Depois do café da manhã e do almoço, começaram as tarefas de limpeza da fazenda. Kakashi e uma parte dos gennins foram para os currais, enquanto eles ficaram novamente perto do celeiro, organizando pilhas e pilhas de feno.

Ela olhava pra ele e, assim que seus olhos se encontravam, ela desviava.

Desde que acordaram estava naquilo. Todo contato visual que ele tentava era negado. Sasuke enfiou a ferramenta de aragem no meio do feno com mais força do que faria normalmente.

Por que infernos ele havia feito aquilo noite passada?!

- Tá fazendo o maior sol! - Resmungava Naruto, ajeitando a palha seca de qualquer jeito - Tô morrendo de saudade da Hinata-chan, quero ir embora logo! Desse jeito eu quero ver como é que eu vou garantir uns Narutinhos no mundo e....

CAPOW

- Não fale essas coisas, idiota! - Urrou Sakura.

- Aaaaaaaaai..... - Gemeu Naruto de volta, com um galão.

- Vocês dois. - Sai, que ajudava uma gennin particularmente baixinha à recolher seu feno, olhou para eles com uma sombrancelha erguida - Se continuarmos nesse ritmo não vamos terminar nunca.

- Yosh! - Fêz Naruto se esquecendo do galo de repente, juntando as mãos num selo decidido - Kage Bushin no Jutsu!

Imediatamente, uns dez Narutos se projetaram no campo. Eles ergueram os punhos ao mesmo tempo, animadíssimo.

- Assim vai ser mais rápido! - Anunciaram, arregaçando as mangas e começando a catar todo o feno que estivesse ao alcance.

Dois garotos gennins deixaram suas pilhas caírem no chão de tanta admiração. Naruto, pra aumentar ainda mais seu prestígio, tentou uma manobra acrobática com os Kage Bushin e um monte de palha num canto, o que só serviu pra criar mais sujeira ainda.

Sasuke balançou a cabeça reprovador, de olhos fechados e cara amarrada. Nunca, em toda a sua existência, ele estivera de tamanho mau humor.

Sakura encontrou os olhos de Sai e fêz um sinal para que ele se aproximasse. O rapaz chegou perto com um olhar interrogativo.

- Ne, Sai, vamos aproveitar que o Naruto fez todos esses Kage Bushins e deixar ele trabalhar sozinho. Tem uma coisa que eu gostaria de falar com você, pode ser?

-"Oh, esse tipo de pedido foi mencionado no livro! É uma prova da confiança que alguém deposita em você!" - Pensou Sai maravilhado, erguendo as sombrancelhas e acentindo positivamente com a cabeça.

Ele e Sakura se afastaram dos demais, indo em direção às árvores. Sasuke observou atentamente eles se distanciarem, e seu cenho franziu na hora. Trincou os dentes, considerando de verdade a hipótese de ativar o Sharingam e mandar um Amaterasu naqueles dois.

Mas respirou fundo, massageando uma têmpora. Depois daquele infeliz acidente nas termas, Sasuke definitivamente tinha que arranjar uma explicação lógica pra toda aquela obcessão repentina por Sakura, ou enlouqueceria.

Enquanto Naruto e seus clones faziam a maior farra com os gennins no que deveria ser um trabalho decente, o Uchiha decidiu deixar pra lá também. Largou a ferramenta no chão e lançou um último olhar para Sai e Sakura sentados debaixo de um pinheiro antes de saltar para a varanda da fazenda.

Sentou-se, encostando numa lage, e fechou os olhos resoluto à nunca mais se aproximar de Sakura num raio de pelo menos vinte metros.

Enquanto isso, Sai estava visivemente feliz por Sakura ter decidido desabafar alguma coisa com ele. Ao contrário da própria kunoichi, que ainda martelava se a melhor pessoa para ouvir seus chiliques internos era o desenhista complexado.

- Então? - Perguntou Sai, sorrindo - O que você quer conversar?

- Bem... - Começou ela, ainda na dúvida.

- Se eu puder te ajudar de alguma forma, prometo fazê-lo. - Adicionou o moreno sorrindo mais ainda. - Os amigos devem agir assim!

Sakura riu por dentro. Não tinha absolutamente porque ficar receosa. Sai acabava sendo o melhor ouvido de aluguel no fim das contas, já que ele seguia à risca todos os fundamentos básicos necessários à uma boa amizade.

- É sobre o Sasuke-kun. Ontem, quando eu ia limpar as termas, acabei ficando sozinha com ele e...

- Vocês se beijaram?

Sakura arregalou os olhos para ele. como se Sai tivesse anunciado a terceira guerra mundial. Parou pra pensar um pouco e, definitivamente, não fora bem um beijo.

- Não do jeito que você me beijou.

Sai imaginou por um momento quantas formas haveriam de se beijar uma pessoa, afinal de contas. Antes que ele pudesse chegar à qualquer solução absurda, Sakura continuou:

- Ele... - Ela levou a mão ao pescoço, deixando as palavras no ar e encarando o próprio colo. Tocou o lugar onde Sasuke havia colado seus lábios na noite anterior, e onde havia deixado uma pequena mancha vermelha de sucção. Só de lembrar Sakura sentiu um choque interno. Mas ela não poderia, absolutamente, dizer uma coisa dessas ao Sai. - Não, esquece.

- Bem, posso concluir segundo a sua inquietude, como diz no meu livro, que ele fez algo que não é do feitio dele. - Sai cutucou o próprio queixo - Mas não parece que foi algo que tenha te desagradado. Na verdade, você parece confusa, isso sim.

Sai podia ser um mongolóide às vezes, mas em compensação tinha uns chutes muito certeiros.

Sakura passou a vida toda esperando uma investida de Sasuke. Sempre o espreitando, desde criança, rompendo sua amizade com Ino durante anos por causa dele.

Até mesmo agora, depois de ter acontecido tanta coisa e quase tê-lo perdido de vez, continuava uma boba apaixonada sedenta por qualquer afeição do Uchiha.

Mas ser abraçada por ele do nada e de quebra levar um chupão no pescoço havia ultrapassado todas as suas expectativas. Ao invés de ficar radiante, ela se sentia perdida. Fora totalmente inesperado, até porque segundos antes do acontecimento ela o havia derrubado de toalha e tudo na água quente.

Então, porque ele tinha feito aquilo?

- É, eu estou confusa. - Suspirou a garota depois de longos minutos. - Não entendo como funciona a cabeça de vocês...

- A minha funciona muito bem, não sei a dele. - Surpreendeu-se o outro.

- Não, idiota, a cabeça de vocês homens. - Explicou ela, impaciente - Vocês sempre se contradizem. Falam uma coisa, fazem outra, e mesmo depois de agarrarem uma garota indefesa do nada não dizem uma palavra sequer no outro dia!

O queixo de Sai caiu, e Sakura piscou sonsamente, percebendo o que tinha dito.

- Q-Q-Q-Quero dizer, nessa situação o cara deveria dizer alguma coisa né?! NÃO, digo, se isso acontecesse com alguém, claro...

Sai era meio avoado, mas não era burro, e a encarava com aquele sorriso tranquilo enquanto ela se descabelava por uma explicação melhor.

- Não que o Sasuke-kun tenha feito isso e...

- Por que você não está pulando de alegria? - Interrompeu Sai, absurdamente calmo - Você não vivia esperando por isso?

Sakura desistiu de concertar as coisas e parou pra pensar no que ele disse. Novamente, seus pensamentos se voltaram para a cena da noite passada e ela sorriu, triste, abaixando os braços.

- Eu sempre esperei por alguma coisa dele. Mas acho que, no fundo, eu realmente não... Esperava... Que ele fizesse.

Chocada com a própria descoberta, ela não foi capaz de falar nada. Sai se sentiu penalizado, e aplicou sua tática de contato físico entre amigos, enlaçando-a pelo ombro. Dessa vez, Sakura aceitou de bom grado, e encostou-se em seu peito aflita.

- Na verdade eu sempre achei que ele não me notaria. - Sussurrou, mais para si mesma do que para Sai - E ele ter feito algo assim, eu... Eu apenas sonhava com isso.

Sai apoiou o queixo no topo da cabeça de Sakura, observando a copa das árvores e acariciando seus cabelos.

- Olha, feiosa, eu não sei praticamente nada sobre você e o Sasuke. Mas se ele te confunde tanto, você deveria pensar bem antes de deduzir qualquer coisa. - Disse ele - Pense no que é mais importante pra você.

Sakura aprumou-se mais. Sabia que Sai tinha razão, e que não poderia sair por aí berrando felicíssima que Sasuke finalmente caíra em sua teia.

Tinha uma explicação mais plausívei pro que havia acontecido, com certeza.

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Kakashi passou pela varanda da fazenda assoviando, contente por conseguir despistar seus gennins e cair fora de fininho dos currais. Quando passou pela terceira lage da esquina da instalação, deu de cara com uma figura conhecida mais largada do que sentada.

- Jovens não deveriam ficar por aí gastando seus dias. - Kakashi sorriu, cutucando Sasuke com o pé. Este virou-lhe um olhar sem emoção.

- Por que não está trabalhando?

- Digo o mesmo pra você. - Fêz o outro - No meu caso, acredito que é bom que os novos ninjas aprendam à se virar sozinhos.

Sem interesse pelas desculpas esfarrapadas de Kakashi, Sasuke voltou à contemplar o gramada rente à varanda. O sensei, nada incoveniente, encostou-se na lage olhando para o céu azul que fazia.

- Neeee.... Faz muito tempo que não ficamos assim. - Comentou ele - Eu, você, Naruto, Sakura, uma missão tranquila como essas e nada pra nos perturbar.

Apesar de ter fingido que não ouviu, Sasuke sabia que Kakashi estava rememorando o passado negro do time 7 à alguns anos atrás. E também sabia que logo viriam aquelas palavras de repreensão mascaradas, jogando indiretamente em sua cara o quanto sua fuga de Konoha tinha sido estúpida.

Bufando, Sasuke puxou uma Kunai e começou a girá-la com o indicador. Percebendo o ato, Kakashi olhou de esguelha.

- Mas você anda bem inquieto, não é?

Sasuke jogou a kunai no ar e apanhou-a de volta, tornando a executar o movimento giratório.

- Impressão sua.

- Sei, sei. - Kakashi coçou a cabeça - Aconteceu alguma coisa entre você e a Sakura? Agora à pouco vi ela abraçada com o Sai, com uma cara tão abatida quanto a sua.

Ele, abatido?! Não estava abatido bosta nenhuma. Pra falar a verdade, no presente momento estava era muito puto. Kakashi não tinha nada melhor pra fazer? Ler seus livros pornográficos herdados de Jiraya, sei lá?

Sasuke mirou o tronco de uma árvore ali perto e arremessou a kunai, acertando diretamente uma grossa raiz.

- Não tenho nada a ver com a Sakura. Não sei o que ela tem.

Kakashi deu de ombros, fechando os olhos e enfiando as mãos nos bolsos. Recobrou a postura e retomou seu caminho pelo pequeno corredor da varanda.

- Ai, ai, amor de jovens. - Fêz ele, erguendo uma mão em sinal de despedida. - Ja... Então vou avisar ao caseiro que os outros estão quase terminando as tarefas.

Sasuke observou Kakashi se afastar e coçou a nuca, sentindo-se repentinamente cansado. Ficar ali se remoendo a tarde inteira havia consumido suas energias catastroficamente.

Naquela manhã, havia decidido agir com Sakura como se nada tivesse acontecido. Até havia levantado mais disposto, plenamente consciente de que seu surto hormonal da noite anterior não fora absolutamente nada e que agora tudo voltaria ao normal.

Mas já na primeira tentativa do dia de encarar aqueles olhos verdes, sentiu um comichão terrível derivado da presença de Sai por perto. Ele, que sempre se julgara alheio à essas pieguices e melosidades, estava ficando cada vez mais alterado com aquela amizade colorida entre Sakura e o desenhista.

Logo, estava admitindo para si mesmo que sentiu uma certa decepção. Primeiro que, na hora daquele ataque físico nas fontes termais, Sakura não havia retribuído sua iniciativa. Apenas ficara lá, parada, tremendo. E ainda por cima saíra correndo dele. E pra completar sequer o encarava nos olhos agora.

Segundo a inconsciente prepotência de Uchiha Sasuke no quesito garotas, Sakura deveria ter derretido de emoção, abraçado-o compulsivamente, prometendo amor eterno e sete filhos. Mas não, ela saíra correndo.

- Merda. - Murmurrou consigo mesmo, deixando a cabeça tombar para trás sobre a lage.

Será que aquilo era um castigo divino por ter feito Sakura sofrer tanto? Claro que na época ele não acreditava que ela realmente sofresse, porque essas baboseiras amorosas pareciam uma grande idiotice perto de sua vingança, que acabou saindo pela culatra, por sinal.

E agora ele estava ali, vítima de seus instintos animalescos, morto de ciúmes e de ódio de si mesmo. E sem a menor idéia do que fazer.

- TEME!

Uma cabeça loira se projetou na sua frente, e Sasuke teria enfiado um soco em Naruto se ele não se afastasse logo, com um sorriso besta e as mãos atrás da cabeça, encostando na lage da frente.

- Primeiro o Kakashi, agora você? - Bufou Sasuke, pendendo a cabeça para o lado aborrecido - Tiraram a tarde pra me encher o saco?

- Nossa, mas você tá insuportável esses dias. - Naruto torceu o bico - Eu só vim aqui porque os meus kage bushins tão terminando o trabalho com o feno e os gennins e a Sakura-chan tá toda entretida com o Sai...

À menção daquele nome, uma pequena veia dilatou na testa de Sasuke.

- Parece até que eles estão tendo um caso ou coisa parecida... Caramba, Sasuke, será que você tinha razão?!

A veia foi aumentando.

- Éca, mas não gosto de pensar muito nisso, imagina só a Sakura-chan e ele juntos...

Sasuke pigarreou. Naruto afilou os olhos.

- Hmmmm... Acho que tô sacando porque você anda tão puto.

Sasuke piscou. Manteve a expressão completamente neutra, mas sentiu uma breve falha em seu cérebro.

- Você... Sai... Sakura-chan... - Naruto enumerou as coisas nos dedos, e em seguida ergueu um olhar sombrio - Sasuke, você quer os pergaminhos do Sai e a força bruta da Sakura-chan, não é?! Isso tudo é inveja, Sasuke?!?

Sasuke deu de cara no chão, abismado e ao mesmo tempo aliviado com a retardadice de Naruto. Respirou profundamente. Claro que jamais ninguém pensaria que o negócio não era inveja e sim ciúmes.

Era mais fácil acreditar que Sasuke estava almejando cabelos rosas ao invés de estar enciumado.

- Cala a boca, dobe. - Grunhiu o Uchiha - Eu só estou entediado. Essa missão é uma grande inutilidade.

- Você fala assim mas eu duvido que ficaria em Konoha deixando a Sakura-chan sozinha com o Sai. - Naruto abriu um sorriso malvado, fazendo Sasuke arregalar os olhos - Você não acha que eu sou tão burro assim, não é, teme? Eu estava brincando. Tá muito óbvio que finalmente você tá caidinho pela Sakura-chan.

Sasuke riu do comentário, mostrando todo o cinismo que conseguiu reunir.

- Naruto, na verdade você é burro sim. E acabou de comprovar.

- Ein?!

Naruto ergueu o punho, indignado, mas não fêz menção de acertar Sasuke. Na verdade, pareceu desistir da idéia e se concentrou em relaxar com as costas na lage, convencido da própria teoria.

- Ne, você deveria fazer alguma coisa então. - Disse o loiro distraidamente - Se não, daqui à pouco nós vamos ser padrinhos do casamento deles, sei lá. A Sakura-chan não vai ficar te esperando a vida toda...

O Uchiha ainda pensou em bater boca, mas as palavras de Naruto o incomodaram de tal forma que ele assimilou o conselho. E, além do que, se dissesse mais alguma coisa ia parecer que estava insistindo no assunto e queria deixar bem claro que não estava nem aí pra Sakura.

-"Quando se repete muitas vezes determinada coisa, acaba virando verdade." - Pensou ele irritado, voltando à franzir o cenho e descansar a cabeça pra trás.

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Eram dez horas da noite. Sakura acordou sonoleta, afastando os lençóis e olhando ao redor. As meninas gennins dormiam profundamente, e a noite vista através da porta da varanda estava cheia de estrelas.

Sakura ficara o dia inteiro se lamuriando com Sai, e agora se sentia um caco. Pensara coisas demais e desgastara toda a sua sanidade. Não via Sasuke desde o começo da tarde e algo lhe dizia que era sua culpa.

Inquieta e sem sono, ela levantou-se procurando não fazer barulho.

Ajeitou o roupão fino e branco que usava, certificando-se de que todas as meninas estavam bem agasalhadas. Fazia muito frio. Ela dirigiu-se até a porta e abriu com cuidado, passando por ela e fechando atrás de si.

Estava uma noite muito calma. Só o céu escuro pontilhado de estrelas e o leve vento que passava pela madeira corrida.

Ela decidiu andar um pouco para anuviar e se distrair. Andando pelo corredor da varanda, de relance viu a janela do quarto dos garotos aberta, relevando um amontoado de gennins, um Naruto babão, um Sai que dormia encostado na parede com um caderno aberto no colo e um Kakashi com o Icha Icha enterrado na cara.

Sentiu seus pés descalços e seus braços protestarem com o frio, e abraçou-se sorrindo, sentindo a ponta do nariz e as maçãs do rosto avermelharem. Sentir frio não era tão ruim quando a noite estava tão bonita.

Mas ela parou bruscamente assim que ia virar a esquina da varanda. Congelada, seus olhos apenas ficaram arregalados, encarando o rapaz sentado encostado na lage.

Foi só sentir aquele cheiro de rosas que ele abriu os olhos. Olhou para o lado um pouco zonzo e a imagem à sua frente demorou à se formar. Quando recobrou a lucidez, Sasuke também não conseguiu dizer nada.

Seu rosto ficou sério e frio, mas seus olhos admiravam aquele rostinho corado com os cabelos mal-presos com uma voracidade animalesca. O que ela estava fazendo ali? Era pra provocá-lo, não é? Tinha que ser.

- Hunf. Volte pra cama, Sakura.

E tornou a apoiar a cabeça. Teve que fechar de novo os olhos pra se manter lúcido. Mas para sua infelicidade(ou não), Sakura não retrocedeu. Simplesmente se aproximou mais ainda e sentou-se na frente dele, no lugar ocupado anteriormente por Naruto naquele fim de tarde.

- Ne, Sasuke-kun, você ficou aqui o dia inteiro. - Disse ela baixinho, abraçando as próprias pernas e encarando-o furtivamente por cima dos joelhos - Eu estou sem sono. Quem deveria ir dormir é você, além do que está muito frio aqui.

Realmente, ele não tinha levantado dali pra nada. Estava buscando uma fuga desesperada de seus mais recentes sentimentos, e naquele momento Sakura não estava ajudando.

Sentiu uma raiva intensa.

- Você não precisa se preocupar. Vá dormir, amanhã voltaremos pra Konoha cedo.

Sakura olhou para os próprios pés e em seguida pra ele. Como Sasuke conseguia ser daquele jeito? Será que realmente não dava a mínima pro que tinha feito noite passada?

Ela juntou todas as forças que tinha.

- Sasuke-kun... Ontem...

- Ah, aquilo. - Ele interrompeu, sem mover um músculo - Desculpe. Foi só um reflexo. Você deveria saber como reagir melhor àquele tipo de situação, se eu fôsse seu inimigo por acaso continuaria ali parada, que nem uma tonta?

E foi como se uma espada invisível transpassasse seu coração. Ela apertou mais ainda as próprias pernas, afundando o rosto entre elas para que ele não visse quando as lágrimas vieram à tona.

Ele percebeu, lógico que percebeu. E uma parte dele gritava pra abraçá-la e dizer que era mentira, que estava louco por ela. Mas a outra parte tinha o peito esfufado, cheio de orgulho por dar um basta naquele desconforto.

- H-Hai... Você tem razão...

Ela levou algum tempo até levantar o rosto de novo. Sasuke havia aberto os olhos e, para sua surpresa, a menina tinha um sorrisinho no rosto.

Era um sorriso estranho, meio triste e meio alegre. Um sorriso de conformação. Tinha os olhinhos fechados, igualmente sorridentes. Suas maçãs estavam enrubescidas e seu cabelo se bagunçara com a brisa da noite. As pontas se suas pestanas estavam molhadas.

- Eu tenho que ser mais cuidadosa, né? Eu sou uma kunoichi, afinal. Se outra pessoa tivesse feito aquilo comigo eu provavelmente teria ficado parada também. Gomen, Sasuke-kun, acho que eu confundi as coisas. - Ela engasgou um momento, soluçando de leve - Pensei que... Não, esquece. Eu estou me esforçando pra não ser mais um peso pra você, mas parece que mesmo agora você vê coisas pra me criticar. Eu prometo que vou deixar de ser assim, eu...

Novamente ela interrompeu a fala embolada. Enxugou uma lágrima que descia por sua bochecha com a palma da mão delicadamente, soltando um risinho choroso.

- Nossa, entrou um cisco no meu olho e...

Ela não terminou a frase. Ela foi jogada pra trás e sua cabeça quicou de leve no encosto, comprimida contra a armação de madeira. A mão de Sasuke ao lado de seu rosto estava apoiada na lage atrás de sua cabeça. O Uchiha tinha um dos joelhos dobrados ao lado de suas pernas e o outro pé apoiado no chão.

Ele tinha os olhos fechados, o cenho franzido e a cabeça baixa. Sakura não conseguia se mover, atônita. Tinha todo o corpo jogado contra aquela lage, e seu coração batia rápido por aquela abordagem inesperada. O rosto dele, à centímetros do seu, estava compenetrado e sério.

- Pare de falar tanta bobagem, Sakura. - Sasuke abriu os olhos, e sua voz sôou firme - Você continua irritante como sempre.

Ela sentiu o coração falhar, sem entender direito o que ele queria dizer. Sasuke percorreu os olhos por seu rosto, baixou para o pescoço e se deteve na pequena marca vermelha ali escondida.

No impulso, Sakura levou à mão ao local, cobrindo-o. Olhou para o canto, sem graça, sabendo que seu rosto estava ficando mais vermelho ainda.

Por que ele sempre a surpreendia assim? Por que fazia questão de arrebatá-la como um rio?

Sem mostrar qualquer expressão, Sasuke tirou delicadamente a mão dela de cima do local avermelhado. Ainda imóvel, a garota apenas o olhou interrogativa. Mas não pôde encará-lo por muito tempo, porque o Uchiha adiantou-se calmamente e, novamente, colou os lábios em seu pescoço.

No mesmo lugar.

Foi um choque térmico instantâneo. Sua pele estava gelada pelo frio da noite, e aquele contato quente, macio e molhado a fez sentir o mesmo arrepio imediato que sentira nas termas.

Ficaram assim por vários minutos. Ela ficou quieta com um olhar perdido, semi-cerrado. Tinha as bochechas ainda avermelhadas, sentindo o contato dos cabelos negros do rapaz roçando no lado de seu rosto. Apenas deixou a cabeça pender e se encaixou completamente entre a curvatura dos ombros fortes do Uchiha. Ele sentia a língua dele, a respiração, os arrepios intensos.

E se sentia impotente, fraca e estúpida.

Dessa vez, Sakura não tremia, e Sasuke percebeu. Novamente ele não conseguia pensar direito. Estava ali, sentindo o gosto daquela pele tão lisa e fria, embriagado com o cheiro que ela emanava.

Sentiu as mãos dela pousarem em sua cintura. Esperava qualquer coisa, menos o que aconteceu depois.

Ela cravou as unhas nas vestes dele e o empurrou com força. O rapaz não teve sequer tempo de piscar ou se ajeitar, porque levou um colossal tapa na cara.

Foi o maior silêncio da vida do Uchiha. Ele voltou o rosto para ela lentamente, atônito, levando a mão ao local atingido.

- Mas o q....

- Se você fôsse meu inimigo, eu faria algo assim. - Sakura levantou-se calmamente, ainda com a mão estendida. - Boa noite, Sasuke-kun.

Totalmente perplexo, ele viu a menina tomar o caminho do corredor de volta para o quarto, mas foi como se seu cérebro fôsse tragado pelas trevas e tudo o que ele podia pensar era numa coisa.

Ela não iria. E se levantou.

Sakura sentiu seu pulso ser segurado com firmeza e virou-se indagativa. Sem tempo de reagir, apenas se sentiu ser jogada contra a parede da varanda e ter o pescoço novamente tomado por aqueles lábios vorazes. Chocada, tentou desvelhiciar-se, mas seus pulsos estavam esmagados contra as mãos do rapaz, presos na parede.

Pensou em chutá-lo, gritar, qualquer coisa. Mas era como se ele adivinhasse tudo, porque elimitou completamente a distância entre seus corpos. A perna dele entrou no meio das suas, abrindo levemente o roupão da garota. A parte que cobria-lhe o ombro também tombou, deixando o colo de seus seios meio à mostra.

Sakura se sentiu sem forças. Ela não conseguia reprimí-lo, ele estava eliminando completamente sua motivação.

Com os olhos muito apertados, totalmente imóvel, ela apenas sentiu outra lágrima descer-lhe o rosto.

Sasuke sentiu sua orelha molhar.

E seu cérebro saiu das profundesas negras. Ele voltou à si completamente chocado com a própria atitude. Ainda digerindo a situação, ele afastou-se devagar, encarando-a nos olhos.

Sakura tinha a cabeça baixa. Ele largou-a completamente, dando um passo pra trás.

- Está vendo? Se você batesse no seu inimigo, provavelmente ele faria isso.

E falou sem a menor emoção. No fundo, ele achava isso mesmo. Estava cego de raiva. Porque ela não correspondia? Porque não o abraçava, não soltava um suspiro? Apenas com Sai ela tinha estabelecido uma ligação emocional? Porque com aquele idiota ela sorria, e com ele ela só chorava?

- Gomen. Mas... - Ela ergueu a cabeça. Ainda havia a marca da lágrima, mas seu rosto estava duro como uma pedra - é que eu odeio o fato de amar tanto você, Sasuke-kun, porque não tem nada nesse mundo que me aproxime de você.

Seus olhos perderam a expressão neutra, e ele não pôde evitar que eles se arregalassem ao ver o punho da menina se fechar.

- Não tenho significado algum e isso é muito doloroso. Você apenas ri por dentro, mas você não sabe como é péssimo esse tipo de provação. Vou deixar de te amar agora mesmo, baka!

E ela simplesmente se virou e saiu correndo. E ele simplesmente apoiou-se com o braço na parede. Sentiu a cabeça pender pra baixo e o suór escorrer pela testa. Socou a madeira com força, e soltou um palavrão.

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Gente, eu já tinha escrito esse capítulo junto com o terceiro então estou me livrando logo do peso! Muito obrigada por todas as reviews, eu só estou continuando a fic por causa delas! Leio todas com a maior felicidade, fico pulando aqui!

Então até o próximo!!!