FRED II

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"O que há, pois, em um nome?" Julieta se perguntou séculos atrás. Para ela não fazia sentido julgar algo apenas pelo título que lhe foi atribuído. A essência de uma rosa seria a mesma, fosse ela chamada de rosa, ou de chuva. Um nome não deveria definir quem o possuí, mas tanto tempo depois continuava a fazê-lo. Fred II conhecia muito bem o peso de carregar um nome. O rapaz sabia que toda sua família sofria com a grandeza que um Weasley ou Potter na certidão de nascimento representava, mas para ele era pior. O garoto não era apenas um Weasley, ele era um Fred Weasley. Fred Wealsey II. O segundo de seu nome. O Fred errado.

Durante toda sua vida, o rapaz carregara o fantasma do tio junto a si. A cada vez que alguém pronunciava seu nome, conseguia sentir a expectativa e a dor. O tio que nunca conhecera era como uma sombra que nunca lhe deixava sozinho. Havia momentos em que o garoto chegava a acreditar que o pai o nomeara em homenagem ao irmão, em uma tentativa desesperada de tê-lo de volta. O problema era que Fred não tinha nada a ver com Fred.

O filho de Jorge e Angelina havia herdado todas as características físicas da mãe. Era negro, tinha olhos castanhos, cabelos escuros e crespos e uma estatura mediana. Nada que remetesse minimamente aos Weasley. No entanto, aquele não era o problema. A grande questão estava na personalidade do rapaz. Ele era o herdeiro dos "Gêmeos Weasley", tinha um legado de brincadeiras, regras quebradas e diversão o aguardando e, para muitos, aquilo deveria ser a definição do paraíso, mas para o garoto era um verdadeiro inferno.

Fred não se interessava por nada disso, era péssimo com piadas, odiava pregar peças e, para ser honesto, praticamente não tinha senso de humor. E ainda havia Quadribol. Merlin, ele odiava Quadribol! A ideia de voar insanamente em uma vassoura, tendo que fugir de uma bola, acertar outra em arcos e capturar uma terceira, lhe soava extremamente estapafúrdia. Como alguém poderia considerar aquilo minimamente interessante lhe era um verdadeiro enigma. Ainda assim, para seu infortúnio, 90% de sua família não parecia compactuar com seus ideais.

O garoto, contudo, não parou por aí. Ele foi selecionado para a Corvinal e tinha o hábito de estar sempre com o nariz enfiado nos livros. Para liquidar de uma vez com o legado de Fred e Jorge, foi escolhido monitor e, depois disso, monitor chefe. Havia quem dissesse que Fred Weasley II era, na verdade, um filho perdido de Percy e Rita Skeeter foi mais longe, criando o mito que o herdeiro das Gemialidades Weasley nunca havia aprendido a sorrir. Ele detestava aquela fofoqueira imprestável com tudo o que havia em seu ser. Além disso, ela estava errada. Ele sabia sorrir e poderia até mesmo gargalhar alto, o que acontecia quando estava em seu "habitat natural", a estufa.

Fred amava Herbologia. Qualquer coisa relacionada ao assunto atraía sua atenção. Para o rapaz não havia nada melhor que colocar a mão na terra e cuidar de suas plantas. Desde seu primeiro ano em Hogwarts, ele sabia que era aquilo o que queria fazer pelo resto da vida. É claro que tal perspectiva não agradou muito seu pai. Jorge Weasley tinha traçado um plano para a vida do filho desde o momento em que descobriu que Angelina carregava uma criança, esse plano definitivamente não tinha nenhuma relação com plantas.

De certa forma, o rapaz sabia que o pai não fazia por mal. Ele tinha uma irmã e não conseguiria imaginar o que faria se algo acontecesse a Roxanne. Apenas cogitar a hipótese o fazia estremecer. O garoto conseguia entender que Jorge queria o irmão de volta, conseguia entender que esperava que seu filho continuasse tudo aquilo que ele construiu durante uma vida. O problema era que ele não Fred, ou pelo menos, não o Fred que seu pai gostaria que fosse. Não era o tio e nunca iria ser.

Houve um tempo em que o jovem verdadeiramente se esforçou para ser a pessoa que sua família esperava que fosse. Ele tentou ser o Fred de que sentiam falta. Tentou, tentou e tentou, mas fracassou miseravelmente. Conseguia enxergar a decepção nos olhos do pai e aquilo lhe doía mais do que qualquer coisa. Com o passar dos anos, no entanto, se acostumou à bizarra realidade de ser uma decepção. Todo mundo que conhecera seu tio, ou ouvira histórias sobre ele, esperava algo do garoto, algo que o rapaz nunca foi capaz de oferecer.

Havia dias nos quais queria gritar para o mundo inteiro: "eu não sou o meu tio!", mas suspeitava que de nada adiantaria. Tudo aquilo conseguia ser extremamente surreal, ele não se envolvia em problemas, tiravas as melhores notas da turma e era um monitor e, ainda assim, era uma decepção. Às vezes, sentia que seu mundo girava ao contrário e tudo o que era certo, se transformava em errado, e vice-versa. Um dia resolveu simplesmente parar de tentar e ser a pessoa que de fato era. De certo modo, sabia que mesmo se fosse o rei das piadas, mestre das brincadeiras e melhor jogador de Quadribol do mundo ainda não seria suficiente. Ele não era o Fred certo, nunca seria.

Quando seus pais lhe deram um nome, também lhe deram uma maldição. Alguns dias ele os odiava por isso. Em outros odiava o tio. Sentia-se mal por odiar alguém que há muito estava morto e jamais lhe fizera mal, ao menos intencionalmente, mas não podia controlar o modo tudo aquilo o enlouquecia. Então, começou a passar cada vez mais tempo sozinho. Trancava-se na estufa, ou se afundava em seus livros, ignorando tudo e todos. A melhor parte de se dedicar à Herbologia era que não precisava ficar perto de outras pessoas. Plantas eram infinitamente mais simples que seres humanos!

Fred também não era muito bom em lidar com pessoas, sempre fora introvertido e há muito perdera a paciência para as comparações inevitáveis. As constantes reuniões de sua família o levavam à loucura. Não me entenda mal, apesar de tudo, o rapaz amava imensamente sua família, mas Weasleys tinham uma tendência a procriar como coelhos, resultando em milhares de pessoas conversando, gritando e rindo escandalosamente em um espaço muito pequeno. Aquilo acabava com todas as suas forças, o deixando mentalmente exaurido.

Uma das únicas pessoas que conseguia vencer verdadeiramente suas barreiras era sua irmã. Roxanne era apenas dois anos mais nova e oposta a ele de todas as formas possíveis. Ela era extrovertida, dona de um senso de humor peculiar e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele a amava acima de tudo e sabia que a recíproca era verdadeira.

Ainda assim, sentia-se completamente sufocado em Londres. Por isso, quando Neville Longbottom, seu professor favorito, lhe indicou para uma pesquisa na Amazônia, ele não hesitou. Havia acabado de se graduar em Hogwarts e estava recebendo a oportunidade de trabalhar ao lado dos maiores herbologistas do mundo, pesquisando espécies mágicas extremamente raras. Era um sonho se tornado realidade. A melhor parte era que no Brasil seu sobrenome pouco importava, seu nome menos ainda. Ali ele era apenas Fred, o bruxo britânico com sede de conhecimento. Apenas Fred, sem nenhum fantasma, legado, ou decepção o acompanhando.

Passara cinco anos ali, os melhores da sua vida, diga-se de passagem, mas agora arrumava as malas para retornar à Inglaterra. Aquilo estava longe de ser o que gostaria, mas Roxanne precisava dele e o rapaz faria qualquer coisa pela irmã.

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N/A: Na minha cabeça Fred II amava Herbologia. Da onde eu tirei isso? Só Deus sabe, mas sempre achei meio estranho como nas fics ele costuma ser quase uma nova versão do tio. Sei lá, gosto de pensar que ele teria uma personalidade diferente. De qualquer forma, há muito tempo queria escrever algo sobre o Fred e fico muito feliz por ter finalmente conseguido. Só deixando claro, o Jorge não é um pai ruim, ou algo do tipo, só comete alguns erros sem perceber.

Sim, o título do capítulo tem tudo a ver com As Crônicas de Gelo e Fogo/ Game of Thrones. Hahaha

Espero que tenham gostado!

Beijinhos...

Thaís