Olá meninas, tutupom?
Hahaha! Quem é vivo sempre aparece, não é mesmo? E como ano novo é tempo de novas resoluções, eis que me comprometi a escrever de novo. Apesar de vida adulta não ser fácil, creio que dá sim pra encontrar um tempinho a mais para voltar a me dedicar a esse hobby tão gostoso que é a escrita. Vou tentar ao máximo não decepcionar vocês com hiatus muito longos, fechado?
No mais, tenho que dizer que temos aqui um pouco de drama! Nada muito sofrência a la Marília Mendonça, mas as vezes é bom ficar com o coração apertadinho... (pega a doida!)
A parte boa é que não é nem a Bellinha nem o Edward que irão pegar o violão, um copo de cerveja, whisky, um cigarro... Mas lembram da Hannah, a monitora de residência do Edward? Bem a estória será contada no ponto de vista dela. Estranho, eu sei, mas a culpa foi de uma madrugada de insônia que me fez pegar meu celular as 3h e pouca da manhã e esboçar tudo isso.
Não posso deixar de agradecer aqui a Cella, rainha do Pará, por ter betado e ter se empolgado demais com minha volta ao mundo da escrita! Espero de coração que o vírus da inspiração viaje até Belém para infectá-la também! Tamo juntas, sis!
É isso! Espero de coração que vocês curtam a leitura!
Inverno 2007.
Odeio noites frias.
Tendo nascido em dos Estados mais quentes da América, eu estava acostumada a ter sempre a companhia do sol, independente da época do ano. Gostava de sentir minha pele sendo aquecida pelos raios ultravioletas e do ar pesado e úmido quando respirava profundamente após uma longa corrida na beira da praia. O calor, a umidade e o clima quase tropical da Flórida, lugar onde vivi meus últimos trinta e nove anos, era uma das minhas maiores saudades desde quando decidi me mudar para Nova Iorque.
E mesmo com os pesados edredons que me cobriam nesse exato momento e tendo um corpo másculo e quente bem ao meu lado, esta cidade estava sempre fria. Fria até demais.
Tudo aqui era completamente diferente do que estava acostumada: ruas sempre barulhentas, não importa se você estivesse no Bronx ou em SoHo, independente se fosse 2h da tarde ou 3h30 da manhã. Havia pessoas em todos os lugares do planeta, das mais diferentes etnias e religiões. NYC era a metrópole do mundo, como todos diziam.
E como todo lugar metropolitano, aqui todos pareciam estar com pressa; poderia contar nos dedos os momentos em que encontrei alguém gentil e solícito desde que cheguei. Impessoais demais, reservados demais. A cada dia eu sentia mais falta do povo mais caloroso que viviam entre os trópicos.
Às vezes eu me questionava se tinha feito a escolha certa ao mudar radicalmente meu estilo de vida. É inegável que a oportunidade foi única, afinal, não é todos os dias que se recebe o convite para chefiar o setor de pediatria clínica de um dos melhores hospitais do país. Somente uma pessoa louca ou muito acomodada não aceitaria esse desafio.
Some isso ao fato de que minha vida pessoal no último ano ter sido uma verdadeira droga. Um casamento conturbado, uma gravidez não planejada, um aborto espontâneo e finalmente, um processo de divórcio doloroso. Mudar de ares parecia ser uma verdadeira tábua de salvação, onde eu poderia ver Miami só como um triste passado.
Mas mesmo após oito meses, ainda me perguntava se tinha tomado a decisão certa. Logo eu que sempre fui tão destemida em minhas decisões, me sentia um fracasso por ter que admitir que ultimamente, eu estava cometendo erros demais.
E o mais recente desses deslizes estava nesse exato momento dormindo ao meu lado em cima de minha cama.
Sim, definitivamente está envolvida com Edward Cullen era mais um erro a ser contabilizado em meu último ano.
Eu era a chefe dele. Muito mais do que isso, também era a responsável pelo seu aprendizado como pediatra. E mesmo que ele já estivesse no quinto e último ano de residência, de forma alguma eu poderia minimizar a minha culpa ao ter me envolvido com ele. Por Deus, eu preenchia mensalmente relatórios avaliando suas competências e responsabilidades! Eu quem devia instruir se ele estava seguindo a direção certa em um diagnóstico, quem ele confiava quando tinha suas dúvidas e receios. Eu devia ser sua mentora, não um cano de escape para sexo casual.
No entanto, tenho que admitir que mesmo estando errada, isso parecia tão certo.
Tê-lo ali deitado ao meu lado, seu peitoral amplo subindo e descendo no ritmo cadenciado de sua respiração, sua barriga lisa e definida, quase que implorando para que minhas mãos tocassem a musculatura ali. O lençol branco emaranhado em torno de seu quadril, quase revelando a leve penugem acobreada a qual eu tinha tocado até demais nas últimas semanas. Vê-lo assim quase fazia com que eu esquecesse minhas dúvidas e falhas. Edward, com certeza, era o melhor erro que eu poderia cometer.
Não era somente pelo sexo - que por sinal era espetacular - mas ele fez com que eu me sentisse desejada outra vez. Começando com o primeiro flerte inocente no bar a poucos quarteirões de distância do Presbyterian, passando pelo primeiro beijo roubado no almoxarifado hospitalar até a primeira transa há três semanas atrás. Edward fez com que eu me sentisse viva outra vez. Entre quatro paredes, os 12 anos de diferença entre nós pareciam não existir. Ele era como minha fonte da juventude particular: quando estava ao seu lado, era como se eu fosse uma adolescente abobalhada outra vez.
Entretanto eu precisava deixar de ser imprudente e colocar um ponto final nisso tudo. Sem mais erros, Hannah!
Edward tomou uma respiração profunda e aos poucos seus olhos verdes foram se revelando para os meus, fazendo com que meu coração acelerasse rapidamente.
– Caralho, eu já te disse o quanto é estranho te pegar me encarando no meio da madrugada? – ele comentou com um meio sorriso se formando em seus lábios sonolentos.
– Não – sibilei ao mesmo tempo em que acariciava sua barba por fazer. – Me desculpe.
Ele deixou um leve beijo em minha palma antes de se espreguiçar e perguntar – Que horas são?
– Cinco e meia da manhã.
– Merda! – ele praguejou baixinho e apressou em sentar na beirada da cama para calçar suas meias. – Meu plantão começa às seis!
Aproximei-me de suas costas, abraçando-o pelos ombros para logo em seguida mordiscar o lóbulo de sua orelha. – Eu não sabia que você estava de plantão hoje.
– E não estava mesmo, mas troquei com o Hunt porque meu paciente com cranioestenose vai ser operado hoje e eu vou acompanhar a cirurgia.
– Mas você não é cirurgião pediátrico e sim pediatra clínico. – Retruquei, meio que o criticando.
Ele rapidamente se desvencilhou de mim, ficado de pé para abotoar seu jeans. – Eu sei, mas é sempre bom ganhar um pouco mais de conhecimento. – explicou, enquanto apanhava as peças de roupas espalhadas no chão – Além do mais, os pais do bebê estão muito apreensivos, então eu irei tranquiliza-los durante o pré e pós-operatório.
Respirei fundo e afirmei: – Você podia ter me avisado antes. Estava planejando te mostrar uns casos de leucemia linfoide hoje de manhã.
Ele se inclinou sobre a cama e deixou um beijo no canto dos meus lábios – No Presbyterian sempre têm crianças com câncer, Hannah. Isso é coisa para os internos. Mas uma cirurgia de crânio aberto em alguém de cinco meses? Não, eu não vou perder essa chance! Te vejo mais tarde?
– Okay – respondi um tanto que frustrada por ele não ter se dado ao trabalho de perguntar minha opinião e também por não passar o dia ao lado dele como eu planejava.
Observei Edward vestir sua camisa e logo em seguida calçar rapidamente o tênis. Após pegar suas chaves do aparador, ele virou-se para mim e me lançou um olhar bastante lascivo – Não se preocupe, chefe. No hospital eu faço questão de me redimir por não ter perguntado sua opinião antes.
Senti meu baixo ventre se contorcer com sua promessa. – Com certeza eu irei lhe cobrar.
Ele riu já começando a sair do meu quarto. – A gente se vê mais tarde, Hannah.
Joguei-me de volta na cama, suspirando pesadamente, onde pude sentir o resquício de seu perfume no travesseiro. Olhei de relance para a janela e percebi a neve lá fora se intensificar ainda mais e imediatamente estremeci. Sem a presença irradiante dele, o quarto parecia ainda mais gélido e a solidão fazia com que eu refletisse o tamanho da idiotice que era estar transando com um residente.
Por mais sexy e sedutor que Edward fosse e que a nossa química fosse perfeita, não valia a pena arriscar nossas carreiras só por mera atração física. Não valia sermos alvos de fofocas desnecessárias, que colocariam em xeque nossos posicionamentos só porque estávamos envolvidos romanticamente.
Espreguicei-me devagar e decidi não pensar nessas coisas por enquanto. Há pouquíssimo tempo eu tinha flagrado o homem que prometeu me amar para sempre em nossa cama com uma qualquer. Foram meses de dor e sofrimento e eu não iria mais me enveredar por esse caminho. Por ora, talvez fosse melhor ser um pouco inconsequente – coisa a qual nunca tinha sido – e desfrutar do jovem lindo e inteligente que andava frequentando minha cama nas últimas semanas.
(...)
– Dr. Cullen, pode me apresentar o caso, por favor?
– Andy Hashimoto, cinco anos de idade. – Edward disse, lançando um pequeno sorriso para a criança enferma. – Chegou ao hospital apresentando febre de 40,2°, vermelhidão no tronco e na região genital, assim como ressecamento do glóbulo ocular caracterizando uma conjuntivite e boca e língua avermelhadas lembrando um morango.
– Desde quando ele está nessas condições? – questionei, sem deixar de encará-lo.
– Os pais afirmaram que a criança estava assim há aproximadamente uma semana, tomando antitérmicos os quais não fizeram efeito. Ontem começaram as dores nas juntas, erupções cutâneas nas áreas avermelhadas e descamação dos pés e das mãos e diarreia.
Tentei me concentrar na criança adoentada, mas era estranhamente insano ver o quanto aquele homem ficava sexy fazendo seu trabalho. Tive que usar todo meu autocontrole para que ninguém mais percebesse meu estado.
Engolindo em seco, eu perguntei. – E quais medidas foram tomadas até então?
– Foi feita a contagem completa de glóbulos revelando uma anemia normocítica e trombocitose. A proteína C-reativa e a taxa de sedimentação estão elevadas, revelando uma eritrocitose.
Ele falava com muita segurança, o que incrível para alguém que estava no início da carreira. A interna que o acompanhava naquela manhã parecia mal ter tempo de notá-lo, escrevendo furiosamente em suas anotações enquanto uma gota de suor parecia se formar em suas têmporas, De fato, era difícil para qualquer interno acompanhar alguém tão brilhante quanto Edward.
– ... e hoje pela manhã – ele continuou, enquanto bagunçava o cabelo extremamente liso e preto do menino. – fizemos uma punção lombar que mostrou um início de meningite asséptica e o ecocardiograma mostrou uma das artérias coronárias distendidas em 1.5, quando o normal fica entre 0.5 e 0,8.
– E qual seu diagnóstico Dr. Cullen?
– Síndrome de Kawasaki, Dra. Thompson. – Ele afirmou – Vasculite rara que acomete meninos geralmente meninos de origem oriental como o Andy. Já entramos com o tratamento com imunoglobulina via endovenosa e 500g de aspirina via oral a cada seis horas.
– Certo, Dr. Cullen, – eu disse, sem conter meu sorriso na direção dele. – Por favor, peça aos seus internos relatórios a cada 12 horas da evolução do quadro do Andy, sim?
Edward assentiu. – Claro. Agora eu preciso chamar os pais do garotão aqui para explicar o que está acontecendo com o filho deles.
– Não. – Interrompi de imediato. – Preciso que o senhor venha comigo até minha sala para debatermos outros métodos de intervenção nesse garotinho.
O cenho de Edward se franziu intrigado. – Eu fiz algo errado? Na minha leitura sobre esses casos…
– Na minha sala, Dr. Cullen. – Disparei categórica. – A Dra. Davis aqui pode explicar para os pais dele o que está acontecendo, certo?
– Eu? - a garota desajeitada graniu, ficando pálida ao mesmo tempo em que voltava a olhar todas as suas anotações.
– Porra, uma interna falando com os pais? – Edward rebateu parecendo surpreso – Você é louca?
Uma risadinha infantil invadiu o quarto e então, o garotinho mesmo que febril disparou. – O Dr. Cullen disse palavrinha feia!
Suspirei profundamente, notando que apesar do incrível médico que aquele homem era, Edward tinha que aprender a ser menos impulsivo com seu linguajar. – Dra. Davis, diga aos pais do Andy que iremos encontrá-los em vinte minutos. Agora, pode me acompanhar, Dr, Cullen?
Derrotado, Edward assentiu e me seguiu pelos corredores amplos e claros do hospital, contudo, eu não estava mais resistindo sequer esperei chegarmos até minha sala e o arrastei para o primeiro leito que percebi desocupado.
– Hannah, eu não entendo! O que foi que eu fiz de errado q-
Sua frase morreu assim que pus meus lábios sobre os dele, tomando qualquer resquício de fôlego que ele tinha. Minhas mãos se apoiaram em seus ombros, puxando-o para mim, sem querer que sobrasse nenhum espaço entre nossos corpos.
Porém, cedo demais, Edward me afastou. – Que merda é essa, Hannah?
– Eu tinha que te beijar. – disparei, minha mão alisando toda e qualquer parte dele. – Ver você tão sério e preciso me deixou muito excitada!
Tentei puxa-lo para mais um beijo, mas suas mãos fortes me impediram. – E tinha que questionar minhas decisões na frente da minha interna? Tá de sacanagem, né?
– Não. Mas se você quer um pouco de sacanagem... – e com isso, puxei o cós de sua calça, descendo minhas mãos em direção a boxer dele.
Edward me impediu rapidamente para minha total frustração. – Se você quer transar é só dizer, entendeu? Não precisa inventar qualquer merda só para me tirar da sala! Porra, sério que você ia deixar uma garota que mal acabou a faculdade dá o parecer para os pais do menino?
Suas palavras trouxeram um pouco de razão para mim. – Tá, eu fui estúpida, me desculpe, sim? – a expressão dele não mudara em nada. – Foi extremamente errado. Vou tentar me controlar da próxima vez, certo?
– Não é só isso. – ele retrucou, segurando a ponte do nariz. – As pessoas já estão começando a falar sobre nós.
– E qual é o problema disso? – afirmei com convicção. – Nenhum deles paga minhas contas no final do mês!
– Não quero ser conhecido aqui no hospital como alguém que tira vantagem só porque anda transando com a chefe. – Ele afirmou, me encarando seriamente.
Respirei fundo e assenti. – Como você quiser, Edward. Nós podemos lidar com isso. Vamos ser mais discretos, está bem?
Puxei-o para abraça-lo outra vez, no entanto, percebi que ele ainda estava tenso. Pousei minhas mãos em seu rosto, puxando seus olhos em minha direção. – O que foi? Tem alguma outra coisa que você quer falar?
Edward respirou fundo, antes de me encarar e dizer. – Hannah, você sabe que por enquanto eu não quero compromisso, não é? O sexo é do caralho entre nós e você é uma pessoa incrível. Mas eu não quero me comprometer com ninguém.
Senti meu coração se afundar um pouco ao escutá-lo dizer aquilo. Talvez minha reação tenha sido muito óbvia porque imediatamente Edward tentou se explicar. – Olha, eu não estou dizendo nunca, mas por ora eu preciso me formar primeiro. Em pouco mais de seis meses, tenho que fazer uma prova que irá determinar minha carreira. Sem assim, não posso ter ou manter algo mais sério com ninguém, pelo menos por enquanto.
Fiquei observando por um bom tempo seus orbes verdes, que me encararam de volta como se pedisse compreensão. E sim, eu compreendia, afinal, sabia como era árduo o último ano de residência. A questão era, será que eu poderia suportar ser apenas o cano de escape dele? Sem garantias futuras? Ser só sexo?
Edward inclinou sua cabeça e me beijou brevemente, – Eu vou compreender se você não se sentir confortável com isso. Só não vamos deixar de sermos amigos, ok?
– Não. – eu murmurei. – Tudo bem por mim.
– Tem certeza? – ele questionou, um tanto quanto incrédulo.
Dei de ombros. – Claro. A última coisa que uma recém divorciada quer é compromisso com alguém. Só sexo, sem amarras. – e tentando mudar o tom da conversa, eu acrescentei. – A não ser que talvez esse seja algum fetiche seu na cama.
Aquilo surtiu o efeito que eu imaginava e ele riu. – Por mim tudo bem. Eu não sou contra a esse tipo de amarra.
Eu já estava me inclinando em direção aos lábios dele outra vez quando meu nome soou alto no autofalante do hospital. Fiz uma careta e ele deixou um rápido beijo em minha testa. – Vá, eu vou falar com os pais do garotinho com Kawasaki. Aparentemente não há nada de errado com meu parecer, certo?
– Você foi perfeito. - eu retruquei enquanto saiamos do quarto hospitalar. – E uma pequena dica, – disse com um sorriso. – Se você tem certeza, sempre questione. Mesmo que esse alguém seja seu superior.
Ele sorriu, partindo na direção oposta que a minha. – É claro, chefe! Pode ser certeza que irei te confrontar sempre.
E porque eu já estava muito mais apegada a ele do que deveria, me agarrei a força daquela pequena palavra: Sempre. Talvez ele não tivesse noção, mas acho que ali ele deixara escapar que ele sempre iria me querer por perto, mesmo que fosse para questionar pontos de vista. Eu não podia ficar triste ou desesperançada apenas porque ele não desejava por enquanto um relacionamento romântico. Eu já havia estado na pele dele e sabia o quanto era complicado estar no último ano de residência. Para ser sincera, acho que foi exatamente nessa época que minha relação com meu ex-marido começou a desmoronar, justamente por minha falta de tempo para ele.
Não, de forma nenhuma deixaria que Edward passasse por algo parecido. Eu ia lhe dar exatamente o que ele pedia e quem sabe com o tempo, ele mesmo não percebesse que também gostaria de algo mais? Tudo é questão de paciência, exatamente como na Medicina. É preciso avaliar cada pequena coisa antes de avançar para terrenos mais profundos. E se Edward precisava disto para se firmar, eu iria lhe oferecer de bom grado.
Eu só esperava estar tomando a direção certa em relação a isto.
Primavera 2008
– Hannah, acorda!
Pisquei devagar quando as luzes do pequeno quarto de descanso dos médicos foram acesa. Eu estava há quase 30 horas dentro daquele hospital, porém assim que ouvi a voz dele, fiquei alerta. – Edward?
Ele rolou os olhos, – Quem mais seria, gênio? Levanta, eu quero te mostrar uma coisa.
Sentei-me devagar na cama, sentindo uma leve fisgada na lombar com o movimento brusco. Pelo visto, deveria começar a pensar atividade física regular já que estava prestes a fazer quarenta anos. – Qual foi o problema?
Edward veio ficar ao meu lado, mas colocando uma distância relativamente segura entre nós. Infelizmente. – Lembra da garotinha que veio aqui há umas três semanas atrás? Mãe alegando desenvolvimento normal até o sexto mês de vida e de repente, começou a perder o tônus muscular e interesse social?
Suspirei pesadamente – Edward, você tem noção de quantas crianças passam por aqui, né?
– Porra, o pai dela é a cara do Homer Simpson! - ele disparou exasperado. - Você mesma disse isso!
– Você está falando da menina com autismo em potencial?
Nesse momento, ele colocou diversos exames e laudos sobre o meu colo. – Autismo uma porra! Olha só para isso!
Comecei a olhar alguns resultados, e parei assim que vi o teste genético. – Oh… Alteração no MECP2?
– Exatamente! Proteínas reativas pra caralho. Sabe o que isso significa?
Olhei para os outros exames sem acreditar direito: desaceleramento do perímetro cefálico, escoliose progressiva, apneia respiratória… em quinze anos de profissão, eu só tinha me deparado com um caso como este umas duas vezes. – Isso só pode ser...
– Síndrome de Rett, Dra. Thompson! A porra da síndrome de Rett! Eu sou foda, não sou?
Sim, na verdade era bem impressionante. Além de rara – somente uma a cada 23.000 meninas eram acometidas pela má formação genética – essa síndrome era de diagnóstico bem complicado, ainda mais se tratando de bebês com menos de dois anos, como era o caso. Uma diagnose precoce com certeza iria melhorar e muito a qualidade de vida da criança e daria mais tempo para que os pais dela aprendessem a lidar com a situação.
Observei o sorriso orgulhoso dele, os olhos brilhantes e enrugado nos cantos, típicos de quem fez uma grande descoberta, como realmente era o caso. Era impossível não sorrir de volta, mesmo que aquilo significasse uma notícia horrível para uma família.
Levei minha mão até a nuca dele e sussurrei – Estou muito orgulhosa de você, Edward.
– Obrigado, eu acho. – respondeu ele, mais formalmente.
Tentei aproximar nossos lábios, mas antes mesmo que eu pudesse beija-lo, Edward se esquivou fazendo com minha boca atingisse sua bochecha.
– Desculpa. – eu murmurei. – Força do hábito, eu acho.
– Sem problemas. – ele disse com um sorriso, porém seu olhar era constrangido. – Acontece, eu acho.
– Sempre tão cavalheiro. – retruquei com ar de riso, mesmo que meu coração por dentro estivesse esmagado. – Foi só sexo, Edward. Não precisa se preocupar com meus sentimentos.
– Mas eu me preocupo. – ele retrucou, levando as mãos até seus cabelos, onde ficou coçando-os sem jeito. – Você é uma pessoa incrível Hannah e eu não quero estragar nossa amizade.
Há mais ou menos duas semanas, Edward do nada disse que não queria mais continuar transando comigo. Ele não deu nenhuma justificativa plausível para isso, e do nada, afirmou que queria se concentrar mais nos testes que viriam daqui a algumas semanas, Eu estava bancando a indiferente, porém, aquilo estava me corroendo por dentro. A ideia de perde-lo sem nenhum motivo para tanto era quase enlouquecedor
Levantei-me do meu lugar para que ele não percebesse minha expressão, porém as palavras vieram com o tom de desdém que eu pretendia usar. – Todo mundo precisa transar de vez em quando, Edward. Não seja tão puritano.
Senti sua mão em meu ombro e um arrepio se formou em minha espinha com seu toque – Desculpe se eu não consigo ser mais para você, Hannah. Só que eu não sin-…
– Pelo amor de Deus, Edward! – disse ao me virar. Quando foi que você me ouviu dizer que eu queria um relacionamento?
– Hannah, eu sei que você tem sentimentos por mim.
– É claro que eu tenho! – disparei de volta. – Por acaso você conhece alguém que ande transando regularmente com algum inimigo? Se você não consegue lidar com uma amizade com benefícios, eu entendo! Não tem razão para tanto drama!
– Eu só não queria que as coisas ficassem estranhas… Porra, você é minha chefe.
– Lamento dizer que você é o único que está fazendo isso. – afirmei, me dirigindo até um dos armários no canto. – A não ser que você tenha encontrado alguém… Foi isso que aconteceu?
– Não. Eu não estou procurando ninguém, Hannah. – Edward disparou – A única coisa que realmente interessa agora é a maldita prova da residência que farei em três meses.
– Sei… então o que foi aquilo com a enfermeira da oncologia lá no estacionamento alguns dias atrás? - eu sibilei. - Uma nova forma de estudar anatomia?
Ele teve a decência de parecer envergonhado. – Nós só ficamos… Eu não tenho transado com ninguém desde que nós… enfim… acabamos.
Suas palavras me deram esperança. – Qual o problema então?
– Você mesma não gostou quando o Dr. Brown chamou sua atenção por conta do nosso relacionamento. – ele respondeu de pronto.
– É este o problema? Por que se for, existem várias maneiras de contorna-lo.
– Hannah...
– Veja, e se você fosse transferido para a tutela do Dr. Salling? – eu sugeri. – Eu são seria a staff que está diretamente ligada a sua supervisão. Ninguém mais poderia questionar se isso era errado ou não.
Ele negou veementemente – Eu não quero que um velhote que fez medicina duas gerações antes do meu avô seja responsável por minha formação, mesmo que seja somente por três meses. Uma porra que irei manchar meu currículo desse jeito!
– Bem, eu posso sair daqui, você sabe...
Seus olhos verdes se arregalaram exponencialmente. – Do Presbyterian? Caralho, você só pode tá de brincadeira, né?
Dei de ombros – Sabia que já recebi algumas propostas do Hill e do Bellevue? Não é grande coisa…
– E tudo isso só por conta de uma foda ocasional? – ele retrucou, com uma de suas sobrancelhas se arqueando conspiratória.
Não. Eu quis dizer, porém eu tinha que me fazer de indiferente. – Eu não tenho culpa se nossa química é muito boa. Eu adoro transar com você.
Edward rolou os olhos. – Porra, trocar de emprego só pra transar é uma atitude desesperada… Você só pode ser maluca, Thompson.
Dei de ombros e ao me aproximar novamente dele, fiz com que minhas mãos escorregassem sob o capote que ele usava, sentindo na ponta dos meus dedos o abdominal liso dele. – Sexo casual, Edward. – sibilei, deixando um beijo na lateral do pescoço dele. – Eu não te peço nada mais além disso.
Finalmente, senti suas mãos alcançarem em meu quadril, apertando-o com força, – Você realmente pode lidar com isso? – ele insistiu, sua voz mais grave a medida em que eu sentia com a ponta da minha língua o gosto da sua pele. – Você não estava indo muito bem da última vez.
– Como não? – indaguei.
– Você estava cobrando mais de mim do que eu poderia te dar. Eu te disse desde o início que seria um ano complicado.
– Eu não tenho culpa de estar viciada em você. – susssurei, minhas mão nunca parando de viajar ao longo de seu corpo. – Você vai negar? Que não é bom quando estamos juntos?
Observei seu pomo de Adão subir e descer enquanto ele engolia em seco. – Não, eu não vou.
– Viu? Além do mais, se você quiser mesmo passar na residência… – eu falei, enquanto me afastava minimamente para puxar sua farda e expor seu torso aos meus olhos gananciosos – estudos concluíram que sexo aumenta a inteligência e a memória.
– É? – ele retrucou, com suas mãos escorregando em cada lado do meu bumbum para apertar com força.
– Uma boa foda pode aumentar a quantidade de neurônios do hipocampo, portanto quanto mais sexo você fizer, maior será sua chance de ser aprovado.
Finalmente, Edward cedeu e puxou meu rosto com força em direção a sua boca. Minhas mãos cravaram em seus fios acobreados a medida que ele me puxou para o seu colo, me guiando até a porta do quarto para trancá-la e em momento nenhum, minha boca ficou afastada da dele.
Eu me senti poderosa, enquanto Edward apressadamente puxava meu capote e expunha meu colo para os lábios ansiosos dele. Mais uma vez estava agindo por impulso, porém, não sentia nenhum pouco de remorso em meus atos. A verdade é que para estar novamente nos braços daquele homem, eu poderia fazer qualquer coisa, mesmo que nesse processo eu estivesse arriscando o meu coração.
(...)
Uma das coisas mais estranhas de ser plantonista era o fato de nunca termos um dia igual ao outro dentro de uma emergência. Sempre havia um novo caso, uma revisão de tomografia, uma fratura ou uma cirurgia o que fazia com que nossas vidas nunca tivesse uma rotina. Entretanto, havia dias que a calmaria do lugar dava ânsia nos nervos.
Eu estava a horas sem nada muito importante para ser feito. Após fazer as visitas aos meus pacientes internados e ministrar uma aula sobre as principais síndromes da infância, estava bastante entediada. Era incrível que mesmo em uma cidade com quase de oito milhões de habitantes houvessem dias tão monótonos em um hospital.
Bipei Edward, já que aquele seria um momento perfeito para aumentarmos a massa do hipotálamo. Sorri comigo mesma, com a maneira idiota a qual ele havia batizado nossos encontros; de fato, o sexo entre nós parecia cada vez melhor e mais intenso, desde quando resolvemos voltar a nos relacionar a quase três semanas atrás.
E após nossa última conversa, eu tinha que dizer que estava até mais segura. Até a mania que ele tinha de flertar com cada mulher desse hospital parecia ter diminuído significativamente. Não sei se era o fato de ele já ter paquerado cada espécime do sexo feminino aqui do Presbyterian ou isso se devia ao fato de ele está um pouco mais comprometido comigo.
Eu torcia fervorosamente que minha segunda teoria fosse a correta.
Houve uma batida na porta do meu escritório e instintivamente arrumei o cabelo e ajustei melhor a blusa do capote antes de pedir para entrar. Meu sorriso ampliou quando percebi o cabelo bagunçado para todas as direções e as olheiras arroxeadas abaixo de seus amplos olhos verdes.
– Precisando de alguma coisa? – Edward perguntou, à medida em que entrava na minha sala e se atirava pesadamente em uma das poltronas de frente à minha mesa.
– Sim - respondi, indo me sentar em seu colo para logo depois beijar seu maxilar quadrado – De você.
Edward me lançou um sorriso cansado. – Caralho, Hannah! As quatro de ontem não foram suficientes? Eu tô tendo que explicar para todo mundo a razão de ter duas olheiras quando eu tive o dia anterior inteiro de folga.
– Eu nunca me canso de você! - eu sibilei, beijando levemente seu lábio inferior – Quando estou com você eu sempre quero mais.
Edward me deu um casto beijo de volta, antes de dizer – Eu não posso agora, Hannah. – ele levantou um dos braços, me mostrando alguns prontuários que eu sequer o notara segurando. – Estou com um garoto de sete anos, reclamando de dor forte nas têmporas. A tomografia já descartou tumor, sinusite, rinite ou qualquer outra inflamação na cavidade cranial e ainda assim não sei o que pode ser.
Peguei algum dos exames e folheei rapidamente suas anotações – Tem febre ou algum outro sintoma associado?
– Não… porra nenhuma associada. – ele retrucou com um bocejo, a cabeça apoiada no encosto da poltrona e de olhos fechados.
– Você está cansado – afirmei, enquanto minha mão acarinhava a linha do maxilar dele. – Quer passar esse caso para mim? Eu vejo se…
Rapidamente, ele tomou o prontuário de volta. – Não. Meu paciente, meu diagnóstico. Você não vai tomar meu caso só porque não tem nada para fazer aqui, Dra. Thompson.
Eu ri, jogando minhas mãos para o alto como se assumisse minha verdadeira intenção. – Tudo bem, mas você realmente precisa descansar… está parecendo um zumbi solto andando pelo hospital.
– Não. Eu só preciso de um café. – ele retrucou – E aquela merda de cafeteira da sala dos residentes está quebrada de novo.
Levantei-me de seu colo, e puxei sua mão para que ele ficasse de pé. Apressei-me em vestir meu jaleco e disparei. – Vamos, eu te pago um café. Soube que tem uma nova atendente na cafeteria. Vou pedir à novata uma dose extra de açúcar e quem sabe isso não te ajude.
– Quem saiu da cafeteria? – ele indagou a medida em que saiamos da minha sala e partíamos em direção a pequena lanchonete dentro do hospital. – A grávida, a velhinha ou a garota esquisita com jeito de gótica do quinto ano?
– Bem, pelo tamanho da barriga dela na semana passada, eu creio que tenha sido a grávida. – respondi.
– Ela me parece ser uma pessoa legal pra cacete. Tomara que dê tudo certo para ela e para o bebê.
Eu assenti: – Já eu espero que ela volte logo, assim como também desejo que a nova garota saiba a diferença entre um Espresso e um Cappuccino.
Edward rolou seus olhos, que tinham exatamente a mesma cor de seu capote verde. – Você e seus cafés cheios de frescuras.
– Não é frescura, apenas bom gosto.
– Bem, para quem ainda tem mais seis horas de plantão, se a novata me entregar qualquer coisa com cafeína já está de bom tamanho.
Nesse exato momento, o meu bip disparou, arruinando tododo e qualquer plano de passar alguns minutos ao lado dele. – Droga… – eu murmurei enquanto lia rapidamente a mensagem, – Emergência na obstetrícia. Bebê com a nota de Apgar abaixo de cinco.
Ele assentiu. – Tudo bem, eu posso ir sozinho até lá. Nos vemos mais tarde?
Parei em frente ao saguão do elevador e disparei. – É claro, Dr. Cullen. Só garanta que a nova atendente acerte na quantidade de açúcar a qual você está acostumado. Se bem que pelo tamanho das suas olheiras, é capaz de que qualquer coisa que ela te servir, você acabe se apaixonando por ela.
E exatamente como uma criança de cinco anos faria, ele discretamente abaixou uma das mãos e me mostrou o seu dedo do meio. Eu ri e entrei no elevador, sentindo-me alegre como há muito tempo não me sentia. Aquela sensação maravilhosa que quem poderia quase que flutuar. Era assim que eu me sentia outra vez quando estava ao lado de Edward. Estava apaixonada por ele e dessa vez eu lutaria por esse sentimento, e nunca deixaria que nada nem ninguém pudesse apagá-lo.
Continua...
Ganha um doce (e um mini spoiler por direct) quem deixar um comentário!
E aí, gostaram? Odiaram? Querem saber onde foi que eu comprei esse cogumelo que me fez escrever uma capítulo no ponto de vista da Tany... oops.. Hannah? Enfim, qualquer feedback já tá de bom tamanho!
Uma boa semana a todas e até (muito) breve!
