Promessa é divida! E como eu não quero meu nome no SPC/SERASA, tá aí mais um capítulo novo de NDQVE pra vocês!
PS.: Agora quem está me devendo são vocês! Pagem logo, deixando meu e-mail lotadinho de reviews de vocês!
Eu não tinha inspiração nenhuma. Nem sequer um pouquinho que fosse.
Já havia mais de duas horas que a página do editor de texto estava aberta e eu não havia conseguido transcrever nada lá. As poucas linhas que eu havia tentado estavam tão ridículas que eu rapidamente as apaguei e voltei a encarar aquela barrinha piscando irritantemente para mim, à espera de que eu escrevesse qualquer coisa minimamente interessante.
Não que eu fosse uma autora nem nada disso. Eu bolava essas estórias bem água-com-açúcar para revistas infanto-juvenis femininas a troco de uma renda a mais na minha apertada vida de estudante. Não tinha o mínimo talento e nem gostaria que isso se tornasse uma profissão. Meu lance mesmo era o jornalismo; era bem mais fácil para mim criar um texto onde informasse um ocorrido, contasse uma notícia e até deixasse um tanto do meu ponto de vista em um canto ou outro. Elaborar personagens, criar roteiros românticos e melosos e concluir cada conto com um felizes-para-sempre no final, não era algo que gostasse tanto assim de fazer
Mas o pior nisso tudo era que eu precisava escrever; os mil e quinhentos dólares que eu receberia, caso conseguisse publicar esse texto, garantiriam minha parte no aluguel do próximo trimestre e as minhas passagens para Washington no feriado de Ação de Graças daqui a quatro meses. Não podia me dar ao luxo de deixar isso de lado, e recusar a proposta. Teria que dar o máximo de mim e inventar qualquer coisa decente até o próximo final de semana.
O péssimo era que nem a coisa mais estúpida do mundo vinha a minha cabeça, quanto mais algo que fizessem com que os editores da Seventeen aceitassem publicá-la este mês.
Bufei pesadamente e usando o dedão do meu pé, desliguei com força o estabilizador do meu desktop, não me importando nem um pouco que aquilo pudesse prejudicar o equipamento. Era uma atitude muito idiota de minha parte, já que eu era uma ferrada no sentido financeiro que não tinha condição alguma de comprar um computador novo, entretanto a frustração tirou o melhor de mim e pouco me importei com meu velho computador, Com um suspiro cansado, me joguei na pequena cama em meu quarto e avaliei tudo o que havia acontecido comigo no dia anterior.
Finalmente, eu tinha dito para mim mesma que o que sentia por Edward era algo bem maior do que uma simples amizade. Gostava dele de uma forma que poderia ser perigosa e onde eu, com absoluta certeza, acabaria me machucando. E para complicar ainda mais a situação doentia de meu coração, eu não me importava se acabasse sofrendo no final.
O que eu não suportava mais era esconder que meu coração acelerava freneticamente todas as vezes que eu via aqueles olhos verdes, que eu perdia a respiração quando ele abria seu sorriso torto e que praticamente me derretia quando seus lábios pronunciavam meu nome com sua voz de veludo. Várias vezes ao longo do dia, eu me pegava pensando nele, imaginando o que ele estaria fazendo naquele momento, com quem ele estaria, ou se estava pensando em mim. Praticamente, eu tinha me transformado em uma adolescente que vivia suspirando por um amor platônico por todos os cantos.
Eu precisava admitir; ainda não entendia o que ele tinha visto em mim para que insistisse tanto em sairmos juntos. Ele poderia ter a mulher que quisesse lá mesmo no hospital... A prova disso era a admissão muito óbvia dele que a Dra. Thompson ainda era apaixonada por ele. Toda mulher dentro do Presbyterian gostaria de tê-lo ao seu lado. Caramba, tenho certeza que qualquer mulher no condado de Nova Iorque gostaria de estar ao lado dele! O que eu não entendia era porque é que ele tinha escolhido justo a mim.
Mas, seja lá qual havia sido a motivação dele, o fato era que eu tinha plena certeza de que nós não tínhamos a mínima chance de dar certo; eu estava ocupadíssima batalhando pela minha vida profissional, sem contar que eu não tinha experiência alguma em relacionamentos. Ou seja, a expressão "tragédia anunciada" seria um termo muito bom para ser associada à essa tentativa de romance.
Embora, de forma alguma eu pudesse dizer que estava arrependida; não havia um pingo de remorso em mim desde que decidira sair com Edward; pelo contrário, eu estava muito orgulhosa de mim mesma ao ter criado um pouquinho de coragem para ter ido encontrá-lo ontem nas escadas de emergência. Então, quando relembrava aquele momento, não podia deixar de admitir que estava incondicional e irrevogavelmente apaixonada por Edward Cullen.
Fui interrompida de meus devaneios pela porta do meu quarto sendo aberta com um estrondo que fez com que eu me sobressaltasse em cima da cama. Ali, ainda vestida com seu capote de enfermeira e com olheiras de cansaço no rosto, Kate, me encarava com um sorriso enorme em seu rosto.
– Bella Swan, sua safadinha! Pegando o Dr. Cullen, huh?
– Você sabe que somos apenas amigos, Katherine – repliquei pelo que me pareceu ser a centésima vez desde que tudo isso começou.
– É, mas não foi nada disso que eu ouvi falar durante meu plantão da madrugada...
Aquilo chamou a minha atenção – O que é que estão dizendo? – perguntei já sentindo meu coração se encolher em meu peito.
– Nada demais, Bella – ela disse acenando com uma mão de forma irrelevante.
– Kate!
Ela rolou os olhos dramaticamente, soltando o cabelo do rabo-de-cavalo apertado e vindo se sentar na ponta da minha cama – Algumas colegas afirmaram que vocês dois estavam de pegação na escada de emergência ontem à tarde...
– Como é?!
– … E que depois de tudo isso, marcaram um encontro romântico com direito a sexo pesado para o próximo sábado à noite!
Senti minhas bochechas ruborizando e as primeiras lágrimas de raiva se acumularem em meus olhos. Kate quando percebeu minha reação, tirou o sorriso do rosto e esticou sua mão dando um aperto em minha panturrilha. – Hey, Bella. Eu só estava brincando!
– Não brinca como uma coisa dessas, Kate – murmurei, fungando um pouco e me sentindo bastante estúpida por estar praticamente chorando na frente dela.
– Desculpe, Bella, não quis te preocupar... mas se bem que tem bastante pessoas na minha ala especulando. Afinal, Dr. Cullen não tem saido com ninguém ultimamente, bem, pelo menos não com garotas do hospital, então de repente ele aparece interessado por você...
– Que não passo de uma simples garçonete. É eu entendi.
– Não é por conta disso, Bella – disse ela, balançando seu farto cabelo loiro-escuro – Acho que todas as mulheres solteiras daquele lugar estão morrendo de inveja de você. Caramba, até eu que namoro há quase um ano com Garrett queria está no seu lugar!
Desviei meu olhar e me concentrei em uma pequena aranha tecendo sua teia no canto do teto; fiz uma careta lembrando que eu mal tinha tempo para limpar a bagunça em que eu morava, mas mesmo assim acabei encontrando um espaço para sair. Como é que eu pude ter colocados minhas prioridades de ponta cabeça só por conta de um homem?
Um homem lindo, atencioso, sexy e encantador, vale a pena ressaltar.
– Então, você já sabe o que irá vestir? – ela inquiriu curiosa.
Dei de ombros – Qualquer coisa. Nós só vamos sair daqui a dois dias, Kate, não há necessidade de eu me preocupar com esse tipo de besteira agora.
– Como não? Você precisa estar linda, afinal de contas, você está praticamente namorando um dos caras mais gatos de Nova Iorque!
Levantei-me irritada, e não me reconheci quando gritei com Kate – Dá para parar com isso? Nós não estamos namorando nem nada disso! Vamos apenas dividir a porcaria de uma pizza e mais nada!
Ela continuou na mesma posição anterior, me observando como se eu fosse alguma espécie de aberração (o que talvez, eu fosse mesmo). – Tudo bem, então – ela murmurou rapidamente – mas você vai, pelo menos, dar uma arrumadinha nessa sobrancelha, não é?
Estava prestes a retrucar quando meu celular começou a tocar alto. Levantei da cama e fui caçá-lo dentro da bagunça que era minha mochila enquanto Kate se levantou e começou a fuçar por alguma coisa dentro da minha nécessaire. Finalmente, achei o aparelho, contudo não reconheci o número no display mesmo que este tivesse o código de área daqui de Nova Iorque.
Ainda receosa, atendi – Alô?
– Bella?
Meu coração perdeu uma batida para logo depois começar a acelerar como louco em meu peito. Minha garganta estava seca e eu praticamente estava hiperventilando por conta de uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar, apesar da minha ainda desconfiança. – Edward?
– Err.. Sou eu, Edward. Espero que não se importe de eu ter pegado seu número com a enfermeira Andrews.
- Com quem?!
– Com a enfermeira Katherine Andrews... que divide o apartamento com você. Tem algum problema que eu tenha feito isso?
Estreitei meus olhos na direção da minha companheira de quarto, que permanecia indiferente a minha encarada mortal – Não... não há nenhum. – consegui balbuciar estupidamente.
Ele riu e aquele som me atingiu tanto quanto se estivéssemos frente a frente –Só estou te ligando porque de te dizer uma coisa.
Ele tinha se lembrado de algum compromisso importante? Foi chamado de última hora para cobrir alguém na emergência do Presbyterian? Ele estava doente e tinha piorado consideravelmente de ontem para hoje? Não poderia mais ir ao encontro? Jesus! Eu não sabia se ficava feliz ou desapontada por conta disso...
– O que foi? – pedi, sem consegui disfarçar o trepidar da minha voz.
– Bem, eu fui meio idiota e não percebi que não tem nenhum cinema disponível perto do Joe´s, então-
– Espera, – interrompi-o no meio da frase – Quer dizer então que nós vamos para o cinema também?
– É óbvio que sim. Eu pensei que tivesse deixado isso bem claro para você.
– Não, não deixou. – eu resmunguei enquanto observava Kate rolando os olhos e sibilando a palavra "aceita" repetidamente em minha direção.
– Então, quer dizer que você não quer ver nenhum filme comigo? – ele perguntou e eu praticamente pude ver seus olhos implorando para que eu assentisse para o seu pedido.
– É, pode ser, eu acho – murmurei enquanto levava minha mão livre em direção à boca para que roesse minhas unhas.
– Sabe, – ele começou – não que eu estivesse esperando por alguma reação empolgada da sua parte ou algo assim,mas esse"pode ser" foi um golpe bem baixo para o meu ego.
Aquilo me fez rir – Tudo bem, Edward; eu vou ao cinema também, mesmo que você não tenha pedido isso antes.
– Ok, Swan, eu não vou mais discutir isso – ele disse com ar brincalhão antes de continuar – Como eu ia dizendo, não há nenhum lugar por perto do restaurante onde possamos ver algum filme. Então, eu pensei em ir de carro e te pegar no seu apartamento.
Mordi meu lábio e protelei um pouquinho pensando nisso. Não queria que ele viesse até a minha casa; não é que eu tivesse vergonha do apartamento minúsculo de 42m² que eu dividia com mais duas garotas, mas sim pelo fato de saber que Edward morava do outro lado da cidade e teríamos que pegar um trânsito infernal até chegarmos ao restaurante.
Se bem que ficar algumas horas presa em um carro ao lado dele não seria de um todo ruim...
– Bella? Você está aí?
– Oi. Errr, desculpa.
– Então, o que você acha.
Nesse meio tempo, Kate voltou a se sentar na minha cama e ficou me encarando – Edward é melhor não. Você mora do outro lado da cidade e-
Desta vez, foi ele quem parou o meu discurso; – Se for dizer alguma besteira em relação a distância pode ir esquecendo. Eu não me importo em fazer isso.
No mesmo instante, eu me lembrei de algo que poderia fazer toda a diferença – Não precisa se incomodar, Edward. Eu sei onde nós podemos ir depois que terminamos a pizza.
– É? E aonde fica esse lugar? – Ele perguntou ao mesmo tempo em que Kate murmurava a palavra "hotel".
Senti minhas bochechas esquentando e o respondi – Você terá que confiar em mim.
– Sem problemas, linda. Agora, você tem meu telefone; se mudar de ideia, pode me ligar que eu vou até sua casa te buscar.
Com um sorriso cada vez mais fixo em meus lábios, eu respondi – Eu não vou.
– Bom eu tenho que ir – ele disse sem jeito –Irei começar agora meu último turno do plantão e pelo que eu soube, a emergência hoje não está das mais tranquilas.
– Tudo bem, eu também tenho que estudar para apresentar meu relatório amanhã. – comentei rapidamente
– Te vejo no sábado?
Eu soltei um risinho, achando fofo como parecia que ele ainda não estava acreditando que iríamos sair junto. – Sim. Nos vemos no sábado, Edward.
Despedimo-nos e quando desliguei o celular, encarei Kate que sorria enormemente para mim. – Para onde você vai levá-lo?
Apesar de ainda estar sorrindo como uma idiota, eu lhe respondi com uma pergunta – Porque você deu meu telefone para ele?
– Eu perguntei primeiro. – apenas ergui uma sobrancelha, e ela revirou os olhos respondendo
– Não tinha como resistir àquela cara de cachorro abandonado que ele fez. Sem contar que foi muito bonitinha a forma que ele puxou conversa comigo, dizendo que tinha uma prima que também chamava Kate e tudo mais... Tipo, ele não tem a mínima ideia de como enrolar alguém para conseguir uma coisa, entende?
Eu sorri imaginando a cena; Edward em alguma parte do hospital, todo sem jeito, tentando achar algum assunto com minha colega apenas como pretexto para ter meu telefone. Sério, será que ele é sempre assim tão insistente em tudo que faz?
– Agora responda; para onde vocês estão indo depois do jantar? – Kate ecoou.
Estiquei meu braço para pegar o texto da resenha biográfica que teria que apresentar na faculdade – Isso não é da sua conta, Kate – murmurei, enquanto folheava as páginas em busca das partes que precisava dar uma revisada.
– Você é chatinha hein, garota? – ela resmungou irritada – mas mesmo com essa chatice toda eu vou te ajudar; fique quieta!
Levantei meu rosto apenas a tempo de ver Kate se aproximando com uma pinça nas mãos – O que diabos você vai fazer?
– Só dando um jeito o quanto antes nisso. Pelo pouco que te conheço, você vai deixar para fazer as sobrancelhas na última hora e irá para o seu encontro com o doutor sexy com várias placas vermelhas na testa.
Suspirei pesadamente e recostei minha cabeça à cabeceira da cama, deixando que Kate começasse o quanto antes aquela sessão de tortura. Não que eu fosse alguém grilada em padrões de beleza, mas tinha que admitir que também não era de tudo relapsa a minha aparência. E, se eu tinha um encontro pelo que parecia ser a primeira vez em minha vida, não queria de forma alguma parecer a gêmea da Frida Kahlo na frente de um dos homens mais bonitos que eu conhecia.
Só podia torcer para que tanto sofrimento no final valesse a pena.
[…]
A sexta-feira foi absurdamente corrida para mim. De alguma forma forma consegui escrever um pequeno conto durante a madrugada, e enviei-o imediatamente para os editores da revista adolescente que sempre publicava as minhas besteiras. Apesar de ter ido para faculdade exatamente como um panda, e ter que debater sobre Legislação Imigratória Americana as oito da manhã, tinha conseguido me sair bem o suficiente.
Aproveitei minha presença no campus e passei o restante do dia trabalhando na minha apresentação de amanhã. Apesar de acontecer em um sábado pela manhã, haviam boatos que alguns editores de grandes jornais estariam assistindo as palestras de alguns estudantes e talvez, houvesse a possibilidade real de escolher alguns de nós para estagiar numa grande publicação. E isso era tudo o que eu mais queria: começar um trabalho numa redação com menos de seis meses morando em Nova Iorque. Este seria um passo primordial para minha carreira, e por isso que estava me empenhando tanto para que meu texto fosse o mais coerente e plausível possível.
No final da tarde, Eu acabei repondo a aula de espanhol para os gêmeos e digamos que essa não foi uma tarefa das mais agradáveis. A última coisa que dois pré-adolescentes queriam no inicio do final de semana era estudar até as sete da noite uma língua estrangeira. Até tentei fazer uma aula diferente, colocando um pequeno vídeo de humor, entretanto, parecia que os dois estavam muito mais empolgados com todas as coisas que ambos poderiam fazer assim que se livrassem de mim.
Quando cheguei em casa, já se passavam das oito da noite e eu estava esgotada. Tanto Kate quanto Irina não estavam as vistas, o que era ótimo. Depois de um dia como esse tudo o que mais queria era tomar um longo banho quente e dormir o máximo que pudesse.
E foi exatamente isso o que eu fiz. Deixei que a água quente relaxasse meus músculos e que a fragrância do meu sabonete de frésia me acalmasse. Enrolei-me na mais felpuda toalha que encontrei e me joguei em minha cama, quase me sentindo revigorada outra vez.
Por força do hábito, peguei o celular dentro de minha bolsa, para ver se Angela ou minha mãe haviam me mandado alguma mensagem. Eu tinha o hábito de sempre falar com uma delas no final de semana, e nada mais justo verificar se alguma delas estava disponível para mim naquele instante.
Mas para minha surpresa, havia uma mensagem de alguém diferente no meu visor. Eram apenas quarto palavras, mas suficientes para fazer com que meu coração disparasse e um sorriso inesperado brotassem em meu rosto.
"Senti sua falta hj" – Cullen, E às 17h35min
Sem nem me preocupar com a cautela, meus dedos agiram mais rápidos e escreveram a resposta de volta.
"Tb senti sua falta. " – Swan, B às 20h41min
Mal havia se passado um minuto quando a resposta mensagem de volta com sua resposta apareceu de volta em meu celular.
"Posso te ligar?" – Cullen, E às 20h42min
Desta vez, eu demorei para responder. Minhas mãos tremiam a medida que eu escrevia e apagava diversas vezes as palavras, "sim" e "não" em meu aparelho. Eu estava dividida entre a vontade louca de falar com ele e o receio enorme de me envolver mais e mais. Por mais injusto que parecesse a comparação, eu me lembrava da Dra. Thompson: uma mulher que havia entregado seu coração para ele, e ele havia lhe negado. Como não ter receio que meu futuro se tornasse parecido com o dela?
Por fim, a covardia falou mais alto e eu digitei.
"Preciso ligar pros meus pais em WA. Amanhã nos falamos, ok?" – Swan, B às 20h48min
"Tudo bem, nos falamos pessoalmente amanhã. Bom sonhos, linda :)" – Cullen, E às 20h50min
Senti-me como uma estúpida por ter mentido para ele, mas ao mesmo tempo pude encontrar razão em minha decisão. Apesar da vontade louca de ligar de volta e escutar nem que fosse um pouquinho a voz dele, eu resisti firmemente ao afastar o celular e me enrolar na cama, tentando descansar para o dia seguinte. Dia que tinha tudo para mudar minha vida.
Acordei como uma pilha e sem sequer tomar o café da manhã, eu partir para Columbia para apresentar meu trabalho sobre jornalismo contemporâneo. Os boatos que haviam iniciado nos corredores da universidade ao ver alguns editores dos principais meios de comunicação da cidade. Mas, apesar dos observadores extras, eu consegui me sair bem na explicação e respondendo com segurança as perguntas que me foram aplicadas sobre a minha pesquisa.
No final da aula, mal pude acreditar quando meu mentor de curso, o professor Bass me apresentou a editora-chefe do New York Daily. Numa breve conversa a três, ela me ofereceu a chance de atuar como free-lancers deles para escrever uma matéria sobre a evolução da América-Latina nos últimos 10 anos. Um trabalho que teria os próximos três meses para pesquisa e uma encadernação especial no inicio do próximo Outono.. E apesar de todo o nervosismo que eu senti naquela "conversa" de último minuto, fiquei bastante surpresa quando a mulher se disse impressionada com meu histórico e quis marcar de imediato uma entrevista comigo em seu escritório, para aquela mesma manhã.
Fiz uma ligação para Jinn dizendo que não poderia comparecer à lanchonete e segui direto para a redação do jornal, que ficava bem no centro financeiro de Nova Iorque. Lá dentro, a Sra. Prestley me levou até uma ante-sala de onde dava para ver todo o movimento da agitada redação. Tomei várias respirações profundas, tentando me acalmar um pouquinho, contudo minhas mãos já estavam suando. Mesmo que tivesse experiência in loco quando estagiei no pequeno jornal semanal de Forks, nada se comparava a realidade de uma edição diária, com todo corre-corre e pressa para apresentar as matérias para o dia seguinte.
Aquela era uma oportunidade única, eu teria grandes chances de ficar no staff definitivo do jornal, caso tudo desse certo com esse projeto. Era a chance que eu tinha para não precisar mais – pelo menos por enquanto – me desdobrar em três empregos diferentes, onde mal sobrava tempo para que eu estudasse alguma coisa.
Não precisei pensar por muito tempo e fechei o contrato com o jornal, onde começaria a trabalhar durante 30 horas semanais a partir da próxima segunda-feira. Tentando não parecer uma garotinha que tinha acabado de encontrar seu primeiro trabalho de meio período durante o verão, sorri ao apertar as mãos dos meus futuros colegas de trabalho e torci para gravar pelo menos os nomes daqueles jornalistas com quem eu trabalharia diretamente.
No fim, eu tinha perdido a manhã inteira tentando me inteirar sobre meu mais novo emprego – isso sem contar que eu nem sequer havia me desligado dos outros trabalhos ainda. Quem sabe, talvez eu continuasse escrevendo uma estória ou outra, só para garantir uma graninha a mais no final do mês. No entanto, seria impossível manter as aulas para duas crianças e o serviço como garçonete do Presbyterian.
Meu coração se apertou um pouquinho quando me dei conta de que não iria mais encontrar Edward quase todos os dias. Não fazia ideia de como nossa relação de amizade seria daqui para frente, contudo, eu esperava de coração, que nós conseguíssemos arrumar um espaço em nossas agendas para que pudéssemos, pelo menos, conversar. Acho que a afeição que tinha criado por aquele homem não era algo que eu estivesse disposta a esquecer por conta de longas horas de pesquisa daqui para frente.
Já passavam das duas da tarde quando saí da redação e cheguei na casa dos Waldorf para explicar que não poderia mais continuar com as aulas dos gêmeos. A mãe dos garotos não ficou muito satisfeita com meu súbito desligamento, embora
ela não pudesse fazer muito quanto a isso, já que não havia nenhum contrato efetivo entre nós duas. Depois disso, me deu uma vontade imensa de chorar quando chegou a hora de me despedir de Mark e Mike, e tive que escutá-los dizendo que sentiriam saudades da señorita Bella.
O pior de tudo era que eu também precisava ir até o hospital falar com a Jinn. Com certeza iria deixá-la na mão, já que minha saída seria repentina e sem nenhum aviso prévio. Não que eu fosse insubstituível, longe disso; devia existir milhões de outras meninas por aqui que poderiam fazer este trabalho melhor do que eu, entretanto, achava injusto da minha parte pedir demissão praticamente do nada, para alguém que tinha me contratado tão rápido quando eu mais precisei.
Às três horas em ponto eu cheguei na entrada dos funcionários do centro hospitalar, e enquanto caminhava até a lanchonete, podia sentir vários olhares sobre mim; alguns curiosos, outros intrigados e vários de desprezo. Tentei ignorá-los embora fosse muito difícil pois esses olhares faziam com que os pêlos de minha nuca se eriçassem por completo.
Ao chegar na lanchonete, fui correndo pegar meu avental e a touca que permaneciam jogados do mesmo jeito dentro do armário sob o balcão. À medida em que os vestia, Lucy, a outra ajudante da lanchonete, apareceu na minha frente.
– Ué? Você não tinha um encontro hoje com o Doutor Gostosão? Desistiu? – ela inquiriu curiosa e desmedida, como sempre.
– Não, eu ainda vou, só que eu precisei trocar meu horário então, fico aqui até as 19h.
– E qual é o horário do seu encontro?
– Às 20h.
Ela abriu os olhos espantada – E você não vai tipo, se arrumar, ou algo assim?
Dei de ombros, mesmo que estivesse totalmente frustrada por conta disso. Eu planejava me arrumar, nem que fosse somente meu cabelo que estava uma bagunça terrível, mas pelo visto isso seria algo impossível.
– Você está dispensada por hoje, Bella.
Levantei o rosto para ver que Jinn tinha vindo da área da cozinha com um sorriso enorme no rosto. Desviei o olhar desajeitadamente sem ter ideia de como lhe dizer que eu não poderia mais continuar a trabalhar ali. Era justo que eu trabalhasse normalmente naquele que seria meu último dia na lanchonete; não poderia fazer por menos só porque mais tarde eu tinha um compromisso.
- Não Jinn, é injusto. Eu tinha acertado que viria assim que pudesse. – repliquei nervosamente.
– Você não quer mais sair com seu garoto? – escutei-a perguntar.
– Bem, eu acho que sim.
- Acha?
Senti minhas bochechas esquentarem quando lhe respondi – Eu ainda quero sair com o Edward.
Sua mão pousou no meu ombro e o apertou levemente, uma vez que eu ainda evitava olhá-la – Qual é o problema, criança?
Com minha visão periférica, percebi que Lucy já havia saído, deixando Jinn e eu a sós. Tomei uma respiração profunda e desatei a falar – Jinn, não poderei mais continuar trabalhando aqui. – ela ergueu uma sobrancelha em curiosidade e eu continuei – Fui chamada para fazer parte de um projeto no Daily e já começo na próxima segunda. Então, eu tenho que trabalhar, pelo menos por hoje, entende?
– Bella...
- … porque seria muito injusto da minha parte te deixar na mão desse jeito! Logo você que me recebeu aqui de braços abertos, mesmo eu não tendo experiência nenhuma como garçonete. Você não colocou empecilho algum para me contratar e...
Jinn pousou suas duas mãos em meus ombros e sibilou – Bella, querida, respire. - Apesar de tentar ao máximo controlar, minha respiração,essa ainda saiu
entrecortada e as primeiras lágrimas ameaçaram a descer pelo meu rosto. Essa era uma característica que eu odiava em mim mesma; o fato de meu canais lacrimais serem ligados a qualquer emoção boba que eu sentisse.
– Isabella, meu bem, eu sabia que você não passaria muito tempo aqui – ela murmurou, enxugando uma lágrima perdida que desceu pelo meu rosto. – Você é talentosa demais para passar muito tempo trabalhando num balcão de lanches.
–Mas eu gosto de trabalhar aqui.
–Eu sei, mas não foi para isto, – ela comentou apontando ao seu redor – que você estudou tanto. Não se sinta na obrigação de nenhuma forma comigo; irei arrumar alguém o quanto antes. Pode voltar para casa e se preparar para o seu encontro de hoje á noite.
–Não, Jinn, eu não preciso ir agora. Posso ficar e ajudar mais um pouco.
Ela franziu o cenho, mas mesmo assim eu percebi um sorriso brincando em seus lábios – Você está dispensada por hoje. – quando abri a boca para argumentar, ela retrucou – Será que eu terei que despedir você?
Eu ri e dei um abraço apertado nela – Obrigada, Jinn. Por tudo.
– Só não se esqueça de me convidar para o casamento, viu? Eu mais do que ninguém mereço estar lá.
Rolando os olhos, me desvencilhei dela e coloquei um beijo em seu rosto. – Não se preocupe, no que depender de mim você estará logo na primeira fila. – comentei, tentando transparecer sarcasmo naquela frase.
– Pode apostar que sim, querida.
Entreguei-lhe o avental e a touca e prometi mandar por Kate o uniforme extra que estava em minha casa. Arrumei os poucos pertencer que eu tinha no meu armário e me despedi de Lucy, afinal não havia mais ninguém ali dentro, já que a única pessoa que merecia algum tipo de satisfação minha, eu encontraria ainda esta noite.
Parti correndo para a estação onde, para minha completa frustração perdi quase uma hora dentro do metrô. Houve algum tipo de problema estúpido nos circuitos elétricos, que fez com que todos os vagões ficassem parados bem no meio do trajeto até a minha casa; o percurso que normalmente levava apenas 15 minutos, acabou me tirando mais uma parte importante do meu dia.
Cheguei em casa toda suada devido ao calor infernal que fazia na cidade nesta época do ano e corri logo para o banheiro, onde resolvi fazer nem que fosse uma hidratação rápida no meu cabelo e tirar na base da gilette todo e qualquer pelinho indesejado. Quando mais tempo eu passava sobre o jato de água, mais tensa eu parecia. E a sensação de borboletas batendo asas incessantemente dentro do meu estômago só fazia aumentar mais e mais.
Sai do banho e vesti a lingerie mais confortável que eu tinha e me sentei na cama e resolvi ler um pouco do material que eu havia recebido no jornal. Por um momento, permiti me perder um pouquinho em tantos temas relativos àqueles países que eu havia passado alguns meses. Ler sobre eles era fazer com que eu me relembrasse da maior aventura que eu já havia feito até hoje em minha vida; um mochilão pela região que desde muito pequena sempre me atraiu.
Só sai do meu transe quando escutei a porta da frente do apartamento ser aberta e logo em seguida, os cliques insuportáveis dos saltos de Irina; assustada, olhei para o despertador e percebi que já eram 18h:30. Sai correndo como uma louca até a área de serviço, praguejando alto enquanto tentava enxaguar o meu cabelo que estava completamente duro por conta do creme. Nunca em minha vida eu conseguiria secá-lo por completo em apenas 30 minutos.
– Porcaria, porcaria, porcaria... – eu bradava extremamente irritada enquanto eu esfregava minhas madeixas debaixo da água gelada do tanque.
– O que diabos você está fazendo, garota? – Irina perguntou com um tom de nojo na voz.
– Esqueci que estava com hidratação no cabelo... e eu tenho que sair em uma hora! Eu queria escovar essa droga, mas nem nos meus sonhos eu vou conseguir terminar a tempo.
– Água fria só irá piorar as coisas, sua imbecil. Você deveria ter ido para o banheiro jogar água morna!
– Eu não tenho tempo! – gritei, no alto de meus pulmões, deixando toda raiva que eu tinha por aquela cobra asquerosa se extravasar em minha voz.
Irina pareceu me encarar por um longo tempo até que se aproximou e enfiou suas mãos no meu cabelo, forçando minha cabeça debaixo da torneira e esfregando vigorosamente o meu couro cabeludo.
– AI! O que é que você está fazendo sua, sua, sua maluca da Sibéria?
Ela praguejou alguma coisa em russo de um jeito que talvez nem o último czar vivo daquelas bandas a entenderia, para depois acrescentar – Agora vê se fica quieta!
Depois de tanto tempo massacrando meus fios a ponto de eu já quase me sentir completamente careca, ela desligou a torneira e me arrastou até seu quarto. Lá dentro, haviam enormes fotografias dela, com certeza tiradas para algum ensaio ou book fotográfico. Era uma coisa meio narcisista, entretanto, não podia deixar de admirar o quanto ela era bonita.
– Senta! – a comandante do último batalhão soviético ordenou ao apontar para a cadeira de frente à sua penteadeira. Caminhei obedientemente, me sentindo a mais ridícula das pessoas; um cabelo pingando sem parar, enrolada somente com uma toalha verde e usando uma calcinha de algodão bege estampada com florzinhas azuis.
Irina começou a retirar um arsenal de produtos de sua gaveta, dentre eles estava uma toalha branca que ela jogou e acabou pousando bem na minha cara – Enxuga esse cabelo!
Comecei a friccioná-la em meu cabelo, mas parece que isso não era o suficiente aos seus olhos; ela deixou o secador que estava nas suas mãos em cima da bancada e começou a praticamente esmagar meu crânio entre suas mãos firmes. Sério, como alguém que transpirava delicadeza nas passarelas poderia ser tão grosseira daquele jeito?
Depois disso, ela aplicou diversos produtos nas minhas mechas, e forçou minha nuca para baixo começando a secar os fios com um difusor. Nesse meio tempo, eu ponderava se Edward se oporia muito em sair com alguém completamente careca ou se devia procurar na lista telefônica algum local que entregasse perucas à domicilio.
Depois do que pareceu uma eternidade sentindo aquele vento quente em minha nuca, Irina ligou seu babyliss e começou a definir as pontas . Eu devo ter parecido uma estúpida com meu queixo caído, sem conseguir acreditar no que estava diante de mim no espelho. Meus cabelos que sempre foram sem forma nenhuma, estavam com grandes cachos dignos de uma diva dos anos 40.
Eu não sei o que tinha dado naquela garota; talvez hoje fosse alguma data especial na Rússia onde se deveria ajudar os mais encarecidos ou algo parecido. Só sei que não tinha palavras para agradecê-la pelo trabalho milagroso que ela tinha feito em tão pouco tempo.
– Nossa Irina, isso é demais, eu acho que nunca vou poder te agrade-
– Cala a boca e fecha esses olhos.
Engoli em seco, e fiz exatamente o que ela pediu. Poucos segundos depois senti os leves toques de pincéis de maquiagem sobre minhas pálpebras. – Irina, não precisa. Eu não uso maq-
– Se você abrir essa boca de novo eu vou te deixar igual a uma palhaça. Quieta! Eu simplesmente assenti e deixei com que ela terminasse seu trabalho. Já que eu estava na chuva, que eu me molhasse inteira e acabasse pegando uma pneumonia também. O pior é que nesse meio tempo, eu não fazia ideia de que horas já seriam.
Ótima impressão, Swan. Chegar atrasada naquele que seria seu primeiro encontro em quase quatro anos.
Várias pinceladas por minha face depois, Irina interrompeu o silêncio ao perguntar; – Já tem alguma roupa?
Ainda de olhos fechados, eu meneei a cabeça em assentimento. – Escolhi ontem à noite – murmurei corando, me sentindo como uma menina de 13 anos que iria encontrar o seu ídolo.
– Ótimo, espero que seja algo decente que combine com a minha produção. Agora, some daqui.
Minhas pálpebras se abriram e eu mal reconheci meu próprio reflexo. Apesar de tudo estar extremamente discreto, Irina tracejou tudo tão bem que fez com que meus olhos ganhassem um formato amendoado. Um blush cor de pêssego, suficiente para que eu não parecesse doente .
– Irina, – murmurei, ainda sem deixar de me encarar – não sei nem como te agradecer.
– Não se preocupe, querida – ela disse com um sorriso sarcástico – Isso com certeza vai estar incluso no que você já me deve.
Eu congelei no lugar sem saber nem o que dizer; é lógico que ela tinha quebrado um galho para mim, mas eu tinha medo do quanto isso iria me custar no próximo mês...
– Vai ficar parada aí? Faltam somente 10 minutos para as 20h, retardada. Corra, que eu ainda posso ligar para um táxi. E isso eu posso deixar de graça.
Levantei-me de supetão e corri até meu quarto tropeçando em meus próprios pés. Peguei um dos meus jeans menos surrados, uma blusa sem mangas que apesar de colada ao corpo, era bastante confortável; e um casaquinho de manga ¾, porque nunca se sabe qual o clima que poderia ser a noite nova iorquina. Completei calçando minhas sapatilhas preferidas – porque de forma nenhuma me arriscaria a andar de salto e acabar caindo – e a única bolsa decente que eu tinha. Apressei-me em verificar se tinha tudo que precisava como celular e dinheiro e parti para a sala o mais rápido que pude.
Quando cheguei lá, Irina que estava assistindo tevê, nem se deu o trabalho de olhar para mim – O táxi já está lá embaixo.
Ignorei o que ela disse quando meu lado inseguro falou mais alto. –Tá legal essa roupa?
Ela não se deu ao trabalho de responder – O carro não vai ficar à sua espera a noite toda, Cinderella.
Frustrada, comecei a procurar pelas minhas chaves – Eu sei, eu sei... mas será que dá pra dizer se eu devo trocar de roupa ou não? – murmurei quase que implorando.
–- Bom o suficiente para alguém como você. Agora, some daqui!
Sério, será que ela não tinha cérebro o suficiente para nem sequer me dar uma opinião? Com raiva, bati a porta com força e desci os dois lances de escada o mais rápido que eu pude, já que esperar pelo único elevador que funcionava decentemente em meu prédio só iria fazer com que eu acabasse perdendo ainda mais tempo. Ao chegar no hall, vi um taxista com cara de poucos amigos olhando impacientemente para um relógio em seu pulso.
– Boa noite, por favor senhor, a Carmine Street no West Village.
– Ah então é você a atrasada, não é? Você sabe que eu ganho por hora, não é mocinha? Os cinco minutos que eu passei parado aqui serão descontados na corrida.
Corei em um vermelho cereja e entrei no carro o mais rápido que eu pude. Encolhi-me contra o banco enquanto escutava ele bradando várias besteiras sobre falta de educação de passageiros e o trânsito infernal que essa cidade costumava ter.
Meu celular começou a tocar e eu me desesperei tentando encontrá-lo dentro da bolsa. Quando olhei para o display meu coração se acelerou vigorosamente ao ver o nome de Edward, piscando para mim incessantemente.
– Eu já estou chegando! - respondi imediatamente à medida em que olhava o trânsito a minha frente.
– Eu já estava começando a imaginar que eu iria levar um bolo.
– Desculpa, desculpa! Eu tive alguns probleminhas ao longo do dia. Escutei sua risada macia e aquilo trouxe um sorriso aos meus próprios lábios
– Tudo bem, Bella, sem problemas. Te espero na frente da pizzaria.
– O-ok, então - respondi nervosa – Te vejo daqui a pouco.
– Até daqui a pouco, linda.
Desliguei o aparelho e desejei que meu coração parasse de saltitar como se estivesse prestes a sair pela minha garganta. Não sabia ao certo o que eu queria; uma parte de mim desejava que o trânsito a nossa frente sumisse e eu chegasse o mais rápido possível até onde Edward estava, enquanto a outra ansiava para que levasse só um pouquinho mais de tempo para que eu me acalmasse mais.
Eu estava com medo de como eu agiria na frente de Edward, agora que tinha plena consciência de que eu gostava dele mais do que uma amiga deveria gostar. Tinha receio de que não soubesse agir como antes, como no hospital, onde nossa conversa fluía tranquilamente. E se eu não soubesse o que falar e ficasse muda durante todo o jantar? Ou pior; agisse igual a uma tagarela e acabasse falando alguma besteira? E se ele ficasse enjoado de mim?
Deus, acho que vou vomitar...
Não tive nem tempo para pedir que o táxi parasse para que eu fizesse isso. Bem antes do que eu imaginava, o carro estava parando abruptamente e o taxista já anunciava o preço da corrida. Com as mãos trêmulas, cacei uma nota de 10 dólares e pedi para que ele ficasse com o troco. Reunindo toda a coragem que eu tinha, abri a porta do carro e desci na calçada já bem perto da pizzaria.
Assim que comecei a caminhar na direção do restaurante, eu o percebi; recostado a uma das pilastras da entrada, olhando alguma coisa em seu celular enquanto a outra mão livre se ocupava em bagunçar seus cabelos. Eu perdi o fôlego ao notar como ele era ainda mais bonito em roupas casuais, sem nenhum capote verde-folha e nenhum jaleco branco cobrindo seu físico. A camiseta cinza com decote em "v" e a calça de lavagem escura se moldavam perfeitamente ao seu corpo esguio e uma jaqueta jeans desleixada completava seu visual casual. Absolutamente perfeito.
Alguns passos mais a frente e ele finalmente levantou seus olhos do celular e me viu. Meu coração trovejou em meu peito á medida em que eu me aproximava e percebia que Edward continuava sem reação alguma. Quando mais próxima ficava dele, mas ele me encarava como se tivesse acabado de presenciar uma batida entre carros ou visto a reencarnação do Allien.
Será que eu tinha me produzido demais? Meu cabelo estava armado ou era a maquiagem que estava exagerada? Também, o que foi que eu estava pensando ao deixar Irina, a russa maldita, me produzir? Era só uma pizza e um cinema, pelo amor de Deus!
Finalmente, Edward resolveu se mexer e encurtar a distância que havia entre nós. Para minha grande surpresa, ele me abraçou de um jeito carinhoso que fez com que cada poro do meu corpo se transformasse em um terminal elétrico. Fui assolada pelo seu cheiro quando ele aproximou seu rosto do meu, deixando um beijo em minha bochecha.
– Puta merda, Bella! Você está linda! – ele sussurrou, antes de me apertar em seus braços uma última vez.
Meu rosto como sempre me entregou e foi perceptível, até mesmo para mim, o calor se acumulando em minhas bochechas – O-obrigada – murmurei e acrescentei ficando ainda mais vermelha – Você também não está nada mal.
Ele abriu seu mais perfeito sorriso torto – Com fome?
– Hmrum.
– Então vamos. Quero te empanzinar com a melhor pizza da cidade. – disse ele ao passar a mão por minha cintura, nos guiando até a entrada do restaurante.
O local não era muito grande, quase do tamanho de uma garagem apesar de ficar em uma das esquinas mais movimentadas da cidade. Eu já tinha ouvido falar bastante da pizza daqui, principalmente depois que a fachada do restaurante tinha aparecido em uma das cena do Spiderman II. Além de não ser cara, as massas daqui tinham sido consideradas uma das 25 melhores do mundo. Não havia como não babar apenas ao sentir o cheiro de queijo e orégano quentinhos.
Para nossa sorte, o local não estava lotado e foi fácil conseguir uma mesa livre. O clima era bem aconchegante e uma música italiana tocava baixinho fazendo um fundo musical. Nas paredes, haviam diversas fotos de personalidades e artistas ao lado do Joe, o dono do estabelecimento. Pegamos uma mesa no canto, que tinha a imagem do Mathew Broderick, um dos meus atores favoritos dos anos 80.
Edward percebeu meu interesse e comentou com um sorriso – Por querer imitar esse cara, eu quase me ferrei quando tinha uns 17 anos.
– Por que? Você tentou matar aula com seu melhor amigo e sua namorada? – perguntei enquanto ele afastava a cadeira para que eu me sentasse.
– Mais ou menos. Na verdade, foi meu irmão mais velho que quis dar uma de Ferris Bueller enquanto eu fazia o papel do amigo pau-mandado dele.
– O que foi que aconteceu?
– Meu pai tinha uma convenção de pediatria em Austin e acabou levando minha mãe junto. Apesar de sermos três adolescentes, meus pais tinham bastante confiança em nós... até então. Emmett sendo o imbecil que é, me convenceu a não ir para a escola e de quebra roubarmos o Mercedes de Carlisle para darmos um passeio.
"Rodamos Seattle inteira, parando em quase todas as garagens que tocavam Nirvana e Pearl Jam. Mas a nossa merda foi não termos levado Alice, minha irmã mais nova, conosco. Desde muito nova ela odeia ser contrariada e por isso, conseguiu ser pior que a Jeanie no filme. Ela simplesmente ligou para o hotel onde Carlisle e Esme estavam hospedados e fez uma denúncia anônima acusando o desaparecimento do carro do meu pai."
Eu não consegui segurar o riso – E então vocês foram pegos?
– Sim, mas só depois de eu ter destruído o capô inteiro do carro, ter quebrado meu nariz e duas costelas do Emmett ao tentar fugir de uma blitz.
– Você destruiu o carro do seu pai?!
– Porra, eu tinha acabado de tirar a habilitação e estava assustado pra cacete com a quantidade de policiais me perseguindo.
Nós rimos juntos, até sermos interrompidos por um garoto por volta dos dezesseis anos que tinha o rosto coberto de espinhas e um aparelho nos dentes – Bem vindos ao Joe´s Pizza, Meu nome é Riley e lhes atenderei essa noite. Posso lhes trazer algo para beberem? – ele inquiriu diretamente para mim.
– Uma coca, por favor.
– Bella, – Edward perguntou um tanto sem jeito o que me surpreendeu um pouco – você se importaria se eu tomasse uma cerveja? Tecnicamente, essa noite é minha última noite livre já que eu não posso de consumir nada alcoólico antes dos meus plantões...
Estiquei minha mão e pousei levemente sobre a dele que estava apoiada em cima da mesa – Edward, tudo bem. Eu não me importo. Na verdade, se eu gostasse de cerveja eu até que acompanharia você.
Ele pareceu aliviado, quando se voltou para Riley e pediu – Uma Guiness.
O garoto anotou tudo em um pequeno bloquinho e deixou dois menus sobre a mesa antes de voltar para a parte de trás do balcão. Notei que Edward estava cabisbaixo, quase com uma careta em sua face, o que era bastante estranho já que a cinco segundos atrás ele sorria lindamente para mim.
Aproveitei me minha mão ainda continuava sobre a dele, apertando-a levemente –O que houve?
Ele suspirou resignado e voltou seu rosto para mim. – Eu só faço merda mesmo. Passo meses te chamando para sair e justo no primeiro encontro vou logo pedindo a porra de uma cerveja. No mínimo, você deve estar me achando um alcoólatra ou algo assim...
Eu ri alto. Muito alto. Tive que cobrir minha boca com uma das mãos por vergonha de acabar incomodando os outros clientes. Edward continuou a me encarar como se eu tivesse perdido meu juízo, o que só fez com que eu me descontrolasse ainda mais. Não sabia se tinha sido a forma envergonhada com a qual ele havia dito aquilo ou se ainda era alguma consequência do nervosismo que sentia no início da noite.
– Esquece, eu vou cancelar a cerveja.
– Não! – Eu pedi, arfando um pouco em busca de ar – Não é isso. Só foi a sua cara quando disse que eu te acharia um bêbado. Foi engraçado.
– Que bom que, pelo menos, eu te divirto. – ele comentou com um rolar de olhos, embora um sorriso começasse a se formar em sua face.
– Você sempre me diverte, Edward. E não se preocupe se você quiser se embebedar um pouco; eu não me importo. Só lembre-se de me dar seu endereço para que eu o diga ao taxista onde te jogar quando você estiver inconsciente.
Ele ergueu uma sobrancelha e o sorriso se tornou um pouquinho arrogante. – Isso tudo é um pretexto para saber onde eu moro, Swan?
Senti meu queixo cair e meu rosto se inundar de sangue. – Não! – retruquei rapidamente, me sentindo ridícula por ter dito algo como aquilo. – Foi apenas uma brincadeira! Eu não sei quantas garrafas você quer beber e nem qual é seu nível de tolerância ao álcool, mas não acho que você tenha a intenção de sair carregado daqui ou...
Fui interrompida pelo som da risada dele, – Não seja boba, Bella. Eu só estava brincando. – comentou apertando a ponta do meu nariz. – Eu só quis te deixar sem graça, assim como você me deixou há 10 segundos atrás.
Dei um tapinha em seu antebraço e ele se manteve rindo enquanto nosso garçom deixava nossas bebidas em cima da mesa. – Prontos para pedir? – ele perguntou.
Nesse meio tempo de conversa com Edward, não tive tempo sequer de ver o menu que ele havia deixado assim que chegamos. Folheei rapidamente o cardápio, sem ter ideia do que iria pedir. – Tudo me parece tão bom! Sério, não sei o que escolher. –murmurei ainda encarando os nomes de todos os pratos que faziam com que minha boca salivasse exageradamente.
– Você gostaria de alguma massa ou prefere uma pizza mesmo? – Edward inquiriu.
Dei de ombros, – Tanto faz, eu acho.
– Sério, Bella. você não está ajudando aqui.
– Pode escolher, então. Eu confio em você. – pedi com um sorriso. – Além do mais, eu posso escolher o filme, combinado?
Estiquei minha mão para firmarmos o acordo e Edward a pegou. No entanto para minha surpresa, ao invés de apertá-la ele a levou até os lábios pousando um beijo no dorso delas. – Como você quiser, linda.
De novo, aquela sensação de borboletas voando agitadas no interior de minha barriga me assolou. Tudo parecia se intensificar quando ele me tocava ou me olhava com seus profundos olhos verdes; me faltava o ar, palavras e sensatez para saber agir normalmente perto dele.
Enquanto esperávamos a pizza, que ele havia escolhido, chegar, a conversa fluiu facilmente;não houveram silêncios estranhos e nem falta de assunto entre nós dois. Parecia meio bobo agora, toda aquela insegurança que eu estava sentindo logo no inicio da tarde; Edward agia brincalhão e atencioso, exatamente igual como na cafeteria do hospital, exceto pelos toques casuais em meu braço ou por sua insistência em colocar uma mecha teimosa atrás do meu cabelo.
Acho que não demorou muito para que a nossa Pepperone tivesse chegado – se bem que eu não era a melhor pessoa no mundo para mensurar o tempo naquele instante. Edward aproveitou para pedir uma nova coca para mim e um refrigerante para si próprio, à medida em que eu partia as fatias e nos servia. Quando experimentei o primeiro pedaço, não pude evitar um gemido ao comprovar a razão de aquela pizzaria ser tão famosa assim. Definitivamente era a melhor que eu havia comido em toda minha vida.
– Bom, não é? – Edward disse fazendo eco aos meus pensamentos.
Assenti firmemente, – Com certeza a melhor que experimentei até hoje!
Alguns momentos depois, uma música diferente começou a tocar nas pequenas caixas de som que haviam ao longo das paredes e eu sorri quando reconheci a canção de um dos meu filmes preferidos da infância. – Eu adoro essa música! – comentei, depois de beber um pouco mais do refrigerante.
– Que música? – Edward inquiriu.
– Essa que está tocando agora, a do filme A Dama e o Vagabundo.
Ele escutou por alguns instantes e o reconhecimento apareceu em sua face. – Ah é. Na cena do espaguete, certo?
– Como é que você sabe?
– Eu sou pediatra, Bella. Eu tenho que ver essas besteiras porque meus pacientes, especialmente as meninas, adoram essas merdas.
Eu sorri e peguei o guardanapo para limpar um pouquinho de molho que havia ficado em seu queixo –Não sei como você consegue evitar esses palavrões na frentes das crianças. – murmurei enquanto ele esperava que eu terminasse.
– Não é sem esforço. Me controlo ao máximo na frentes dos pais para não levar um processo por essas porr...porcarias. – ele disse, levemente preocupado. – Sei que nunca te perguntei isso antes, mas isso te incomoda?
Coloquei a quarta e última fatia no prato dele a medida em que lhe respondia. – Nem um pouco, Edward – muito pelo contrário, acrescentei mentalmente. Achava um charme ele não ter nenhum filtro de noção enquanto falava – Eu te conheci desse jeito. Seria injusto querer mudar isso depois de tanto tempo.
– É por isso que eu gosto de você, Bella. Posso ser eu mesmo ao seu lado. – ele comentou e eu sorri levemente enquanto nos fitávamos por alguns segundos além da conta. Logo em seguida, ele completou – E se eu soubesse que Bella Notte fosse tocar aqui esta noite, eu com certeza teria pedido espaguete.
Minhas sobrancelhas se unirão em confusão – Por que?
– Porque seria uma oportunidade perfeita para refazer aquela cena do beijo com você.
Eu dei uma risada meio esganiçada, já que meu fôlego havia ficado completamente preso em minha garganta. Evitei olhar diretamente para ele e fiquei brincando com as pontas do guardanapo enquanto esperava que meu coração parasse de bater tão acelerado. Podia parecer estúpido, no entanto, eu temia encará-lo e descobrir se ele estava apenas brincando ou se tinha algum fundo de verdade no que ele havia dito.
Escutei-o tomar uma respiração profunda e dizer – Bella, eu...
– Estão prontos para a sobremesa?
Nós dois viramos o rosto ao mesmo tempo para ver o menino que era nosso garçom sorrindo para nós com sua boca metálica. Eu soltei um suspiro de alívio à medida que Edward encarava Riley com cara de poucos amigos.
Comecei a notar a expressão do pobre garoto se alterando para o nervosismo e decidi intervir o quanto antes. – Eu acho melhor não... – comecei devagar e assim como imaginei Edward voltou a me fitar – Eu não vi até que horas o cinema fica aberto hoje à noite, então talvez seja melhor irmos andando.
Mesmo parecendo um pouquinho desapontado, ele disse com um sorriso – Como você quiser, Bella. – se voltou para Riley e acrescentou. – A conta, por favor.
O garçom saiu com uma cara confusa, e eu voltei a ficar sem jeito, não sabendo o que falar depois que ele tinha mencionado indiretamenete que queria me beijar. Estava prestes a temer que aquele tão receoso "silêncio estranho" preenchesse nossa noite, porém Edward enveredou em outro assunto.
– Então, você nunca mencionou que conhecia um cinema aqui por perto. Eu moro nessas redondezas há quase dois anos e nunca ouvi falar dele antes.
Agradeci aos céus pela mudança de assunto, – Eu o encontrei por acaso na primeira semana que eu vim para cá. Tinha acabado de fazer a matrícula da pos na Columbia quando resolvi caminhar um pouco pela cidade. Comprei um guia de Nova Iorque e estava vindo conhecer essa pizzaria quando achei um prédio com cara de abandonado com um cartaz de O Corvo na entrada.
– Você gosta de filme de terror?
Meneei a cabeça positivamente, – Na verdade, de qualquer filme com orçamento barato e com roteiros incríveis.
Ele balançou a cabeça incrédulo, – Quando eu penso que não vou mais me surpreender, você me aparece com essa, Bella.
O garçom voltou e Edward insistiu em pagar toda a conta sozinho, o que me deixou levemente irritada. Ele ignorou completamente meu pedido para contribuir, dizendo algumas besteiras como "homens sempre pagam" e "fui eu que convidei". Cruzei os braços sobre o peito enquanto Edward só fazia rir e repetir o quão ridícula eu estava sendo, e assim, saímos para as ruas de temperatura amena naquela noite de verão.
– Qual é, Bella – ele começou envolvendo um de seus braços sobre o meu ombro a medida que caminhavamos – vai ficar com raivinha só porque eu quis pagar uma conta de menos de 20 dólares? – como não ousei responder, ele continuou, –eu te deixo pagar pelas entradas no cinema, se isso te deixar feliz.
– As entradas dos filmes custam apenas dois dólares. – murmurei, querendo estar com raiva mas sem conseguir direito por estar tão próxima a ele.
– Então você pode simplesmente deixar que eu tome uns cafés de graça na próxima semana. Simples.
Mordi meu lábio inferior, sentindo um gelo em minha barriga ao ter que tocar naquele assunto naquele instante. – Eu não vou mais voltar para o hospital, Edward.
Ele parou a meio passo, soltando meus ombros e ficando a minha frente. – Aconteceu alguma coisa?
- Eu fui chamada hoje de manhã para uma entrevista de emprego. Vou trabalhar no New York Daily pelos próximos meses. – murmurei enquanto fitava alguns fiapos soltos em cima da minha sapatilha.
– Hey, isso é ótimo! – ele murmurou, erguendo meu queixo para que pudesse me ver melhor – Por mais que eu adore sua companhia, você não é o tipo de garota que nasceu para ficar presa em uma cafeteria, Bella.
– Você acha? – pedi insegura
– É claro. Você é talentosa, inteligente, escreve bem pra caralho... Já estava mais do que na hora desses editores idiotas te contratarem.
– Obrigada, Edward. – senti meu cenho franzindo, quando lhe inquiri – Mas como é que você sabe que eu escrevo?
Por incrível que pareça, jurei ter visto uma sombra vermelha colorindo suas bochechas – Lucy comentou que você vendia umas estórias para algumas revistas. Eu fiquei curioso, comprei uma e li. – ainda parecendo envergonhado, ele me olhou com o canto de olho e voltou a caminhar. – Pode me processar, se quiser.
Voltei a acompanhar seus passos, com meu rosto mais quente do que nunca – Quando foi que você leu? Pelo amor de Deus, não me diga que foi aquele conto idiota sobre vampiros!
Edward riu alto e segurou minha mão à medida em que virávamos a esquina – Eu achei legal. – bufei alto e ele continuou – De fato, era algo para adolescentes, mas ficou bem interessante. Talvez ficasse melhor se você tivesse colocado alguma coisa parecida a season finale da primeira temporada de True Blood.
Dei um tapa em seu braço antes de enlaçar o meu ao dele – Pervertido!
Parei quando chegamos bem em frente ao prédio o qual eu já havia vindo várias vezes desde que me mudara para a Big Apple. Para minha sorte, eles estavam exibindo Hable con Ella, um filme espanhol bem recente, que tinha recebido críticas maravilhosas desde que havia sido lançado.
– É aqui? – Edward perguntou, olhando desconfiado para o local à medida em que íamos até a bilheteria pegar nosso ingressos.
– Hmrum. Eu sei que está meio acabadinho, no entanto, os melhores filmes de todos os tempos são exibidos aqui.
–- Mas é em espanhol...
Cruzei os braços sobre o peito, enquanto esperávamos a nossa vez na fila. – E qual é o problema nisso? Os filmes de Almodóvar não tem o mesmo orçamento dos de Hollywood mas nem por isso deixam de ser sensacionais, sabia?
Ele revirou os olhos – Não é esse o problema, Bella. E que eu não vou entender porra nenhuma.
– O filme é legendado – retruquei abrindo minha bolsa, assim que vi o guichê livre à nossa frente.
– Acho que vou acabar me perdendo... sou péssimo em acompanhar legendas. – ele murmurou enquanto enfiava a mão no bolso em busca de sua carteira.
Fui mais rápida e entreguei uma nota de cinco dólares à atendente com cara de enjoada que mascava um chiclete. Peguei o troco e nossos bilhetes e arrastei Edward até o balcão de pipoca. – Por favor, você é médico. Garanto que você consegue fazer coisas mais complicadas do que acompanhar aquelas letras amarelas em uma tela com mais de dez metros.
– Touché. – ele disse, apontando para o atendente alguns chocolates – Agora vem, porque você confiscou minha sobremesa e eu precisarei de muita glicose para conseguir me manter acordado para esse filme.
Só então eu percebi que podia estar sendo uma chata insistente e mandona – Se você quiser, nós podemos ir a outro lugar...
– Só estou brincando, Bella. É claro que eu vou assistir esse filme com você.
Outra vez, eu não tive alternativa a não ser ceder e deixar que ele comprasse chocolate suficiente para abastecer um bairro inteiro por meses. Ele me conduziu pela sala escura, colocando a mão no vão de minhas costas, me guiando até um local bem no meio da sala, que já estava à meia luz e exibindo alguns traillers. Sentei-me com as pernas cruzadas sobre a cadeira, colocando todo meu estoque de barrinhas em meu colo. Edward se jogou na cadeira, apoiando os pés logo acima da poltrona a nossa frente.
Ergui uma sobrancelha e ele respondeu dando de ombros – Eu nunca estive em um cinema praticamente vazio antes. Eu meio que sempre sonhei em fazer isso.
Pouco tempo depois, os créditos iniciais do filme começaram, e eu fui tragada para dentro da estória que tinha uma sensibilidade inigualável, retratando a relação de dois maridos com suas esposas em coma. Era algo tão encantador que praticamente o mundo ao meu redor pareceu sumir. Tudo que importava era a tragédia em comum das vidas de Benigno e Marco.
Entretanto, vez ou outra eu sentia os olhos de Edward sobre mim. Me virava a tempo de vê-lo me fitando com seus sorriso torto, e eu retribuía o gesto com um pouco de timidez e peito acelerado. Em certo ponto, percebi sua palma voltada para cima sobre o braço de nossas cadeiras. Mesmo hesitando um pouco, permitir que nossas mãos se entrelaçassem e permanecessem assim até o final do filme.
Cedo demais, os créditos finais começaram a subir na imensa tela e a iluminação do ambiente começou a voltar. Espreguicei-me um pouquinho e escutei Edward rindo outra vez. Quando lhe inquiri sobre isso, ele simplesmente deu de ombros, comentando que eu parecia uma gatinha preguiçosa se espreguiçando depois de acordar.
Em resposta, revirei os olhos e o puxei da poltrona para que saíssemos dali. Continuamos de mãos dadas por todo trajeto até nosso ponto de encontro no início da noite, o tempo todo eu murmurava sem parar cada uma das milhares tomadas sensacionais ao longo do filme. Edward assentia ou acrescentava algum comentário próprio. Caminhávamos devagar pelas ruas ainda movimentadas da metrópole, apesar de já se passarem da meia-noite.
Já perto da entrada do restaurante, Edward parou ao lado de um Volvo prata, destravando a porta e abrindo-a para mim.
– Não precisa se incomodar – sibilei, soltando sua mão. – Eu posso conseguir um táxi rapidinho por aqui, não se preocupe.
– E que tipo de cara eu seria se te deixasse tarde da noite, sozinha, esperando sabe se lá Deus por quem, justo depois do nosso primeiro encontro?
– Eu não moro longe daqui – retruquei ainda envergonhada.
– Viu? Mais um motivo para que eu te leve.
– Mas...
– O que? – ele questionou erguendo uma sobrancelha – Foi porque eu bebi ou por conta do comentário sobre o carro do meu pai? Se for por isso, eu te juro que não estou alcoolizado o suficiente e tinha apenas um mês que habilitação naquela época.
Rolei os olhos, mas mantive o sorriso em meus lábios – Tá bom, Edward. – disse com um suspiro – Eu deixo que você me leve até em casa.
Ele sorriu triunfante e fez uma mesura ao escancarar a porta. Agradeci-lhe com um sorriso e o assisti enquanto ele dava a volta na frente do veículo e entrava no banco condutor, ligando o motor logo em seguida. – Qual é o destino, Madame?
– 34th Street, esquina com a Fashion Avenue.
– Você mora na rua das modelos – ele zombou ao reconhecer o local.
Dei de ombros – Foi o único local mais central e barato que eu encontrei quando me mudei para cá. Não entendo nada de moda e sei que não sou bonita como as meninas que costumam morar por á, mas...
– Você tem razão quando diz que não é bonita como as mulheres que moram por lá, – ele murmurou. – Não se pode comparar uma deusa como você com aqueles sacos de ossos ambulantes.
Desviei meu olhar com minha bochechas pegando fogo. Não soube retrucar, então permaneci calada enquanto ele acelerava pelas ruas de Manhattan. O silêncio dominou o carro depois disso, contudo, ele não era estranho; parecia até que havia um zumbido que nos atraia, apesar de todos os esforços que eu fazia. Era algo estranho e bom ao mesmo tempo, que me aquecia por inteiro apesar de todos os meus temores em relação a meus sentimentos por ele.
– Qual é o prédio, Bella?
Surpresa, levantei e virei meu rosto para a janela, percebendo que já nos encontrávamos na rua em que eu morava, – Aquele edifício azul ali na frente. O com degraus na entrada. – murmurei sem jeito.
Edward assentiu, e encontrou uma vaga livre bem em frente àquele que era o meu lar. Ele desligou o motor enquanto eu desatava o cinto de segurança. Quando fiz menção de abrir a porta, Edward pousou sua mão em meu joelho e uma descarga elétrica passou por todo o meu corpo.
– Deixa que eu faço isso. – ele sibilou com uma voz rouca além de sexy.
Meneei a cabeça concordando e assisti enquanto ele saía do carro e dava a volta mais uma vez, vindo abrir minha porta. Segurei sua mão para me apoiar quando saí do veiculo, apesar de que aquilo não ajudou muito no meu equilíbrio. Andamos
lado a lado pela calçada até chegarmos aos primeiros degraus da entrada do edifício. Subi um deles e aquilo deixou nossos olhos no mesmo nível, enquanto nossas mãos continuavam balançando distraidamente entre nós dois.
– Olha, Bella – ele começou, depois de limpar a garganta uma vez – Eu queria dizer que sinto muito pelo que eu disse lá no carro, mas eu não consigo. Sei que talvez eu posso ter exagerado mas, não podia deixar de te dizer o quanto eu te acho linda.
Soltei todo o meu fôlego de uma vez – E-eu... acho que t-tudo bem – gaguejei como uma imbecil – Só não sei lidar muito bem com isso.
– Alguém como você deveria estar acostumada a ouvir isso o tempo todo – ele murmurou, usando sua mão livre para acariciar minha bochecha.
Ficamos nos olhando por um longo tempo, sem saber muito bem como terminar aquela noite que havia sido tão perfeita – pelo menos para mim. Sabia que precisava dizer alguma coisa, mas não sabia ao certo o que falar. Porém, quando decidi dizer alguma coisa, ele foi mais rápido e falou.
– Eu seria muito idiota se eu dissesse que quero manter o contato com você? Eu não sei quando é que eu vou te ver de novo, agora você não vai mais estar no hospital... Você se tornou alguém importante para mim, Bella e eu não queria que nos afastássemos.
– Você também é muito importante para mim. Acho que você meu único amigo, desde que vim morar nessa cidade.
Seu lábios se curvaram minimamente, mas seus olhos pareciam um tanto que desconcertados quando ele me respondeu. – Claro... somos bons amigos.
Eu lhe sorri e peguei um bloquinho de anotações que eu carregava sempre comigo na bolsa. Rabisquei rapidamente meu e-mail e o telefone do apartamento, entregando-lhe o papel logo em seguida. –Agora você já sabe onde moro e meus telefones. Se algum dia eu resolver criar um blog, eu juro que lhe passo o endereço também.
O sorriso que ele usava permaneceu o mesmo enquanto ele guardava o papel dentro da carteira. Colocar um ponto final naquela noite estava sendo mais difícil do que eu imaginaria ser possível, entretanto, eu não devia mais ficar o segurando ali por tanto tempo.
Respirei fundo e com toda coragem que reuni, consegui dizer. – Eu me diverti muito esta noite, Edward.
Ele me lançou um sorriso de canto e respondeu – Eu também, Bella. Se você soubesse disso antes, talvez não tivesse levado tanto tempo para aceitar sair comigo, não é?
– Definitivamente.
Sorrimos juntos como dois idiotas, até que ele finalmente abriu os braços e me envolveu em um abraço sem jeito. – Até logo, linda.
Sentir seu corpo tão perto do meu desencadeou alguma reação em mim, porque fui acometida por uma vontade de não querer deixá-lo nunca mais. Seus braços fortes ao meu redor, o perfume almiscarado e masculino de sua pele e a suavidade de seus cabelos roçando em minha bochecha impulsionaram uma determinação que eu nunca imaginei que teria em se tratando de agir impulsivamente com alguém.
– Tchau, Be-...
Edward nunca completou sua frase porque naquele momento eu apoiei minhas mãos sobre seus ombros e o beijei. A maciez de seus lábios que ainda tinham um gostinho do chocolate consumido no cinema fez com que eu respirasse sobre sua boca, tentando saborear um pouco mais daquele contato delicioso.
Só quando entreabri meus lábios sobre os deles que percebi que Edward não estava reagindo. Ele parecia imóvel, os braços pousados pesadamente ao lado do seu corpo. Me afastei milimetricamente e notei que seus olhos estavam amplos como se não tivesse acreditado no que estava acontecendo entre nós dois.
Vergonha e humilhação me tomaram por completo e me afastei dele o mais rápido que pude.
– Desculpa, Edward e não sei o que deu em mim. Eu tenho que ir. - falei alto e de uma única vez. Sentindo meu rosto em chamas, subi correndo as escadas que me levariam até o apartamento em que morava. Eu só pensava em chegar o quanto antes a minha cama e chorar por toda a idiotice que eu havia feito.
No entanto, do nada, eu senti um puxão em meu antebraço e me virei a tempo apenas de ver os olhos de Edward ardendo.
Tudo aconteceu muito rápido; em um momento, eu estava prestes a lhe pedir desculpas novamente e no outro os seu lábios já estavam sobres os meus, de maneira urgente. Por conta da surpresa, minha boca se entreabriu e Edward aproveitou o movimento para puxar meu lábio inferior entre os seus. Um de seus braços me segurava pela cintura enquanto o outro subia em direção aos meus cabelos. Gemi baixinho e finalmente me permiti aproveitar o seu beijo.
Minha mão encontrou sozinha o caminho para a nuca dele, trazendo-o ainda mais para perto de mim e quando ela se fechou em punho, sobre suas mechas foi a vez dele gemer e imprensar ainda mais seu corpo contra o meu. A ponta de sua língua tracejou com delicadeza meus lábios, e eu lhe respondi permitindo que ele tivesse o acesso que quisesse. Senti-lo sorrindo antes de finalmente sorver completamente minha boca.
Nossas línguas guerreavam entre si, numa batalha onde nós dois éramos vencedores. Eu não havia beijado muitos garotos na minha vida, porém mesmo se tivesse, acho que nada podia se comparar à doçura, calor e desejo que se misturavam naquele beijo só nosso. Era tudo tão envolvente que o fôlego parecia uma coisa supérflua para nos preocupar.
Edward deu, um, dois, três beijos rápidos antes de se afastar de minha boca. Sua testa recostou-se a minha enquanto assistia um sorriso perfeito aparecer em seu rosto à medida em que seu polegar traçava o local que ele havia acabado de beijar. – Porra, você beija bem pra caralho, Bella.
Eu ri levemente. – Você também.
Ele deixou pequenos beijos da minha testa até a ponta do meu nariz. – Eu queria fazer isso desde que eu te vi na porta da pizzaria.
Minha risada saiu sufocada, quando eu lhe respondi. – Eu meio que também queria ter feito isso.
Ele riu de leve, seu hálito se misturando ao meu enquanto ele se aproximava outra vez dos meus lábios, uma de suas mãos segurando delicadamente minha face. – Não quero te pegar desprevenida outra vez, então só para avisar, eu vou te beijar de novo.
– Por favor... – eu sussurrei, minhas pálpebras vibrando antes que ele tomasse minha boca outra vez.
Edward não parecia ter pressa ao beijar cada canto dos meus lábios com extremo cuidado, seu beijo tinha o equilibro certo entra a suavidade e força, Ora era mais intenso, quase como se quisesse me consumir por inteira através de sua boca. Ora era devagar e doce, tanto que tinha a impressão que poderia flutuar a qualquer instante.
Eu estava tão embriagada pelo momento que só pude perceber que estava ficando sem ar quando ele murmurou contra meus lábios. – Respire, Bella.
Puxei o ar com bastante força para os meus pulmões e isso o fez rir com gosto. Abri meu olhos apenas para observá-lo me fitando, seus olhos agora brilhando lindamente ao mesmo tempo que sua outra não livre acarinhava minha cintura.
– Eu acho que me desacostumei a fazer isso. – respondi timidamente, sentindo minhas bochechas quentes.
– Não tem problema. – ele respondeu com um sorriso triunfante.– Eu posso te ensinar de novo.
Eu ri baixinho e escondi meu rosto em seu peito. – Convencido!
Ele riu e me embalou por alguns segundos em seus braços antes de dizer – Odeio fazer isso, mas eu tenho que ir... Amanhã eu começo no plantão no final da manhã.
– Tudo bem. – retruquei, ainda sem soltá-lo de meu abraço.
Ele passou a mão pelos cabelos antes de pedir sem jeito – Talvez eu esteja arriscando demais, mas será que você poderia tomar um café da manhã tadio comigo amanhã? È meu último momento de folga e eu não sei quando irei te ver de novo...
– A que horas?
Ele roubou outro selinho beijo e disse – Passo aqui por aqui às dez, pode ser? Confirmei meneando a cabeça e antes de partir Edward e eu trocamos outro longo
beijo. Fiquei na escadaria do prédio enquanto ele ia até seu carro e partia, acelerando de volta para sua casa. Entrei no meu prédio praticamente flutuando, me sentindo mais viva do que nunca. No entanto, eu ainda tinha receio quanto a durabilidade desse quase romance. Nós dois tínhamos milhares de prioridades em nossas vidas e algumas delas poderiam traçar nossos destinos, levando um para bem longe do outro.
Porém, por hoje eu não pensaria nisso. Queria apenas lembrar da sensação de sua boca ávida sobre a minha. Afinal de contas, o futuro dessa relação só podia ser escrito por duas pessoas; Edward e eu.
Mas por enquanto, eu só podia torcer para que tudo acabasse com um final feliz.
Sabe o que é melhor nisso tudo? Que a gente já sabe como tudo termina!
Vou dá uma dica para vocês do próximo capítulo. Uma bebezinha, Edward e Bellinha hormonal! Qual será o resultado dessa mistura?
Beijos e até a próxima!
