje, perdoe a intromissão, mas achei mais seguro já entregá-lo (McGonnagal nem sempre aceita trabalhos atrasados, mesmo que sejam entregues no mesmo dia)

PS3: Em tempos de guerra não é prudente aceitar nada não identificado, então nada de me dizer que comeu primeiro e leu o cartão depois!

Draco sorriu ao ler o bilhete e agradeceu mentalmente ao amigo. Não tinha lembrado de seu trabalho. Sorte que já o havia terminado (mesmo que algo lhe dissesse que o amigo o teria terminado para ele se fosse preciso). O único problema era que não pensara em comer e não estava com fome. Nem um pouco. Mesmo assim, sentou-se na cama e mordeu uma das torradas, apenas para não fazer desfeita do carinho do amigo. No entanto, mal deu a primeira mordida seu estômago se contorceu, recusando a comida. Sua garganta estava fechada e com muito custo bebeu o chocolate para então sair da Sonserina antes que os alunos começassem a transitar pelos corredores. Draco não queria correr o risco de encontrar algum colega, fosse onde fosse. Tudo o que queria era um lugar tranquilo para descansar, um lugar sem ninguém o encarando, o questionando, o enchendo. Queria ficar sozinho.

E numa escola isso pode não ser a coisa mais fácil de se conseguir.

Droga, como Potter conhecia tantos cantos naquele castelo para se esconder e ele que estava lá ao mesmo tempo só conseguia pensar na velha sala-deposito da noite anterior? E porque não conseguia simplesmente parar de pensar em Harry quando tudo o que mais queria era não vê-lo nunca mais?!

Definição perfeita para a 1ª manhã pós sonhos quebrados? Difícil.

Havia faltado no café da manhã (estava sem fome mesmo) e a aula de Poções. E nem sequer estava preocupado em justificar sua falta. O que era uma falta diante da possibilidade de encontrar com Potter? Não conseguia nem pensar em ter o moreno diante de si! Não só por não saber como agir perante ele como por não saber se aguentaria olhar naqueles olhos verdes e não se sentir o ser mais miserável de todos.

– Merda – Draco disse para si mesmo, irritado com sua mente, irritado com sua dor, irritado com sua fraqueza e com seu coração. Irritado com seus pés que andavam a esmo sem um ponto fixo, com a mente que se recusava a voltar ao normal, com o coração que doía como se tivesse sido esmagado. De fato, tinha.

Mas se continuasse andando assim, sem rumo, correria o risco de encontrar justamente aquele que nunca mais queria ver (o que sabia que seria impossível uma vez que eles não apenas estudavam juntos como também tinham aulas em conjunto). Mas não estava fugindo. Não era tão covarde e não daria esse gostinho a Potter. Apenas não queria ver o moreno naquele dia em especial, não por algum motivo em específico e sim porque... porque não conseguia simplesmente não lembrar das palavras carregadas de raiva e nojo que o outro lhe dissera, porque tais palavras não deixavam sua mente e não conseguia parar de ouvi-las e estava ficando muito irritado e acabado com isso.

Será que era tão errado assim querer esquecer o dia anterior? Esquecer do nojo no olhar de Harry e o gosto de seus lábios e parar de pensar nisso porque isso estava acabando com ele?

Deslizou a mão esquerda pelos cabelos finos, tirando-os dos olhos, sem perceber que já não andava a esmo, que estava parado no corredor e não queria nem pensar na imagem patética que devia estar ostentando. Parado ali, acabado.

Respirou fundo tentando limpar a mente, tentando voltar a ser quem era, a esquecer e principalmente tirar de seu rosto aquela expressão de quem havia sido destruído.

Droga, aquele não era ele!

Não podia ser!

E daí que sabia não ser digno fugir ouque estava sendo covarde? Só não tinha forças para encarar Potter no momento. Nem nunca mais!

O pior? Ainda sentia o gosto dos lábios do outro sobre os seus. A loucura? Escolhera a mesma sala depósito na qual estiveram na véspera para se esconder.

Não era inteligente continuar ali.

Mas também não era inteligente sair agora que os alunos transitavam pelos corredores, indo para o almoço.

Encostou-se na parede, fechando os olhos, sabendo que estar ali só lhe traria más lembranças. Só que suas pernas se recusavam a mover-se.

E nada lhe restava além de lembrar-se.

Relembrar dos dois em Hogsmeade, jantando, jogando, da reação de Potter, dos difíceis momentos que passaram depois de sua loucura e do modo desesperado com que voltou ao Salão Comunal da Sonserina, disparando escadas acima e deixando Panzy, Zabini, Chikage, Vicent, Gregory para trás. Sabia que sua ação apenas atrairia a atenção destes, mas tudo o que queria era ficar sozinho, queria que não vissem sua cara. Recordou-se das lágrimas que quase derrubou e da vontade que sentiu de gritar assim que trancou a porta do dormitório.

Era irônico. Havia aguentado com classe a última hora que passara preso a Harry (de onde tirara tanto sangue-frio?), mas não havia aguentado um dia sem fazer a idiotice de beijá-lo.

Bem que sabia que não podia confiar em si mesmo.

Passou a língua nos lábios sentindo o gosto de Harry.

– Merda! – xingou, agarrando os cabelos com força, sentado no chão, abraçando os joelhos.

Tudo acabara, não?

Tinha feito a maior loucura que poderia ter feito em sua vida. Pouca coisa, não? Não era a toa que estava sem forças para mais nada. Nem sabia como tinha arranjado forças para chegar ao dormitório ontem. Ou ao depósito hoje.

Bateu a cabeça na parede de leve. Não devia estar lembrando disso. Era masoquismo! Também não devia estar ali, devia estar em qualquer outro lugar se esforçando em esquecer Harry, em odiá-lo de verdade, em vestir sua máscara.

Tinha que sair dali.

Mas e se ainda tivesse gente nos corredores? Não, todos deviam estar almoçando.

Mas claro que sempre poderia contar com Potter para andar pela escola nos piores horários! Lógico que o moreno não estaria no Salão Principal almoçando com todos os outros, lógico que ele estaria era andando despreocupadamente com os amigos pelo castelo. E lógico que o universo tinha que ter uma lógica bizarra que fizesse ambos se encontrarem no exato momento em que Draco saiu do depósito abandonado.

E ele não estava pronto para ficar frente a frente a Harry novamente. Não estava, mesmo!

E Harry ria! Ria feliz e despreocupado, junto de seus amigos idiotas. Isso teria sido ótimo se significasse que o moreno esquecera sua idiotice do dia anterior, mas Draco não teve tantas esperanças assim. Bastou olhar nos olhos verdes para saber que o grifinório lembrava muito bem e que ainda estava com raiva.

Felizmente seu orgulho prevaleceu e o loiro conseguiu ergueu o rosto num leve desafio, encarando de forma (aparentemente) tranquila os intensos olhos verdes, rezando para que suas pernas aguentassem seu peso e não cedessem, que seu coração aguentasse mais alguns minutos.

E ele achara que se sentiria o mais miserável de todos quando visse Harry.

Ele estava era se sentindo o mais imbecil e miserável de todos.

E o mais irônico de tudo é que de tantas brigas, discussões, duelos, encheções de saco, fora a mais besta das discussões que colocou tudo a perder e entornou o copo. Algo tão sem sentido e começado tão do nada (ainda nem sabia o porquê haviam começado a brigar) e ele, que tinha mantido o controle o dia inteiro e tantas outras vezes, não aguentou mais. O que tinha na cabeça? Será que não pensava? Que era tão idiota assim? Sabia o que aconteceria se Harry descobrisse, sabia que era loucura e que não tinha chances, sabia tantas coisas e esquecera de todas no momento menos propicio. E ferrara com tudo de vez.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

Se na hora do almoço Harry ouvisse mais uma alguma menção a Malfoy ou o que havia acontecido no dia anterior, ele surtaria.

Por que as pessoas não conseguiam simplesmente ficar quietas? Por que não podiam deixá-lo em paz por um momento, por Merlin?! Claro que sabiam o que tinha acontecido! Ele havia passado um maldito dia inteiro junto de Malfoy e se esse não fora o pior dia de sua vida estivera muito próximo disso e não queria falar sobre isso, não queria pensar sobre isso, não queria lembrar nada disso!

Na verdade, sendo bem sincero, Mione e Rony não haviam perguntando tanto assim. Haviam lhe feito algumas perguntas quando retornara ao dormitório, mas não ouvira nenhuma delas. Estava zangado demais e andando rápido demais e mais rápido ainda se enfiou na cama. Rony respeitou seu silêncio apesar de Harry ter ouvido ele dizendo algo sobre a "maldita doninha" e "eu não teria aguentado nem uma hora no lugar dele". De manhã, bastou dar dois resmungos que nenhum dos dois questionou mais o que tinha acontecido. Hermione até lhe dera aquele olhar de compreensão de sempre. Mas seu intenso mau-humor parecia ter aguçado a curiosidade alheia. Agora era Gina, Luna, Neville, TODOS querendo saber "que bicho o tinha mordido", sem perderem uma chance de testar a falta de habilidades que possuíam em adivinhação. Ao menos Rony e Mione respeitaram seu mau-humor e guardaram suas suspeitas para eles mesmos. Isso era legal da parte deles e Harry era grato por isso porque se ouvisse o nome Malfoy mais uma vez sequer ia pirar!

Malfoy, Malfoy, Malfoy, por que todo mundo parecia mais do que disposto a apenas falar dele?!

Era "Malfoy faltou ao café", "Malfoy faltou a aula", "Malfoy não está junto de Chikage hoje", "não sei como pode suportar Malfoy por tanto tempo", "viu o amiguinho de Malfoy?", "não entendo como alguém pode ser amigo de Malfoy".
Não aguentava mais!

Atirou suas coisas na mochila e saiu da aula pisando duro, tinha perdido até a fome!

Rony e Mione o seguiram pelo corredor, mas Harry estava tão irritado que pela primeira vez desejou estar sozinho. Sentia que ia explodir! Sua cabeça estava uma confusão e seu sangue fervia. Por que, maldição, não parava de lembrar do dia anterior? Lembrar que Draco Malfoy o...

Apertou o passo e chutou uma armadura no caminho, fazendo Mione pular de susto e Rony quase trombar com a mesma.

– Cara, o que f...

– Estou puto, irritado e não quero falar sobre isso! – rosnou Harry "atropelando" Nick no meio do caminho e nem parando para pedir desculpas. Ouviu a voz da amiga e a do fantasma, mas não se importou. Virou bruscamente um corredor e dessa vez realmente atropelou alguém, mas não se importou nem em olhar quem era, seguindo reto pelo mesmo corredor, sua mente ocupada demais em amaldiçoar um certo sonserino e por tabela todos os que pertenciam aquela casa.

Ouviu os passos dos amigos atrás de si, mas isso o fez aumentar o próprio ritmo, quase correndo.

Cruzou outro corredor e entrou num mais estreito. Não tinha percebido que agora corria de fato. Não queria fugir dos amigos, queria apenas fugir das recordações. Queria esquecer e queria ficar sozinho, sem olhares curiosos ou compreensivos, sem nada que o lembrasse do loiro que parecera alojar-se em sua mente e ali permanecer a todo e qualquer custo! Corria e, ao se afastar de tudo e todos, tentava deixar para trás também as lembranças que teimavam em não abandoná-lo. Era como se pudesse ver, como em um filme, Draco Malfoy comprando doces, penteando os cabelos, jogando game-boy, sujo de lama com as mãos enterradas nos cabelos e uma expressão vazia, de cabeça baixa e olhos firmemente fechados, Malfoy trocando de roupa...

Chutou a primeira porta que viu e entrou em uma sala qualquer, atirando o material com força no chão e em seguida chutou uma das carteiras com toda força.

Mas o acesso de raiva não impedia as lembranças de ficarem.

Draco Malfoy molhado, cabelos claros demais sobre olhos prateados, camisa branca transparente, lábios rosa pálido...

Outro chute na carteira e essa foi ao chão.

Mas as lembranças não.

Draco Malfoy sem camisa após sair do banho, o som das correntes refletindo os movimentos que este fazia, Draco Malfoy de costas para ele no banheiro, Draco paquerando Kakinouchi descaradamente.

Mais uma carteira tombou com estrondo. Pelo canto dos olhos, Harry viu Hermione na porta. Olhos castanhos que encararam os verdes por segundos que diziam demais e antes que ele abrisse a boca para dizer algo que nem sabia o que era ela assentiu e saiu, fechando a porta.

Essa era Mione. Não era a toa que a amava!

E era tão bom estar sozinho e livre de perguntas! Livre de olhares, livre da pressão, só faltava se ver livre daqueles pensamentos.

Draco Malfoy rindo nas estufas, Draco o prensando na parede, Draco Malfoy lhe... beijando...

Esfregou a boca com força, com nojo, tentando tirar qualquer vestígio que por ventura ainda houvesse dos lábios de Malfoy (o que duvidava aja vista que escovara os dentes vezes demais na noite anterior), mas aquele beijo parecia ter marcado a fogo a recordação em sua pele (e com uma incrível precisão de detalhes e sensações).

E justo o que mais queria esquecer era o que lembrava com mais detalhes: lábios... sobre os seus... macios demais... nunca tinha beijado ninguém além de Cho e... tinha que ser Malfoy o segundo... Malfoy...

Apertou os olhos com força e derrubou outra carteira.

Malditos detalhes que não conseguia esquecer! Por que, pelas barbas de Merlin, não conseguia esquecer do toque, do gosto, da surpresa, da língua suave e quente passando leve por sobre seus lábios, como se pedisse passagem... Por que tinha que lembrar de tudo, questionava-se, sem perceber que havia, sim, trechos que sua memória omitia, e não lembrava do brilho dos olhos tempestade, do modo como o loiro mordeu o lábio inferior ao encostar-se na parede, de tudo que sua postura curvada poderia significar, na voz arrastada e baixa.

Tão furioso e indignado e revoltado e tantos outros "e" que apenas o envolviam impediam Harry de ver que Malfoy em nenhum momento erguera a cabeça após o incidente, nem lhe dirigira um olhar, que só falara com Trancy e parecia tão chocado com o beijo roubado como o próprio grifinório, assim como o fato de ter sido ele a fazer Malfoy perder as estribeiras ao começar uma briga sem motivo nenhum. Na verdade, nem se lembrava mais o que falara para iniciar a maldita discussão. E pensar que tudo começara porque estava se sentindo sufocado frente aquele clima bom junto ao loiro. Um tiro que saíra certeiro pela culatra.

Mas o moreno não veria esses detalhes, não queria vê-los e nem percebê-los, queria era azarar Malfoy e esquecer o que acontecera, queria lhe lançar um obliviate, queria esquecer que beijara um rapaz, que beijara Draco Malfoy, esquecer tudo o que voltava com força redobrada a sua mente cada vez que desejava esquecer. Teria sido amaldiçoado ao nascer?

Era bem provável.

Malditas lembranças que não partiam!

Respirou fundo tentando se acalmar, sem sucesso. Só conseguiu enfim sair dali, sem registrar muito bem o estrago que tinha feito, quase uma hora depois. Sua mente ainda estava uma confusão, mas não queria preocupar mais ainda os amigos. Falando neles, onde estariam? No Salão Principal? Provavelmente sim, aja vista que estavam no horário de almoço.

Mas assim que virou o corredor avistou os dois sentados nos degraus de uma escada, conversando normalmente. Os dois sorriram para ele e nada perguntaram e Harry agradeceu novamente pelos amigos que tinha, esforçando-se em falar sobre qualquer outra coisa. Ambos concordaram com a "mudança de assunto", contudo, mal começaram a conversar Rony e Mione engataram uma discussão rotineira, o que fez o moreno rir diante da cena tão comum e incrivelmente bem vinda. Não tinha reparado como precisava dessa "normalidade" naquele momento.

E Harry aproveitou o momento, fechando os olhos e deixando a alegria invadi-lo, principalmente quando os dois também começaram a rir.

Pena que sonhos costumam acabar quando se abre os olhos.

Bastou abrir os olhos para a realidade o atingir, assim como as lembranças. E Draco Malfoy estava parado bem na sua frente.

Foi como se o tempo tivesse parado e nenhum dos dois se mexeu. Malfoy estava sozinho e seus olhos estavam vazios, ou assim pareciam já que não chispavam ódio ou desprezo como sempre. E ele parecia decididamente sem saber o que fazer. Também não estava agindo como quem apenas arranjara outra brincadeira de péssimo gosto para atazanar a vida do moreno. E perceber isso poderia ser um alivio se não fosse tão desesperador.

– O que está fazendo aqui, Malfoy? – felizmente a pergunta bastante mal educado da parte de Rony livrou os dois rapazes de expressar qualquer coisa e os tirou daquela situação desconfortável.

O que não significa que melhorou a situação num todo.

Malfoy apenas olhou Harry nos olhos mais uma vez e virou as costas, saindo sem responder as perguntas e insultos do ruivo.

Harry não percebeu quando tinha parado de respirar.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

Era um fato, nunca se acostumaria às aulas de História e ao professor fantasma. Não importava o que tentasse, seus olhos se recusavam terminantemente a se manterem abertos. Ao menos era melhor dormir do que enfeitiçar novamente o professor. Como suas brincadeiras não pareciam agradar muito o pessoal de Hogwarts, então o melhor era evitá-las, afinal elas haviam perdido o sentido. Antes ele as fazia para provocar, para irritar, para... acompanhar os amigos, porque eles gostavam. Era divertido e o mais divertido era tirar uma com a cara daqueles bruxos egocêntricos. Ali não era tão legal. Não havia motivo, nem era realmente engraçado. Bins era maçante, mas não era mau fantasma, os alunos tinham rido, mas o professor acabara mais abalado do que o esperado. A intenção nunca fora abalar o professor. Quanto a comida, tinha sido engraçado, mas nem de longe tanto como quando fizera o mesmo feitiço no Salão de Era (tirando o castigo que recebera depois, claro).

Em poucas palavras: gostava de Hogwarts e não tinha sentido zoar com aqueles de quem gostava se eles não vissem graça nisso também.

Então o jeito era dormir ou assistir a aula mais maçante que já vira enquanto rabiscava seu pergaminho com coisas que não faziam o menor sentido. Pelo menos, depois de mais de dois meses de aula, tinha aprendido que podia muito bem sobreviver a tortura de duas horas de aula. Não era uma tortura tão ruim assim. Já enfrentara piores.

De início, até tentara aproveitar o tempo e estudar as matérias oficiais de Hogwarts, mas a maioria ou já sabia ou simplesmente não entravam em sua cabeça. E não era como se, com Draco a seu lado, pudesse ficar lendo sobre Maldições, Línguas Malditas ou mesmo Feitiços Espectrais – três coisas que odiava (mesmo Línguas Malditas sendo indispensável para ele) e que devia voltar a estudar com urgência ou reprovaria no teste que faria ao voltar para o Castelo de Era. Droga de testes que Era adorava aplicar. E só a ele! Mas é claro, o mestiço deve ser constantemente testado a fim de que um dia finalmente reprove e seja atirado no seu devido lugar.

No fim sempre acabava aproveitando esse tempo para conversar via bilhetes com Draco, como dois ginasiais.

Mas Draco não estava ali.

Para matar o tempo, até trouxera consigo um exemplar de Maldições: O que as distingue da Magia Negra e de Maldições Proibidas: Porque elas existem?, mas não estava conseguindo se concentrar em nenhuma das letras que pareciam dançar nas páginas escuras. Suspirou resignado com o "zero" que Maxxcy (o professor mais rigoroso do Castelo que se divertia reprovando puro-sangues.) lhe daria. Era chato ir mal na matéria ensinada pelo amigo, mas simplesmente não conseguia segregar os conceitos de Maldições, Azarações e Magia Negra!

Voltou a folhear o livro, indiferente as palavras escritas. Já tê-las decorado não lhe permitia entendê-las de fato. Olhou para o professor fantasma e as palavras escritas na lousa. Apoiou o queixo na mão, batendo o salto da bota de leve no chão, entediado.

E pensar que há três anos nem imaginava que um dia estaria numa sala de aula aprendendo feitiços e poções. É, já faziam três anos que chegara ao Castelo Maldito trazido como um bicho enjaulado e machucado, pronto para ser abatido e servido. Mas sobrevivera, se erguera. Dominara as matérias que lhe eram fundamentais para sobreviver e essenciais para chegar onde queria chegar.

Aprendera a viver no inferno e a ser feliz ali.

E essa era sua maior conquista, sua maior nota. Num lugar altamente hierárquico e onde o sangue tinha tanto valor quanto a habilidade mágica, ser o mestiço sujo que conseguira, em três anos, se igualar em nível mágico dos puro-sangues tradicionais era a maior das afrontas. Somando isso a sua amizade com a Nick, Chikage logo percebera que se tornara a 3ª pedra do sapato de Era. E levando em conta que ela não era um ser dotado da dádiva da paciência e só tinha dois pés, já bem comprimidos, sua capacidade em aguentar uma 3ª pedra simplesmente não existia.

Por isso aprontar com os colegas e bruxos de Era era tão divertido. Masoquismo, talvez, mas a fúria da Abelha-rainha e sua colmeia e os castigos que aplicavam não conseguiam lhe tirar o prazer de sobreviver.

Em Hogwarts não havia esse prazer.

Em Hogwarts havia apenas o puro prazer das risadas e da diversão.

Fechou o livro de capa preta, pensando no em como se manteria acordado. O que mais poderia fazer? Não estava com cabeça para estudar e não estava com a mínima vontade de conversar com Emilie, a seu lado. Não queria dormir, odiava dormir, tanto pela falta de costume como por sua própria sanidade mental.

O que fazer então?

Fechou os olhos deitando a cabeça na carteira de forma displicente e ignorando mais um dos comentários de Emilie a sua direita. Ah, como seria bom simplesmente fechar os olhos e esquecer. Como desejava um sono sem sonhos.

Abriu os olhos, sem se mover, o corpo virado para o lado esquerdo, a cabeça apoiada sobre o braço direito dobrado, os cabelos bagunçados borrando-lhe a visão. Tamborilou os dedos enluvados por sobre o pergaminho, novamente pensando no amigo loiro que ainda devia estar em seu dormitório. Realmente acreditara que o domingo desestabilizaria o amigo sonserino, mas nunca tinha esperado por um Draco tão acabado e emocionalmente esgotado. E pensar que mesmo fazendo o seu melhor no dia anterior, falhara com o amigo. Agora não sabia se ainda podia consertar o estrago.

O que poderia fazer?

Ergueu a cabeça novamente e escorregou pela carteira, como se quisesse deitar na cadeira, os olhos meio abertos enquanto as mãos brincavam com uma mecha de cabelo e os ouvidos ignoravam as palavras sussurradas a seu lado, assim como as palavras ritmadas do professor.

E pensar que por um momento chegara a agradecer ao Deus no qual acreditava, mas para o qual julgava-se esquecido, por, na medida do possível, tudo estar dando certo. Por nada de grave ter acontecido.

Que droga.

Por que sempre acabava por decepcionar aqueles de quem gostava? Tanto estudo, tanto poder e nem ajudar a um amigo conseguia. E justo Draco, que havia sido uma enorme e boa surpresa em sua vida. Chikage não queria de forma alguma machucar o loiro. Queria sonhar com um futuro melhor do que o que imaginara! Queria fazer algo!

Mas por melhor que fosse pensar que podia controlar algo, dominar pelo menos um aspecto de sua vida, mesmo que fosse um aspecto pequeno, não importava, quanto mais o tempo passava, mais duvidava possuir esse poder.

Era aterrorizante pensar que mesmo com todos os seus esforços nada estava efetivamente mudando.

Soltou um suspiro desolado, sentindo que junto do ar que punha para fora ia também uma parte importante de si. Aquela esperança idiota de que podia fazer alguma diferença positiva na vida de alguém.

Um sonho besta, provavelmente impossível, mas que teimava em sonhar.

Assim como a realidade teimava em acordá-lo.

Ah, será que Draco conversaria com ele? Será que eram íntimos o suficiente para que tentasse abordar o assunto?

Fechou os olhos, tentando ponderar qual teria sido o tamanho do estrago, de sua falha. Por que havia sido sua falha. Desde ontem vinha pensando nisso, mas nenhuma resposta surgira.

Sabia que nada poderia ser feito para mudar o passado, mas quem sabe ainda houvesse uma chance? O que poderia ter feito não tinha mais valor, mas os frutos do que tinha acontecido eram importantes, afinal quais seriam as consequências negativas de tudo o que acontecera? Muitas, talvez piores do que pudesse calcular. E como mudar esse cenário? O que poderia realmente fazer?

Voltou a rabiscar o pergaminho, tentando, novamente, achar um caminho.

Talvez o primeiro passo fosse ver se Granger, Potter ou Draco tinham percebido suas interferências no dia anterior. Agira quase o tempo todo por impulso e não seria difícil para eles perceber os acontecimentos estranhos dos quais fora autor.

Mas no que isso mudaria?

Ouviu Emilie comentar com alguém o quanto ele estava mais quieto que o normal e excessivamente calado, mas não deu atenção. Preferiu encarar os kanjis traçados no pergaminho amarelado, mordendo o indicador da mão esquerda, enquanto lendo as palavras escritas quase inconscientemente.

Mas não importava o quanto pensasse, sempre chegava no mesmo resultado:

Seu diário que sumira no mesmo dia que Potter e Draco acabavam alvos da travessura de um diabinho que escolhera a margem de um lago para morar e não de um rio, como era seu costume. Um diabinho rápido demais até mesmo para seus olhos treinados e forte o suficiente para fazer os dois rapazes escorregarem e caírem. Caírem numa poça de lama muito maior do que a que de fato existia momentos antes...

A lógica por trás disso era tão óbvia que era difícil acreditar nela! Não que não acreditasse em coincidências, mas tudo parecia tão proposital! Passara a noite todo lutando para não atribuir a culpa a alguém externo, mas quanto mais pensava nisso, mais lógica tinha. Mas se tudo fora proposital, quem poderia...?

Ergueu-se na cadeira num rompente, voltando a sentar de modo ereto e assustando Emilie (a quem ignorou), despertando apenas um segundo olhar do professor fantasma enquanto sua mente finalmente fazia as ligações certas.

Aquela lama toda não havia ali, um diabinho não tinha tanta força e... ele estava distraído com Granger... desatento o bastante para não perceber...

Tão óbvio!

Como levara tanto tempo para perceber um detalhe tão evidente? Céus, como fora tão burro?!

Agora só faltavam dois detalhes: quem e por quê?

Mas para o "quem" só havia uma resposta plausível. Agora o "porquê"...

Guardou o material ao primeiro toque, tinha que voltar a Hogsmeade, tinha que ter certeza. E se tivesse, era bom que o "porquê" fosse bem convincente ou ela que se preparasse porque ele não ia deixar barato.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

Depois de tantos anos convivendo diariamente com Harry era difícil não o conhecer e depois do último ano era mais difícil ainda tentar acreditar naquele "nada" murmurado como resposta a cada pergunta do que havia acontecido no dia anterior.

E tanto Rony como Hermione sabiam que esse "nada" significava coisa demais. Principalmente quando o moreno se recusava a abrir a boca desde a noite anterior.

Rony não entendia o que acontecia e declarava aos quatro ventos que mataria uma certa doninha albina que com certeza era a culpada de tudo. E mesmo Hermione não vendo em Malfoy a culpa que Rony lhe atribuíra ela sabia que o loiro com certeza tinha culpa no cartório. Agora quanto de culpa ele tinha, ela não sabia.

Harry sempre odiou Malfoy, desde a primeira vez que o viu e nunca fez segredo do fato. Sempre contava como o sonserino causara má impressão ainda no Beco Diagonal e apenas a piorara no Expresso de Hogwarts. Não era preciso muito para saber que até mesmo a maior parte da antipatia que Harry sentia pelos sonserinos era movida por uma primeira impressão errada causada antes mesmo de ver Hogwarts pela primeira vez. Claro que os sonserinos contribuíram e muito ao longo dos anos para aumentar essa má imagem e o fato deles serem a casa ganhadora da Taça das Casas por sete anos consecutivos muito alimentou a rivalidade desta com as outras Casas, mas...

A garota não isentava a Casa Verde da culpa por sua má fama, mas sabia o quanto ela era alimentada por puro preconceito e Harry era um dos que mais detinha tal preconceito (assim como ela própria. Teria ela percebido esse detalhe se não o tivesse ouvido da boca de um sonserino?). Óbvio que toda a situação presente com Voldemort era um poderoso agravante, mas muito antes dele voltar Harry e Rony já viam na Casa da Serpente um estereótipo de "coisa ruim" e em Malfoy o "príncipe de tudo o que não presta". Rony reclamava da obsessão com a qual Harry vinha dedicando a Malfoy naquele ano, mas não percebia o quanto ele próprio alimentara essa obsessão. O quanto a inveja que sentia pelo sonserino loiro se transformava em lenha na fogueira. Não que ela própria não odiasse Malfoy, ela não era tola e reconhecia o quanto o desprezava. Assim como via o quanto Harry e Malfoy eram opostos. Opostos e iguais.

Harry era o líder da Grifinória, Malfoy da Sonserina, Harry era um herói, Malfoy o vilão, Harry era o mestiço de bom coração, Malfoy o puro-sangue arrogante, mas ambos eram apanhadores, eram inteligentes, eram populares. Rivais perfeitos, como numa bela história.

Só que Harry não vinha seguindo o roteiro original ultimamente.

Nas belas histórias o herói não acha que inveja o vilão, por mais que isso seja idiotice de sua parte, nem anda normalmente com ele por uma punição, nem fica calado num canto sem querer falar no assunto por um dia inteiro. Nem tem uma crise como a que o amigo tivera de manhã. Nem o outro some no dia seguinte. Eles não se encaram como haviam se encarado no encontro de há pouco.

Não era preciso muito para saber que algo sério acontecera entre os dois depois de voltarem ao castelo, o difícil era saber o que Malfoy poderia ter feito para deixar Harry naquele estado de raiva, resmungando sozinho, sem apetite e irritadiço com tudo e todos. Chutando coisas! E tinha que ser algo muito sério, pois Hermione só vira Harry de tal jeito no ano anterior, quando estava sendo desacreditado pelo Ministério, perseguido por Umbrigde e vendo Voldemort traçar planos enquanto todos preferiam negar sua volta.

Por isso tudo, mesmo sua mente brilhante não conseguia definir o que realmente acontecera porque, o que poderia ser mais sério do que isso?

Teria Harry descoberto que Malfoy era um Comensal? Mas isso era algo no qual eles já acreditavam. Teria ele enfeitiçado Harry? Feito alguma ameaça? E se não fosse nada disso o que mais poderia ser? O que poderia ser esse algo que fazia Malfoy faltar as aulas e fugir de Harry sem dizer uma palavra? O que poderia ter irritado tanto o amigo e ferido tanto o sonserino?

Não sabia.

E Harry não parecia disposto a contar.

Estava preocupada e não sabia como abordar o assunto, principalmente porque sabia que Harry não queria que ela o fizesse.

Ficar presa na escuridão da ignorância não era bom, fazia sua mente traçar paralelos bizarros e coisas absurdas surgirem como hipóteses. Uma mais absurda que a outra, em especial a última. Malditos hormônios adolescentes descontrolados! Porque tinham que resolver agir justo quando o que ela mais precisava era ser racional? Porque vinham com ideias tão absurdas? E porque quanto mais pensava nisso mais a ideia adquiria coerência? Adolescentes, eles eram adolescentes, adolescentes em guerra sem direito a uma vida normal. Tinham idade para estarem estudando, brincando, vivendo, namorando e não lutando, guerreando, morrendo. Na guerra não se tem tempo para viver. Para ser adolescente.

E por mais que isso fosse uma explicação lógica para as explicações ilógicas que conjecturava a garota sentia que essa lógica estava errada, que ao seguir por este caminho mais distante da verdade ficava. Não era uma fantasia, havia razões por demais lógicas envolvidas. No entanto... seria possível?

– O que foi, Mione? – perguntou Rony, tocando de leve em seu braço – Já não basta o Harry com essa cara de quem chupou limão e descobriu que o gosto é péssimo?

– Só estava pensando – ela respondeu baixo, aproximando o rosto do dele. Estavam na aula de Herbologia e apesar de Harry estar sentado a frente deles, fazendo dupla com Luna, o humor do amigo continuava tão azedo quanto estava de manhã e ela não estava nem um pouco a fim de aborrecê-lo mais um pouco – Estou preocupada com Harry. Ele não chegou a lhe dizer algo ontem, chegou?

– Não, mas eu sei bem o que foi.

– Sabe?

– Sim, Malfoy aprontou alguma das boas e eu vou parti-lo no meio por isso – ele disse com raiva na voz. Não a típica raiva que demonstrava ao ouvir o nome Malfoy e sim aquela que deixava claro que não perdoaria o loiro (independente de seu sobrenome) por ter feito algo, fosse o que fosse, com o seu amigo – Eu até o convidei para voar hoje, para ver se ele se animava, mas ele recusou. E se eu precisasse de mais alguma prova de que aquela doninha quicante merece uma bela azaração ela não existe mais!

- Harry recusou-se a voar? – estranhou a garota, afinal Harry amava voar. Ele nunca recusava tal atividade. Primeiro a irritação, depois se recusava a voar e então saia chutando coisas! Ao que parecia, fosse lá o que fosse que Malfoy tinha feito (os dois, mesmo sob perspectivas diferentes do que causara a súbita irritação de Harry, tinham certeza absoluta do envolvimento do rival) se mostrava cada vez mais sério.

Droga, o que teria feito Malfoy dessa vez?

Sorte que não contara ao ruivo o que tinha visto dentro da sala que Harry elegera para destruir, ele não saberia lidar com isso. Se soubesse, com certeza a essa altura já estaria caçando Malfoy em cada canto do castelo.

Sentiu que era observada e ergueu os olhos. Harry trabalhava na sua planta e parecia distraído, alheio ao mundo, recolocando-a no vaso com mais força do que a necessária.

Ele até havia rido depois de seu acesso de fúria e antes de seu encontro com a fuinha albina, mas ela sentia que a cada minuto a situação piorava, em especial nessa aula na qual ele parecia ainda mais mal-humorado, como se tivesse más lembranças da estufa.

– Quem sabe se você o convidar hoje ao anoitecer ele aceite? – ela sugeriu a Rony e ele acenou positivamente com a cabeça, enquanto Harry continuava seu trabalho aparentemente alheio ao que acontecia ao seu redor.

A grifinória franziu as sobrancelhas percebendo que Rony chegava a mesma dedução que ela: Harry, apesar do mau-humor, estava de ouvidos bem atentos a conversa dos dois.

Mas como ter certeza disso? Só havia um jeito.

E já que estavam falando de vôos.

– Soube que você convidou Kakinouchi para ir a Artigos de Qualidade para Quadribol, no Beco Diagonal – comentou a garota. A sua frente Harry ergueu o olhar intrigado. Sim, eles tinha razão, Harry estava ouvindo a conversa deles.

– Como soube disso?

– Ele me contou.

– Ele te contou? – perguntou o ruivo visivelmente surpreso e ela não o culpava por isso. Se no almoço do dia anterior alguém tivesse lhe dito que ela iria ficar um bom tempo do lado do japonês, por livre e espontânea vontade, ela teria rido e acreditado que a pessoa em questão fora confundida!

Ficou curiosa se a surpresa de Harry era por Rony ter "confraternizado com o inimigo" misturando-se com um sonserino ou por saber que ela conversara com Kakinouchi?

– Encontrei com ele ontem, na volta. Ele disse que o tinha convidado e parecia feliz com isso – ela acrescentou, fingindo que isso era algo natural e Harry ergueu uma sobrancelha, claramente desconfiado da veracidade do que ouvia.

– E quando ele não parece feliz? – Rony perguntou quase em voz alta, por sorte a professora não pareceu notar, e a garota negou com a cabeça divertida. Aquela era uma pergunta retórica no melhor dos moldes! – Sim eu convidei – ele afirmou, dessa vez num tom de voz muito mais baixo e então acrescentou, para a surpresa da amiga – Aliás, porque você sumiu ontem? Eu fiquei te procurando um tempão, sabia?!

– Você sabe que não entendo nada de vassouras e eu avisei que ia aproveitar para comprar penas e outras coisas que precisava – era uma mentira, ela não havia avisado que sairia, mas dizer isso era começar uma briga e ela não queria brigar com ele, ela adorava quando conseguiam ficar assim, nesse clima bom e cúmplice.

Estaria sendo egoísta por sorrir e ficar feliz por estar com Rony quando Harry claramente não estava nos seus melhores dias?

– Não ouvi nada... nem te vi saindo. Te esperei lá por pelo menos uma hora!

– Você estava muito concentrado, por isso não deve ter me ouvido – ela respondeu e, incrivelmente, não estava mais com raiva. Ela gostara de passar um tempo com Gina e Neville e sua tarde com Kakinouchi não tinha sido ruim, só estranha e... – Me esperou lá por pelo menos uma hora?

– Sim. Você sumiu do nada! Uma hora você está lá e outra não está mais. O que foi, Mione? – mas a garota não ouvia mais, sua mente vagando para um passado próximo demais.

"Ele ficou preocupado com a sua ausência, até foi atrás de você. De início, pensamos que você fosse voltar, mas como não voltou, nos separamos e desde então eu não o vi mais." – Chikage havia dito. Mas se eles haviam se separado quando Rony fora procurá-la e ele também não deixara Harry e Malfoy sozinhos nem mesmo por uma hora...

SL&SL&SL&SL&SL&SL

O corredor estava vazio.

Era como se todos os alunos estivessem nas aulas, mas se todos estavam nas salas porque ele estava ali, andando sozinho?

Deu uma meia-volta em torno de si mesmo, olhando para trás. Nada.

Estranho.

Deu alguns passos para a frente, procurando por alguém. Onde estavam todos? E Rony e Mione? Ouvia suas vozes, vozes de pessoas por todos os lados, elas estavam ali, mas onde? Por que estava sozinho? Deu mais alguns passos sem rumo, procurando por aqueles que falavam aos sussurros. Não estava só, sabia, mas se sentia sozinho. Cercado apenas por opiniões, sem saber bem de quem eram ou que rosto possuíam. Aguçou os ouvidos tentando identificar de onde vinham, a quem pertenciam, o que queriam dele?

Podia ouvir palavras, diversas palavras: salve, lute, faça, pode, escolha, não, assim, eleito, mate.

Balançou a cabeça, sem entender, não gostando do que entendia.

Deu mais alguns passos, vacilantes, sem sentido, rumo ou intenção.

Percebeu então que não importava que direção tomasse ou quanto andasse, as vozes continuavam, bem ali, do seu lado. Choro, lamentações, ordens, esperanças, desejos, era como se quisessem algo dele, esperassem algo dele, exigissem. Mas o quê?

Girou em círculo, confuso, começando a se sentir sufocado, como se estivesse rodeado por centenas de pessoas e estas o apertassem e o empurrassem e quis sair dali.

Procurou por uma saída, uma porta, uma escada, uma passagem e percebeu que estava bem diante de uma. Uma porta simples e não mais trancada, uma porta que há muitos anos Hermione abrira com um alorromorra para que ela, ele, Rony e Neville se escondessem. Fora atrás dessa porta que viu Fofo pela primeira vez e foi embaixo da sala que ela trancava que encarou Voldemort pela primeira vez. Mesmo agora, não acreditava que tinha tido a sorte de sobreviver. Sim, muita sorte. E não fora só uma vez. Tocou a porta com a palma da mão aberta, fechando os olhos, respirando fundo, tentando deixar as vozes para trás, mas sem coragem de entrar no cômodo que a tantos anos invadiu sem pensar duas vezes apenas com uma varinha, uma flauta, meia dúzia de feitiços conhecidos e dois amigos em condições não muito melhores. Ficou ali, parado, deixando as lembranças virem. Aquela fora sua segunda vitória de fato. Ou a primeira se pensar que fora sua mãe quem salvara a sua vida e ele nada tinha feito quando sobreviveu e seu nome foi aclamado. Mas nem ali a vitória era apenas sua. Houvera Rony e Mione. E a magia de sua mãe para fazer o trabalho final. E depois houvera Fawkes e então sua varinha e a Ordem de Fênix e ele nunca ganhara mesmo sozinho. Mas as pessoas continuavam aclamando-o como a um herói, esquecendo esses pequenos detalhes e não vendo nele um rapaz com sorte e amigos dispostos a se sacrificar com ele. Viam apenas o herói que elas queriam ver. As pessoas precisam de heróis, precisam de pessoas especiais para fazerem o que elas não se julgam capaz de fazer.

Harry era esse herói.

Mas não queria ser.

Ele não queria ser Harry Potter-o-menino-que-sobreviveu, nem queria ser o herói do mundo mágico, nem o Eleito, nem o homem-que-venceu (se é que de fato venceria). Ele só queria ser Harry. Harry o filho de Thiago e Lilian Potter, o menino grifinório de cabelos rebeldes e óculos redondos, apenas Harry.

Então abriu os olhos e lá estavam os donos das vozes. Várias pessoas, pessoas para todos os lados e qualquer lugar que se olhasse. Tanta gente que Harry se sentiu num mêtro londrino em plena hora do rush. Eram pessoas demais, pessoas demais falando e tocando nele, pessoas demais esperando demais dele. Esperando que agisse por elas, que esquecesse de si mesmo. Que fosse o herói que eles queriam que fosse. Ele era Harry Potter e seu único dever era salvar-lhes a vida. E havia tantos ao seu redor que sentiu falta de ar. Fechou os olhos e se sentiu sozinho de novo, acreditando, por um segundo, que estava novamente rodeado só por vozes. Mas as pessoas continuavam ali. Sentiu sua garganta doer, como se estivesse fechada, o ar denso não chegando a seus pulmões. Abriu os olhos e todos continuavam ali. Tantas vozes, tantos desejos, tantas ordens, e ele quis correr, quis fugir, quis gritar, quis ser Harry, quis fugir e deixar Harry Potter para trás.

E foi o que fez.

Correu e correu sentindo seu corpo pesar como chumbo, cada passo um tremendo esforço, cada arfar uma facada e mesmo não parando em nenhum momento percebeu que não chegava a lugar nenhum! A multidão ainda estava ali. Todos ainda estavam ali, olhando-o, falando, exigindo! Tropeçou e caiu, perdendo os óculos. Abriu os olhos tateando o chão que não enxergava e ninguém parecia notar que ele estava no chão. Sentindo-se num mar de pernas Harry xingou quando alguém pisou em sua mão. Era como se as pessoas não o vissem! Com certo desespero voltou a procurar os óculos perdidos, querendo sair dali, se ver livre, acabar com aquelas cobranças e...

Sentiu uma mão pequena segurando a sua e sorriu ao ouvir a voz conhecida:

Tudo bem, Harry?

Obrigado, Gina – agradeceu, ainda no chão, um alivio tomando conta de si. Não estava mais sozinho, ela estava ali, na sua frente, segurando sua mão e ajoelhada no chão frio. Ela estava ali com ele. Forçou a vista tentando ver seu rosto e foi quando percebeu que os olhos castanhos não olhavam para ele. Olhavam para sua cicatriz.

Ah, Harry, vem, eu te ajudo. Eu sempre gostei de você, sabe, desde sempre.

Sim, era verdade, ela sempre gostara dele. Desde pequena. Fora seu primeiro amor, podia ter sido o único. Ela...

Sempre?

Sim, sempre. Ela sempre dizia sempre. Mas... ela o conhecera aos 10 anos... Ela conversara com ele pela primeira vez na Toca, quando tinha 11 anos.

Como podia ter gostado sempre dele se não o conhecia desde sempre?

Num gesto instintivo Harry deu um passo para trás, ainda meio tonto, meio cambaleante. A garota se estranhou e se aproximou, tentando tocá-lo, no entanto...

Obrigado, Gina – agradeceu mais uma vez a menina que sempre o amara, dando outro passo para trás, claramente fugindo dela.

Não teve como não perceber, mesmo sem enxergar direito, magoa refletida nos olhos castanhos devido ao seu afastamento. Ela sempre o amara. Sempre o amara. Ela sempre estivera lá. Ela era a irmã de Rony! Era a única filha daquela que era para ele uma mãe. Ela sempre o amara. Amara-o desde que o vira nos livros e noticias pela primeira vez, amando Harry Potter o-menino-que-sobreviveu. Sim, ela sempre o amara, mas ela amava Harry Potter e não o Harry. Amava a cicatriz que tinha e o nome que possuía, mas não aquilo que ele realmente sentia ser.

Olhou para ela mais uma vez, sem ainda conseguir vê-la, a vista embaçada. Gina... Ela era a irmã de Rony, era sua amiga, era seu par perfeito, era a menina que mais o conhecia além de Hermione.

Mas Hermione não o salvara de uma punição por ele ser Harry Potter, nem nunca o bajulara por ele ser Harry Potter, ela nunca o tratou diferente. Ela sempre esteve ali. E onde ela estava agora?

Forçou os olhos atrás da amiga, podia distinguir sua voz, mas não sabia de onde vinha. Sentia sua presença, mas não a encontrava. Ela estava ali, mas onde? Por que ela não lhe estendia a mão também?

Apertou os olhos míopes com mais força, girando o corpo, e então viu.

Viu olhos cinza com manchas azuis que o observavam. Olhos que sempre haviam estado ali. Que viam Harry Potter, mas também parecendo ver Harry. Por que ele era Harry, mas também era Harry Potter e aqueles olhos pareciam ver muito bem essa sutil diferença. Olhos que realmente o viam.

Foi quando percebeu isso que tudo sumiu. Todos sumiram e estava sozinho agora, completamente sozinho dessa vez. Não, não completamente. Draco Malfoy estava ali, na mesma posição, olhando para ele. E o via muito bem. Via como o loiro o olhava, como sempre o olhara. Como o olhara no trem quando se conheceram, como olhara em cada briga que tiveram, em cada competição de quadribol, em cada insulto, em cada aula, como o olhara na biblioteca enquanto cumpriam detenção juntos, no banheiro, na masmorra, em Hogsmeade, enquanto jogavam game-boy, enquanto o beijava...

Engraçado que apenas quando você não pode realmente enxergar é que você realmente me vê, não? –ouviu Malfoy dizer. E então Malfoy não estava mais lá. Nem ninguém.

Acordou assustado, olhos muito abertos em choque.

Que merda de sonho tinha sido esse?

Esfregou o rosto, tentando guardar os detalhes que se perdiam. A cada sonho mais detalhes conseguia reter e a cada vez menos certeza tinha de que deveria fazer isso. Que droga! Por que tinha que sonhar justo com Malfoy? Por que a doninha tinha que invadir sua mente até enquanto dormia! Sentiu raiva, muita raiva, raiva do maldito sonserino que desde a primeira vez que vira se empenhara em acabar com seu sossego com aquele maldito hábito de lhe provocar, de lhe atrapalhar. De o tirar do sério, de testar sua paciência, de prender nele aqueles olhos prateados, seguindo cada um de seus movimentos. E havia algo nesse olhar, havia alguma coisa oculta no brilho daqueles olhos prateados... sabia disso, pois Draco Malfoy tinha o péssimo hábito de lhe encarar, por vezes sorrir, e havia algo nisso tudo que o fazia não gostar nem um pouco do seu olhar.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

– Por que você mentiu para mim?

Chikage estava sentado numa das mesas do fundo da biblioteca anotando algo num pergaminho e pouco mexendo nos livros que tinha pegado quando Hermione apareceu na sua frente, questionando-o com rudeza, claramente irritada. Não foi surpresa para ninguém, nem para a grifinória o susto exagerado que o oriental tomou, pulando da cadeira e pondo a mão no peito, os olhos verdes muito abertos enquanto dizia:

– Nossa, que susto! O que foi, Granger? Se continuar assim, vai me matar por um ataque cardíaco. Dois sustos em dois dias! Ai, meu coração!

– Sem piadinhas. Por que você mentiu para mim? – ela questionou, apoiando as mãos na mesa e o olhando irritada. Chikage recuou um pouco na cadeira, fazendo-a inclinar e equilibrando-se apenas nas pernas traseiras dessa, como se assustado.

– Sobre o que você fala, exatamente? – arriscou, com falso receio na voz. Tão bom ator era que Hermione se viu obrigada a se controlar para não rir. Essa era outra característica marcante do colega, ele sempre acabava por fazer os outros rirem! Podia entender, agora, porque nem os professores brigavam com ele.

– Você me disse que você e Rony me viram saindo sozinha da loja ontem e que assim que demorei para voltar Rony resolveu me procurar. Mas ele não me viu saindo e demorou um bom tempo para perceber que eu não estava mais lá, como também me esperou lá. Se isto não é uma mentira, então o que é?

– Hum... quem sabe... um resumo dos fatos? – arriscou o sonserino, ainda equilibrado na cadeira, erguendo o indicador como uma criança que levanta a mão para responder a uma pergunta do professor, mas tem vergonha e não ergue o braço.

– Resumo dos fatos?

– Bom, eu lhe disse que eu vi quando você tinha saído, mas como tinha ido comprar penas e coisas do tipo achei que voltaria logo. Então, Weasley também notou que você não estava mais lá e resolveu te esperar um pouco para depois ir te procurar, caso você não voltasse. Como eu estava preocupado com Draco, saí na frente. Como pode ver eu não disse nada enganoso apenas resumi um pouco os fatos, mantendo o contexto principal: você nos deixou lá, nós percebemos que você tinha nos abandonado, esperamos um pouco e saímos, o que não significa que agimos ao mesmo tempo.

Hermione ficou imóvel, sem fala por alguns segundos enquanto encarava o colega e assimilava o que ouvira. E o pior? O que ele dissera fazia sentido. Fazia um estranho sentido. Hermione olhou mais uma vez para o colega ainda encolhido na cadeira, olhando-a em expectativa. Era difícil não se sentir incomodada frente a um olhar tão firme. Mas se ele achava que podia subestimá-la estava muito enganado. Sua história era muito lógica e talvez perfeita se não fossem dois detalhes:

– Por que você "resumiria" uma história? Sempre desembesta a falar mesmo que não lhe deem trela!

– Nossa, assim você me ofende! – dramatizou o garoto, voltando a se acertar novamente no assento – Eu só, apenas, estava mais preocupado em manter um olho em
Draco que não tinha cabeça para ficar acertando detalhes discursivos. Desculpe se entendeu errado.

Bela resposta. Muito lógica. No entanto...

Sentou-se na cadeira livre a frente do colega, reprimindo outro sorriso quando o viu acertar a cadeira e sorrir para ela, parecendo menos assustado. Encarou os olhos verdes e por um minuto achou ter visto ali um brilho, mas provavelmente isso se deveu a uma pontada que sentiu na cabeça. Andava tendo muito dessas pequenas dores, talvez devesse procurar Madame Pomfrey.

– Eu não lhe disse que ontem fui comprar penas... como você sabia disso?

– Porque você carregava uma sacola com o logotipo da Loja de Penas Escriba – respondeu o rapaz sem pestanejar.

Ok, outra dentro.

Mas porque sua mente teimava em dizer-lhe que ela estava caindo em uma mentira mal contada?

– Está estudando Runas? – perguntou de repente, ao ver o livro aberto sobre a mesa. Engraçado, de ponta cabeça, não pareciam os símbolos com os quais se acostumara nos últimos anos, não lembrava de ter visto aquela página em especial...

– Isso mesmo, mas aposto que você já fez a lição, aliás, sabe o que significa essa palavra? Não sei pronunciar? – perguntou Chikage pegando o livro e lhe entregando, apontando com o dedo uma palavra que ela conhecia. Foi quando ele virou o livro na posição normal que ela reconheceu a página e a luz voltou a sua memória. Ela sabia aquele capítulo de cor!

– Segredo – ela disse vendo com um certo prazer o sonserino anotar correndo a informação obtida e não resistiu a comentar – É raro ver você estudando.

– Na verdade – disse, erguendo o rosto e passando a pena nos lábios, ele tinha uma boca muito bonita, realmente – Eu normalmente estudo no meu quarto, mas resolvi vir aqui hoje por uma razão bem específica.

– Qual, uma pesquisa? – perguntou a garota subitamente interessada. A notícia de que ele estudava sendo acolhida com prazer pelo ego ferido. Então ele também era passível de erros e precisava se esforçar, isso a agradava, o tornava mais próximo dela, mais igual.

– Não. Pensei que talvez pudesse encontrar você se passasse a tarde aqui.

E Hermione, apesar de não ser mais uma garotinha, ter 16 anos e já ter passado por muitas experiências que nem adultas já tinham experimentado – desde experiências de morte (como ter enfrentado um Visco-do-Diabo, xadrez humano, um jogo de lógica mortal, um lobisomem e todo um grupo de Comensais da Morte que não viam problema nenhum em matá-la) a experiências únicas (como o pedido de namoro feito por um rapaz internacionalmente famoso) – sentiu seu rosto ferver como o de uma menininha elogiada e, a julgar pelo calor que sentiu nas faces, teve certeza que seu rosto estava da cor de um tomate.

– Me encontrar? – conseguiu perguntar agradecendo a Merlin por, pelo menos, não ter gaguejado.

– É.

E ela que tanto ansiou para ouvir uma resposta curta e não um relato completo a cada vez que o japonês abria a boca ficou ainda mais vermelha (se é que isso era possível), após a declaração do outro.

Parecendo perceber o que tinha feito, Chikage emendou, quase sem jeito. Quase.

– Pensei que, se eu me esforçasse bastante e parecesse realmente desesperado, você me ajudaria com História. Se as coisas seguirem como estão, com certeza vou zerar no teste final – Normalmente, depois dessa, Hermione se sentiria uma idiota por ter corado, contudo... era difícil acreditar naquelas palavras ditas com simplicidade enquanto os olhos verdes não desgrudavam dos seus nem por um minuto.

E ela quis dizer não e ir embora, mas acabou dizendo sim. Ele era inteligente e com certeza seria um aluno fácil e em troca ele a ajudaria com poções. Ok, ela podia fazer isso. Podia ajudá-lo e ainda ver a cara de Snape ao ser obrigado a elogiá-la. Ah, como ela queria ver a cara dele lhe dando um 'O'! Nada como ter seus esforços reconhecidos.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

Estava frio. Devia ter pegado um casaco mais grosso. Abraçou a si mesmo, esfregando as mãos nos braços. Devia voltar ao dormitório e pegar um casaco, mas só de pensar em encontrar algum colega... preferia passar frio mesmo.

– Eu sei que Madame Pomfrey pode acabar com um resfriado em muito pouco tempo, mas se continuar aqui chegara lá com uma pneumonia e sinto em informar que isso não é tão fácil de curar – disse Chikage fazendo Draco pular de susto.

– Como chegou aqui? – perguntou o loiro, virando de lado e assim ficando de frente para o amigo recém chegado.

– Pela porta.

– Chikage, olha, hoje eu não est...

– Ficar sentado nesse chão de pedra não deve ser nada confortável. Tome, trouxe um casaco para você – disse o japonês, dessa vez sem sorrir, na mão estendida o casaco preto de Draco.

– ...Obrigado...

– Nada.

Pegando o casaco o loiro levantou-se para colocá-lo, sentindo de repente muito mais frio do que antes. Estava abotoando a gola quando voltou a olhar para o amigo. Chikage estava em pé a sua frente e a falta do sorriso lhe dava um ar muito diferente

– Você não almoçou, será que consigo lhe convencer a jantar? – ele perguntou. Sua voz ficava estranha quando ele falava daquele jeito, meio sério, meio melancólico, sem a alegria de todos os dias, ficava mais rouca e profunda. Parecia não pertencer ao japonês.

– Não tenho fome.

– Draco, o que aconteceu com você? – Chikage perguntou no mesmo tom e Draco engoliu em seco.

Não tinha uma resposta para tal pergunta.

Encarou os olhos verdes, sem nada responder. Eram olhos parecidos com os dele, mas não misturavam cinza e azul e sim verde e azul. Não era possível perceber isso a distância. Era olhos bonitos, levemente puxados e com cílios grandes, eram penetrantes como os de um gato, olhando para eles, Draco lembrou de algo antigo, um fato há muito esquecido.

Antigamente não gostava dos olhos do amigo.

Era um olhar profundo. Profundo demais. Tanto que na primeira vez que olhara nos olhos meio puxados sentiu-se desconfortável, chegando a comparar o olhar do amigo ao de Lucius. Olhos penetrantes que pareciam ver dentro de si.

– Seus olhos... – sussurrou sem perceber, recebendo um olhar questionador e nenhuma pergunta oral. Era estranho tê-lo tão quieto – Eles... são diferentes.

– Os seus também. Cor de céu.

– Céu de tempestade.

– Não. Céu oculto. Eles são cinza como o céu quando escondido pelas nuvens, mas pequenas partes azuis ainda se mostram, como aberturas. É como se o seu eu verdadeiro estivesse escondido aí atrás, em flash de azul, e só quem chega perto demais pode ver isso. Apenas a esses você mostra o que o cinza esconde.

– ...De onde... – mas Draco não sabia o que falar e como se compreendendo isso, Chikage o interrompeu:

– Venha, vamos jantar.

Não. Não queria ir. Não precisava, não tinha fome. Não queria ver ninguém e muito menos ver Potter novamente, ele...

– Eu vou com você.

– ...Não tenho fome... – o loiro conseguiu responder depois de um tempo. Se Chikage estava querendo deixá-lo sem palavras, estava conseguindo com incrível sucesso.

Mas, Draco não queria sair de lá, não queria encontrar seus colegas, não queria ver ninguém. Sabia que não podia fugir para sempre, mas por aquele dia, só por aquele dia, como queria fugir!

– Quanto mais fugir, pior fica – e essa certeza foi dita num tom tão baixo que ao sonserino ficou a dúvida se fora feita ou não.

Encarou os olhos verdes, um verde tão diferente do verde-esmeralda que povoava seus sonhos, um verde meio azulado, indefinido como só o mar sabia ser.

Que imagem estava passando?

Nada que não fosse real, era um covarde, e covardes fugiam. Simples assim.

– Que tal irmos um passo por vez? – veio a nova pergunta num tom ainda baixo demais – Prometo não te forçar a comer, mas você pelo menos toma algo e pega uma gelatina, que tal?

Não. Não estava pronto para tanto, ele...

Um passo por vez...

– Vamos, Draco – repetiu Chikage, erguendo o braço, a mão enluvada estendida e aberta para ele. Draco estagnou, olhando para mão do outro sem saber como reagir. Olhou mais uma vez nos olhos verdes e engoliu em seco. Chikage não retirou a mão, não disse mais nada, apenas ficou lá, imóvel, esperando.

"Vou com você", ele havia dito.

Um passo por vez.

Ele não tinha força para dar aquele passo, aquele primeiro passo que antecederia tantos outros. Não tinha forças para fazer isso sozinho.

"Vou com você".

Não tinha força para dar sozinho aquele passo inicial, quem diria os próximos?

"Vou com você".

Mais uma vez cinza e prata se encararam em silêncio. Draco respirou fundo uma, duas vezes e, erguendo a mão esquerda, pegou na mão menor, muito menor que a sua, se deixando conduzir como uma criança para fora da sala vazia. Não estava sozinho.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

Harry não tinha fome. Tinha descido para jantar porque Rony praticamente o arrastara, mas desde que sentara na mesa tudo o que tinha feito era mover a comida para lá e para cá. Ainda estava com raiva, mas não era isso que lhe fechava a garganta, também não era a falta de um rapaz loiro a mesa da Sonserina. Não, o que lhe impedia de comer era o estômago embrulhado e que parecia se contorcer ainda mais cada vez que intentava levar uma garfada a boca.

Sentiu o olhar de Hermione sobre si, mas ignorou seu significado, se esforçando em puxar um assunto qualquer que rompesse o irritante silêncio que se instalara. Se antes queria ficar sozinho, agora sentia que queria era esquecer e voltar a ser ele mesmo. Ainda estava irritado, ainda queria esganar um certo loiro, mas percebeu, diante do silêncio que envolvia os três que também estava cansado daquele clima de funeral que apenas o ajudava a lembrar de que coisas que queria esquecer.

Inclinou-se na mesa e jogou seu primeiro comentário numa conversa dos dois, para surpresa e agrado destes. Só agora percebia que fazia um dia e meio que não conversava com eles sem ser por monossílabos e isso o deixou levemente arrependido. Seus amigos estavam sempre ali para ele e sempre que se irritava com o mundo a primeira coisa que fazia era descontar em cima deles o quanto se sentia injustiçado.

Isso era vergonhoso.

Hermione, como se soubesse que rumo tomava seus pensamentos, chamou seu nome sem um motivo claro e lhe fez uma pergunta qualquer, como que para distraí-lo e ele sorriu para ela agradecendo pela milésima vez a grande amiga que tinha. Uma amiga para a qual ele era apenas Harry.

Sorriu para a garota, um sorriso diferente dos outros, que a surpreendeu, mas foi retribuído.

Eram sorrisos como esse que faziam aquele dia melhor, um dia no qual tinha acordado querendo matar alguém, alguém bem específico.

Não foi tão difícil engatar uma conversa qualquer, na verdade foi muito fácil uma vez que tanto Rony como Hermione se mostravam muito dispostos a ajudá-lo a esquecer e superar o que quer que fosse e logo os três falavam de banalidades e besteiras, dispersando a sombra negra que os envolvia. Seus amigos tinham esse dom, quando ele mais precisava era ao lado deles que esquecia dos problemas e de sua realidade. Era evidente que não estavam "normais", mas ninguém de fora poderia imaginar que 15 minutos antes Harry tinha uma expressão que dizia claramente "cuidado, não se aproxime, estou irritado, de mal com o mundo e morrendo de vontade de azarar um".

E Rony e Mione sorriam, dispostos a fingir que estava tudo bem, felizes só pelo fato dele estar tentando interagir depois de um dia inteiro num humor tão azedo que faria inveja até mesmo a um limão!

Pena que tudo que é bom dura pouco.

Não era a intenção dele, poderia jurar que não estava prestando a menor atenção em quem entrava ou saia do Salão e muito menos procurava por alguém de cabelos claros demais. O problema era que sua posição era desvantajosa. Sim, era isso porque ele estava tentando ao máximo esquecer de seu prato cuja comida já estava disforme de tanto ser remexida e realmente curioso em saber o que tinha deixado Hermione diferente, nitidamente feliz com algo, satisfeita, com aquele ar de "vocês não imaginam o que eu descobri hoje" (mesmo sabendo que provavelmente era só um novo livro que falava mais profundamente sobre algo que ele não fazia a menor ideia). O fato é que não estava olhando para a porta. Não estava.

Devia ter sentado de costas para a entrada.

Trincou os dentes ao ver Malfoy entrar, acompanhado de um menino bem mais baixo, gesto que fez Rony e Mione olharem para a mesma direção, vendo quem entrava, mas não quem o acompanhava.

Rony fechou as mãos com raiva e soltou um "eu ainda acabo com esse daí", o bom clima entre eles arruinado.

Egoisticamente Harry não se importou com o fim do assunto, estava novamente irritadiço, mas não pela presença do loiro, não por isso, e sim pelas mãos unidas dos sonserinos que ele via muito bem de onde estava e que ninguém parecia notar.

Malfoy entrava no Salão, caminhando devagar até a mesa da Sonserina, a cabeça baixa, o que não era normal, contudo mais anormal ainda era a mão unida a do amigo oriental, fracamente escondida pelos casacos de frio. Aquela distância pareciam um casal de namorados, daqueles que chamam muita atenção e parecem perfeitos – ele: bonito, alto, elegante, ela: pequena, fofa, cabelos longos e sorridente. Só que Kakinouchi não estava sorrindo. Afastados de todos, Harry seguiu os dois com o olhar até os olhos verdes localizarem os cinza. Um olhar que, pela primeira vez, não foi sustentado. Malfoy também não empinou o rosto como sempre fazia e sorriu debochadamente, apenas abaixou a cabeça e se concentrou em espetar o garfo no purê, sem levar uma única garfada a boca por vários minutos.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

Não tinha fome alguma, mesmo tendo passado o dia inteiro a meia torrada.

Não queria comer. Só olhar para a comida o enjoava. Não queria comer ali, tendo os olhos verdes fixos em si. Harry parecia bem. Teria esquecido? Por que então mantinha seus olhos fixos nele? Queria amaldiçoá-lo? Provavelmente sim.

Abaixou os olhos evitando-o da forma mais humilhante e sem forças sequer para se importar com isso.

Olhar para Harry doía. Doía muito.

Sem perceber apertou a mão pequena que ainda segurava a sua por baixo da mesa tendo o aperto correspondido e um aquecer no coração em resposta

Será que seria sempre assim? Eles se olhando daquela forma estranha? Harry o olhando com ódio e nojo? Sem saber para onde olhar ou como agir? Estava perdido, estava machucado e não fazia ideia do que esperar do futuro.

Mas isso não era o pior de tudo. O pior de tudo era saber que por mais que tivesse sido idiota e que nunca poderia ter roubado aquele beijo do moreno era saber que, mesmo que tivesse um vira-tempo, mesmo que pedisse a Chikage para voltar no passado e interrompê-lo (afinal não podia parar a si mesmo, mas se Chikage tivesse aparecido naquele momento não seria estranho), não o faria. Não faria. Por mais que se doesse fitar os olhos verdes não devolveria aquele beijo.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

A noite estava fria e a neve já se acumulava nos jardins. Com certeza eles teriam um natal gelado aquele ano.

Por causa do frio, da hora e do fato de ser uma segunda-feira, quase todos os alunos estavam já em suas camas e nem mesmo os monitores se atreveram a patrulhar muito deixando o trabalho a um zelador irritado e uma gata mal-humorada que nada encontravam porque não havia o que ser encontrado, não era como se fossem encontrar alguém fora da cama naquele frio danado! Mesmo os Salões Comunais estavam vazios, todos com exceção do mais frio deles.

Enquanto todos dormiam, Chikage aproveitara para arrastar o sofá o mais próximo possível do fogo da lareira, sentando bem diante desta, pernas cruzadas, envolto num pesado cobertor verde por onde saia uma das mãos enluvadas que segurava um livro fino com capa colorida. A luz do fogo era intensa e também o único ponto de claridade da sala quase vazia.

O vento castigava as janelas, mas nem o ruído, nem as sombras que dançavam nas paredes distraiam o menino de longos cabelos que continuava entretido no livro. O barulho também não parecia incomodar em nada o rapaz muito mais alto que dormia deitado no sofá, a cabeça apoiada nas coxas do amigo japonês, o corpo envolto por outro cobertor muito pesado, deixando apenas os cabelos muito claros a mostra. Vez ou outra Chikage acariciava os fios sedosos velando o sono do amigo.

Não fora fácil voltar com ele. Draco estava muito abalado e levá-lo até lá só fora possível diante da promessa de que ninguém se aproximaria dele (sorte Draco não ter perguntado como ele podia prometer isso nem ter comentado que, de fato, ninguém dirigira a palavra aos dois rapazes), mas apenas quando o último aluno buscou o refugio de sua cama (isso antes das 20h!) o loiro relaxou. Quando Draco deitou no sofá, Chikage sabia que não demoraria para ele adormecer, da mesma forma como sabia que o loiro ainda estava acordado quando levantou e mudou de lado, sentando dessa vez do lado esquerdo do amigo, apoiando em seguida a cabeça loira nas próprias coxas.

Deslizou os dedos pelos cabelos claros mais uma vez, secando uma lágrima teimosa que escorreu pelos olhos fechados. Não podia retirar do amigo a dor, mas podia manter-se a seu lado ao menos até o amanhecer.

Continua...

Setembro/2011

N/A: Já virou clichê, mas desculpem a demora. Eu sei que estou demorando demais para postar, mas é puríssima falta de tempo mesmo!

Em agosto até tive um surto de inspiração e diversas cenas tomaram forma na minha cabeça e eu anotei o que deu, escrevi no ônibus e nas aulas e tenho um amontoado de papel pra todo lado e muitas cenas a escrever, mas o capítulo que é bom nada! Mas consegui! Não me perguntem como, mas finalmente terminei e, não prometo, mas acredito que o próximo será mais rápido pq já devo ter metade dele escrito.

Infelizmente dessa vez não tem desenhos, nem extras, além de 20 páginas a menos, mas achei que ficou melhor assim. Eu gostei muito da ideia desse capítulo, mas admito que estou insegura, principalmente quanto a escrita.

Enfim, espero que gostem ^^

Agora, rumo ao próximo!

Esse capítulo deveria se chamar "Por que's", nunca vi tanto "porque" num mesmo texto!

Agradecimentos: A todos vocês que vem acompanhando esta árdua batalha por mais um capítulo, esse pobre Draco, esse Harry idiota, essa fic enrolada e esse Chikage imprevisível (ou não?). E, como não podia deixar de ser, um agradecimento especial para Mary Sumeragi, Thiago Percivanian, TaahOrihime e Nana M.U! Valeu mesmo! Fiquei feliz demais com os comentários de vcs!

Prévia do próximo capítulo:

– Não sei não... uma das primeiras coisas que se deve aprender sobre o mundo da magia é que "nada precisa ser o que parece". Talvez fosse melhor deixar esse armário aí – disse Chikage enquanto recuava um passo para trás. E, ou Harry estava muito enganado, ou o japonês estava com medo? Mas poderia estar ele com medo de algo tão simples?